Como
a corrupção potencializou a tragédia na Venezuela
Os
números oficiais ainda não refletem toda a dimensão da tragédia provocada pelo
duplo terremoto que atingiu a Venezuela em 24 de junho. No entanto, já é
evidente que a capacidade do Estado venezuelano está muito aquém das
consequências daqueles 120 segundos de atividade sísmica.
Até
agora, o balanço do governo reconhece 3.899 mortos e 16.740
feridos,
números ainda preliminares diante das projeções de agências internacionais e de
plataformas de monitoramento cidadão.
Serviço
Geológico dos Estados Unidos estimou que o número de mortos pode passar de 10
mil. Uma plataforma local organizada por civis registra 33.388 pessoas sem
contato. Já a ONG Comitê Internacional de Resgate calculou que o número de
desaparecidos pode se aproximar de 50 mil pessoas, cifra considerada plausível
pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários.
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Emergência habitacional
O estado de La Guaira, o mais afetado
pelos tremores, vive uma "emergência habitacional de grande escala" e
subnotificada, de acordo com a consultoria ANOVA Policy Research. Um estudo
georreferenciado mostrou que há cerca de 73.500 pessoas vivendo em estruturas
danificadas. Desse total, 37.611 residem em edificações gravemente
comprometidas ou totalmente destruídas. Na contagem oficial, contudo,
há 17.907 pessoas desabrigadas nessa faixa costeira.
A
Organização Internacional para as Migrações (OIM), da ONU, estima que até 6,8
milhões de pessoas poderão precisar de abrigo, água, saneamento, atendimento médico
ou outro tipo de assistência.
Tudo
indica que os números oficiais disponíveis até o momento sobre danos materiais
também estejam subdimensionados. Segundo o relatório do governo, foram
contabilizados 856 edifícios afetados e 190 desabados.
Entretanto,
análises de satélite da Nasa sugerem que aproximadamente 58 mil estruturas
podem ter sido danificadas nas áreas atingidas pelo terremoto. Já o estudo
georreferenciado da ANOVA calcula que, somente no litoral de La Guaira, 2.654
estruturas residenciais ficaram gravemente comprometidas ou foram destruídas.
Os
custos econômicos da tragédia ainda são difíceis de quantificar com precisão,
mas as estimativas já superam amplamente a capacidade atual do país. O
Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres estima os
prejuízos em 37 bilhões de dólares (cerca de R$ 189 bilhões): 24 bilhões de
dólares em edificações e outros 13 bilhões em infraestrutura. O montante
equivale a 43% do Produto Interno Bruto (PIB) venezuelano.
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Um país suscetível a desastres e crises humanitárias
A
enorme dimensão humana e material da tragédia venezuelana não pode ser
explicada apenas pela intensidade dos dois terremotos que atingiram o país. Desde a década de
1990, a comunidade internacional deixou de compreender os desastres naturais
como simples fatalidades e passou a analisá-los como resultado de uma equação
mais complexa: o grau da ameaça física, a vulnerabilidade social e a capacidade
de resposta a desastres.
Com
base nessa lógica, a União Europeia e o Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) implementaram o índice de risco
INFORM. O indicador avalia, em 191 países, o risco de ocorrência de crises
humanitárias e desastres capazes de superar a capacidade nacional de resposta.
A
edição mais recente do Índice INFORM, publicada em 31 de março de 2026,
classifica a Venezuela na categoria de "alto risco", atribuindo ao
país uma pontuação geral de 5,9 em uma escala de 0 a 10, na qual valores mais
altos indicam piores indicadores. Esse resultado coloca a Venezuela como o
segundo país mais vulnerável da América Latina e do Caribe, atrás apenas do
Haiti, e o 28º no mundo em exposição a crises humanitárias e desastres.
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Alertas ignorados
Além da
exposição a catástrofes naturais decorrente de sua localização geográfica, o elevado grau de
vulnerabilidade da Venezuela se deve, em boa parte, à baixíssima capacidade do
Estado para prevenir, responder e se recuperar desse tipo de evento.
Desde o
início do século 21, especialistas e organismos nacionais e internacionais vêm
alertando para a necessidade urgente de desenvolver um sistema estatal robusto
de gestão de emergências e desastres de grande porte. No entanto, esses alertas
foram sistematicamente ignorados.
