As
três batalhas que abalaram Gaza
A
entrada do Império Otomano no conflito, ocorrida em novembro de 1914,
transformou o Oriente Médio em uma das frentes mais relevantes da disputa entre
as grandes potências da Primeira Guerra Mundial. O Império Otomano, liderado
pela facção dos Jovens Turcos, havia optado pela aliança com a Alemanha e o
Império Austro-Húngaro para contrapor a histórica influência russa e tentar
recuperar os territórios perdidos nos Bálcãs e no Cáucaso. A Alemanha, por sua
vez, via em Constantinopla o instrumento para atingir os interesses imperiais
britânicos. Enviou especialistas militares e vultuosos financiamentos para
modernizar o exército otomano e concluir infraestruturas como a ferrovia
Berlim-Bagdá. A Grã-Bretanha tinha a defesa do Egito como prioridade, uma vez
que o canal de Suez constituía o trânsito fundamental entre a metrópole e as
possessões na Índia, Austrália e Nova Zelândia. Em 1914, o Egito tornou-se um
protetorado britânico e o canal foi transformado no eixo do sistema defensivo
contra possíveis incursões inimigas.
No
início de 1915, uma força otomana atravessou o deserto do Sinai e tentou um
assalto ao canal, que os britânicos repeliram com relativa facilidade. Esse
evento convenceu o comando britânico da necessidade de abandonar a defesa
passiva do canal e deslocar a linha de proteção para leste, através da
península do Sinai. Sob a liderança do general Archibald Murray, as forças
britânicas iniciaram em 1916 um avanço metódico que exigiu um esforço logístico
de proporções notáveis. Como o deserto era desprovido de estradas e recursos
hídricos, os britânicos construíram uma ferrovia de bitola padrão e instalaram
uma tubulação com mais de cem milhas de extensão para transportar água do Nilo
até a frente de batalha. Dezenas de milhares de camelos do Camel Transport Corps
e milhares de operários egípcios do Egyptian Labour Corps foram empregados para
cavar trincheiras, assentar trilhos e transportar suprimentos — tarefa que
permitiu ao exército avançar apesar do calor e das tempestades de areia. Esse
aparato infraestrutural transformou o deserto em uma base operacional que
sustentou a marcha das tropas até a fronteira com a Palestina otomana. Com a
conquista de El-Arish e Rafah no início de 1917, os britânicos alcançaram o
limite da fronteira e se depararam com a cidade de Gaza. Essa localidade
ocupava uma posição dominante sobre uma colina a cerca de duas milhas da costa
e controlava as principais vias de comunicação para o interior da região. Há
milênios, a praça-forte era considerada a porta natural para a invasão da Palestina
a partir do Egito, papel que desempenhou diversas vezes ao longo da história. Para
os otomanos, Gaza representava o eixo de uma linha defensiva que se estendia
por cerca de trinta quilômetros para o interior, até Bersebá. A cidade era
protegida por sebes de cactos com vários metros de altura e espessura, que
formavam obstáculos quase intransponíveis para a infantaria, além de um sistema
de trincheiras e redutos bem interligados.
A
mudança política ocorrida em Londres com a ascensão de David Lloyd George
imprimiu uma forte aceleração à campanha militar. O novo primeiro-ministro
buscava uma vitória inequívoca que pudesse restaurar o moral do povo britânico,
desgastado pelos massacres na frente ocidental. A escolha recaiu sobre a
Palestina, com a ordem de capturar Jerusalém antes do Natal de 1917. Essa
diretiva logo se revestiu de um profundo valor ideal, evocando o eco de uma
última cruzada contra um inimigo de fé e cultura diferentes. Os exércitos dos
dois impérios — o britânico, no auge de sua influência global, e o otomano, em
progressivo declínio secular — enfrentaram-se assim em Gaza, transformando um
centro rural cercado por olivais no epicentro de três confrontos que marcaram o
destino do Oriente Médio. O general Archibald Murray, que comandava a Força
Expedicionária Egípcia a partir de sua base no Cairo, e seu subordinado em
campo, o general Charles Dobell, conceberam o assalto a Gaza como um golpe
rápido e decisivo. O objetivo primário era a captura da cidade antes do pôr do
sol para garantir o acesso aos poços d’água — uma necessidade vital que
condicionou todo o cronograma da operação.
