Irã
inicia nova era política após sepultamento de Khamenei
A
República Islâmica do Irã entra em uma nova era política após o sepultamento de seu líder supremo, o aiatolá Ali
Khamenei, nesta quinta-feira (09/07). Ele foi morto por um ataque aéreo
dos Estados Unidos em 28 de
fevereiro, primeiro dia da guerra, em sua cidade natal, Mashhad, no nordeste do
Irã.
O
enterro ocorre após uma semana de grandes procissões fúnebres, comícios e
cerimônias de luto, coincidindo com uma nova escalada de conflito com os
Estados Unidos, depois de semanas de trégua na guerra que já dura quatro meses.
O sepultamento marca o ponto culminante do funeral no Irã e no Iraque, para o
qual os líderes clericais da República Islâmica incentivaram grande
participação popular, numa tentativa de demonstrar a força e o fervor
ideológico de seu Estado teocrático.
Apesar
de ter resistido a meses de ataques intensos dos Estados Unidos e de Israel, o
Irã enfrenta grandes desafios internos, e o legado dos 37 anos de governo de
Khamenei é fortemente contestado.
Seu
filho e sucessor, Mojtaba Khamenei, estava junto no
momento do ataque e permanece fora da vista do público desde então. Segundo
relatos de pessoas próximas, ele teve vários ferimentos, e seu rosto ficou
desfigurado.O Khamenei mais jovem – terceiro líder supremo da República
Islâmica desde a revolução de 1979 – esteve ausente até mesmo das cerimônias oficiais do
funeral de
seu pai.
Essa
transição de liderança no Irã representa muito mais do que uma simples mudança
no alto escalão do Estado. Ela é a ponta de uma profunda e gradual
transformação nas estruturas de poder que ocorreu ao longo das quase quatro
décadas nas quais Ali Khamenei comandou com mão de ferro o país.
"Ao
contrário do aiatolá Ruhollah Khomeini, que estabeleceu após a revolução um
sistema baseado na legitimidade revolucionária e em sua autoridade pessoal, Ali
Khamenei começou a reestruturar esse sistema de maneira sistemática",
disse o analista político Reza Talebi.
Nos
últimos 37 anos, a influência na política dos clérigos de alto escalão e dos
seminários xiitas diminuiu continuamente, observou ele. Em seu lugar,
instituições de segurança, o gabinete do líder supremo e as redes políticas e
militares associadas a ele tornaram-se cada vez mais dominantes, acrescentou o
especialista.
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Ex-presidentes escanteados pelo regime
Essa
transformação também alterou o papel das instituições eleitas do Irã. Na
avaliação de Talebi, as eleições presidenciais evoluíram cada vez mais para
disputas realizadas dentro de um quadro político previamente definido.
Embora
presidentes de diferentes correntes políticas tenham conseguido perseguir suas
próprias prioridades domésticas, eles tiveram margem limitada de manobra em
áreas estratégicas como política externa, programa nuclear e assuntos
regionais, afirmou Talebi.
Durante
os seis dias de cerimônias oficiais de luto por Ali Khamenei, nenhum dos três
ex-presidentes vivos da República Islâmica – Hassan Rouhani, Mahmoud
Ahmadinejad e Mohammad Khatami – apareceu ao lado de outras figuras de destaque do
establishment político.
Em vez
disso, as imagens oficiais focam em representantes do aparato de segurança, em
especial os comandantes da Guarda Revolucionária
Islâmica,
além do atual presidente, Masoud Pezeshkian.
Acredita-se
que Pezeshkian mantenha uma relação de trabalho próxima com Mojtaba
Khamenei. Ele desempenhou um papel central nas negociações para encerrar a
guerra do Irã. O conflito dos EUA e de Israel contra o Teerã, que se prolonga
após a desintegração de um cessar-fogo, deu lugar a um
processo diplomático que Mojtaba Khamenei acabou aprovando.
Antes
disso, segundo uma declaração atribuída a ele e divulgada pela mídia estatal,
Mojtaba havia adotado, "em princípio", uma posição diferente. Ele
anunciou ter concordado com as negociações depois que o presidente Pezeshkian,
atuando como presidente do Conselho Supremo de Segurança Nacional, garantiu que
"salvaguardaria os direitos do povo iraniano e os interesses do Eixo da Resistência".
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Guarda Revolucionária mais confiante
Ao lado
de Pezeshkian, Mohammad Bagher Qalibaf, ex-comandante da Guarda Revolucionária
e atual presidente do parlamento, também desempenhou papel importante nas
conversas com os EUA.
Em 14
de junho, EUA e Irã concordaram com uma minuta de memorando de entendimento
destinada a servir de base para negociações de um acordo mais amplo. No
entanto, após a mais recente escalada no Estreito de Ormuz, o presidente dos
EUA, Donald Trump, lançou dúvidas
sobre o futuro das negociações com Teerã, sem deixar claro seus próximos
passos.
"O
Irã interpreta o artigo 5º do memorando de entendimento como se a expressão 'a
República Islâmica do Irã fará os arranjos necessários' concedesse ao Irã
autoridade exclusiva para estabelecer as condições necessárias para a
reabertura da passagem [estreito de Ormuz]", escreveu Hamidreza Azizi,
cientista político especializado em política externa e de segurança iraniana,
na plataforma X.
