Os
brasileiros que processam as bets para conseguir receber seus prêmios
Brasileiros
abriram mais de 10 mil processos contra
empresas de apostas
online desde que a Lei das Bets foi sancionada, nos últimos
dias de 2023. Só no ano passado, quando a regulamentação para o setor começou
de fato a valer, foram 5.488 novas ações, e a tendência é de aumentarem neste
ano, já que outras 4.037 foram abertas apenas entre janeiro e maio de 2026.
Os
números refletem o aumento da penetração dos jogos de azar online no Brasil e a
expansão do mercado em torno deles, que rendeu R$ 37 bilhões em receita para as
empresas do segmento no ano passado.
E
também dão medida dos atritos que contrapõem apostadores e companhias,
desenhando um quadro mais nítido de alguns dos conflitos que nos últimos meses
têm sido expostos nas redes sociais.
O
levantamento foi feito a pedido da BBC News Brasil pela Predictus,
especializada em dados jurídicos.
Os técnicos da plataforma usaram inteligência
artificial para identificar as ações com pelo menos uma casa de
apostas em um dos polos dos processos entre os 630 milhões disponíveis na base,
que está ligada ao repositório das dezenas de tribunais espalhados pelo país.
Como a
onda é recente, muitas ações ainda estão sem desfecho. Entre os 10.627
processos ajuizados desde 2018 e mapeados pela Predictus, apenas 38% já tiveram
uma decisão — 44,1% ainda estão tramitando e 17,9% foram extintos sem análise
do mérito, ou seja, foram arquivados antes de serem apreciados por um juiz.
Dos
3.438 processos que já foram julgados, os apostadores venceram total (589) ou
parcialmente (1.446) em 59,2%. As casas de apostas venceram em 40,8% das ações
julgadas (1.403). Houve ainda 607 casos de acordo entre as partes, 5,7% do
total.
<><>
Principal reclamação: 'Não consigo sacar o prêmio'
A
ferramenta de inteligência artificial usada na pesquisa não conseguiu
identificar a motivação de todos os processos. Foram mapeados com um grau
elevado de segurança pouco mais de um terço, 3.791.
Ainda
assim, os resultados são um termômetro das principais queixas dos apostadores
na relação com as empresas de apostas online e da dinâmica dos conflitos
judicializados nesses dois anos de regulamentação.
Antes
disso, a maioria das empresas não tinha nem CNPJ ou sede física no Brasil, o
que tornava muito mais difícil processá-las aqui.
Uma
dessas queixas, que há meses circulam na internet, aparece como a principal
razão que levou à abertura dos processos: a dificuldade dos apostadores para
sacar o próprio saldo.
Essa
reclamação aparece dividida entre três temas identificados na pesquisa. Um
deles é o próprio bloqueio de saque, que motivou 429 processos no período
analisado, que vai de 2018 a maio de 2026.
Mas há
ainda reclamações de contas bloqueadas (636) nas plataformas, que, segundo os
apostadores, acabou impedindo que eles resgatassem o prêmio, e da
"alteração unilateral de regras" (629), "em que a casa de
apostas muda, depois do fato, uma condição que já estava definida, e o
resultado prático quase sempre é o mesmo: o dinheiro não sai", como
explica o especialista em inteligência jurídica e CEO da Predictus, Hendrik
Eichler.
Entre
esses processos está o de um cliente do advogado Felipe Bezerra da Silva, que
afirma ter tido uma série de saques bloqueados a partir de fevereiro de 2025 e
de finalmente ter tido a conta encerrada unilateralmente pela plataforma de bet
depois de ter acumulado um prêmio de R$ 1,15 milhão em jogos de cassino.
Nos
autos do processo, aos quais a BBC News Brasil teve acesso, os advogados que
representam a empresa de apostas afirmam, entre outros argumentos, que a
quantia acumulada pelo apostador havia sido fruto de uma "falha
sistêmica" no jogo e que, por isso, o pagamento seria indevido.
Silva
contesta essa argumentação, apontando que a bet não apresentou dados concretos
que comprovassem o erro sistêmico.
A ação
foi ajuizada em maio de 2025 e segue tramitando na 9ª Vara Cível da Comarca de
Guarulhos.
Na
visão do advogado, a prática de reter valores na conta dos apostadores é uma
"estratégia" das empresas para gestão do fluxo de caixa, e por isso
acontece de forma reiterada entre diferentes casas de apostas.
"No
exemplo do meu cliente, ele ganhou esse dinheiro no primeiro semestre de 2025.
Com a demora do Judiciário, ele vai receber daqui a três, quatro, cinco, seis
anos. Para eles [empresas], isso é lucro", opina Silva.
Procurado
pela reportagem, o Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IBJR), que reúne
pouco mais de 20 empresas do setor, afirmou que não se posiciona sobre esse
assunto.
<><>
Em alta: apostadores que dizem ter desenvolvido vício pedem o dinheiro de volta
Isoladamente,
as contas bloqueadas (636) são o principal motivo identificado entre as ações,
seguidas pela alteração unilateral de regras (629). Na sequência vêm
reclamações por cláusula contratual abusiva (541), golpes de terceiros via Pix
(518) e de falha no dever de cuidado (353).
O tema
de vício e dependência foi identificado em 86 ações.
O
número é baixo se comparado aos demais, mas a tendência é de alta: passou de 7
processos em 2024, para 27 em 2025 e 52 nos primeiros cinco meses deste ano.
