Ninguém
fala comigo no clube
O
Brasil já foi em outras épocas, não tão remotas, um país basicamente tolerante
e pacífico. A política não costumava ser motivo de controvérsias apaixonadas,
pelo menos não em comparação com o que geralmente se vê nos outros países.
Reinava em relação aos partidos e aos políticos um ceticismo bem-merecido.
Mudamos.
Com a ascensão da extrema direita, ficamos divididos e polarizados. A
polarização é claramente assimétrica. De um lado, temos a centro-esquerda, bem
centrista, bem moderada – os eleitores de Lula e do PT. O próprio Lula não se
assume como de esquerda e chega a negar essa condição publicamente. De outro
lado, temos uma nova direita extremada, vociferante e agressiva. Vota em Jair
Bolsonaro, ou em quem quer que ele indique, de olhos fechados. De um lado, um
comedimento envergonhado; do outro, um dogmatismo desenfreado.
O
Brasil é um país continental e a tendência à intolerância da nova direita não
acontece na mesma medida em todas as regiões. A história que quero contar se
passa na região Sul, em Florianópolis, onde resido.
Sou um
tenista bem cabeça de bagre, apesar de jogar há vários anos num clube de tênis
aqui no norte da Ilha. Tomo aulas regulares, uma ou duas vezes por semana.
Natural que ficasse conhecido e fizesse algumas amizades no clube. Sentia,
entretanto, dificuldade em me enturmar. Uma certa frieza, uma certa distância
parecia prevalecer. Paciência. Dei de ombros e segui com as minhas aulinhas.
Um dia,
por vias tortas, compreendi tudo. A minha companheira, Lavínia, que mora em
Brasília, veio me visitar. Fomos juntos ao supermercado mais próximo e eis que
ocorre um fato singular, meio cômico, meio lamentável, típico dos novos tempos.
Ao chegar no supermercado, dividimos as tarefas; Lavínia foi para um lado, eu
para o outro.
Ela
esbarra então com um antigo conhecido, que há muito tempo não via, e foi
explicando que estava em Florianópolis por causa do namorado que morava no
bairro. “Eu sei”, respondeu o sujeito friamente. “Ele joga tênis no mesmo clube
que eu. É um petista roxo. Ninguém fala com ele no clube”.
Bem que
eu desconfiava. Estava explicado o meu isolamento, a minha dificuldade de fazer
amigos e encontrar parceiros de tênis. Era puramente político o problema.
Ninguém queria confraternizar ou bater bola com “um petista roxo”.
Ora,
não sou petista, nunca fui. E muito menos roxo. Tenho minhas reservas em
relação ao partido e ao próprio Lula há décadas, desde quando participei da
campanha eleitoral de 1994, aquela que terminaria com a vitória de Fernando
Henrique Cardoso já no primeiro turno. Isso foi graças ao Plano Real, como o
leitor talvez lembre. O que me impressionou na época foi o despreparo dos
economistas e dirigentes do PT para fazer face à ameaça eleitoral que o
programa de estabilização representava.
Conto o
episódio em rápidas pinceladas. A experiência brasileira e de outros países que
experimentavam inflação alta era muito clara. Por diferentes métodos, era
perfeitamente possível estabilizar a moeda em pouco tempo. E essa estabilização
sempre se mostrava muito popular.
Nada
melhor, portanto, que lançar um plano de estabilização às vésperas de uma
eleição, identificando o plano com determinado candidato, no caso Fernando
Henrique Cardoso. A identificação era fácil, pois ele havia sido Ministro da
Fazenda do governo Itamar Franco e ostentava o mérito de ter reunido uma equipe
de economistas experientes, capaz de preparar o plano.
Isso
tudo estava claro para mim e um grupo minoritário de economistas do PT. Fizemos
o possível para alertar Lula e o comando do partido sobre o risco mortal que o
Plano Real, na época conhecido como Plano FHC, representava para a candidatura
petista. Defendemos a necessidade de apresentar uma avaliação sóbria do plano e
oferecer alternativas bem-elaboradas. Colocamos nossas advertências em notas
que circularam dentro do partido.
Conversei
diversas vezes com o próprio Lula, explicando que aí residia o grande risco
para a sua candidatura. Economistas e outras figuras influentes do PT
rejeitaram nosso alerta. Lula ficou em cima do muro. A orientação negativa, não
raro extremadamente negativa, acabou prevalecendo. Resultado: a candidatura de
Lula foi vista pela população como adversária de um plano que se mostrava capaz
de debelar a inflação com rapidez. Caixão.
Depois
disso, resolvi tomar distância de Lula e do PT. Nunca me filiei ao PT ou a
qualquer outro partido. Não me identificava com nenhuma das correntes políticas
relevantes no país. Talvez por individualismo excessivo, preferi até hoje me
manter independente de partidos políticos e governantes. Um certo paradoxo: eu,
homem de esquerda, sempre fui visceralmente individualista. Mas, enfim, temos
todos nossas contradições.
Volto
ao clube de tênis. Como explicar tudo isso a um bolsonarista? Nada se
modificou. Continuo incompreendido e rejeitado por tenistas da nova direita.
meu isolamento continua total. Sem parceiros, sem amigos, sigo tranquilo a
minha trajetória individual.
Quem
mandou morar em Santa Catarina?
Fonte:
Por Paulo Nogueira Batista Jr., em A Terra é Redonda

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