Após
o deslizamento de terras de 1999 que afetou
Caracas e o Litoral Central, o governo venezuelano solicitou à Agência de
Cooperação Internacional do Japão (Jica) um estudo para enfrentar a
vulnerabilidade da capital a ameaças naturais.
Em
março de 2005 foi apresentado oficialmente o resultado deste estudo, no qual
ficava claro que a magnitude das consequências de um futuro desastre natural
dependeria, em grande medida, das decisões que o Estado adotasse a partir
daquele momento para reduzir a vulnerabilidade da cidade.
Entre
as principais recomendações do relatório estavam a implementação de um Sistema
de Alerta Precoce e Evacuação e a criação de um Centro de Comando de Emergência
como sede centralizada para a coordenação da Defesa Civil, o que nunca ocorreu.
Em
2016, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) apresentou um relatório
que mostrou que existia no país uma "defasagem considerável" entre o
que estava previsto no marco legal – a Lei de Proteção Civil (2001) e a Lei de
Gestão Integral de Riscos (2009) – e sua implementação efetiva. Em outras
palavras, as normas evoluíram, mas nada foi feito para adequar as cidades a
elas.
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Estado cada vez menos preparado
A
situação se agravou ao longo do tempo. Não houve apenas o abandono de um plano
de enfrentamento de desastres, mas também a deterioração do que havia sido
construído em períodos anteriores.
Dados
do índice INFORM mostram que, entre 2015 e 2026, a pontuação da Venezuela no
componente que mede a falta de capacidade de resposta do país diante de grandes
desastres piorou significativamente, passando de 5,5 em 2015 para 7,0 em 2026.
Para compreender essa deterioração, é necessário analisar as duas dimensões
utilizadas pelo INFORM para calcular a capacidade de resposta dos países:
infraestrutura e institucionalidade.
A
dimensão de infraestrutura, que mede a capacidade de resposta e recuperação,
incluindo redes de comunicação, infraestrutura física e acesso ao sistema de
saúde, já apresentava deficiências importantes em 2015 e praticamente não se
alterou no período analisado. Sua pontuação passou de 4,1 para 4,4 entre 2015 e
2026, com sinais especialmente críticos no acesso à assistência médica.
Já a
dimensão institucional, que avalia a efetividade governamental, a percepção de
corrupção, a solidez da administração pública, a qualidade dos serviços
públicos, a preparação e os sistemas de alerta precoce para redução do risco de
desastres, sofreu forte deterioração, passando de 6,5 em 2015 para 8,6 em 2026.
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O fator corrupção
Uma
análise detalhada dessa pontuação revela que um dos fatores que mais
contribuíram para o colapso quase total da capacidade institucional da
Venezuela de responder a emergências foi a persistente e altíssima corrupção governamental
ao longo de todo o período avaliado pelo INFORM (2015-2026).
A
corrupção no setor público atravessa toda a capacidade de resposta do país.
Recursos destinados à prevenção de desastres são desviados, normas de
construção antissísmica não são aplicadas, equipamentos de resgate deixam de
ser adquiridos por causa de desvios de verba, a infraestrutura permanece sem
manutenção, hospitais não recebem os insumos necessários, entre outros
problemas.
Na
mesma linha, um estudo elaborado em 2011 por Nicholas Ambraseys e Roger Bilham
(dois dos sismólogos mais influentes do mundo) aponta que 83% das mortes
causadas pelo desabamento de edifícios em terremotos ocorrem em países com
níveis muito elevados de corrupção.
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Resposta deficiente após o desastre
Quando
o duplo terremoto atingiu a Venezuela, o desastre superou amplamente a
capacidade do país de enfrentá-lo. Foi o que relataram meios de comunicação
nacionais e internacionais, além dos inúmeros depoimentos e imagens que
circularam nas redes sociais.
A
resposta tardia das autoridades, a falta de coordenação, as falhas de
comunicação, a escassez de equipamentos das equipes de resgate, a inoperância
das Forças Armadas e os obstáculos à entrada de ajuda internacional, entre
outros problemas, não foram falhas pontuais dos primeiros dias da emergência,
mas o resultado de um longo processo de atraso e enfraquecimento das
capacidades estatais, como o índice de risco INFORM vem apontando.
