As
novas regras do governo para a publicidade de bets após polêmica na Copa do
Mundo
Por
meio de uma portaria interministerial publicada nesta sexta-feira (10/7) no
Diário Oficial da União, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fixou uma
série de novas regras para a publicidade das chamadas bets.
A
partir de 17 de julho, elas serão obrigadas a exibir alertas de que apostar faz
perder dinheiro, pode causar dependência e não é investimento.
Além
disso, serão proibidas publicidades que induzam a apostas com base na suposta
expertise de comentaristas, especialistas ou influenciadores.
Segundo
a portaria, constituirão violações os conteúdos que "emitam estratégias de
apostas, prognósticos, opiniões técnicas ou análises sobre eventos esportivos
que, em razão de sua proximidade temporal, espacial ou contextual com conteúdo
editorial e ação publicitária, sejam aptos a induzir ou influenciar a
realização de apostas".
Serão
vedadas, ainda, ações que "contenham informação falsa ou enganosa,
inclusive quanto às probabilidades de ganhar ou quanto à possibilidade de a
habilidade, a destreza ou a experiência do apostador influenciar o resultado da
aposta".
Esse
tipo de publicidade foi visto em transmissões de jogos da Copa do Mundo,
especialmente na CazéTV, nas quais comentaristas induziam o espectador a
acreditar que determinada aposta era a mais indicada.
À BBC
News Brasil, a Livemode, dona do canal, disse que "a publicidade veiculada
pela CazéTV sempre observou a legislação brasileira aplicável, as diretrizes do
Conar e as boas práticas do setor" e que a empresa "trabalha
exclusivamente com operadoras autorizadas pelo Ministério da Fazenda".
Também
passa a ser proibido encorajar "práticas excessivas de aposta ou que
contenham chamadas para ação, inclusive com mecânicas promocionais, que sugiram
ato imediato por parte do apostador".
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O cerco do governo às bets
Em
paralelo às novas regras de publicidade, e atendendo a uma decisão do Supremo
Tribunal Federal (STF), o Ministério da Fazenda afirmou ter bloqueado o acesso
às bets de 2,8 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do BPC, o Benefício
de Prestação Continuada.
Isso
representa 10,24% dos brasileiros contemplados por programas sociais e 11,2%
das 25 milhões de pessoas que tentaram fazer apostas ao menos uma vez no ano
passado.
Quinzenalmente,
as bets devem checar suas bases de usuários para banir apostadores contemplados
por programas sociais. A consulta pode ser feita no chamado Sigap, o Sistema de
Gestão de Apostas do Serpro, por meio do CPF dos usuários.
Também
são proibidos de apostar agentes públicos que atuam no setor de apostas,
atletas profissionais, árbitros, dirigentes, fiscais ou técnicos esportivos e
pessoas com diagnóstico de ludopatia, nome dado ao vício em apostas.
A
Associação Brasileira de Liberdade Econômica alegou que a medida configura
segregação e defendeu que os beneficiários de programas sociais não podem ser
excluídos, pois teriam o direito de apostar com dinheiro proveniente de outra
fonte de renda.
De toda
forma, os sites clandestinos representam uma brecha na medida e permitem
contornar as proibições.
O
Ministério da Fazenda diz que a receita bruta das bets legalizadas no Brasil
foi de R$ 37 bilhões em 2025. Estimativas da firma de consultoria Regulus
Partners apontam que o país se tornou, em 2025, o quinto maior mercado mundial
de bets.
A
liberação das bets no Brasil ocorreu no governo de Michel Temer (MDB), que
previu a regulamentação do setor em até quatro anos, ou seja, durante a gestão
de Jair Bolsonaro (PL). Isso só foi feito, no entanto, em 2023, pelo governo
Lula, que sancionou a Lei das Bets.
O STF
deve se debruçar sobre o tema nos próximos meses e julgar uma ação da PGR
(Procuradoria-Geral da República) que pede a inconstitucionalidade da Lei das
Bets, isto é, que elas sejam todas consideradas ilegais e banidas do país.
