segunda-feira, 13 de julho de 2026

Mais de 90% das cidades brasileiras sofreram desastres climáticos nos últimos 30 anos

Eventos climáticos extremos estão se tornando cada vez mais frequentes e severos. O El Niño previsto para 2026-2027 é um desses eventos. Esses fenômenos têm causado impactos ambientais, econômicos e sociais no Brasil, exigindo políticas públicas específicas. Para transformar dados científicos em base para o desenvolvimento de medidas de prevenção, adaptação e mitigação, um grupo de pesquisadores brasileiros analisou aproximadamente 60 mil registros de desastres hidrogeológicos no Brasil entre 1991 e 2024.

Eles descobriram que 91,5% dos 5.570 municípios relataram pelo menos um desastre relacionado a inundações, alagamentos, enchentes repentinas, deslizamentos de terra, tempestades ou secas durante esse período. Especificamente, 1.814 cidades sofreram pelo menos um incidente causado por três desses fatores, enquanto outras 270 cidades sofreram com todos eles. O Nordeste teve o maior número de cidades afetadas (1.765), seguido pelo Sudeste (1.405), Sul (1.152), Norte (433) e Centro-Oeste (342).

Os pesquisadores mapearam diversos impactos, incluindo mortes e perdas econômicas. O Sudeste registrou o maior número de mortes relacionadas a inundações, alagamentos, enchentes repentinas e deslizamentos de terra; o Sul, o maior número de mortes relacionadas a tempestades; e o Nordeste, o maior número de mortes relacionadas à seca. Inundações ocorrem quando um rio transborda. Alagamentos ocorrem quando o sistema de drenagem não consegue lidar com o volume de água. Enchentes repentinas são um tipo de inundação que ocorre quando uma grande quantidade de chuva cai em um curto período de tempo.  

Ao analisar os danos por região, incluindo danos materiais diretos e consequências indiretas que afetam a economia e a resiliência local, inundações, alagamentos e enchentes repentinas tiveram o maior impacto no Sul. Deslizamentos de terra e secas afetaram mais o Nordeste, e tempestades afetaram mais o Sudeste. 

Exemplos incluem São Sebastião, cidade no litoral norte do estado de São Paulo que ficou parcialmente isolada durante o Carnaval de 2023 devido a chuvas recordes, que causaram pelo menos 60 mortes e danos à infraestrutura, e a pior tragédia relacionada ao clima no Rio Grande do Sul. Em maio de 2024, tempestades afetaram 2,3 milhões de moradores em 471 municípios do estado, causando mais de 180 mortes.

O estudo, conduzido por cientistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta Precoce de Desastres Naturais (CEMADEN), da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foi  publicado  na edição de abril da Environmental Research Letters , uma revista que busca chamar a atenção de formuladores de políticas e da comunidade científica para questões socioambientais.

“Queríamos desmistificar a ideia de que um desastre é algo sobrenatural, que suas causas decorrem de forças desproporcionais. Existem exceções que os modelos climáticos não conseguem prever, mas, na maioria dos casos, agências nacionais como o CEMADEN emitem alertas e as autoridades públicas são informadas sobre o que pode acontecer. O problema reside na negligência, na falta de infraestrutura e até mesmo na inação. Decidimos denominá-los desastres socioambientais ou socioambientais porque existe um fator agravante antropogênico – não apenas relacionado às mudanças climáticas, mas também a falhas na gestão pública”, afirma Elton Vicente Escobar Silva , primeiro autor do estudo e pesquisador do CEMADEN que realizou esta pesquisa como parte de seu trabalho de pós-doutorado.

Silva destaca que o Brasil tem avançado nos últimos anos no desenvolvimento de bancos de dados e no fornecimento de informações que auxiliam na compreensão de desastres. No entanto, o país ainda enfrenta desafios na coleta de dados e nas estruturas institucionais para o monitoramento.

<><> Desafios

Segundo os resultados, os 59.658 desastres naturais analisados resultaram em pelo menos 4.774 mortes e 3.031 desaparecidos, afetando mais de 129,79 milhões de pessoas. Estima-se que os prejuízos econômicos tenham ultrapassado US$ 123,89 bilhões.