O plano
previa que a Coluna do Deserto, do general Philip Chetwode, executasse um amplo
movimento de envolvimento com as divisões montadas para isolar a praça-forte
pelo norte e pelo leste, enquanto a 53ª Divisão de Infantaria (Galesa)
conduziria o ataque frontal contra as defesas inimigas, e a 54ª Divisão
(Anglo-Oriental) deveria apoiar e proteger o setor meridional e oriental do
ataque, acompanhando o movimento envolvente da cavalaria para garantir a
manutenção do corredor de cerco.
O
comando britânico estimava que a guarnição urbana fosse composta por cerca de
dois mil homens, mas, na realidade, o major alemão Tiller comandava
aproximadamente quatro mil defensores. O coronel Kress von Kressenstein,
coordenador da defesa otomana, havia fortificado com habilidade a colina de Ali
Muntar e os jardins circundantes, onde densas e altas sebes de cactos
constituíam uma barreira natural quase impenetrável para a infantaria. Enquanto
a cidade permanecia como o eixo defensivo, Kress von Kressenstein mantinha a 3ª
Divisão de Cavalaria e a 16ª Divisão de Infantaria prontas para intervir a
partir das bases de Tell esh-Sheria e Bersebá, a fim de atacar o flanco dos
assaltantes. As operações tiveram início às 2h30 do dia 26 de março de 1917,
quando as brigadas montadas deixaram seus acampamentos para atravessar o Wadi
Ghazze, o vale fluvial que divide ao meio o território de Gaza. Ao nascer do
sol, um denso e súbito nevoeiro envolveu todo o campo de batalha, reduzindo a
visibilidade a poucos metros e impedindo que os oficiais britânicos se
orientassem com precisão. Apesar do fenômeno atmosférico, a cavalaria da
Divisão Montada da ANZAC e da Divisão Montada Imperial avançou com determinação
e completou o cerco de Gaza por volta das 10h30. Em contrapartida, a neblina
paralisou a 53ª Divisão de Infantaria, que permaneceu imóvel por cerca de duas
horas aguardando uma visibilidade livre para a artilharia. Esse atraso foi
nefasto, pois o ataque frontal contra Ali Muntar só começou próximo ao
meio-dia, quando o calor já se tornara opressivo e o solo arenoso refletia um
clarão ofuscante. A 53ª Divisão avançou a céu aberto sob fogo incessante de
metralhadoras e estilhaços, enquanto os soldados tentavam abrir caminho entre
os cactos usando apenas baionetas. Após horas de combates sangrentos no setor
denominado “Labirinto”, as brigadas britânicas conseguiram finalmente tomar as
posições no topo da colina de Ali Muntar pouco antes do anoitecer.
Exatamente
quando a infantaria galesa ocupava Ali Muntar e os cavaleiros neozelandeses e
australianos penetravam nos arredores setentrionais da cidade, a vitória
pareceu estar ao alcance das mãos. O major Tiller, vendo suas defesas ruírem,
ordenou a destruição da estação de rádio e dos documentos secretos,
resignando-se à derrota. Contudo, o general Dobell e o general Chetwode
observavam a ação de sua posição recuada em In Seirat, na margem oposta do Wadi
Ghazze, e recebiam informações incompletas e frequentemente contraditórias
sobre o andamento da batalha. Por volta das 16h, os comandos britânicos
avistaram ao longe as nuvens de poeira levantadas pelos reforços otomanos que
convergiam para Gaza vindo do leste. Temendo que as unidades montadas pudessem
ser isoladas na escuridão e preocupados com o esgotamento das reservas de água
para os cavalos, Dobell e Chetwode tomaram a decisão de ordenar uma retirada
geral justamente no momento em que a resistência otomana estava à beira do
colapso. A cavalaria abandonou apressadamente o terreno conquistado, deixando
desprotegido o flanco da infantaria.
