segunda-feira, 13 de julho de 2026

Como a corrupção potencializou a tragédia na Venezuela

Os números oficiais ainda não refletem toda a dimensão da tragédia provocada pelo duplo terremoto que atingiu a Venezuela em 24 de junho. No entanto, já é evidente que a capacidade do Estado venezuelano está muito aquém das consequências daqueles 120 segundos de atividade sísmica.

Até agora, o balanço do governo reconhece 3.899 mortos e 16.740 feridos, números ainda preliminares diante das projeções de agências internacionais e de plataformas de monitoramento cidadão.

 Serviço Geológico dos Estados Unidos estimou que o número de mortos pode passar de 10 mil. Uma plataforma local organizada por civis registra 33.388 pessoas sem contato. Já a ONG Comitê Internacional de Resgate calculou que o número de desaparecidos pode se aproximar de 50 mil pessoas, cifra considerada plausível pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários.

<><> Emergência habitacional

O estado de La Guaira, o mais afetado pelos tremores, vive uma "emergência habitacional de grande escala" e subnotificada, de acordo com a consultoria ANOVA Policy Research. Um estudo georreferenciado mostrou que há cerca de 73.500 pessoas vivendo em estruturas danificadas. Desse total, 37.611 residem em edificações gravemente comprometidas ou totalmente destruídas. Na contagem oficial, contudo, há 17.907 pessoas desabrigadas nessa faixa costeira.

A Organização Internacional para as Migrações (OIM), da ONU, estima que até 6,8 milhões de pessoas poderão precisar de abrigo, água, saneamento, atendimento médico ou outro tipo de assistência.

Tudo indica que os números oficiais disponíveis até o momento sobre danos materiais também estejam subdimensionados. Segundo o relatório do governo, foram contabilizados 856 edifícios afetados e 190 desabados.

Entretanto, análises de satélite da Nasa sugerem que aproximadamente 58 mil estruturas podem ter sido danificadas nas áreas atingidas pelo terremoto. Já o estudo georreferenciado da ANOVA calcula que, somente no litoral de La Guaira, 2.654 estruturas residenciais ficaram gravemente comprometidas ou foram destruídas.

Os custos econômicos da tragédia ainda são difíceis de quantificar com precisão, mas as estimativas já superam amplamente a capacidade atual do país. O Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres estima os prejuízos em 37 bilhões de dólares (cerca de R$ 189 bilhões): 24 bilhões de dólares em edificações e outros 13 bilhões em infraestrutura. O montante equivale a 43% do Produto Interno Bruto (PIB) venezuelano.

<><> Um país suscetível a desastres e crises humanitárias

A enorme dimensão humana e material da tragédia venezuelana não pode ser explicada apenas pela intensidade dos dois terremotos que atingiram o país. Desde a década de 1990, a comunidade internacional deixou de compreender os desastres naturais como simples fatalidades e passou a analisá-los como resultado de uma equação mais complexa: o grau da ameaça física, a vulnerabilidade social e a capacidade de resposta a desastres.

Com base nessa lógica, a União Europeia e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) implementaram o índice de risco INFORM. O indicador avalia, em 191 países, o risco de ocorrência de crises humanitárias e desastres capazes de superar a capacidade nacional de resposta.

A edição mais recente do Índice INFORM, publicada em 31 de março de 2026, classifica a Venezuela na categoria de "alto risco", atribuindo ao país uma pontuação geral de 5,9 em uma escala de 0 a 10, na qual valores mais altos indicam piores indicadores. Esse resultado coloca a Venezuela como o segundo país mais vulnerável da América Latina e do Caribe, atrás apenas do Haiti, e o 28º no mundo em exposição a crises humanitárias e desastres.

<><> Alertas ignorados

Além da exposição a catástrofes naturais decorrente de sua localização geográfica, o elevado grau de vulnerabilidade da Venezuela se deve, em boa parte, à baixíssima capacidade do Estado para prevenir, responder e se recuperar desse tipo de evento.

Desde o início do século 21, especialistas e organismos nacionais e internacionais vêm alertando para a necessidade urgente de desenvolver um sistema estatal robusto de gestão de emergências e desastres de grande porte. No entanto, esses alertas foram sistematicamente ignorados.

