O
público, o estatal, o militar e o privado
Uma das
características das transformações do campo teórico sobre a hegemonia
neoliberal foi a da centralidade do debate em torno do par estatal-privado. A
crítica do “estatismo”, paralelamente à apologia do mercado, dos espaços
privados, da “sociedade civil”, tive como principal efeito, o deslocamento do
outro elemento que antes fazia parte integrante da polarização – o público.
Esse
deslocamento produziu vantagens fundamentais para o novo modelo hegemônico e
seu discurso teórico, promovendo uma polarização cujos termos por si mesmos
favorecem a exaltação do polo em que se funda o discurso neoliberal, pela
desqualificação do Estado e principalmente pela desaparição do público.
No
entanto, a dicotomia constitutiva de toda a problemática do pensamento social e
político moderno foi aquela entre público e privado. É dessa dicotomia que se
valeram as disciplinas jurídicas, sociais e históricas, para “delimitar,
representar, ordenar o próprio campo de questionamento, como, para permanecer
no âmbito das ciências sociais, paz/guerra, democracia/autocracia,
sociedade/comunidade, estado de natureza/estado civil” (Norberto Bobbio).
Pode-se
falar de uma grande dicotomia – segundo Bobbio –, quando ela nos coloca uma
distinção de que é possível demonstrar a pertinência em duas direções: pela
divisão do universo em duas esferas, que esgotam o tema, no sentido de que
todos os elementos desse universo são incluídos, definindo ao mesmo tempo que
os que fazem parte de uma são automaticamente excluídos do outro; pelo
estabelecimento de uma divisão que é ao mesmo tempo global, no sentido de que
todos os elementos que compõem cada esfera devam poder ser incluídos e de fazer
convergir para si outras dicotomias que se tornam secundárias em relação a ela.
Os dois
termos da dicotomia podem ser definidos um independentemente do outro ou podem
ter sua definição centrada num deles, com o outro sendo definido por exclusão
em relação a ele, definindo o primeiro termo como o termo forte, o outro como o
termo fraco. Nesse caso, o público costuma ser tomado como o termo forte, o
privado passando a ser definido como o “não público”.
Ou
então, de forma dialética se pode definir os dois termos de forma antagônica e
mutuamente dependente, de forma indissoluvelmente vinculados um ao outro. Nesse
sentido, a definição de um é essencialmente vinculada à do outro, só ganha
sentido por contraposição ao outro. O interesse público é determinado
imediatamente em relação e em contraste com o interesse privado e vice-versa.
Esta
mesma diferenciação pode fazer que os limites de uma das esferas terminem onde
começa a outra ou que a natureza de cada uma delas seja tal que seus espaços
sejam totalmente diferenciados, não se tratando de contiguidade, mas de
diferença essencial na natureza de cada uma delas, o público e o privado sendo
elementos totalmente contraditórios entre si.
Como
quer que sejam definidas as esferas pública e privada, a diferenciação entre
elas pode ser interpretada como refletindo o que pertence ao grupo enquanto
tal, à coletividade, e o que pertence a seus membros individuais ou, de forma
mais geral, entre a sociedade global e eventuais grupos minoritários (como a
família, por exemplo), ou ainda entre um poder central superior e poderes
periféricos inferiores, que tenham relativa autonomia em relação àquele.
A
importância da dicotomia público-privado revela-se nas ciências sociais pela
existência paralela de outras dicotomias, que a complementam ou podem até mesmo
pretender substituí-la, como aquela de sociedade de iguais-sociedade de
desiguais, lei-contrato, justiça cumulativa-justiça distributiva.
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Significados da dicotomia público/privado
Além do
significado descritivo dessa dicotomia, existe também nela um significado
valorativo. Sendo considerados como termos contraditórios entre si, decorrem
duas concepções diversas da relação entre público e privado, que podem ser
definidas, a primeira com o primado do privado sobre o público ou, ao
contrário, do público sobre o privado.
O
primado do direito privado afirmou-se através do valor do direito da razão,
isto é, de um direito cujo valor vem de ser reconhecido independentemente das
circunstâncias de lugar e de tempo. Isso se passa até mesmo com Marx, que
quando faz a crítica do direito, se refere sempre ao direito privado, quando
aborda sua afirmação da igualdade formal entre todos. O direito burguês aparece
sempre assim como o direito privado.