A ordem
de recuo desencadeou uma série de mal-entendidos catastróficos. O general
Dallas, no comando da 53ª Divisão, recebeu a instrução de recuar para se
conectar com a 54ª Divisão, mas não foi informado de que esta já se havia
deslocado para uma nova linha defensiva. Acreditando ter de percorrer uma
distância muito maior, Dallas ordenou a evacuação total de Ali Muntar e das
colinas circundantes durante a noite. Muitos batalhões galeses, exaustos após
trinta e seis horas de vigília e combates, receberam com incredulidade e
indignação a ordem de abandonar as alturas conquistadas a alto custo. Somente
às 5h da manhã seguinte Chetwode percebeu que as posições-chave haviam sido
deixadas completamente desguarnecidas. A tentativa britânica de reocupar Ali
Muntar nas primeiras horas do dia 27 de março fracassou, pois as tropas
otomanas, ao perceberem a evacuação, já haviam retomado o controle da colina e
a reforçado com artilharia pesada. A batalha terminou com a retirada definitiva
de todas as forças britânicas para além do Wadi Ghazze, marcando um fracasso
tático que Murray tentou em vão camuflar em seus relatórios otimistas enviados
a Londres.
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A Segunda Batalha de Gaza
O
fracasso tático da primeira batalha de Gaza foi apresentado pelo general
Archibald Murray ao War Office, em Londres, como uma vitória parcial. Em seus
relatórios, o comandante-chefe da Força Expedicionária Egípcia omitiu os
detalhes da retirada injustificada e declarou que as tropas turcas haviam
sofrido perdas altíssimas, estimadas entre seis e oito mil homens. Essa versão
dos fatos convenceu o primeiro-ministro David Lloyd George e o general William
Robertson de que as forças otomanas estavam à beira do colapso e que um novo
ataque abriria definitivamente o caminho para Jerusalém. Murray viu-se assim
prisioneiro de seu próprio otimismo, coagido pelas expectativas políticas a
ordenar uma retomada imediata das hostilidades antes que as tropas estivessem adequadamente
descansadas ou reforçadas. A pressão de Londres impôs um cronograma apertado
que reduziu drasticamente o tempo de preparação necessário para uma operação em
grande escala. Enquanto os britânicos se reorganizavam, o coronel alemão Kress
von Kressenstein compreendeu que um segundo assalto era iminente e transformou
o setor defensivo em um sistema fortificado moderno. Os turcos abandonaram a
defesa passiva da cidade para construir uma linha de redutos interconectados ao
longo da estrada para Bersebá, aproveitando a posição dominante das cristas. As
principais fortificações, denominadas pelos britânicos de Tank, Atawine,
Hairpin e Hureyra, foram dotadas de trincheiras profundas e protegidas por
arame farpado, com campos de tiro cruzados que tornavam impossível qualquer
manobra de surpresa. Os otomanos desdobraram cerca de dezoito mil homens e
aumentaram o número de baterias de artilharia, registrando preventivamente as
distâncias para todas as possíveis vias de aproximação inimiga. O intervalo de
três semanas entre os dois confrontos permitiu também que a 53ª Divisão turca
descesse de Jafa e reforçasse a guarnição de Gaza, anulando a vantagem numérica
que os britânicos haviam procurado acumular.
O
general Charles Dobell, comandante da Força Oriental, concebeu um plano baseado
em um assalto frontal maciço, reproduzindo as táticas de desgaste já empregadas
na frente ocidental, na França. A operação teve início em 17 de abril com um
avanço preliminar das divisões de infantaria 52ª, 53ª e 54ª, que se
estabeleceram em uma linha paralela às defesas turcas. O ataque principal foi
deflagrado ao amanhecer do dia 19 de abril, após um bombardeio de uma hora que
se revelou totalmente insuficiente para neutralizar as baterias inimigas ou
destruir os emaranhados de arame. Pela primeira vez naquele teatro, foram
empregados gases asfixiantes e carros de combate Tank Mark II, mas ambos os
sistemas fracassaram em seu propósito. As três mil granadas de gás, evaporadas
rapidamente no calor da manhã, não surtiram efeito algum sobre os defensores,
enquanto os oito carros de combate disponíveis, modelos obsoletos e
desgastados, tornaram-se alvos fáceis para os canhões austríacos e alemães. No
interior dos tanques, as temperaturas atingiram níveis insuportáveis para as
tripulações, que lutaram com bravura, mas sem conseguir romper a linha inimiga.
