Entre
pontes e barreiras: Copa do Mundo, mobilidade do trabalho e migração
A Copa
do Mundo costuma ser apresentada como um grande momento de integração mundial.
Durante um mês, milhões de pessoas assistem simultaneamente aos jogos, em que o
futebol tem a potencialidade de condensar uma experiência compartilhada, quase
que uma linguagem universal, como diriam os entusiastas. No entanto, a
grandiosidade de megaeventos como esse repousa sobre uma imensa cadeia de
trabalho, comumente invisibilizada pelas imagens de festa, das torcidas, dos
gols e das arquibancadas lotadas.
Por
trás dessa aparente integração mundial, encontram-se também os fluxos de
trabalhadores que tornam possível a realização desses eventos. A mobilidade
internacional da força de trabalho ganha novas dimensões com a expansão das
relações capitalistas de produção, tornando-se parte da organização
contemporânea de trabalho.
Ou
seja, se a Copa costuma simbolizar um momento de conexão entre países e
públicos distintos, ela também revela pontes e barreiras que organizam a
circulação contemporânea. Afinal, nem todos atravessam a fronteiras com a mesma
liberdade.
Muito
já se debateu sobre as condições de trabalho que sustentam os megaeventos.
Antes mesmo dos jogos iniciarem, milhares de trabalhadores já tiveram que
erguer estádios, expandir os aeroportos, construir linhas de trens e metrô,
preparar os hotéis, cozinhar as refeições que irão ser servidas, ou seja,
organizar toda a infraestrutura necessária para a reprodução social das Copas.
A chegada dos turistas é a última fase de um longo processo de trabalho que
começou muitos anos antes.
A Copa
do Mundo do Catar de 2022 tornou essa condição particularmente evidente.
Movimentos sociais, organizações internacionais e alguns veículos de imprensa
noticiaram largamente as condições de trabalho enfrentadas por imigrantes
empregados nas obras do Mundial. Estimava-se que dois milhões de trabalhadores
imigrantes compunham a grande parte da força de trabalho local, com pessoas
oriundas de países como Índia, Nepal, Bangladesh, Sri Lanka, Filipinas, Quênia,
entre outros.
Notícias
que chegaram relatavam extensas jornadas de trabalho (sob um calor escaldante),
retenção de passaportes, dificuldades para mudar de emprego, mortes
relacionadas ao excesso de trabalho (karoshi), acidentes, entre outros óbitos
causados por condições de trabalho insalubres. Algumas pesquisas apontam que
mais de 6.500 trabalhadores imigrantes teriam perdido suas vidas desde que
aquele país ganhou o direito de sediar a Copa do Mundo de 2022.
Apesar
das denúncias de organizações de direitos humanos e pressões externas para que
os governos do Catar e de outros países-sede do campeonato fizessem reformas em
suas legislações trabalhistas, essas medidas chegaram tarde demais para evitar
as mortes que já haviam ocorrido. Ainda para ficar em exemplos da última
década, países como a Rússia e o Brasil também foram cúmplices de condições de
trabalho degradantes e mortes, principalmente em seus canteiros de obras.
Em
paralelo ao deslocamento de trabalhadores – muitos deles imigrantes – circula
outro fluxo, muito mais livre e menos vigiado, o do capital. Investimentos,
patrocínios, direitos de transmissão, mercadorias, executivos da FIFA e
turistas atravessam fronteiras com uma liberdade que raramente é concedida
àqueles que constroem os estádios, preparam os hotéis ou garantem o
funcionamento cotidiano dos jogos.
Sobre
esse assunto, Ursula Huws observa que as pontes e barreiras que regulam a
circulação de fronteiras não se distribuem da mesma forma entre capital e
trabalho. Enquanto o primeiro encontra cada vez mais facilidades para se
deslocar, a mobilidade dos trabalhadores permanece submetida a controles e
restrições. Seguindo esse raciocínio, podemos pensar que o capital dispõe de
maior liberdade para transferir empresas para países mais lucrativos, com
vantagens fiscais ou onde a resistência da classe trabalhadora seja menor. Já o
trabalho é condicionado a fronteiras, políticas migratórias e outras formas de
controle de circulação.
Essa
dinâmica, é claro, não se restringe aos grandes eventos esportivos. Em
diferentes economias centrais, a incorporação de trabalhadores imigrantes
tornou-se uma resposta às dificuldades encontradas pelo próprio capital em
reproduzir a sua força de trabalho internamente. O Japão talvez seja um dos
casos emblemáticos desse processo e que evidencia uma questão mais ampla. O
envelhecimento populacional, a queda das taxas de fecundidade e a crise da
reprodução social passaram a produzir uma demanda pela imigração em setores
estratégicos da economia. Como resposta parcial, o país conseguiu incorporar
fluxos migratórios cuidadosamente regulados e frequentemente associados às
formas flexíveis de contratação. Como enfatiza o sociólogo Pietro Basso, o
imigrante é o “protótipo do trabalhador flexível”.
Assim,
a experiência da comunidade brasileira decasségui mostra que a circulação da
força de trabalho não elimina fronteiras, ao contrário, produz novas formas de
segmentação no mercado de trabalho segundo a nacionalidade, o gênero, a raça e
a etnia. Ou seja, a mobilidade existe, mas ocorre sob condições determinadas de
acumulação capitalista.
No
livro Fronteiras do trabalho: migração decasségui e reprodução social analiso
como essa dinâmica se manifesta entre a população brasileira no Japão. Após a
reforma da Lei Migratória japonesa de 1990, milhares de descendentes de
japoneses residentes no Brasil passaram a migrar para trabalhar, sobretudo nos
setores automobilístico e eletroeletrônico. Embora fossem identificados como
japoneses no Brasil, no contexto migratório passaram a ocupar a posição social
dos estrangeiros, dos imigrantes – “o outro” diferenciado dentro da sociedade
japonesa, sendo inseridos em um mercado de trabalho fortemente marcado por
diferenças étnicas, de gênero e raciais.
Em
todos os casos, os trabalhadores imigrantes são deslocados na medida certa,
conforme a necessidade do capital. Não obstante, a circulação e a mundialização
da força de trabalho (para usar a expressão de François Chesnais) impõem
inúmeras barreiras às pessoas “não desejadas”.
Pensemos
novamente na Copa de 2026, a maior edição da história, tanto pelo número de
seleções quanto pela escala de público. Ao mesmo tempo que o torneio amplia seu
alcance e engajamento internacional, persiste a desigualdade no acesso de
torcedores, jornalistas e participantes, especialmente por conta de políticas
migratórias e restrições de vistos. O evento evidencia, assim, um crescimento e
mundialização do futebol desigual e combinado, que não se distribui de forma
homogênea entre países e pessoas.
Conforme
noticiado pelos meios de comunicação, em uma partida em Boston, quando Haiti e
Escócia se enfrentavam, dezenas de milhares de torcedores escoceses tomaram as
ruas da cidade com seu hino “Flower of Scotland”. Do outro lado, a presença
haitiana era bem mais reduzida, em parte, marcada por restrições de viagem aos
Estados Unidos, com um grupo menor de torcedores entoando seu hino nacional.
O
Departamento de Estado dos Estados Unidos suspendeu a emissão de vistos para
cidadãos de alguns países com seleções classificadas, incluindo Haiti e Irã, o
que afetou diretamente a participação de torcedores e delegações. No caso
iraniano, a poucos dias do início do torneio, a federação informou que milhares
de ingressos haviam sido cancelados. A seleção iraniana foi informada de que
deveria permanecer no México e se deslocar para os Estados Unidos apenas nos
dias de suas partidas no país.
Em
outro caso, o árbitro somali Omar Artan, escalado pela FIFA e prestes a se
tornar o primeiro representante de seu país a apitar uma Copa do Mundo, teve
sua entrada negada nos Estados Unidos e foi impedido de atuar na competição.
Diante deste episódio, a FIFA limitou-se a afirmar que decisões de vistos cabem
exclusivamente ao governo anfitrião, em um movimento de demarcar os limites de
sua atuação, em contraste com outras ocasiões em que se colocou de forma
proativa.
As
barreiras migratórias também atingiram a delegação iraquiana. Com a suspensão
dos serviços consulares dos Estados Unidos no Iraque, a obtenção de vistos
tornou-se praticamente inviável para muitas pessoas. Mesmo entre aqueles que
conseguiram viajar, a entrada no país foi marcada pela desconfiança. O atacante
Aymen Hussein foi detido e interrogado por quase sete horas no aeroporto de
O’Hare, em Chicago, antes de ser liberado. Já o fotógrafo Talal Salah
permaneceu retido por mais de dez horas e acabou tendo sua entrada negada após
uma inspeção em seu telefone celular.