O
direito público, como corpo sistemático de normas nasce mais tarde do que o
direito privado, na época da formação dos Estados modernos e fica contaminado
pela natureza social desse novo Estado. “Um dos acontecimentos que melhor que
os outros revela a persistência do primado do direito privado sobre o direito
público é a resistência que o direito de propriedade opõe à ingerência do poder
soberano e, portanto, ao direito do soberano de expropriação (por utilidade
pública) dos bens dos súditos” (Bobbio).
A
partir de John Locke o tema da inviolabilidade da propriedade – que compreende
todos os outros direitos individuais considerados naturais, como a liberdade e
a vida – aponta para a existência de uma esfera autônoma em relação à do poder
público, tornando-se um dos eixos centrais da concepção liberal do Estado,
tornando-se a mais conhecida e consistente teoria do primado do privado sobre o
público.
O
primado do público assumiu várias formas, muitas delas confundidas com o
estatal, pela ambiguidade da crítica ao liberalismo. Nação, classe, comunidade
– foram invocadas para promover renúncias ao plano individual, muitas vezes em
nome do público, mas na realidade falando em nome do estatal. Essa tradição,
muito mais antiga do que a liberal, remete a Aristóteles – com a ideia de que
“o homem é um animal político” – e foi retomada fortemente por Hegel.
Politicamente
o primado do público representou a expansão dos poderes de intervenção do
Estado, na sua capacidade de regulação do mercado, como contraponto do
movimento histórico que viu surgir a classe burguesa e as relações mercantis a
que ela abriu caminho.
A
distinção público-privado pode ser encarada de uma outra ótica: a da distinção
política/economia, com o primado do público sobre o privado interpretado como o
primado da política sobre a economia, do interesse geral sobre a acumulação e
as necessidades privadas. Essa visão é possível, porque, à diferença das
sociedades pré-capitalistas, no capitalismo a acumulação privada não requer,
para sua reprodução, pelo caráter da extração da mais-valia, que aparece como
uma troca de iguais entre salário e valor da força de trabalho, a intervenção
estrutural da política.
O
político pode então ser liberado para assumir a forma de interesse geral – o
“céu da política” de que falava Marx, em relação ao inferno das relações de
trabalho. Enquanto isso o econômico aparece como o espaço de relações privadas
de troca entre força de trabalho e capital, em condições de igualdade jurídica.
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Estatal, nacional, militar
No
Brasil, o Estado apareceu para o conjunto da sociedade, até 1930, como uma
coalizão das elites no poder, hegemonizadas por suas frações
primário-exportadoras. Sua crise gerou as condições que vinham se gestando ao
longo das décadas anteriores, para a primeira coalizão que pretendia
representar um projeto hegemônico para o conjunto do País.
Não por
acaso passamos bruscamente de um presidente que ainda falava da questão social
como “caso de polícia”, para um que interpelará o povo como “trabalhadores do
Brasil” e que colocará, refundará o Estado brasileiro para pôr em prática um
projeto nacional, pela primeira vez, mais de quatro séculos depois que o
capitalismo chegou com a espada e a cruz nas mãos dos colonizadores.
Nenhum
dos episódios políticos relevantes na história brasileira havia sido
protagonizado por forças sociais e políticas emergentes – nem a Independência,
nem o fim da escravidão, nem a proclamação da República, todos resultantes de
processos gattopardistas ou de revoluções passivas, na linguagem gramsciana,
para designar modalidades de pactos de elite e de cooptações políticas e
ideológicas.
A
revolução de 1930 vinha romper com a hegemonia das oligarquias regionais
incapacitadas de gerar modelos hegemônicos, até porque seu próprio processo de
reprodução como classes primário-exportadoras supunha tanto a subjugação
pré-capitalista das classes trabalhadoras no campo, quanto a canalização da
produção agrícola substancialmente para o mercado externo, não dependendo,
portanto, de processos de distribuição de renda no mercado interno.
O
bloqueio desse modelo levou à construção empírica e gradual de outro modelo,
que necessitava romper com os fundamentos daquela coalizão e daí a construção
de um Estado nacional, a posta em prática de uma política de industrialização e
a construção de um bloco social de apoio popular ao governo, pela primeira vez
na história.
Não se
poderia dizer, estritamente, que houvesse uma esfera pública ainda no Estado
getulista, mas sim uma forte marca estatista e nacional. Nacional, pelo caráter
do modelo econômico e social posto em prática, voltado centralmente para o
mercado interno, ancorado em forte presença estatal, fomentando o surgimento de
uma economia industrial com caráter estatal e privado, mas nacional, assim como
no discurso político e ideológico, com fortes tons nacionais e populares.