A infantaria britânica teve de avançar a céu aberto sob fogo letal de
metralhadoras e estilhaços. A 54ª Divisão recebeu ordem de percorrer quase 2 km
em um terreno perfeitamente plano. Apesar das advertências do brigadeiro
Sandilands, que classificou o ataque como um verdadeiro massacre, o general
Hare sentiu-se vinculado às ordens superiores e ordenou o avanço. Três
batalhões da 163ª Brigada foram dizimados, perdendo de uma só vez mil e
quinhentos homens e todos os comandantes de companhia. No setor central, os
batalhões do King’s Own Scottish Borderers, da 52ª Divisão, tentaram
repetidamente tomar Outpost Hill, sofrendo perdas próximas a cinquenta por
cento de seus efetivos. Ao anoitecer, as tropas escocesas ocupavam apenas
posições precárias e isoladas, cercadas por mortos e impossibilitadas de
receber suprimentos. A 53ª Divisão também conseguiu conquistar Samson Ridge, no
litoral, mas tratou-se de um sucesso local que não comprometeu a solidez geral
da defesa otomana.
A
operação encerrou-se em desastre total e com custos humanos altíssimos. As
perdas britânicas somaram 6.444 homens, entre seiscentos mortos confirmados e
mais de mil e quinhentos desaparecidos, enquanto os turcos contabilizaram cerca
de duas mil baixas. Murray, na tentativa de forçar uma decisão, ordenou
inicialmente a retomada do assalto ao amanhecer do dia 20 de abril, mas teve de
recuar diante da opinião unânime dos comandantes divisionais, que relataram o
esgotamento das munições e o estado de prostração das tropas. A derrota levou a
uma rápida remodelação da cúpula militar. Em 21 de abril, Murray exonerou
Dobell do comando da Força Oriental, oficialmente por motivos de saúde, mas na
realidade usando-o como bode expiatório para o fracasso do plano frontal. O
próprio Murray não permaneceu muito tempo em seu posto, pois o governo de
Londres, decepcionado com os resultados e com a falta de clareza nos
relatórios, decidiu substituí-lo em junho de 1917 pelo general Edmund Allenby. A
segunda batalha de Gaza marcou o fim da primeira fase da campanha na Palestina
e transformou a frente em uma situação de impasse semelhante às trincheiras
europeias, à espera de uma mudança radical na estratégia e na liderança do
exército britânico.
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A Terceira Batalha de Gaza
O
general Sir Edmund Allenby assumiu o comando da Força Expedicionária Egípcia
(EEF) em 28 de junho de 1917, marcando uma mudança profunda na condução da
campanha. Sua primeira decisão relevante foi transferir o quartel-general do
conforto dos hotéis do Cairo para as dunas de Umm el Kelab, nas proximidades de
Rafah, a fim de permanecer em contato direto com as tropas e compartilhar as
dificuldades da frente. Allenby infundiu novo ânimo entre as fileiras,
substituindo os oficiais do estado-maior considerados pouco enérgicos por
homens de sua confiança vindos da frente ocidental. Os soldados logo começaram
a chamá-lo de “The Bull” (o Touro), devido à sua imponente presença física e à
determinação que demonstrava durante as frequentes inspeções às linhas. Sob sua
liderança, a EEF foi consideravelmente reforçada e reorganizada em três corpos
de exército distintos: o XX Corpo, sob o comando do general Philip Chetwode; o
XXI Corpo, liderado por Edward Bulfin; e o Corpo Montado do Deserto, sob o
comando de Harry Chauvel.