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Anúncios durante a Copa do Mundo
Para
além da publicidade em canais de TV ou em plataformas digitais durante as
transmissões dos jogos, um levantamento feito pela BBC News Brasil com base em
dados da Biblioteca de Anúncios da Meta (dona do Facebook, Instagram, Threads e
WhatsApp) mostrou que as 10 maiores casas de apostas online do Brasil
dispararam centenas de anúncios nas redes sociais nas semanas que antecederam a
Copa do Mundo e também durante o torneio.
Não é
possível saber, no entanto, quanto foi gasto nessas campanhas nem qual público
foi impactado, o que impede, por exemplo, que se verifique de forma
independente se os anúncios excluem menores de 18 anos, como manda a
legislação, ou se eles se concentram em determinado gênero, faixa etária ou
região geográfica do país.
Entidades
que monitoram a atuação das bets no Brasil, como a Associação Brasileira de
Psiquiatria (ABP) e o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), criticam a
falta de divulgação de dados sobre a publicidade das bets nas redes sociais.
• Publicidade de bets também é desafio
regulatório na Europa
Logo
após a primeira semana de transmissão de jogos da Copa do Mundo, os comentários
sobre a quantidade de anúncios de casas de apostas, também conhecidas como
bets, nas transmissões brasileiras se multiplicaram nas redes sociais. O alvo
principal era a Cazé TV, acusada de transmitir publicidade excessiva e incitar
apostas.
O
movimento levou a uma investigação da Secretaria Nacional do Consumidor e
posteriormente às mudanças anunciadas pelo Ministério da Fazenda esta semana,
que restringem a publicidade de bets. As medidas incluem inserção de
advertências nas propagandas e restrições a estratégias de marketing, inclusive
proibindo o uso de comentaristas para induzir a apostas.
Situações
similares tem sido vistas em diferentes países, como França, Alemanha e no
Reino Unido, onde o crescimento da publicidade de bets em eventos esportivos
vem desafiando reguladores, ao mesmo tempo que os hábitos de consumo de mídia
mudam.
Se na
Cazé TV os apresentadores e comentaristas anunciavam as bets durante a
transmissão, inclusive comentando odds (probabilidades de ganho) e mencionando
opções de apostas, em outros mercados há restrição para os anúncios durante as
transmissões.
Mas
legisladores encontram cada vez mais dificuldade de implementar regras que
limitem os anúncios das plataformas de forma efetiva, considerando a rápida
adaptação do mercado publicitário.
Anúncios
por meio de influencers, novos patrocínios esportivos nos estádios e até mesmo
transmissão ao vivo pelas próprias casas de aposta são alguns exemplos.
"O
problema é que a regulação é implementada de forma extremamente lenta e com o
avanço da publicidade é muito difícil acompanhar”, afirma o professor Raffaello
Rossi da Universidade de Bristol no Reino Unido, que estuda as estratégias de
marketing de plataformas de apostas esportivas em diferentes mercados.
Rossi
foi um dos responsáveis por um estudo publicado pela Universidade de Bristol em
parceria com a consultoria Ipsos, que aponta que o movimento observado no
Brasil é similar ao de outros países europeus.
A
autorização e regulamentação do mercado de bets foi seguido por um crescimento
acentuado de anúncios das plataformas, levando a medidas para restringir a
publicidade por conta dos danos associados às apostas.
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Regulação europeia e mudanças de mercado
Na
França, por exemplo, a discussão sobre a quantidade de anúncios de bets fez com
que parlamentares apresentassem um projeto de lei pouco antes do início da
Copa, sugerindo o aumento das restrições para os anúncios destas plataformas.
O
movimento ocorre em meio ao avanço das apostas esportivas no país. Um estudo
encomendado pela Autoridade Nacional de Jogos, que regula o setor na França,
calculou que cerca de 40% dos espectadores franceses do mundial pretendiam
apostar durante o torneio.
O país
já possui limitações de publicidade para bets. Além de limitar o tempo diário
de anúncios na televisão em geral, mais de uma plataforma de aposta não pode
aparecer em cada inserção na programação e é obrigatória a difusão de mensagens
de prevenção ao vício durante grandes eventos esportivos.
O
projeto de lei apresentado em junho, sugere a proibição de propagandas de bets
durante as transmissões, além de limitar os horários de exibição e proibir
figuras públicas e influencers de aparecerem nos anúncios.
