Segurança:
a esquerda diante de seu calcanhar-de-aquiles
Há pelo
menos dois anos, violência – um termo amplo, porém repleto de sentidos
políticos – é a resposta mais frequente dos brasileiros quando indagados sobre
a “maior preocupação em relação ao país”. Na última pesquisa Quaest, divulgada
em junto, foi escolhida por 30% dos entrevistados, bem à frente de corrupção
(19%), problemas sociais (18%), economia (13%), saúde (13%) e educação (5%). As
consequ³encias são conhecidas e graves. Na disputa eleitoral, as várias alas de
uma ultradireita hoje dividida — mas não batida – vem na bandeira da
“segurança”a principal aposta para vencer em 2026.
Mas a
contaminação vai muito além das eleições. Avançam no Congresso, muitas vezes
com apoio popular, os projetos do punitivismo, como a redução da idade penal.
As periferias, de onde poderia partir a luta pelo resgate da riqueza e dos
direitos, permanecem paralisadas pelo crime organizado, pelo estado de sítio
decretado pelas milícias e polícia, pelo proselitismo oportunista de pastores
que exploram o tema para ocultar as causas mais profundas da pobreza.
Este
desastre político pode ser revertido. É o que sugeriram, num seminário em 7/7,
o cientista social Benedito Mariano, que coleciona experiências exitosas como
gestor de Segurança Pública, e a pesquisadora Natália Pollachi, coordenadora de
projetos do Instituto Sou da Paz. Para eles, as concepções da ultradireita
sobre o tema, que encontram enorme eco na mídias tradicionais, são frágeis –
ofendem a vasta maioria da população (por ser caráter racista e segregador) e
podem ser desconstruídas.
O
problema, argumentam Mariano e Natália, é que a esquerda omite-se do debate.
Diante dele, adota duas atitudes aparentemente opostas entre si, mas igualmente
mórbidas. Ou ignora a importância específica da segurança, atribuindo a
violência apenas à desigualdade; ou (como tem sido cada vez mais frequente)
mimetiza as agendas de brutalidade da direita. A letalidde da polícia da Bahia,
governada há 16 anos pelo PT, é de longe a maior do país. Nem por isso, os
índices de homicídios e criminalidade rcuaram no estado.
Ao
longo do seminário, emergiram alternativas claras. O diálogo faz parte do
projeto Desafios para Outro Brasil, conduzido em parceria por Outras Palavras e
pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo. A sessão de 7/7 foi
coordenada pelo Advogado Antonio Funari, integrante da Comissão de Justiça e
Paz da Arquidiocese de S.Paulo e ativista histórico pelos Direitos Humanos.
Benedito
Mariano denominou “postura de capitão do mato” às visões difundidas há décadas
(com variações cosméticas) pelos políticos e jornalistas reacionários. Bebem do
preconceito colocianl. Sustentam que a origem da criminalidade está nas
maiorias – os negros, pobres e periféricos. Propõem, como “cura”, as
intervenções do mundo branco nas áreas “violentas”. Fabricam objetivos
ilusórios, como a “Guerra às Drogas. Legitimam a carnificina policial como “mal
menor” e necessário. Desdobram-se em operações de enorme letalidade e
resultados nulos. Há algum sinal de que as comunidades do Alemão e da Penha
tenham se tornado mais seguras, após o massacre da Operação Contenção, que
resultou em 122 mortos há oito meses? Ou de que a população do Rio sinta-se
agora mais tranquila?
Como,
então, este receituário tão inefetivo alcança apoio em camadas sociais tão
vastas – inclusive entre suas vítimas? Mariano apontou um paradoxo. Desde a
transição pós-ditadura e a Constituição de 1988, lembrou ele, as forças de
esquerda têm liderado a formulação de propostas para alterar o panorama da
(In)Segurança Pública. Porém, há enorme distância entre o que dizem e o que
executam. Ao chegar ao governo, as forçs progressistas temem rouper a inércia
das soluções simplistas (ocupação dos territórios – repressão –
encarceramento). Ou o fazem de forma fragmentada e tímida. Esta indecisão
sugere a inexistência de um projeto. Ninguém hoje é capaz de descrever o que
seriam uma visão e um feixe de políticas de esquerda, sobre este tema tão
importante para a vida das maiorias.
Há
espaço para tanto, sugeriu Natália Pollachi, ao comentar uma pesquisa nacional
recente feita pelo Instituto Sou da Paz sobre as percepções da população acerca
das respostas à violência. Elas desmentem as visões predominantes. Segundo o
estudo, 90% das pessoas sentem-se inseguras. Mas há pouca adesão a frases do
tipo “bandido bom é bandido morto”. A grande maioria dos entrevistados é a
favor do uso de medidas protetivas rejeitadas pela ultradireita violenta — como
câmeras no corpo dos policiais. Apenas uma minoria é favorável a “soluções”
como o armamento da população.
Em seus
artigos, Benedito Mariano parte desta brecha para apresentar um elenco
articulado de propostas. Em contraposição ao espírito do “capitão do mato”, ele
sugere uma “repressão qualificada”. Seu foco não são as comunidades
periféricas, mas os pontos – quase sempre em bairros nobres – onde se articula
o crime organizado. Acaba a ideia colonial de que os males originam-se entre as
maiorias. Desponta a eficácia de operações como a “Fluxo Oculto”, que
relacionou, no início deste ano, os laços entre a Faria Lima e as várias
modalidades de bandidagem.