Allenby
compreendeu que um terceiro ataque frontal contra as defesas de Gaza resultaria
em um novo e sangrento fracasso. Ele adotou, portanto, um plano baseado na
surpresa e no engodo estratégico, com o objetivo de convencer o comando otomano
de que o alvo principal continuava sendo a cidade litorânea. O coronel Richard
Meinertzhagen orquestrou uma complexa operação de desinformação (conhecida como
“a manobra da bolsa”), deixando cair intencionalmente uma pasta manchada de
sangue contendo documentos falsificados e mapas enganosos durante uma simulação
de perseguição com patrulhas turcas. Esses documentos sugeriam que o avanço em
direção a Bersebá era apenas um chamariz e que o verdadeiro esforço bélico
ainda se concentraria em Gaza. Para reforçar essa ilusão, os britânicos
mantiveram os acampamentos diante da cidade intactos, mantendo fogueiras acesas
durante a noite para simular a presença de tropas que, na realidade, estavam se
deslocando secretamente para o leste. A verdadeira manobra de envolvimento teve
início no final de outubro de 1917, quando as unidades do XX Corpo e do Corpo
Montado do Deserto se dirigiram para Bersebá através do deserto. As tropas
percorreram longas distâncias durante a noite, escondendo-se nos uádis (leitos
de rios sazonais) durante o dia para escapar do reconhecimento aéreo inimigo.
Em 31 de outubro, as forças britânicas iniciaram o assalto à cidade, que
representava o eixo da ala esquerda otomana. A conquista dos poços d’água
tornou-se uma necessidade absoluta para a sobrevivência dos cavalos e dos
homens, pois as reservas estavam quase esgotadas após dias de marcha. À tarde,
depois que a infantaria conquistou as posições externas e a divisão
neozelandesa tomou a elevação de Tell es-Saba, a situação ainda permanecia
incerta. Às 16h30, o general Chauvel, pressionado pelo iminente pôr do sol,
ordenou que a 4ª Brigada de Cavalaria Ligeira Australiana desferisse um ataque
direto contra Bersebá. Sob a liderança do brigadeiro William Grant, cerca de
oitocentos cavaleiros australianos carregaram a galope através da planície
aberta. Como os cavaleiros não estavam armados com espadas, mas atuavam como
infantaria montada, empunharam suas longas baionetas afiadas enquanto corriam
sob o fogo da artilharia e das metralhadoras otomanas. A rapidez da ação
surpreendeu os defensores, que não conseguiram ajustar as miras de suas armas a
tempo de deter a massa de cavalos. Os australianos saltaram as trincheiras e
penetraram no centro urbano, capturando os poços antes que os turcos pudessem
detoná-los.
O
sucesso em Bersebá abriu uma profunda brecha no sistema defensivo otomano, que
começou a se desintegrar rapidamente sob os golpes do XX Corpo no setor
central. Em 6 de novembro, as divisões britânicas atropelaram as trincheiras
inimigas em Tell esh-Sheria, cortando a ligação entre os dois exércitos
otomanos. No mesmo momento, o XXI Corpo lançava um ataque diversivo ao longo da
costa, capturando Sheikh Hasan e ameaçando cercar toda a guarnição de Gaza. Os
turcos, liderados por Kress von Kressenstein e Refet Bey, compreenderam que a
posição era agora insustentável e ordenaram a evacuação da cidade durante a
noite entre 6 e 7 de novembro para evitar o aniquilamento. As patrulhas
britânicas entraram em Gaza nas primeiras horas da manhã seguinte, encontrando-a
completamente vazia e reduzida a um monte de escombros pelas semanas de
bombardeios navais e terrestres. A porta da Palestina fora finalmente
derrubada, permitindo que o exército britânico iniciasse a perseguição para o
norte e apontasse diretamente para Jerusalém.