A
resposta imediata ao desastre foi o primeiro teste. A grande questão que
permanece é como será possível enfrentar o desafio da reconstrução sob as
mesmas autoridades cuja gestão produziu o colapso institucional que ampliou a
tragédia.
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Venezuela cria 'Rota da Esperança' para ajudar população
Durante
uma visita ao Acampamento de Transição César Rengifo, localizado no coração de
Caracas, o ministro do Poder Popular para a Cultura, Raúl Cazal, concedeu uma
entrevista exclusiva à Sputnik.
Entre
barracas que servem atualmente como lares temporários e murais recém-pintados
por voluntários, Cazal explicou a estratégia do governo bolivariano para cuidar
— atendendo tanto à alma quanto à cultura — das famílias afetadas
pelos terremotos de 24 de junho. O princípio norteador é claro: enquanto
as moradias permanentes
são reconstruídas, há
uma necessidade urgente de reconstruir o ânimo das crianças que perderam tudo.
Duas
semanas após o duplo terremoto que abalou a Venezuela — atingindo La Guaira (ao
norte) com particular severidade, mas também causando danos significativos em
Caracas, Miranda, Aragua, Yaracuy, Falcón e Carabobo —, os recursos estatais
permanecem mobilizados em duas frentes: ajuda material
imediata e apoio
psicossocial.
A
visita de Cazal ao acampamento — um espaço batizado em homenagem ao distinto
dramaturgo e pintor venezuelano, símbolo de uma arte comprometida com o povo
— concentra-se precisamente neste segundo pilar.
"Temos
instruções muito precisas da nossa presidente interina, Delcy Rodríguez. Ela
nos instruiu a trabalhar lado a lado com o nosso povo e a oferecer todo o apoio
possível para que possam levar uma vida digna nestes acampamentos de transição.
Enquanto trabalhamos para garantir lares estáveis para as crianças
e famílias, continuaremos a apoiar toda a nossa população."
O
conceito de "vida digna" é o princípio norteador desta
intervenção. Não se trata apenas de abrigo e alimentação, mas sim de
uma abordagem holística na qual o lazer e a expressão artística são
considerados tão vitais quanto uma refeição quente.
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Uma terapia coletiva
Ao
detalhar o principal programa do Ministério para esta situação — a Rota da
Esperança —, Cazal explicou que se trata de uma iniciativa
interinstitucional aprovada diretamente pela Presidência. Não é um esforço
isolado do Ministério da Cultura. Funciona como um eixo central que conecta os
ministérios do Esporte e da Juventude, bem como governos municipais e
estaduais, em uma linha de ação unificada.
"Ao
nos organizarmos em conjunto, conseguimos oferecer imediatamente atividades
recreativas, culturais e esportivas nos acampamentos provisórios para cuidar de
nossos jovens e das crianças que foram tão profundamente afetadas."
Para o
ministro, o poder do riso atuou como um bálsamo inesperado para o trauma
geológico e emocional.
"Os
sorrisos serviram como uma terapia extraordinária para curar as rachaduras que
se formaram em nossas almas e em nosso próprio ser — indo além das estruturas
físicas", refletiu ele, traçando uma metáfora direta entre os prédios
rachados e a psique das crianças, fraturada pela violenta convulsão da terra.
A
programação do projeto é tão diversa quanto a própria cultura
local: montam-se telas de cinema ao ar livre, organizam-se rodas de
leitura, pintam-se mandalas coletivas e realizam-se atividades
lúdicas — tudo com o objetivo, nas palavras do ministro, de "nos
acalmar e fomentar a esperança". Trata-se de um enorme esforço voluntário
que dedicou sua energia — tanto nas telas quanto no terreno — a
disseminar "alegria e entusiasmo".
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'Recursos bloqueados devem retornar para reconstruir a
Venezuela', afirma autoridade de Caracas
Durante
uma visita ao acampamento provisório "César Rengifo" — montado para
abrigar famílias afetadas pelos terremotos de 24 de junho —, Ricardo Menéndez,
vice-presidente setorial de planejamento, respondeu a uma pergunta direta da
Sputnik.
Acompanhado
pelo Ministro da Cultura, Raúl Cazal, Menéndez — que também é geógrafo e
doutor em planejamento urbano — apelou à comunidade
internacional para
que liberasse os ativos venezuelanos retidos no exterior. Ele também
compartilhou sua perspectiva sobre as lições que esses fenômenos naturais
oferecem para o futuro urbano da nação sul-americana.