O Irã
considera o controle do Estreito de Ormuz um de seus mais importantes trunfos
estratégicos de negociação. Por isso, Teerã quer impedir a criação de rotas
alternativas de navegação – como as que passariam por águas de Omã e
envolveriam os EUA ou organizações internacionais – sem aprovação iraniana.
A
Guarda Revolucionária desempenhou papel decisivo na escalada do confronto com
Washington. Segundo Mojtaba Najafi, pesquisador baseado na França especializado
em movimentos políticos e sociais emergentes, a guerra envolvendo EUA, Israel e Irã fortaleceu significativamente a confiança da
Guarda Revolucionária como força política e social.
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Disputa interna pelo poder?
A crise
não se traduziu em maior influência para facções moderadas, incluindo
apoiadores do ex-presidente Rouhani, signatário do acordo nuclear de 2015.
"É provável que testemunhemos uma disputa interna pelo poder dentro da
Guarda Revolucionária, e a futura direção do Irã girará em torno desse
eixo", disse Najafi.
Na
avaliação dele, os principais centros de poder do Irã veem poucos motivos para
fazer concessões significativas a forças políticas moderadas fora de sua rede
de influência.
Resta
saber se a elite política tradicional da República Islâmica se unirá em torno
de Mojtaba Khamenei e permitirá que ele redefina os rumos do país, ou se ele
próprio se tornará um instrumento desses grupos de poder.
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Troca de ameaças de EUA e Irã amplia tensão no Oriente
Médio
Os
líderes dos Estados Unidos e do Irã trocaram novas ameaças neste sábado
(11/07), enquanto o acordo provisório para encerrar a guerra enfrenta fortes
tensões no Oriente Médio.
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aumentou as ameaças de novos ataques com
mísseis contra o Irã em uma série de publicações na rede Truth Social.
As declarações ocorreram após altos funcionários americanos exigirem que o Irã
fizesse uma declaração pública afirmando que o Estreito de Ormuz está aberto e
que os navios que cruzam essa importante rota marítima não serão atacados.
Trump
também fez os comentários após o funeral do líder
supremo, aiatolá Ali Khamenei, durante o qual houve manifestações públicas pedindo a morte
do presidente americano.
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"Vingança é a vontade de nossa nação"
Mais
tarde, neste sábado, o líder supremo iraniano Mojtaba Khamenei prometeu que os
iranianos continuariam buscando vingança pela morte de seu pai, Ali Khamenei,
homenageado em cerimônias fúnebres realizadas em todo o Irã nesta semana.
Em
declarações por escrito e lidas pela televisão estatal, ele afirmou que essa
vingança "é a vontade de nossa nação e deve, inevitavelmente, ser
concretizada".
"Essa
questão não depende da minha existência pessoal nem da de outras autoridades.
Estejamos nós presentes ou não, ela acontecerá", acrescentou, em sua
primeira declaração desde o funeral de seu pai.
Até o
momento, Teerã não cedeu às exigências dos EUA relacionadas ao Estreito de Ormuz. Em vez disso,
insiste que a passagem permaneça sob seu controle e que lhe seja permitido
cobrar taxas das embarcações que transitam pelo local.
Nos
últimos dias ocorreram diversos ataques aéreos dos EUA contra
o Irã, além de ações retaliatórias iranianas direcionadas a países do Oriente
Médio. Esses confrontos foram desencadeados após o Irã atacar três navios no
estreito no início da semana.
Na
sexta-feira, Trump declarou na Truth Social que o cessar-fogo havia terminado, mas afirmou que os
Estados Unidos continuariam as negociações. O ministro das Relações Exteriores
do Irã, Abbas Araghchi, viajou para Omã neste sábado para novas conversas,
um dia após mediadores do Catar terem se deslocado ao Irã para reuniões com
autoridades em meio às tensões regionais.
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Trump ameaça "dizimar" Irã
"Mil
mísseis estão armados, prontos para serem lançados e apontados para a República
Islâmica do Irã, com milhares de outros preparados para seguir imediatamente
caso o governo iraniano cumpra sua ameaça”, escreveu Trump em seu site.
O
presidente americano afirmou estar respondendo a ameaças de "assassiná-lo
ou tentar assassiná-lo”. Durante o funeral de Khamenei, diversos participantes
exibiram cartazes e faixas pedindo a morte de Trump e também do
primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
Os
momentos iniciais da guerra, em 28 de fevereiro, incluíram um ataque aéreo que
matou Khamenei, aos 86 anos. O Irã só realizou seu sepultamento nesta semana,
após vários dias de cerimônias fúnebres durante as quais seu corpo foi levado a
cidades do Irã e do Iraque.
Trump
acrescentou que as Forças Armadas dos EUA "dizimariam e destruiriam
completamente todas as áreas do Irã — LOUVADO SEJA ALLAH!”