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Conclusão
A
ruptura da linha Gaza-Bersebá no outono de 1917 marcou o ponto de virada que
transformou uma desgastante guerra de trincheiras em uma rápida campanha de
movimento através do sul da Palestina. Sob a liderança do general Allenby, as
forças britânicas aproveitaram a superioridade numérica e a mobilidade das
tropas montadas para atropelar as posições otomanas, apesar da determinação
demonstrada pelos defensores nas retaguardas. A queda dos redutos de Tell
esh-Sheria e Hureyra forçou os otomanos a recuar para o norte, permitindo que a
Força Expedicionária Egípcia avançasse pela planície costeira e penetrasse nas
colinas da Judeia. Embora os turcos tivessem conseguido evitar o cerco completo
graças à resistência oposta em Tell el-Khuweilfe, sua retirada deixou
descoberta a estrada para a capital da região. A ocupação de Jerusalém,
ocorrida em 9 de dezembro de 1917, representou o cumprimento simbólico da
missão confiada a Allenby pelo primeiro-ministro Lloyd George, que havia
exigido um sucesso inequívoco para oferecer como presente de Natal à nação
britânica.
A perda
da cidade santa infligiu um golpe duríssimo ao prestígio do Império Otomano,
que durante o conflito já havia sofrido a queda de Meca e Bagdá. A cerimônia de
entrada de Allenby, realizada em 11 de dezembro através da porta de Jafa, foi
programada com extrema cautela política para lidar com as diferentes
sensibilidades locais. O general entrou a pé para demonstrar respeito pela
sacralidade do local e proibiu o uso de bandeiras britânicas para evitar
irritar a população muçulmana. Além do impacto moral, a vitória garantiu à
Grã-Bretanha o controle estratégico da área, assegurando definitivamente a
proteção do canal de Suez e das vias de comunicação com a Índia. Essa ocupação
física do território teve peso determinante nas mesas diplomáticas onde as potências
vencedoras começaram a discutir a futura partilha dos domínios turcos. Enquanto
os acordos secretos Sykes-Picot de 1916 haviam previsto uma gestão
internacional ou dividida da zona, o sucesso militar de Allenby permitiu que
Londres consolidasse sua hegemonia em detrimento das ambições francesas. A
contemporânea Declaração Balfour, embora tenha sido recebida com favor pelos
movimentos sionistas, introduziu um compromisso com a criação de um lar judeu
que logo se mostrou dificilmente conciliável com as aspirações nacionalistas
árabes. Essas decisões políticas lançaram as bases para o nascimento do Mandato
Britânico da Palestina, uma estrutura administrativa marcada desde o início por
tensões entre as diferentes componentes da população. O sucesso da campanha de
1917, que ajudou a derrubar um império que durara quatro séculos, esbarrou no
pós-guerra na dificuldade de gerir as reivindicações territoriais dos povos que
haviam participado da luta contra o Império Otomano.
A
cidade de Gaza emergiu das três batalhas de 1917 profundamente desfigurada,
reduzida a um monte de escombros pelas semanas de bombardeios navais e
terrestres que antecederam sua evacuação. As patrulhas britânicas que entraram
no centro urbano encontraram um lugar desprovido de almas vivas, onde quase
todos os edifícios haviam sido reduzidos a cascos vazios ou despojados de todo
material útil pelos defensores em retirada. Outrora um florescente centro
comercial, a praça-forte tornou-se um símbolo das destruições causadas pela
guerra moderna industrializada. Ao longo do século XX, Gaza transformou-se
profundamente, mudando sua função de eixo defensivo imperial para a de centro
gravitacional de novas e persistentes tensões. A retirada britânica em 1948
marcou o fim de uma era colonial, deixando, contudo, como legado uma série de
disputas territoriais e religiosas que continuaram a atormentar a região pelas
décadas seguintes. A vitória de Allenby, embora tenha sido celebrada à época
como uma libertação, produziu consequências de longo prazo que tornaram a
estabilidade na Terra Santa um objetivo difícil de consolidar.
Fonte: La
Storia e le Idee | Tradução: Rôney Rodrigues, em Outras Palavras

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