Os
episódios relatados são apenas alguns dos exemplos que ilustram como a
circulação de pessoas, longe de constituir um direito universal, permanece
subordinada às exigências da acumulação capitalista. Retomando Marx, Jean-Paul
de Gaudemar argumentava que a liberdade, característica do capitalismo, possui
uma dupla dimensão: o trabalhador seria juridicamente livre para vender a sua
força de trabalho, mas, desprovido dos meios de produção, também é constrangido
a colocá-la em circulação onde o capital demanda. Nessa perspectiva, a
mobilidade do trabalho não representa simplesmente uma possibilidade de se
deslocar, mas uma condição necessária à própria acumulação do capital. O
trabalhador deve estar disponível para ocupar os lugares preparados pelo
capital, adaptando-se às suas necessidades. A liberdade de circular, portanto,
converte-se também em obrigação de circular, sempre que sua sobrevivência
depender da venda da força de trabalho. Não por acaso, enquanto os capitais
investidos nos megaeventos atravessam fronteiras com crescente fluidez, a
mobilidade dos trabalhadores continua seletiva, regulada e permanentemente
administrada pelos Estados.
Essa
contradição permite compreender a migração internacional para além de uma
questão meramente demográfica ou individual. Como procuro demonstrar em meu
livro, os deslocamentos contemporâneos da força de trabalho articulam dimensões
econômicas e sociais mais amplas, nas quais classe, gênero, raça e etnia
participam – de forma central – na organização concreta da mobilidade do
trabalho. A condição migrante não é produzida apenas pelo ato de atravessar uma
fronteira nacional, mas pela posição ocupada por esses trabalhadores na divisão
internacional do trabalho.
Essa
lógica, novamente, não se limita à Copa e aos megaeventos, embora talvez ganhe
mais visibilidade nesse contexto. Em diferentes partes do mundo, a migração
internacional tornou-se um componente cada vez mais importante da organização
contemporânea do trabalho. Para termos uma ideia desse número, de acordo com
estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2024 havia
aproximadamente 304 milhões de migrantes internacionais no mundo. Nesse debate,
uma interpretação dominante costuma explicar as migrações a partir de escolhas
individuais das próprias pessoas, a busca por melhores salários, oportunidades
de emprego ou melhores condições de vida. Evidentemente, essas motivações
existem e fazem parte da experiência de vida de milhões de migrantes. No entanto,
elas pouco explicam por que determinados países passam a demandar contingentes
cada vez maiores de trabalhadores imigrantes em momentos específicos da
história. Para compreender esses movimentos, é preciso deslocar o olhar para as
transformações do capitalismo, incluindo aqui a reprodução social.
Nesse
sentido, a crescente dependência do trabalho imigrante se relaciona também à
crise da reprodução social vivenciada por diversos países de economias
centrais. As migrações internacionais tornam-se respostas encontradas para
suprir a demanda gerada por essa crise, ainda que de forma profundamente
contraditória. Se, por um lado, o trabalho imigrante se torna funcional para o
capital, por outro, permanece submetido a formas particulares de precarização,
segmentação no mercado de trabalho, políticas migratórias restritivas e
diferentes modalidades de controle estatal.
Novamente,
o caso da população brasileira decasségui no Japão é um exemplo privilegiado
nesse debate. Ao examinar a experiência dessa comunidade, procuro mostrar como
os fluxos migratórios articulam-se com as relações de classe, raça, gênero, ao
mesmo tempo que revela os nexos entre a crise da reprodução social, a escassez
da força de trabalho e a incorporação de trabalhadores imigrantes pelas
economias centrais. Embora distantes dos estádios da Copa do Mundo, trata-se da
mesma lógica social que organiza, de forma desigual, a circulação internacional
da força de trabalho.
A atual
questão migratória evidencia ainda que a mobilidade do trabalho não deve ser
confundida com a integração plena. É possível atravessar fronteiras nacionais
e, ao mesmo tempo, permanecer submetido a fronteiras sociais construídas no
interior do mercado de trabalho e dos países receptores. A circulação da força
de trabalho ocorre, assim, dentro de hierarquias que distribuem de maneira
desigual as oportunidades, direitos e condições de vida.
No
capitalismo contemporâneo, a circulação convive em paralelo com a liberdade
para o capital e para parcelas específicas da população, enquanto para outras é
continuamente restringida segundo hierarquias de classe, raça, nacionalidade,
etnia e gênero. A Copa do Mundo não suspende essas diferenças, ao contrário, as
torna mais visíveis. Talvez ela revele menos um mundo sem fronteiras do que as
fronteiras que continuam organizando o mundo. Quem, afinal, tem o direito de
atravessá-las?
Fonte:
Por Mariana Shinohara Roncato, no Blog da Boitempo

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