A
ausência de organização autônoma da classe trabalhadora, assim como de formas
de participação política democrática durante os quinze anos do primeiro governo
getulista e mesmo sua continuidade nos anos posteriores, pela forte marca que
seu projeto deixou – pelo menos até o golpe de 1964 – impedem dizer que
houvesse um modelo hegemônico que integrasse o público como sua dimensão
central.
O
movimento golpista de 1964 assumiu fortes elementos do Estado preexistente e
lhe deu contornos novos, que o diferenciariam na sua essência do modelo
hegemônico anterior. O mundo do trabalho, que encontrava até ali no Estado um
aliado contraditório, passou a ter no Estado ditatorial um inimigo feroz, que
voltou todo o seu peso contra os avanços conquistados de auto-organização dos
trabalhadores nas duas décadas anteriores e instaurando o que poderíamos chamar
de modelo estatal militar.
A
dimensão estatal fortaleceu-se com a reorganização do seu aparelho em torno do
seu ramo militar, que passou a ser seu tronco básico, conforme a doutrina de
segurança nacional. Essa blindagem militar do seu Estado foi acompanhada do
arrocho salarial e da intervenção em toda a estrutura sindical, liquidando logo
no início do novo período histórico qualquer vestígio popular no novo Estado
brasileiro. O modelo econômico de abertura ao capital estrangeiro manteve seu
caráter industrializador, agora amputado de um de seus pilares – o do consumo
interno de massas –, voltando-se centralmente para a exportação e para o
consumo interno da esfera alta do mercado.
O
caráter nacional e estatal do modelo hegemônico foi selado por forte tom
militar, que predominou e se impôs, na forma da ditadura e da construção de
equipes de governo compostas pela alta oficialidade das forças armadas e por
quadros ideológicos e econômicos – centralmente juristas e economistas oriundos
do meio acadêmico conservador. O nacional-estatista dava lugar ao
estatista-militar.
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Democrático, liberal, privado, mercantil
A crise
e o esgotamento da ditadura militar introduziram um novo período histórico no
Brasil, marcado pela nova hegemonia – econômica, política e ideológica –
liberal. No Brasil representou, inicialmente, a retomada de um sistema político
de democracia liberal e, posteriormente, de um modelo econômico neoliberal. O
estatal havia ficado fortemente marcado por seus aspectos militar e ditatorial
e assim não foi difícil identificar o democrático com o privado e o civil.
Foi no
bojo desta transformação que certas categorias emergiram com força pela
primeira vez no Brasil – como sociedade civil, cidadania, direitos humanos. A
própria valorização da democracia no seio de um movimento popular que antes se
orientava pela polarização de modelos econômico-sociais, veio favorecer a
instauração de um novo campo ideológico, fortemente marcado pela hegemonia
liberal.
A
redefinição liberal da democracia favoreceu, por sua vez, a identificação entre
privado e mercantil, em oposição ao estatal e, por extensão, ao coletivo. A
grande operação ideológica foi a centralização do campo teórico na polarização
estatal-privado, deslocando o público. A crítica do Estado, em condições de
aguda crise fiscal, de deterioração dos serviços públicos e de sua privatização
acelerada se generalizava, ao mesmo tempo que se estendiam as propostas
neoliberais de desregulação estatal, de privatização das empresas estatais, de
abertura das economias ao mercado internacional.
Produziu-se
assim uma ambígua convergência entre a crítica liberal ao Estado “autoritário”
e a crítica ao centralismo econômico do Estado, expressos de forma sintética na
“teoria do autoritarismo”, particularmente na versão de Fernando Henrique
Cardoso, em que se absolvia o grande capital privado nacional e internacional
no advento e consolidação das ditaduras do Cone Sul, concentrando as críticas
numa suposta “burguesia de Estado” e substituindo ditadura militar por regimes
autoritários.
Estava
preparado o quadro político e ideológico para a hegemonia liberal nos planos
político e econômico. A “teoria do autoritarismo” propunha a democratização
como processos de descentralização dos poderes políticos em torno do executivo,
com a reinstalação de um Estado liberal de direito e de desconcentração do
poder econômico em torno do Estado. A introdução de políticas neoliberais no
mundo a partir da década de 1980 e no Brasil a partir da década seguinte, deram
expressão política e econômica a essa hegemonia.