Após o deslizamento de terras de 1999 que afetou Caracas e o Litoral Central, o governo venezuelano solicitou à Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica) um estudo para enfrentar a vulnerabilidade da capital a ameaças naturais.

Em março de 2005 foi apresentado oficialmente o resultado deste estudo, no qual ficava claro que a magnitude das consequências de um futuro desastre natural dependeria, em grande medida, das decisões que o Estado adotasse a partir daquele momento para reduzir a vulnerabilidade da cidade.

Entre as principais recomendações do relatório estavam a implementação de um Sistema de Alerta Precoce e Evacuação e a criação de um Centro de Comando de Emergência como sede centralizada para a coordenação da Defesa Civil, o que nunca ocorreu.

Em 2016, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) apresentou um relatório que mostrou que existia no país uma "defasagem considerável" entre o que estava previsto no marco legal – a Lei de Proteção Civil (2001) e a Lei de Gestão Integral de Riscos (2009) – e sua implementação efetiva. Em outras palavras, as normas evoluíram, mas nada foi feito para adequar as cidades a elas.

<><> Estado cada vez menos preparado

A situação se agravou ao longo do tempo. Não houve apenas o abandono de um plano de enfrentamento de desastres, mas também a deterioração do que havia sido construído em períodos anteriores.

Dados do índice INFORM mostram que, entre 2015 e 2026, a pontuação da Venezuela no componente que mede a falta de capacidade de resposta do país diante de grandes desastres piorou significativamente, passando de 5,5 em 2015 para 7,0 em 2026. Para compreender essa deterioração, é necessário analisar as duas dimensões utilizadas pelo INFORM para calcular a capacidade de resposta dos países: infraestrutura e institucionalidade.

A dimensão de infraestrutura, que mede a capacidade de resposta e recuperação, incluindo redes de comunicação, infraestrutura física e acesso ao sistema de saúde, já apresentava deficiências importantes em 2015 e praticamente não se alterou no período analisado. Sua pontuação passou de 4,1 para 4,4 entre 2015 e 2026, com sinais especialmente críticos no acesso à assistência médica.

Já a dimensão institucional, que avalia a efetividade governamental, a percepção de corrupção, a solidez da administração pública, a qualidade dos serviços públicos, a preparação e os sistemas de alerta precoce para redução do risco de desastres, sofreu forte deterioração, passando de 6,5 em 2015 para 8,6 em 2026.

<><> O fator corrupção

Uma análise detalhada dessa pontuação revela que um dos fatores que mais contribuíram para o colapso quase total da capacidade institucional da Venezuela de responder a emergências foi a persistente e altíssima corrupção governamental ao longo de todo o período avaliado pelo INFORM (2015-2026).

A corrupção no setor público atravessa toda a capacidade de resposta do país. Recursos destinados à prevenção de desastres são desviados, normas de construção antissísmica não são aplicadas, equipamentos de resgate deixam de ser adquiridos por causa de desvios de verba, a infraestrutura permanece sem manutenção, hospitais não recebem os insumos necessários, entre outros problemas.

Na mesma linha, um estudo elaborado em 2011 por Nicholas Ambraseys e Roger Bilham (dois dos sismólogos mais influentes do mundo) aponta que 83% das mortes causadas pelo desabamento de edifícios em terremotos ocorrem em países com níveis muito elevados de corrupção.

<><> Resposta deficiente após o desastre

Quando o duplo terremoto atingiu a Venezuela, o desastre superou amplamente a capacidade do país de enfrentá-lo. Foi o que relataram meios de comunicação nacionais e internacionais, além dos inúmeros depoimentos e imagens que circularam nas redes sociais.

A resposta tardia das autoridades, a falta de coordenação, as falhas de comunicação, a escassez de equipamentos das equipes de resgate, a inoperância das Forças Armadas e os obstáculos à entrada de ajuda internacional, entre outros problemas, não foram falhas pontuais dos primeiros dias da emergência, mas o resultado de um longo processo de atraso e enfraquecimento das capacidades estatais, como o índice de risco INFORM vem apontando.