Ao ser
questionado sobre perdas econômicas, custos de reconstrução e a origem dos
recursos, Menéndez não se limitou a uma resposta técnica. Ele reforçou o apelo
feito pela presidente interina, Delcy Rodríguez, exigindo o fim
imediato das sanções e do bloqueio econômico.
"Há
recursos venezuelanos retidos no sistema financeiro e econômico internacional
que precisam vir. São recursos do povo venezuelano."
O
vice-presidente setorial observou que essa escassez não é novidade. Ele apontou
que o estrangulamento econômico tem sido uma constante desde a pandemia de
COVID-19 e ao longo dos últimos anos, mas enfatizou que, no atual
contexto de tragédia, a retenção de capital é injustificável.
"Eles
eram necessários durante a pandemia, mas, neste momento, evidentemente não há
desculpa para que esses recursos não retornem. Todo o povo venezuelano se une
ao apelo por sua liberação, para que possam ser usados na proteção
de nossa população e no apoio à nossa estrutura de
desenvolvimento."
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Planejar com a natureza, não contra ela
Como
geógrafo e planejador, Menéndez detalhou as lições aprendidas em relação às
políticas públicas. Ele explicou que a tragédia suscita uma reflexão mais
ampla sobre a localização dos grandes centros populacionais. Quanto à situação
na Venezuela, ele alertou para a vulnerabilidade dos 40% da população que
vivem ao longo da faixa costeira entre Caracas e Puerto Cabello (no
norte).
A
análise técnica do ministro concentrou-se na perigosa combinação de
fatores que amplificou o impacto sísmico em áreas específicas, como Los Palos
Grandes ou o sistema de leques aluviais de La Guaira (no norte).
Menéndez
explicou que muitas áreas urbanas foram estabelecidas sobre leques aluviais
caracterizados por uma mecânica de solo complexa — composta por
matrizes de granulação fina e grandes blocos rochosos — que amplificam as ondas
sísmicas. A essa situação soma-se a presença de um sistema de falhas tectônicas ativas na cadeia de
montanhas El Ávila.
"Se
existe um sistema que envolve falhas — implicando risco tectônico — e que
também está situado sobre esses depósitos de detritos torrenciais, o impacto em
termos de ondas sísmicas é, claramente, de uma ordem de magnitude muito
maior."
Diante
dessa realidade, Menéndez revelou que as diretrizes da Presidência apontam para
uma mudança radical na dinâmica do planejamento do uso do solo.
"Devemos
projetar com a natureza, e não projetar com o objetivo de dominar a
natureza", declarou. Ele criticou a abordagem tradicional de canalizar
cursos d'água em galerias subterrâneas ou tentar controlar variáveis naturais sem conviver
com elas — um paradigma que, segundo ele, o "Plano de
Desenvolvimento da Pátria" já busca superar.
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A urgência da vida e da humanidade
Além
das projeções futuras, Menéndez enfatizou a responsabilidade imediata para com
as vítimas. Ele ressaltou que a prioridade atual é o resgate e o cuidado
com as pessoas. O ministro conclamou o mundo a compreender a verdadeira
dimensão da tragédia:
"Pensem
no efeito devastador de um terremoto. Agora, pensem no efeito devastador de
dois terremotos separados por apenas 39 segundos."
Ele
explicou que as operações de remoção de escombros estão sendo realizadas
com o máximo cuidado — inclusive reduzindo a velocidade do maquinário
pesado — com o objetivo de recuperar corpos e permitir que as famílias
recebam de volta seus entes queridos, como um gesto de
consideração psicológica e humana. "Vamos fazer isso, porque se trata
de cuidar da nossa população", afirmou.
Por
fim, o vice-presidente setorial dirigiu uma pergunta retórica direta aos atores
internacionais que detêm ativos venezuelanos:
"Se
vocês têm recursos depositados em contas internacionais, se têm ouro em outros
países ao redor do mundo, esses recursos não deveriam estar disponíveis para a
reconstrução de um país? Pensem se esse não seria um gesto humanitário sob uma
perspectiva global."
Fonte:
DW Brasil/Sputnik Brasil

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