Ao
longo da guerra e do frágil cessar-fogo, Trump tem repetidamente invocado o
nome de Deus em árabe e ameaçado destruir a própria civilização iraniana. O
Conselho para Relações Islâmico-Americanas (CAIR), organização nacional de
defesa dos direitos civis, já criticou anteriormente o que classificou como a
"zombaria desequilibrada do Islã” feita por Trump.
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Ormuz é principal ponto de discórdia
Autoridades
americanas, que falaram sob condição de anonimato, afirmaram que a retomada dos
ataques nesta semana ocorreu após o que descreveram como uma facção dissidente de linha-dura
iraniana tentando sabotar o cessar-fogo entre Teerã e Washington.
O Irã,
porém, insiste que sua teocracia permanece unificada após a guerra sob a
liderança do novo líder supremo do país.
As
autoridades dos EUA disseram na sexta-feira que Trump está dando aos
negociadores americanos um prazo limitado para alcançar um acordo com o Irã. No
entanto, ressaltaram que o presidente dispõe de diversas opções caso as
negociações fracassem.
Pouco
antes dessas declarações, o representante iraniano nas Nações Unidas afirmou a
jornalistas que qualquer atividade no Estreito de Ormuz, incluindo sua abertura
ou operações de remoção de minas, "depende exclusivamente do Irã”.
Mediadores
do Catar viajaram separadamente ao Irã na sexta-feira para se reunir com
autoridades locais, informou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores
iraniano, Esmail Baghaei.
O Irã
declarou que o estreito deve ficar sob seu controle exclusivo e que as
embarcações devem começar a pagar taxas a Teerã, apesar de o mundo considerar a
rota uma via marítima internacional há décadas. Antes da guerra, cerca de um
quinto de todo o petróleo e gás natural comercializados globalmente passava
pelo estreito.
O
controle iraniano sobre a passagem durante o conflito provocou uma crise
energética mundial, embora os preços do petróleo tenham caído
significativamente desde os picos de guerra, quando atingiram 120 dólares por
barril.
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Tensão no Oriente Médio segue após ataques
Após os
EUA concluírem sua mais recente rodada de ataques na quinta-feira, novos
bombardeios atingiram o Irã, levantando dúvidas sobre quem mais pode estar
atacando a República Islâmica.
Israel
não assumiu a autoria, o que leva à especulação de que países árabes do Golfo
possam estar envolvidos, possivelmente como forma de dissuadir novos ataques
iranianos.
Na
quinta-feira, o Irã respondeu aos ataques dos Estados Unidos ao atingir
Bahrein, Jordânia, Kuwait e Catar.
Os
ataques realizados em território iraniano ao longo de dois dias deixaram pelo
menos 17 mortos e 115 feridos, segundo o porta-voz do Ministério da Saúde do
Irã, Hossein Kermanpour.
Do
outro lado do Estreito de Ormuz, Abbas Araghchi tinha agenda para se reunir
neste sábado com seu homólogo de Omã. O ministro das Relações Exteriores da
Turquia, Hakan Fidan, declarou à emissora estatal TRT que acreditava que “uma
solução pode ser alcançada” neste fim de semana entre Irã e Omã, países
localizados em lados opostos da estreita passagem marítima.
No
entanto, Araghchi acusou os Estados Unidos de violarem o acordo provisório ao
encerrarem as autorizações que permitiam ao Irã vender petróleo bruto no
mercado internacional em dólares americanos. Washington adotou essa medida em
resposta aos ataques contra navios no estreito.
“Chegou
a hora de encarar a realidade: só pode haver cumprimento mútuo”, escreveu
Araghchi na rede social X.
Os
Estados Unidos continuam orientando embarcações a utilizarem uma rota mais ao
sul, através das águas territoriais de Omã, para evitar águas iranianas e a
atuação da Guarda Revolucionária. Essa orientação
irritou Teerã e provocou os ataques no estreito.
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EUA: acordo nuclear exigirá entrega do urânio enriquecido
As
autoridades americanas também informaram aos jornalistas que qualquer acordo
relacionado ao programa nuclear iraniano exigirá que Teerã entregue seu estoque
de urânio altamente enriquecido. Trata-se de uma exigência que o Irã tem
rejeitado repetidamente.
Segundo
essas autoridades, caso os Estados Unidos não consigam firmar um acordo para
que o Irã entregue seu material nuclear, existem opções militares para garantir
que esse material permaneça enterrado no subsolo de forma permanente. Os
representantes não forneceram detalhes sobre essas alternativas.
Acredita-se
que o urânio, enriquecido a níveis próximos aos necessários para a fabricação
de armas nucleares, esteja armazenado em instalações nucleares que foram
bombardeadas pelos Estados Unidos em 2025. O Irã sustenta há muito tempo que
seu programa nuclear tem fins pacíficos, apesar de a Agência Internacional de
Energia Atômica (AIEA) afirmar que a República Islâmica é o único país do mundo
a enriquecer urânio a níveis tão elevados sem possuir oficialmente um programa
de armas nucleares.
As
autoridades americanas também enfatizaram que jamais chegarão a um acordo
nuclear com o Irã caso o país não interrompa previamente os ataques contra
navios no Estreito de Ormuz.
Fonte:
DW Brasil

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