A resposta imediata ao desastre foi o primeiro teste. A grande questão que permanece é como será possível enfrentar o desafio da reconstrução sob as mesmas autoridades cuja gestão produziu o colapso institucional que ampliou a tragédia.

¨      Venezuela cria 'Rota da Esperança' para ajudar população

Durante uma visita ao Acampamento de Transição César Rengifo, localizado no coração de Caracas, o ministro do Poder Popular para a Cultura, Raúl Cazal, concedeu uma entrevista exclusiva à Sputnik.

Entre barracas que servem atualmente como lares temporários e murais recém-pintados por voluntários, Cazal explicou a estratégia do governo bolivariano para cuidar — atendendo tanto à alma quanto à cultura — das famílias afetadas pelos terremotos de 24 de junho. O princípio norteador é claro: enquanto as moradias permanentes são reconstruídas, há uma necessidade urgente de reconstruir o ânimo das crianças que perderam tudo.

Duas semanas após o duplo terremoto que abalou a Venezuela — atingindo La Guaira (ao norte) com particular severidade, mas também causando danos significativos em Caracas, Miranda, Aragua, Yaracuy, Falcón e Carabobo —, os recursos estatais permanecem mobilizados em duas frentes: ajuda material imediata e apoio psicossocial.

A visita de Cazal ao acampamento — um espaço batizado em homenagem ao distinto dramaturgo e pintor venezuelano, símbolo de uma arte comprometida com o povo — concentra-se precisamente neste segundo pilar.

"Temos instruções muito precisas da nossa presidente interina, Delcy Rodríguez. Ela nos instruiu a trabalhar lado a lado com o nosso povo e a oferecer todo o apoio possível para que possam levar uma vida digna nestes acampamentos de transição. Enquanto trabalhamos para garantir lares estáveis ​​para as crianças e famílias, continuaremos a apoiar toda a nossa população."

O conceito de "vida digna" é o princípio norteador desta intervenção. Não se trata apenas de abrigo e alimentação, mas sim de uma abordagem holística na qual o lazer e a expressão artística são considerados tão vitais quanto uma refeição quente.

<><> Uma terapia coletiva

Ao detalhar o principal programa do Ministério para esta situação — a Rota da Esperança —, Cazal explicou que se trata de uma iniciativa interinstitucional aprovada diretamente pela Presidência. Não é um esforço isolado do Ministério da Cultura. Funciona como um eixo central que conecta os ministérios do Esporte e da Juventude, bem como governos municipais e estaduais, em uma linha de ação unificada.

"Ao nos organizarmos em conjunto, conseguimos oferecer imediatamente atividades recreativas, culturais e esportivas nos acampamentos provisórios para cuidar de nossos jovens e das crianças que foram tão profundamente afetadas."

Para o ministro, o poder do riso atuou como um bálsamo inesperado para o trauma geológico e emocional.

"Os sorrisos serviram como uma terapia extraordinária para curar as rachaduras que se formaram em nossas almas e em nosso próprio ser — indo além das estruturas físicas", refletiu ele, traçando uma metáfora direta entre os prédios rachados e a psique das crianças, fraturada pela violenta convulsão da terra.

A programação do projeto é tão diversa quanto a própria cultura local: montam-se telas de cinema ao ar livre, organizam-se rodas de leitura, pintam-se mandalas coletivas e realizam-se atividades lúdicas — tudo com o objetivo, nas palavras do ministro, de "nos acalmar e fomentar a esperança". Trata-se de um enorme esforço voluntário que dedicou sua energia — tanto nas telas quanto no terreno — a disseminar "alegria e entusiasmo".

¨      'Recursos bloqueados devem retornar para reconstruir a Venezuela', afirma autoridade de Caracas

Durante uma visita ao acampamento provisório "César Rengifo" — montado para abrigar famílias afetadas pelos terremotos de 24 de junho —, Ricardo Menéndez, vice-presidente setorial de planejamento, respondeu a uma pergunta direta da Sputnik.

Acompanhado pelo Ministro da Cultura, Raúl Cazal, Menéndez — que também é geógrafo e doutor em planejamento urbano — apelou à comunidade internacional para que liberasse os ativos venezuelanos retidos no exterior. Ele também compartilhou sua perspectiva sobre as lições que esses fenômenos naturais oferecem para o futuro urbano da nação sul-americana.

