Waldomiro
J. Silva Filho: O dissenso na universidade
Um
grupo de pesquisadoras e docentes trouxeram para o debate público o tema do
pluralismo e do dissenso nas universidades públicas brasileiras. São alguns
artigos e colunas publicados por importantes veículos de imprensa, incluindo
este site e um documento intitulado Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade
Acadêmica.[1]
Muitas
pessoas apoiaram (até esta data são mais 1.600 de 170 instituições), outras,
não. Algumas pessoas não só discordaram, como também usaram o mesmo espaço
público para criticar com artigos e colunas e com um documento intitulado “Em
defesa do Pluralismo Encarnado: Contra-manifesto pela igualdade democrática nas
Universidades”.[2] Esse conflito de opiniões é legítimo e necessário.
Algo
que tem passado à margem é que todas essas manifestações (pró e contra), a
despeito das divergências, estão baseadas em um mesmo terreno comum, qual seja,
a defesa intransigente da universidade pública de excelência e socialmente
inclusiva e do valor da ciência, do pluralismo de ideias e da justiça social
como norteadores das práticas acadêmicas.
Posto
isso, você pode se perguntar, onde repousa o desacordo? Ou melhor, por que
pesquisadoras e pesquisadores, muitos dos quais de grande destaque no mundo
acadêmico, se colocam em posições antagônicas quando se trata de pluralismo
acadêmico?
Tenho
cá comigo algumas hipóteses que gostaria de compartilhar. Críticas ao meu
raciocínio, é claro, serão muito bem recebidas.
Começando
do começo: o Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica (a partir de
agora só Manifesto) pretendeu, como seu principal objetivo, colocar sobre a
mesa do espaço público um problema e, com isso, motivar a própria universidade
e a sociedade a discutir o assunto. O manifesto parte da ideia de que o
pluralismo de perspectivas, métodos e posições intelectuais constitui uma
condição essencial da vida universitária e do progresso do conhecimento em
todas as áreas.
A
universidade é apresentada como um espaço institucional destinado ao livre
exame de ideias, ao dissenso argumentado e ao conflito entre teorias e métodos
científicos e filosóficos divergentes, sem os quais a atividade acadêmica perde
sua capacidade crítica e investigativa. Sobre isto, parece-me, todos estão de
acordo.
Contudo,
e este é o nó da querela, o Manifesto chama atenção para a ocorrência
crescente, no interior dos campi, de situações que contrariam esse ideal, como
campanhas de intimidação, notas de repúdio, tentativas de cancelamento de
eventos, boicotes a aulas, constrangimentos públicos e nas redes sociais e
outras formas de pressão dirigidas a docentes, pesquisadores e estudantes em
razão de suas opiniões.
O
manifesto sustenta que tais práticas comprometem a liberdade acadêmica e
corrompem o ambiente universitário. Para afirmar isso, o Manifesto se baseia em
dados preliminares que estão sendo reunidos em pesquisas recentes aqui e no
exterior.
Por
fim, o Manifesto sugere que as universidades, reconhecendo que há de fato um
problema aqui, criem estratégias e iniciativas institucionais voltadas à
proteção do pluralismo e do saudável direito ao dissenso.
Por que
isso poderia motivar uma divisão tão radical entre pesquisadoras e
pesquisadores igualmente bem-intencionados, com boa formação acadêmica e
pluralistas? E o que motivou o aparecimento de um Anti-Manifesto e várias
manifestações públicas?
De
antemão eu digo que o Manifesto pode estar equivocado na sua avaliação do
estado das coisas e ter baseado seu diagnóstico em pressupostos conceituais e
bases empíricas que podem ser revistas (como tudo na ciência). Isso quer dizer
que o aparecimento de desacordos em relação ao teor e metodologia do Manifesto
são importantes e bem vindos. Afinal, não há como nos protegermos de críticas
na vida universitária.
Em
epistemologia social há uma área que se chama “epistemologia dos desacordos”
que trata, entre outros assuntos, da ideia de que muitas vezes existem “falsos
desacordos”. Um falso desacordo ocorre quando as pessoas parecem discordar
entre si, mas, após análise cuidadosa, percebe-se que não existe uma
divergência genuína acerca da mesma proposição ou da mesma questão.
Ou
seja, os interlocutores acreditam estar em desacordo, mas a aparência de
conflito decorre de fatores como (a) ambiguidades linguísticas (usa-se a mesma
palavra em sentidos variados), (b) diferenças de pressupostos (tratam de
concepções teóricas irredutíveis entre si ou de problemas diferentes), (c)
referem-se a contextos distintos ou simples em virtude de (d) mal-entendidos.