Complementa
esta virada um par de políticas que buscam a parceria com as periferias, ao
invés de sua estigmatização. São elas: policiamento de vigilância e presença de
serviços públicos. Aí está a chave da saída. Para que o trabalho do policial
seja efetivo, diz Benedito, ele precisa estar presente no quotidiano e nos
dramas de cada território, e estabelecer laços com seus moradores. Cumpre,
guardadas as proporções, o papel que um agente comunitário de saúde desempenha
no SUS. Conhece o solo em que atua. Está pronto para solucionar os problemas
antes que se agravem. E se vê acompanhado de um conjunto de ações que
transformam a presença do Estado no local. Ao invés de apenas reprimir (o que
abre espaço para milícias e facções), o poder público aparece como garantidor
de Saúde, Educação, Habitação, Transporte e Bem-Estar.
Mariano
tem autoridade de quem não se limita às palavras. Foi secretário de Segurança
por duas vezes em São Paulo e em Osasco, São Bernardo do Campo e Diadema. Neste
último município, a articulação entre prefeitura e comunidade, em torno da luta
contra a violência, resultou em feitos notáveis. Na década de 1990, a taxa de
homicídios ultrapassava 130 por 100 mil habitantes – a mais alta do país. Entre
2021 e 2022, despencou para apenas 4, trinta vezes menos. Não é caso único. Um
feito igualmente notável foi alcançado no Jardim Ângela, periferia da Zona Sul
paulistana, na virada do século. A receita foi a mesma: ação não-repressiva do
Estado, em aliança com as comunidades e serviços públicos.
A
ausência de um projeto de país é um dos estorvos à luta política contra a
regressão do Brasil e o ascenso da ultra direita. O debate de 7/7 revelou que o
entrave pode ser superado mesmo em temas críticos, e aparentemente muito
difíceis.
• Estratégia de Lula para 2026 evita IA e
mira segurança jurídica. Por Juliana Lopes
As
restrições impostas pela legislação eleitoral já começam a influenciar a
estratégia de comunicação do PT (Partido dos Trabalhadores) para a disputa de
2026. Como antecipado na minha análise no jornal Hora H nesta quarta-feira (8),
o ambiente de cautela nos bastidores do governo evoluiu para uma decisão da
campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: limitar o uso de inteligência
artificial em peças de comunicação com o petista.
A
orientação, segundo dirigentes petistas, é que a inteligência artificial
continue sendo utilizada apenas para edição e aperfeiçoamento de conteúdos, sem
criar vídeos ou imagens que coloquem o presidente em situações fictícias.
A
diretriz vale, principalmente, para materiais de campanha com a imagem de Lula.
Nos
bastidores, a medida é tratada como uma forma de reduzir riscos de contestações
na Justiça Eleitoral em um momento em que o próprio PT prepara uma ofensiva no
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para defender regras mais rígidas para o uso
da tecnologia nas campanhas.
Integrantes
da legenda afirmam que o partido faz uma distinção entre o uso da inteligência
artificial como ferramenta de produção e recursos capazes de simular falas,
imagens ou situações inexistentes.
A
avaliação é de que a campanha deve reforçar a imagem de autenticidade do
presidente, evitando conteúdos que possam ser associados a deepfakes.
A
decisão ganhou força após a circulação de peças produzidas por adversários com
o uso de inteligência artificial. Um dos episódios que repercutiram nos últimos
dias foi um vídeo publicado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), no qual ele
aparece pilotando um avião de caça em uma missão fictícia para localizar Fábio
Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente.
Apesar
da repercussão, interlocutores de Lula afirmam que o presidente não pretende
responder utilizando a mesma estratégia nas redes sociais. A aposta da campanha
será explorar justamente o contraste entre conteúdos produzidos com imagens
reais e peças inteiramente artificiais.
A
cautela também dialoga com o novo cenário imposto pela legislação eleitoral.
Ministros
e assessores do governo já demonstravam incômodo com orientações do Palácio do
Planalto e da Advocacia-Geral da União (AGU) após o início do período de
restrições, em 4 de julho.
Entre
elas, a determinação para arquivar publicações feitas em perfis pessoais
durante agendas oficiais do terceiro mandato antes do início do período de
defeso.
A
posição do presidente sobre o tema já havia sido manifestada publicamente. Em
maio, durante agenda na Bahia, Lula afirmou que a inteligência artificial
poderia reproduzir sua imagem em comícios simultâneos por todo o país, mas
descartou recorrer ao recurso durante a campanha.
"Se
a gente quiser, a gente pode fazer o Lula artificial fazer comício em 27
estados no mesmo dia e no mesmo horário. Eu estou lá, mas não estou. Confesso a
vocês: um cidadão que aprendeu a ter caráter com a dona Lindu não aceitará
inteligência artificial para fazer campanha política", declarou.
Fonte:
Por Antonio Martins, em Outras Palavras/UOL

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