Ao ser questionado sobre perdas econômicas, custos de reconstrução e a origem dos recursos, Menéndez não se limitou a uma resposta técnica. Ele reforçou o apelo feito pela presidente interina, Delcy Rodríguez, exigindo o fim imediato das sanções e do bloqueio econômico.

"Há recursos venezuelanos retidos no sistema financeiro e econômico internacional que precisam vir. São recursos do povo venezuelano."

O vice-presidente setorial observou que essa escassez não é novidade. Ele apontou que o estrangulamento econômico tem sido uma constante desde a pandemia de COVID-19 e ao longo dos últimos anos, mas enfatizou que, no atual contexto de tragédia, a retenção de capital é injustificável.

"Eles eram necessários durante a pandemia, mas, neste momento, evidentemente não há desculpa para que esses recursos não retornem. Todo o povo venezuelano se une ao apelo por sua liberação, para que possam ser usados ​​na proteção de nossa população e no apoio à nossa estrutura de desenvolvimento."

<><> Planejar com a natureza, não contra ela

Como geógrafo e planejador, Menéndez detalhou as lições aprendidas em relação às políticas públicas. Ele explicou que a tragédia suscita uma reflexão mais ampla sobre a localização dos grandes centros populacionais. Quanto à situação na Venezuela, ele alertou para a vulnerabilidade dos 40% da população que vivem ao longo da faixa costeira entre Caracas e Puerto Cabello (no norte).

A análise técnica do ministro concentrou-se na perigosa combinação de fatores que amplificou o impacto sísmico em áreas específicas, como Los Palos Grandes ou o sistema de leques aluviais de La Guaira (no norte).

Menéndez explicou que muitas áreas urbanas foram estabelecidas sobre leques aluviais caracterizados por uma mecânica de solo complexa — composta por matrizes de granulação fina e grandes blocos rochosos — que amplificam as ondas sísmicas. A essa situação soma-se a presença de um sistema de falhas tectônicas ativas na cadeia de montanhas El Ávila.

"Se existe um sistema que envolve falhas — implicando risco tectônico — e que também está situado sobre esses depósitos de detritos torrenciais, o impacto em termos de ondas sísmicas é, claramente, de uma ordem de magnitude muito maior."

Diante dessa realidade, Menéndez revelou que as diretrizes da Presidência apontam para uma mudança radical na dinâmica do planejamento do uso do solo.

"Devemos projetar com a natureza, e não projetar com o objetivo de dominar a natureza", declarou. Ele criticou a abordagem tradicional de canalizar cursos d'água em galerias subterrâneas ou tentar controlar variáveis ​​naturais sem conviver com elas — um paradigma que, segundo ele, o "Plano de Desenvolvimento da Pátria" já busca superar.

<><> A urgência da vida e da humanidade

Além das projeções futuras, Menéndez enfatizou a responsabilidade imediata para com as vítimas. Ele ressaltou que a prioridade atual é o resgate e o cuidado com as pessoas. O ministro conclamou o mundo a compreender a verdadeira dimensão da tragédia:

"Pensem no efeito devastador de um terremoto. Agora, pensem no efeito devastador de dois terremotos separados por apenas 39 segundos."

Ele explicou que as operações de remoção de escombros estão sendo realizadas com o máximo cuidado — inclusive reduzindo a velocidade do maquinário pesado — com o objetivo de recuperar corpos e permitir que as famílias recebam de volta seus entes queridos, como um gesto de consideração psicológica e humana. "Vamos fazer isso, porque se trata de cuidar da nossa população", afirmou.

Por fim, o vice-presidente setorial dirigiu uma pergunta retórica direta aos atores internacionais que detêm ativos venezuelanos:

"Se vocês têm recursos depositados em contas internacionais, se têm ouro em outros países ao redor do mundo, esses recursos não deveriam estar disponíveis para a reconstrução de um país? Pensem se esse não seria um gesto humanitário sob uma perspectiva global."

 

Fonte: DW Brasil/Sputnik Brasil

 

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