Vício
em apostas pode ter raízes ainda na infância, alertam especialistas
Psicanalistas
que acompanham crianças, adolescentes e famílias observam que o vício em
apostas na adolescência raramente começa nesta fase. Ele tem raízes mais
antigas, fincadas nos primeiros anos de vida.
Segundo
o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, da Unifesp (Universidade Federal de
São Paulo), mais de 1 milhão de adolescentes brasileiros entre 14 e 17 anos já
apostou ao menos uma vez no último ano e 55,2% deles já estão na zona de risco
ou apresentam transtorno relacionado ao vício.
A
explicação para esse caminho começa muito antes da adolescência. Especialistas
explicam que um bebê depende do olhar de quem cuida para aprender a reconhecer
o que sente, a tolerar o desconforto e a se relacionar com o mundo. São
exatamente nestes casos que a tela interfere de uma forma que muitas famílias
ainda não percebem.
"O
precursor do espelho é o olhar da mãe. Quando o bebê olha para o rosto de quem
cuida, ele se enxerga refletido. A tela não devolve esse contorno afetivo. Ela
captura pela saturação de estímulos, mas não oferece o acolhimento que a
criança precisa para integrar o que sente. Onde deveria haver troca, instalasse
a repetição", diz Jailza Peguim, psicanalista da Sow Saúde Integral.
Essa
lacuna, construída nos primeiros anos de vida, acompanha a criança e vai
encontrar, na adolescência, um ambiente projetado para explorá-la.
Diferentemente das redes sociais, as "bets" operam com um elemento a
mais, a recompensa imprevisível. O apostador nunca sabe quando vai ganhar e é
exatamente essa incerteza que alimenta a compulsão. As consequências chegam ao
consultório de formas que a família raramente associa às apostas de imediato.
• Segundo a pesquisa TIC Kids Online
Brasil 2025, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento
da Sociedade da Informação (Cetic.br), 28% das crianças e adolescentes
brasileiros começaram a usar a internet antes dos seis anos de idade, quase o
triplo do registrado em 2016
Para
Flávia Anjos, psicanalista e diretora vice-presidente da Sow Saúde Integral, o
sofrimento do adolescente dificilmente aparece sozinho. "Ele vem
acompanhado de vergonha, de dívidas escondidas, de vínculos rompidos e de uma
família que, muitas vezes, só percebe o tamanho do problema quando já está
dentro dele".
Segundo
os especialistas, os sintomas são perceptíveis: adolescentes que checam o
celular compulsivamente, que sentem irritação ou culpa depois de apostar, que
perdem o sono e têm dificuldade de concentração nos estudos. E então, a
tecnologia passa a ser a culpada.
De
acordo com Jailza, essa percepção funciona como um mecanismo de defesa.
"Ao colocar a culpa na tela, a família se desimplica da engrenagem do
sofrimento da criança, evitando encarar as falhas na mediação ou as fissuras
nos laços afetivos cotidianos. O que a clínica mostra é que o uso abusivo quase
sempre é uma tentativa de automedicação psíquica. E os pais, frequentemente,
também estão capturados pelas próprias telas", afirma.
Para as
famílias que já lidam com esse problema na adolescência, o caminho não é a
culpa nem o controle repentino. Para os especialistas, é a busca por ajuda
especializada, porque os mecanismos envolvidos são complexos e raramente se
resolvem apenas com força de vontade. A escola também tem papel nessa rede,
podendo identificar mudanças de comportamento precocemente e aproximar a
família da situação.
• Crianças neurodivergentes são mais
vulneráveis a crimes virtuais
Em
apenas um ano, o Brasil registrou três milhões de vítimas infantis de violência
sexual online, segundo relatório da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a
Infância). Uma a cada cinco crianças e adolescentes de 12 a 17 anos diz ter
sofrido abuso sexual ou exploração com o uso da tecnologia, com a maioria das
vítimas conhecendo o agressor pela primeira vez online.
De
acordo com a delegada Lisandrea Salvariego Colabuono, chefe do Noad (Núcleo de
Observação e Análise Digital) da Polícia Civil de São Paulo, esses crimes
costumam ocorrer em aplicativos de conversa, redes sociais e em chats de jogos
online, onde pedófilos e estelionatários entram em contato com menores de
idade.
"Depois
do primeiro aliciamento no chat de um jogo, eles migram para um aplicativo de
conversa. E eles iniciam um webnamoro, uma webamizade e, ali, sem conhecer o
autor ou agressor, sem passar pela cabecinha da vítima que ele pode um dia
fazer algo contra ela. E ela começa, de forma espontânea, a entregar dados
pessoais, dados sensíveis e, dessa maneira, até um certo tempo, ela manda a
primeira foto íntima, o primeiro vídeo íntimo, e a vida dela acabou",
afirma.
A
prática de aproximação e aliciamento de menores de idade na internet é
conhecida como grooming. O processo é definido como a manipulação por parte de
um adulto em relação a uma criança ou adolescente, com o objetivo de obter
material de abuso ou forçar um encontro.
No
entanto, os crimes podem ir além da exploração sexual. Na internet, em redes
sociais e em jogos online, menores estão expostas a desafios perigosos,
cyberbullying, misoginia e discurso de ódio. Segundo especialistas, crianças
neurodivergentes são as mais vulneráveis para esse tipo de crime.
"Em
crianças com autismo, a dificuldade relacional é parte da neurodivergência. Já
é ali, posto que é difícil. Se para um adolescente normativo já é complexo e
ele enfrenta todos os desafios, para uma criança neurodivergente, isso tem um
potencial muito maior", afirma Fabiana Vasconcelos, psicóloga do Instituto
Dimicuida.
Segundo
a especialista, isso acontece porque, na neurodivergência, a dificuldade de
interação social é maior, assim como a literalidade, ou seja, a tendência de
compreender e processar a linguagem de maneira extremamente concreta.
Helena*
é psicóloga e atende um paciente com autismo que se envolveu com um culto na
internet chamado "spawnismo", dentro de um jogo disponível na
plataforma Roblox. Segundo seu relato, os participantes do culto eram induzidos
a acreditar que poderiam voltar à vida após um sacrifício. Seu paciente foi uma
das vítimas, embora tenha sobrevivido. Procurado pela CNN Brasil, o Roblox não
irá se posicionar sobre o assunto.
"Quando
a gente fala sobre o autismo, a gente tem essa questão muito literal",
afirma. "Se você tem uma ideia muito literal, é mais fácil que você faça
isso, que cometa algum ato contra a sua própria vida".
De
acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), o suicídio é uma das
principais causas de morte entre jovens em todo o mundo. E o uso excessivo de
telas está causando um impacto cada vez maior na saúde mental de crianças e
adolescentes.
"A
saúde digital passou a ser uma fatia importante da vida dos adolescentes",
afirma Benito Lourenço, chefe da Unidade de Adolescentes do ICr (Instituto da
Criança e do Adolescente) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da
USP.
"O
que era restrito às questões de sexualidade, crescimento físico, alimentação e
esporte, hoje eu tenho que acrescentar à variação de algumas áreas sensíveis da
vida do adolescente. E talvez a maior delas sejam os riscos digitais, riscos
envolvidos nas atividades digitais", completa.
*À
pedido da fonte, estamos usando um nome fictício para preservar sua identidade.
Fonte:
CNN Brasil

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