Na
Alemanha, a regulamentação atual para bets menciona que a publicidade não pode
ser excessiva, nem voltada para a propagação de odds irrealistas ou passar a
mensagem de que os usuários podem ter algum controle dos resultados. Além
disso, anúncios de bets entre 6h e 21h são proibidos em rádio, televisão e
internet, e anúncios durante as transmissões também são limitados.
Mesmo
assim, o avanço nas dinâmicas de transmissão tem desafiado a regulação.
A
partir da edição de 2026 da Copa de Mundo, a FIFA comercializa os direitos de
transmissão para além da televisão e streaming, incluindo outras plataformas
que queiram transmitir o torneio, como casas de apostas.
Na
Alemanha, uma bet está transmitindo todos os 104 jogos da Copa do Mundo por
meio de seu aplicativo e site, contanto que o usuário tenha feito uma aposta
recente na plataforma ou tenha um saldo ativo na sua conta. Só é possível
assistir a todos os jogos do torneio na em território alemão na TV paga, já que
os canais abertos transmitem somente algumas partidas de forma gratuita.
O
movimento também ocorre em outros mercados, inclusive no Brasil, onde uma casa
de apostas adquiriu os direitos para transmitir os jogos do mundial em
território nacional por meio de seu aplicativo e site.
Enquanto
isso, no Reino Unido, o crescimento dos anúncios de apostas esportivas tem
preocupado especialistas, apesar da limitação parcial dos anúncios de bets
durante transmissões de futebol.
O
mercado na região é autorregulado há anos, com proibições de exibição de
anúncios durante as partidas encabeçado por associações formadas pelas próprias
casas de aposta.
Críticos
alegam que a manutenção dos anúncios nos painéis dos estádios, além da
quantidade excessiva de propagandas no restante da programação faz com que a
medida tenha pouco efeito.
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Banimento de anúncios
Outros
países optaram por restrições ainda maiores para a publicidade de bets. Na
Bélgica, Itália, Espanha e Holanda os anúncios do tipo em transmissões
esportivas são proibidos.
Além
disso, estes países não permitem quase nenhum outro tipo de publicidade de
casas de aposta, incluindo anúncios em outdoors, com influencers nas redes
sociais ou por meio de patrocínios esportivos. A Bélgica permite somente
patrocínios esportivos, enquanto anúncios on-line são permitidos na Holanda e
com restrições na Espanha.
O
crescimento da publicidade de casas de aposta ocorre em meio à mudança nos
hábitos de consumo de mídia, com transmissões que tornam a delimitação do que é
informação, entretenimento ou publicidade muito tênue.
"As
novas plataformas tentam construir mais do que um espaço informativo, mas um
espaço de entretenimento, com uma tentativa de conversa com o público. Isso se
torna mais interessante para o mercado publicitário em comparação com o modelo
tradicional”, diz o professor Anderson Santos, professor da Universidade
Federal do Alagoas e coordenador do Observatório de Transmissões de Futebóis,
voltado para a análise da cobertura e distribuição dos direitos de transmissão
no Brasil.
"Acho
que os canais tendem a seguir esse direcionamento, porque as próprias marcas
vão exigir entregas que sejam mais fluidas, já que é um modelo que está dando
certo", complementa Santos.
Mas
integrar a transmissão com os anúncios de forma pouca clara faz com que se
torne cada vez mais difícil notar se algo é publicidade ou não.
O
professor Rossi cita o caso de odds mostradas na tela e menção a apostas por
comentaristas durante a transmissão, cenário que observou em transmissões nos
EUA e Canadá, e que também podem ser vistas no Brasil. "Julgamos essa
menção às apostas e odds altamente problemática porque ela normaliza as apostas
e as apresenta como algo inofensivo”, afirma.
No
Brasil, as medidas anunciadas pelo governo esta semana incluem a inserção de
alertas como "Ministério da Fazenda adverte: apostar pode causar
dependência”, além de proibir a apresentação das apostas como investimento,
forma de ganho fácil de dinheiro ou que criem um senso de urgência no público.
As novas normas passam a valer a partir do dia 17 de julho.
Procurada,
a LiveMode, controladora da Cazé TV, não respondeu aos pedidos de comentário da
DW Brasil.
Fonte:
BBC News Brasil/DW Brasil

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