Posso
estar enganado, mas as críticas que tive acesso até o presente (especialmente o
Anti-Manifesto) se encaixam em um ou mais dos critérios que caracterizam um
falso desacordo.
Vamos
por pontos.
<><>
O valor da universidade pública
As
críticas ao Manifesto deslocam a discussão dos argumentos explícitos do
Manifesto e se volta para a defesa geral das universidades públicas
contra-ataques externos. Aqui há claramente um falso desacordo, pois sobre
isso, a defesa da universidade, não há qualquer divergência evidente. Como
sabemos, a universidade, bem como a imprensa e a ciência, com a emergência de
movimentos de extrema direita em vários lugares do mundo, inclusive no Brasil,
tem sido objeto de constantes ataques. Todos estamos de acordo que é mais do
que necessário, é urgente uma defesa da universidade pública e gratuita.
O texto
do Manifesto não faz qualquer crítica às universidades públicas nem expressa
posições anticientíficas e antidemocráticas. Ao contrário do que alguns
escreveram e repercutiram em redes sociais, o Manifesto não sustenta que as
universidades públicas sejam instituições fracassadas nem que estejam dominadas
por uma censura institucional formal.
Críticas
ao Manifesto parecem tratar a percepção de intimidação ou de restrição ao
debate acadêmico como um fenômeno inexistente, episódios isolados ou meramente
marginal por falta de evidências de censura institucional formal. Essa objeção,
porém, desvia o foco: o documento não fala em repressão oficial, mas em
constrangimentos informais, um fenômeno sociologicamente bem documentado, que
inibem a manifestação de opiniões divergentes que explorem hipóteses
impopulares em debates potencialmente controversos.
A
ausência de proibições formais não garante, por si só, a existência de um
ambiente intelectualmente aberto. Processos de estigmatização, isolamento,
exposição pública, campanhas de desqualificação nas redes sociais ou pressões
exercidas por grupos organizados podem produzir efeitos significativos sobre a
dinâmica da investigação e do debate acadêmico.
Ainda
que tais mecanismos não impeçam a manifestação de determinadas posições, eles
podem elevar os custos sociais e profissionais associados ao dissenso,
favorecendo a autocensura e reduzindo a diversidade efetiva de perspectivas
presentes na vida universitária.
<><>
O que é pluralismo?
As
críticas parecem pressupor que o argumento do pluralismo no Manifesto constitui
uma crítica implícita às recentes políticas de inclusão, diversidade ou
democratização do ensino superior. Segundo esse tipo de raciocínio, a
“universidade já é plural” e, consequentemente, não haveria sentido expressar
uma nova defesa do pluralismo. A única razão, dizem os críticos, que poderia
explicar o surgimento do Manifesto seria uma reação conservadora de direita
incomodada com o pluralismo real e o reconhecimento dos saberes populares,
tradicionais e dissidentes que teriam surgido das ações afirmativas e
inclusivas que têm incluído vozes “historicamente marginalizadas”.
Certamente
há aqui um uso semântica e epistemicamente ambíguo de “pluralismo”, pois
confunde o conteúdo das diferentes posições morais, políticas e culturais com
as condições que tornam possível o confronto efetivo de opiniões. Ora, a
tradição universitária moderna sempre distinguiu entre, de um lado, o valor de
uma crença e o “direito” legítimo de alguém a sustentar e, do outro, a
“obrigação” de submeter essa crença à discussão crítica.
A
liberdade acadêmica não existe para proteger convicções em conformidade com
orientações políticas, ideológicas ou religiosas, mas para garantir que a
legitimidade epistêmica de uma ideia deve ser decidida por meio de
argumentação, crítica e escrutínio público.
Há um
lapso ou omissão injustificada quando se acusa o Manifesto de ir de encontro às
políticas consolidadas de inclusão. E, com isso, há ainda o risco de se cair em
alternativas falaciosas: ou se defende a inclusão democrática ou se defende o
pluralismo e a liberdade; ou se defende a diversidade ou o pluralismo. Pelo
contrário, uma universidade genuinamente plural deveria ser capaz de ampliar o
acesso e, simultaneamente, proteger a diversidade de perspectivas intelectuais.
O Manifesto não só reconhece o valor dessas políticas como sugere que elas
devem ser aperfeiçoadas pela autocrítica da própria comunidade universitária.