No entanto, os pesquisadores alertam que esses números tendem a ser maiores do que os encontrados nos bancos de dados. Isso ocorre porque os resultados foram obtidos a partir de dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres ( S2iD ) e do Atlas Digital de Desastres no Brasil . Ambas as plataformas são de acesso público e gerenciadas pelo Departamento Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC).

Esses registros são autodeclarados pelos municípios e servem, entre outros propósitos, para buscar financiamento do governo federal quando as administrações locais e estaduais não têm capacidade para lidar e responder a eventos adversos que afetam o município. Em outras palavras, muitos casos podem ter resultado em perdas ou fatalidades não relatadas porque as administrações locais conseguiram gerenciar a situação por conta própria ou devido à falta de infraestrutura de registro.

Um levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM) estima que aproximadamente 1.660 cidades no Brasil não possuem um departamento de defesa civil organizado. Além disso, um estudo publicado no ano passado mostrou que os departamentos de defesa civil precisam investir em profissionalização e em seus próprios recursos para lidar com os riscos climáticos. 

Em entrevista à Agência FAPESP , Silva aponta que a abordagem de coleta de dados utilizada por essas plataformas não considera os eventos simultaneamente, nem adota uma perspectiva de “multirrisco”. Por exemplo, se um deslizamento de terra foi causado por uma enchente, apenas a enchente seria registrada. Outro problema é a imprecisão no registro das causas de óbitos durante desastres.

A plataforma S2iD disponibiliza dados apenas a partir de 2013, com sua base de dados se expandindo ao longo dos anos. A porcentagem de cidades que relataram desastres aumentou de 29% em 2013 para 88% em 2024. Isso cria lacunas na relação entre o aumento nos registros de desastres naturais e os fatores climáticos.

Com relação às estimativas monetárias de perdas econômicas, os sistemas continham informações até 2024, ano em que o estudo foi concluído (com dados do ano anterior ajustados pela inflação).

Por meio de sua assessoria de imprensa, a SEDEC informou à Agência FAPESP que está desenvolvendo uma nova versão do S2iD, com lançamento previsto para este ano, bem como um novo Atlas Digital de Desastres. Esses sistemas permitirão o registro de eventos utilizando uma abordagem multirrisco e atualizações contínuas de informações após o reconhecimento federal.

“Para superar limitações históricas, como a falta de detalhes sobre vítimas humanas e a subnotificação em nível municipal, a nova plataforma permitirá a desagregação de dados por gênero e faixa etária. Ao mesmo tempo, o SEDEC fortalecerá o alcance do sistema por meio de treinamento técnico e ensino a distância para gestores locais. Essa reestruturação visa reduzir as disparidades entre as agências de defesa civil estaduais e municipais, consolidando o S2iD como ferramenta para o planejamento e a formulação de políticas públicas”, afirmou o departamento. Um de seus membros, Lucas Mikosz, foi listado como um dos autores do artigo.

<><> Prevenção

Segundo Victor Marchezini , sociólogo, pesquisador do CEMADEN e autor do artigo, é necessário investir em mecanismos que visem reduzir as perdas, em vez de apenas se recuperar delas.

“Este estudo fornece uma análise longitudinal dos impactos de desastres no Brasil, o que é importante para demonstrar que eles decorrem de uma crise crônica, e não de um evento isolado. Precisamos parar de tratar as perdas econômicas como algo inevitável. Até quando continuaremos investindo apenas em resposta a desastres e reconstrução sem considerar mecanismos para reduzir as perdas?”, questiona Marchezini, coordenador do projeto Capacidades Organizacionais para Preparação para Eventos Extremos (COPE), financiado pela FAPESP .

A fundação apoiou a pesquisa por meio de bolsas concedidas a Silva (21/11435-4  e 24/02748-7), bem como o Centro de Pesquisa, Inovação e Divulgação em Neuromatemática (NeuroMat) e dois outros projetos (20/09215-3 e 23/13453-5). 