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Democrático, público, antimercantil
No
entanto, as grandes conquistas democráticas deste período, no Brasil, se deram
no espaço público. Enquanto o Estado renunciava aceleradamente às suas funções
sociais e públicas, com o fortalecimento do seu braço privado, desenvolveram-se
nas suas periferias dois grandes avanços: as políticas de orçamento
participativo no plano municipal e os assentamentos dos trabalhadores rurais
sem terra no campo. Foram avanços na contramão da hegemonia neoliberal, que se
deslocaram da polarização estatal-privado, para gerar espaços públicos em
políticas governamentais um, em políticas para o movimento de massas o outro.
O
orçamento participativo inscreve-se num projeto mais amplo de reforma
democrática do Estado tendo a esfera pública como seu eixo. Ao colocar nas mãos
da cidadania organizada as decisões sobre o orçamento, se avança na direção da
socialização da política e do poder, recuperando a dimensão pública da
política, perdida conforme esta se converteu na negociação de interesses
privados junto ao Estado e aos governos.
Os
assentamentos dos trabalhadores rurais sem terra permitem, ao mesmo tempo que
uma solução econômica para a sobrevivência no campo, a afirmação da identidade
dos trabalhadores mais marginalizados da história brasileira, o resgate da sua
cidadania e a construção de um espaço democrático nos planos político e social.
Trata-se de uma solução comunitária, coletiva, pública, antimercantil.
Estado
não é, por definição, nem público, nem privado. Ele é um espaço de disputa
entre os dois. Não um espaço vazio. Sua estrutura burocrático-repressiva
condiciona a luta entre os dois. Porém, o enfrentamento estratégico se dá entre
os braços privado e público.
Paralelamente
surge uma nova categoria – a de “terceiro setor”, englobando as ONGs e
inserindo-as num conjunto maior e mais heterogêneo ainda, com entidades que se
pretendem sempre “não governamentais e não lucrativas”. Além de formas
tradicionais de ajuda mútua, de movimentos sociais e associações civis, de
ONGs, inclui-se também a “filantropia empresarial”. Um decreto de junho de 1999
da Presidência da República dispõe a qualificação das chamadas “Organizações da
Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip)”.
A
introdução de políticas neoliberais durante a década de 1980 introduzirá um
novo elemento à polaridade Estado-sociedade civil – o mercado. Conforme a
democratização possibilitava aos movimentos sociais encontrar seu próprio
espaço institucional – da fundação das centrais sindicais ao reconhecimento de
movimentos como os dos negros, das mulheres, dos indígenas, dos camponeses,
entre tantos outros –, as ONGs foram sendo deslocadas de suas funções
originais. Se o que caracterizava a relação entre ONGs e movimentos sociais num
primeiro momento era a assessoria que concediam a estes, a palavra-chave passou
a ser parceria, deslocando-se esta para relações com governos, instituições de
financiamento internacionais e empresas privadas.
A
democratização desvia a atenção dos financiadores internacionais do Brasil – e
da América Latina – para outras regiões do mundo, gerando uma crise financeira,
ao lado de uma crise de identidade, com redução do seu número de quadros,
redimensionamento dos seus níveis de atuação – reconcentrando-se no nível local
– e ampliando suas relações com organismos governamentais e empresas privadas,
além de agências internacionais, como o Banco Mundial, estendendo a venda de
produtos e serviços, em particular a órgãos governamentais e fontes de
financiamento internacionais.
Coincidiram
nessa operação setores remanescentes da resistência à ditadura com setores
neoliberais, na oposição ao Estado e ao estatal, confundindo-se na categoria
genérica de sociedade civil. Essa concepção terminou sendo funcional à
hegemonia liberal, na política e na economia, reciclando o papel das ONGs,
debilitando o protagonismo dos movimentos sociais e das forças políticas e
civis, ao deslocar o público e, com ele, a esfera pública, os interesses
públicos e os temas conexos, como a reforma democrática do Estado.
A
atenção dada, desde os anos 1980, pelo Banco Mundial às organizações não
governamentais foi reforçada pelo retorno dos exilados políticos, que trouxeram
vínculos com ONGs especialmente europeias – de direitos humanos, feministas,
ecológicas, entre outras Surgidas no Brasil “de costas para o Estado e de
frente para os movimentos”, durante a ditadura militar, ocupando e abrindo
espaços para movimentos sociais, as ONGs afirmavam um ideal de autonomia
perante o Estado. Uma autonomia que posteriormente ganharia caráter
ambivalente, conforme retornasse a democracia política ao país.
Fonte:
Por Emir Sader, em A Terra é Redonda

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