<><>
Quem sãos os interlocutores nesse debate?
Como
escrevi logo no início, o desacordo entre aqueles que apresentaram o Manifesto
e os que o criticaram é, por princípio, legítimo e relevante. Porém, procurei
indicar que, do meu ponto de vista, sob certos aspectos, uma parte do debate
está baseado em um falso desacordo.
Na
minha área de estudo, a epistemologia, desacordos não só são importantes, como
são condição necessária do próprio progresso do conhecimento. Em sociedades
democráticas, os desacordos são constitutivos da dinâmica política (por isso
temos partidos políticos, eleições periódicas e legislação que protege o
conflito legítimo). Porém, há um elemento indispensável para que os agentes
humanos possam participar desses desacordos: é necessário reconhecer a
humanidade e racionalidade do interlocutor, principalmente, daquele que
sustenta crenças distintas da nossa.
Quando
só aceitamos, como legítimas, as opiniões de pessoas com as quais concordamos e
rejeitamos todas as outras e estamos dispostos a cooperar com as primeiras e
não com as outras, o nome disso é tribalismo; quando aceitamos a plausibilidade
da opinião de pessoas que pensam diferente de nós, o nome disso é diálogo,
conversação, enfim, democracia.
O que
eu percebi em algumas críticas dirigidas ao Manifesto é que quase sempre essa
cláusula do desacordo dialético é desrespeitada: expressões como “fascistas”,
“neoliberais” (seja lá o que isso signifique), “colonialistas”, “racistas”,
“inimigos de negros, trans e indígenas” etc. servem exclusivamente para colocar
o possível interlocutor no campo inacessível da monstruosidade, daquelas
pessoas que liminarmente devem ser descartadas como interlocutores legítimos.
A
substituição do argumento pela desqualificação pessoal, aquilo que os lógicos
chamam de falácia ad hominem do tipo “Não devemos levar a sério o argumento
dele sobre liberdade acadêmica porque ele é conservador”, só cria obstáculos
para a cooperação intelectual e a agência conjunta para a proteção a
universidade pública.
Isso
não pode dar certo, pois não se trata de uma guerra cultural, de uma batalha
moral, mas deveria ser algo próximo a um “seminário”, um “debate” entre
colegas. O Manifesto não inventou um problema nem quer militar contra a
universidade públicas, cotas etc. O Manifesto pode estar certo ou errado em seu
diagnóstico empírico, pois existem poucos dados e pesquisas qualificadas; sua
pretensão, como eu já disse, foi, de um lado, apenas colocar na mesa o problema
e motivar a sociedade e a universidade a discutir o assunto e, do outro, dar um
recado para as pessoas que se sentem agredidas no ambiente universitário de que
elas não estão sós.
O
debate em torno do pluralismo e do dissenso nas universidades públicas, longe
de significar uma fratura irreparável, deve revelar a vitalidade de uma
comunidade acadêmica disposta a examinar criticamente suas próprias práticas.
Como sugeri neste artigo, é possível que boa parte do conflito decorra de
mal-entendidos conceituais e do deslocamento do foco do debate, confundindo-se
a defesa do pluralismo com oposição às políticas de inclusão ou a denúncia de
constrangimentos informais com ataque às universidades públicas.
O que
une os participantes desse debate deveria ser mais relevante do que aquilo que
os separa: a defesa intransigente da universidade pública, socialmente
inclusiva e comprometida com a excelência acadêmica. O dissenso, quando
exercido com respeito mútuo e fundamentado em argumentos, não enfraquece essa
instituição; ao contrário, é condição de sua própria existência como espaço de
produção crítica de conhecimento.
Para
que o desacordo cumpra sua função epistemológica e social, porém, é
indispensável reconhecer a legitimidade e a racionalidade do interlocutor,
mesmo quando suas posições divergem profundamente das nossas.
O
Manifesto, esteja certo ou errado em seu diagnóstico, presta um serviço
inestimável ao trazer à tona uma questão incômoda e carregar consigo uma má
notícia (eu já ia esquecendo de dizer que uma parte expressiva da sociedade
civil tem as mesmas interrogações… e isso deveria nos deixar muito
preocupados). Que suas teses sejam questionadas, aperfeiçoadas ou mesmo
refutadas, isso é o esperado em uma comunidade científica. O que não se pode
esperar é que o debate se encerre antes mesmo de começar, por incapacidade de
reconhecer a gravidade de um problema. Não atire no mensageiro.
Fonte:
A Terra é Redonda

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