“Nosso objetivo é garantir que a ciência contribua para o desenvolvimento de políticas públicas. É um esforço para assegurar que os resultados cheguem à sociedade”, conclui Silva. Para sua pesquisa de doutorado, Silva combinou modelos que preveem a expansão urbana, mudanças no uso do solo e hidrodinâmica. Essa combinação criou uma metodologia que pode fornecer informações geográficas identificando locais em cidades com maior risco de inundações, incluindo aquelas causadas por chuvas extremas

¨      A árvore vilã de incêndios florestais em todo o mundo

Todos os anos, mais de 400 mil peregrinos percorrem o Caminho de Santiago, na região espanhola da Galícia, atravessando colinas enevoadas e densas áreas de floresta. Mas grande parte da mata que cerca a rota de peregrinação espanhola já não é nativa.

Em vez de carvalhos e castanheiros típicos da região, amplas áreas do noroeste da Espanha passaram a ser dominadas por eucaliptos.

Essa transformação não é exclusiva da Galícia. Valorizadas pelas indústrias de celulose e madeira por seu rápido crescimento e alta rentabilidade, vastas monoculturas da árvore originária da Austrália foram implantadas em lugares como Brasil, Chile, Califórnia, Índia e África do Sul.

Globalmente, as plantações de eucalipto já cobrem 22 milhões de hectares em mais de 90 países e, em muitas regiões, tornaram-se um dos pilares das economias rurais. Mas, sob copas aparentemente tranquilas, escondem-se paisagens vulneráveis a incêndios florestais extremos, já que a espécie é altamente inflamável e chegou a ser apelidada por ativistas de "árvore de gasolina".

Nos últimos anos, incêndios devastadores potencializados por monoculturas de eucalipto foram registrados em lugares distantes, como o Chile em 2017 e 2023, Portugal em 2017 e 2024 e os estados americanos do Havaí em 2023 e Califórnia em 1991.

<><> Onda de calor na Europa acende alerta

A Europa enfrenta um verão de temperaturas sufocantes, com ondas de calor excepcionalmente precoces ampliando os riscos de incêndios.

Partes do sul do continente europeu foram atingidas nos últimos dias. O ano passado foi o pior já registrado em termos de incêndios florestais, com mais de 1 milhão de hectares queimados — grande parte deles na Península Ibérica.

Pesquisadores afirmam que, embora os eucaliptos não sejam responsáveis por iniciar esses incêndios, eles podem intensificá-los consideravelmente.

"As florestas de eucalipto estão claramente entre as mais inflamáveis que existem no mundo", disse à DW Tim Curran, da Universidade Lincoln, na Nova Zelândia.

"Se você introduz um eucalipto em um novo ambiente, é muito provável que altere o que chamamos de regime de incêndios. Isso inclui aspectos como intensidade, frequência, temperatura alcançada pelo fogo e a frequência com que os incêndios ocorrem."

As folhas dessas árvores contêm óleos altamente inflamáveis, e pedaços de sua casca podem se transformar em brasas em chama. Em condições extremas, essas brasas podem percorrer grandes distâncias e provocar novos focos de incêndio, como ocorreu nos devastadores incêndios do chamado "sábado negro" na Austrália, em 2009.

"Havia evidências de que brasas foram carregadas pelo vento por mais de 30 quilômetros além da linha principal do incêndio, iniciando novos focos", afirmou Curran, acrescentando que não se tratou de um caso isolado.

Na Galícia, os plantios podem facilmente ultrapassar seus limites originais porque, enquanto carvalhos e castanheiros nativos podem levar mais de 80 anos para atingir a maturidade, o eucalipto precisa de apenas 15. Como resultado, a espécie se recupera rapidamente quando incêndios devastam uma paisagem, obtendo uma vantagem competitiva sobre as árvores nativas.

Isso cria um ciclo de autorreforço que acaba permitindo a expansão das monoculturas, aumentando o risco de incêndios florestais.

<><> Eucalipto divide opiniões

As plantações de eucalipto na Galícia remontam à década de 1970, mas ganharam força duas décadas depois.

Em 1992, o governo regional divulgou um plano florestal que projetava que os eucaliptais alcançariam 250 mil hectares até 2030. Foram necessários 30 anos para atualizar o plano, período durante o qual a expansão do eucalipto avançou sem controle.

"Agora são cerca de meio milhão de hectares, o que representa uma quantidade enorme de terra", afirmou o líder comunitário local Joam Evans Pim.

Embora o governo regional tenha posteriormente imposto uma moratória sobre novas plantações de eucalipto, ativistas afirmam que a fiscalização continua desigual e que os plantios ilegais persistem.

Por um lado, há dinheiro envolvido no eucalipto. As plantações da Galícia, que abastecem principalmente as indústrias de celulose e madeira, geraram 167 milhões de euros (cerca de R$ 985 milhões) em 2024.

Mas também há problemas de gestão. À medida que as novas gerações abandonam o estilo de vida rural rumo aos centros urbanos, deixam para trás plantações sem controle.

"[A expansão do eucalipto] ocorre tanto por causa das plantações, muitas delas ilegais, quanto pelo abandono das terras, pelos incêndios florestais e pelo caráter invasor da espécie. É a combinação de todos esses fatores que levou a esse resultado."

<><> O que o governo fez e deixou de fazer

Críticos acusam as autoridades regionais de terem falhado por muito tempo em controlar a expansão. Luisa Piñeiro, diretora-geral de gestão florestal do governo da Galícia, disse à DW que houve falhas no passado.

"Naquela época [na década de 1990], provavelmente não havia uma gestão florestal adequada. Não havia tanto controle sobre as plantações nem sobre as espécies que estavam sendo plantadas", afirmou.

Apesar disso, o governo não classifica o eucalipto como espécie invasora, e Piñeiro rejeita pedidos de proibição total. Em vez disso, defende uma gestão mais eficiente e maior diversidade de espécies.

"Em vez de proibir coisas, devemos primeiro ter um plano de gestão florestal", disse. "Acreditamos que as florestas devem ter a diversidade de espécies que deveriam ter."

<><> Galícia começa a lidar com o legado do eucalipto

Observando as terras de sua comunidade em Froxán, cerca de 40 quilômetros a oeste de Santiago de Compostela, Evans Pim relembra os incêndios que transformaram as colinas da região.

"Esta é uma área que foi afetada por um incêndio muito grande em 2006. Todas as áreas florestais ao redor da aldeia queimaram e, depois disso, foram invadidas pelo eucalipto", disse à DW.

Quando um novo incêndio atingiu a região dez anos depois, a comunidade decidiu agir.

Foi criado o grupo voluntário Brigadas Anti-Eucalipto, que trabalha para conscientizar a população sobre espécies como o eucalipto e removê-las de terras comunitárias. O que começou com uma equipe de 50 pessoas hoje reúne 1.500 integrantes em toda a Galícia.

"Temos eliminado o eucalipto e permitido que árvores nativas ocupem esse espaço", afirmou Evans Pim. "Queremos criar um cinturão verde de proteção contra incêndios... e, no futuro, pretendemos ter uma área que se administra sozinha. Onde não precisemos intervir e que seja resiliente ao fogo, às mudanças climáticas e às secas prolongadas."

Os devastadores incêndios de Portugal em 2017, que vitimaram dezenas de pessoas que tentavam escapar das chamas, servem como alerta.

"Portugal viveu essa experiência há alguns anos; pessoas morreram queimadas dentro de seus carros", disse. "Esperamos sinceramente não precisar chegar a esse ponto para que haja mudanças reais na aplicação das leis existentes e para que todas as leis sejam aperfeiçoadas e levadas a sério."

Essa mensagem é cada vez mais ecoada por cientistas, entidades do setor florestal e ativistas, que afirmam que áreas sem manejo adequado estão se tornando um dos maiores perigos relacionados a incêndios, não apenas na Europa, mas em todo o mundo.

Pesquisadores afirmam que os benefícios econômicos do eucalipto precisam ser cada vez mais equilibrados com os riscos crescentes de incêndios florestais.

"Há espaço para o eucalipto, há espaço para a indústria de celulose, sem dúvida", afirmou Joaquim Sande Silva, da Universidade Politécnica de Coimbra. "Mas deve haver regras muito rigorosas sobre como essas plantações são feitas e quais ecossistemas estão sendo substituídos."

 

Fonte: Por Luciana Constantino, da Agência FAPESP/DW Brasil

 

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