A falha
no dever de cuidado é outro argumento em ascensão: passou de 15 ações em 2024
para 243 entre janeiro e maio de 2026. Esse é um conceito que vai no mesmo
sentido da dependência, nesse caso, com a queixa de que houve omissão ou
negligência da obrigação legal por parte das empresas de proteger os
apostadores vulneráveis aos efeitos negativos das apostas e cassinos online.
Uma das
razões para o aumento, na visão do advogado Marco Aurélio Leite, pode ser o
fato de que só agora tem ficado cada vez mais claro que esses casos têm chance
real de vitória nos tribunais.
"Os
juízes têm dado cada vez mais decisões favoráveis à devolução [dos valores
apostados] quando identificado comportamento de vício", pontua Leite, que
afirma representar apostadores de todo o país em mais de 500 ações.
Com uma
carreira centrada no direito do consumidor, ele começou a atender pessoas que
queriam processar empresas de apostas em janeiro de 2025. Mas só mais
recentemente tem aceitado representar clientes que dizem ter desenvolvido
ludopatia (o termo médico que se refere à compulsão por apostas e jogos de
azar).
Na
visão do advogado, o entendimento que tem se formado no Judiciário, à luz da
nova regulamentação das bets e também do Código do Consumidor, é que o
apostador seria um "consumidor hipervulnerável", dada a natureza dos
jogos de azar.
Caberia
então às empresas estarem vigilantes para identificar possíveis casos de
dependência e atuar para impedir que essas pessoas entrem em um quadro vicioso,
obrigação prevista na portaria
sobre jogo responsável, publicada em agosto do ano passado.
"A
partir do momento em que a bet identifica um apostador com comportamento de
vício, ela tem que agir de ofício: suspender a conta, impor limitações, entrar
em contato com o cliente para saber o que está acontecendo", ressalta.
Leite
afirma que é fácil para as empresas identificar os apostadores com alto risco
de dependência a partir dos seus hábitos de uso das plataformas. Depositar
valores diariamente, por exemplo, ou virar a noite apostando são alguns sinais
de alerta.
O que o
advogado diz observar em muitos casos é que as empresas costumam incentivar
esses consumidores a apostar mais em vez de tomarem medidas para que eles
diminuam o ritmo ou parem por completo.
"Quando
o apostador para de depositar por uma semana, a bet manda um bônus, ela dá um
gerente VIP... Dependendo do apostador, ela manda passagem aérea para
acompanhar jogo de futebol", afirma.
Questionado
sobre o assunto, o IBJR respondeu à reportagem que também não se posicionaria
em relação a ele.
É do
escritório de Leite o caso que levou a uma das primeiras decisões em segunda
instância que manteve a condenação de uma empresa de apostas em um caso
relacionado ao vício em jogo.
Conforme
a decisão de junho dos desembargadores do Tribunal de Justiça do Estado de São
Paulo, a bet deve devolver 50% dos valores perdidos por um apostador
diagnosticado com ludopatia que acumulou prejuízo de cerca de R$ 122 mil na
plataforma.
Para os
magistrados, a empresa falhou no dever de proteção ao consumidor por não adotar
mecanismos eficazes para conter o comportamento compulsivo.
A
decisão de ordenar o pagamento de apenas metade do valor, e não o montante
total, se deveu ao fato de que o apostador chegou a ter a conta suspensa e
pediu para reativá-la — o que a empresa fez imediatamente.
"Nesse
contexto, reconhecer a devolução integral transformaria o Poder Judiciário em
um 'seguro contra perdas', o que violaria o princípio da boa-fé e a proibição
do enriquecimento sem causa. Neste sentido, o apostador, caso não ganhasse,
sempre teria o Poder Judiciário como via para ressarcimento dos valores
despendidos", diz a ata do julgamento.
<><>
Sudeste e Nordeste lideram
Outra
revelação interessante do levantamento é a distribuição geográfica dos
processos. O Sudeste, que concentra a maior parte da população do país, lidera,
com quase metade das ações (5.076, 48,2%).
O
Nordeste aparece na segunda posição. Foram ajuizados 3.092 processos na região
no período analisado, 29,3% do total. O Sul aparece depois com 11,9% do total,
seguido por Centro-Oeste (6,9%) e Norte (3,6%).
Entre
as 12 cidades com maior número de ações, 9 são capitais: São Paulo (908), Rio
de Janeiro (628), Belo Horizonte (242), Recife (216), Fortaleza (145), Manaus
(143) Curitiba (112), Goiânia (111), Porto Alegre (109).
Entre
as outras três fora de capitais, duas estão no Nordeste — Campina Grande (133)
e Olinda (108) — e a outra, em Barueri (88), no Estado de São Paulo.
Quando
se analisa a distribuição dos casos entre os tribunais, também chama atenção o
volume de processos na Justiça do Trabalho.
São
1.185, 11,2% do total. Segundo Eichler, da Predictus, "a maior parte é
litígio trabalhista convencional: verbas rescisórias, horas extras,
reconhecimento de vínculo empregatício, aviso prévio, rescisão indireta,
assédio moral, FGTS, movidos por empregados e terceirizados das
operadoras".
Atualmente,
as 85 empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas a operar atuam
por meio de 187 marcas, que dão nome aos sites e aplicativos que têm estampado
camisetas de jogadores de futebol, páginas de influenciadores nas redes sociais
e a publicidade em diversos canais.
Fonte:BBC
News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário