A
seleção brasileira em 1950 e em 2014
É como
você palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde
um sino rouco se misturasse ao som de seus sapatos – que era pausado e seco –,
e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem
diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de seu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu. E dela saiu uma lâmpada mágica. E de dentro
dela, um gênio. Que, sem cerimônia, lhe diria:
“Você
tem um desejo. Pode pedir”. – Mas não são três? – “Eram. Novos tempos.
Austeridade”. – Tá, um desejo. Pode ser a paz mundial? – “Pode”. – A paz
irrestrita, nunca mais nenhuma guerra entre seres humanos? – “Pode”. – Boa.
Apesar de que… e se, no lugar disso, eu pedir para a Seleção do Maracanazo
jogar no 7×1, e a do 7×1 jogar no Maracanazo… é possível? “Sim”. – Pensando
bem, acho que é isso que eu quero. Pode anotar. “E a paz mundial?” – Fica para
a próxima lâmpada.
Prestativo,
o gênio pôs-se em ação. Porque ele também deveria ser fã de futebol, o terreno
por excelência do “e se”.
1950 –
Começa o jogo no Maracanã. Oscar passa para Fred, que recua para Júlio César.
Que dá um bicão para a frente porque, afinal, decisão de Copa do Mundo com o
Uruguai não é todo dia que se disputa. Sobretudo porque aqueles jogadores
tinham a chance de se tornarem os primeiros brasileiros campeões do mundo.
A
Celeste joga com força. Bate pesado. No primeiro lance, Obdulio Varela entra
forte em Hulk, que esverdeia, empalidece. El Capitán mostra que também é O
Brabo, 80 anos antes da gíria existir.
Felipe
Scolari tenta orientar o time do banco. O alarido das arquibancadas é
ensurdecedor.
– “Ô
Marcelo, avança. Olha o Obdulio! Dante, pega o Ghigg…” – e a voz de Felipão
desaparece em meio ao repetido “Brasil-Brasil-Brasil”.
O
técnico parece um pouco aturdido com as 200.000 pessoas superlotando o estádio
de uma maneira que ele nunca viu. Olha para o campo, grita, olha para as
arquibancadas. Volta a olhar para o campo, e para as arquibancadas. Para o
campo, para as arquibancadas. Para as arquibancadas, para as arquibancadas, par
as arquibancadas. Que multidão, meu Deus.
O
Brasil que enfrenta o Uruguai naquele 16 de julho de 1950 forma com Julio
Cesar; Maicon, David Luiz, Dante, Marcelo; Luiz Gustavo, Fernandinho; Hulk,
Oscar, Bernard; Fred. O técnico é Luiz Felipe Scolari.
2014 –
No Mineirão, os brasileiros aguardam pelo apito inicial da partida com a
Alemanha. A torcida grita os nomes de todos os jogadores, especialmente de
Barbosa e Bigode, a dupla que tão bem guardara a defesa nas partidas que
levaram a Seleção à semifinal.
Em meio
à festa, os jogadores estranham algumas coisas. Dentre elas, o estádio com
jeito de teatro, todo ocupado por cadeiras, quase que totalmente preenchidas
por pessoas brancas. E a camisa amarela, no lugar da branca.
“Parece
a camisa do Volta Redonda” – diz Ademir a Zizinho, antes do pontapé inicial.
“Camisa canarinho” – responde Mestre Ziza.
Outra
coisa um tanto incompreensível para os jogadores é a pletora de propagandas por
todo lado, piscando, se mexendo, de produtos que eles nem sabem para que
servem. Não reconhecem nenhuma daquelas marcas, com a exceção de Johnson e
Coca-Cola. Estranham, sobretudo, uma publicidade com a inscrição “Amo muito
tudo isso”. Isso o quê? É de comer?
Mas
estranham, acima de tudo, a Alemanha jogando com o uniforme do Flamengo. Os
brasileiros, a maioria do Vasco, se motivam com a visão da camisa rubro-negra
envergada pelos germânicos. Bigode e Juvenal, ambos do Flamengo e zagueiros,
ficam aturdidos.
O
Brasil que enfrenta a tricampeã Alemanha forma com Barbosa, Augusto e Juvenal;
Bauer, Danilo Alvim e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. O técnico
é Flávio Costa.
1950 –
Depois de golear a Espanha por 6×1 – com as arquibancadas e a geral entoando
Touradas em Madri – e a Suécia por 7×1 – hum…. -, a seleção brasileira vai para
cima do Uruguai. Os orientais se encolhem, dão bicão para a frente. Assustados
com a velocidade de Oscar, a alegria nas pernas de Bernard e os bíceps de Hulk,
os uruguaios se encolhem e batem. Muito.
– “Del
pescuezo para abajo, todo es canela’’ – orienta Obdulio aos compatriotas.
Passada
a desorientação inicial com o estádio superlotado, com a os uniformes de tecido
e com a torcida de terno e chapéu, os jogadores brasileiros finalmente
conseguem se concentrar. É questão de tempo para levantarmos, pela primeira
vez, a taça Jules… Jules… Jules o quê?
2014 –
O Brasil começa com tudo no Mineirão. O Hino Nacional cantado à capella
energiza o time de Flávio Costa. Com cinco atacantes – Friaça, Zizinho, Ademir,
Jair e Chico –, é questão de tempo para a Alemanha virar chucrute.
Logo no
primeiro minuto, Zizinho solta uma bomba no canto do alemão Neuer. Um “ooooh”
preenche todo o estádio. A torcida brasileira se incendeia. Os poucos alemães
presentes, já naturalmente quietos, desaparecem em meio à torcida brasileira.
Em meio
ao jogo, os brasileiros começam a notar que os torcedores apontam para eles
pequenos retângulos brilhantes. A visão daqueles pontos brilhantes captura a
atenção do onze nacional, inquietos com o porquê – e as consequências – de,
durante o jogo todo, terem aquelas telinhas apontadas para eles.
O
fascínio, misturado com preocupação, impregna os jogadores brasileiros, que não
param de olhar para a arquibancada. Distraídos, começam a se desconcentrar do
jogo. Numa dessas distrações, Thomas Müller escora um escanteio e abre o placar
para os germânicos.
1950 –
Termina o primeiro tempo. Brasil 0x0 Uruguai.
Ao sair
de campo, Felipão cruza com um senhor baixinho, de bigode e chapéu. – “Ça va,
monsieur” – diz o homenzinho. Ao descer para o vestiário, ouve de um repórter:
“Que honra, ser cumprimentado pelo Dr. Jules Rimet”.
Felipão
fica confuso. Mas só vai entrar em pane definitiva quando, ao subir para o
campo no segundo tempo, passa ao lado de um jovem soldado em cuja farda aparece
o nome “Zagallo”.
2014 –
Nem bem a Alemanha inaugura o placar, a pressão prossegue. Müller entra na área
e passa, de calcanhar, para Klose, que bate em gol. Barbosa defende, mas solta
de novo no pé do alemão, que marca o segundo.
Do
banco, Flávio Costa começa a ficar destemperado. O problema nem é o placar em
si – 2 a 0 ainda é reversível – mas a forma como o jogo está se dando, como se
somente a Alemanha estivesse em campo. O técnico fica desnorteado. Mas só vai
entrar em pane quando um daqueles retângulos luminosos chega às suas mãos e,
dele, surge na tela um vídeo colorido com a inscrição “Fortune Tiger”. Flávio
Costa começa a desconfiar que está em um pesadelo. Ou está ficando louco.
1950 –
Com as ideias embaralhadas pelo caldeirão do Maracanã, Felipão vê o Brasil
abrindo o placar, aos 2 minutos do segundo tempo. Oscar é lançado e, na entrada
da área, bate seco no canto esquerdo de Maspoli, que só tem tempo de se
levantar do chão e ver o estádio vir abaixo, sob gritos de “Brasil, Brasil,
Brasil” e “Oscar, Oscar, Oscar”.
Agora,
é questão de minutos para que se concretize a ordem dada pelo prefeito Mendes
de Morais antes da partida: “cumpri a minha palavra construindo este estádio.
Cumpram agora o dever de vocês conquistando a Copa do Mundo”.
Uma
responsabilidade, tremenda responsabilidade. Se a população do Rio naqueles
idos de 1950 era de dois milhões de habitantes, então 10% de toda a cidade
estava dentro do estádio. Felipão nunca passara por nada parecido.
Se a
pressão sobre o técnico no estádio era grande, ao menos diminuíra ao saber que
não havia TV transmitindo o jogo. Rádios, várias rádios, mas nenhuma TV –
objeto que só passaria a existir no Brasil 2 meses depois daquela partida. Ufa.
2014 –
Um minuto depois do segundo gol do Flameng, ops, Alemanha, o time tedesco entra
novamente, desta vez pela direita. Philip Lahm cruza, Toni Kroos coloca no
canto direito de Barbosa. “Chegaram de novo, chegaram de novo”, diz Galvão
Bueno ao microfone.
Três a
zero. Começam a aparecer imagens de crianças chorando na arquibancada.
– “E lá
vem mais, lá vem mais. Virou passeio” – grita Galvão ao narrar o quarto gol
alemão, um minuto depois.
Quem
saiu da frente da TV para pegar um aperitivo, uma bebida ou simplesmente fazer
xixi, não conseguiu retornar a tempo de ouvir Galvão dizer “lá vem eles de
novo, olha só que absurdo… goool da Alemanha”.
Khedira
anota 5 a 0 para os visitantes. Barbosa fica caído no chão, enquanto os
jogadores se olham, perplexos, como que sentindo o chão se abrir sob seus pés.
1950 –
Em meio à balbúrdia da comemoração, dos fogos espocando pelas arquibancadas,
rojões explodindo no céu, Obdulio se aproxima de Hulk, e toca a mão em sua
cabeça. Parte do estádio diz que o uruguaio somente encostou nos cabelos de
Hulk. A outra parte jura que o brasileiro recebeu, calado, um tapa do uruguaio.
A única
certeza é que os visitantes, aos 21 minutos do segundo tempo, empatam, após
Ghiggia cruzar para Schiaffino bater no ângulo superior direito de Júlio César.
Um a um. O Brasil ainda é campeão, mas a sensação de que uma nuvem de silêncio
pousou sobre o Maracanã assusta os jogadores – mesmo os mais expansivos, como
Fred.
2014 –
Começa o segundo tempo no Mineirão. A Alemanha parece ter tirado o pé do
acelerador. A máquina que triturara o time de Flávio Costa no primeiro tempo
convertera-se em um relógio que funciona na medida, apenas para medir o tempo
passar.
O
segundo tempo seria um tédio absoluto, não fosse Schürrle entrar na Alemanha e,
por iniciativa própria, disparar mais dois tentos na meta brasileira. Agora,
Alemanha 7, Brasil 0. Barbosa cai sentado no chão, com um olhar entre o
aturdido e o embasbacado.
1950 –
A mudez do Maracanã só é quebrada pelos gritos de Felipão de “pega, Marcelo,
pega ele, não deixa, pega”, para o lateral brasileiro, encarregado de parar
Ghiggia – que avança pela direita e, desajeitadamente, dispara no canto direito
de Júlio César, aos 34 do segundo tempo.
O
estádio inteiro, 200 mil almas, ouviu os gritos de Felipe Scolari, mas de nada
adiantou. Agora, nossos vizinhos é que estão a 10 minutos de serem campeões do
mundo.
2014 –
A torcida no Mineirão divide-se. Parte vaia a seleção, parte, aplaude a
Alemanha. Parte chora. Parte está em estado de choque. Extáticos, somente os
alemães – que assistem Friaça fazer o único gol brasileiro, no apagar das
luzes.
Alemanha
7, Brasil 1. Bigode, aos prantos, em entrevista após o apito final, diz: “só
queria dar alegria ao meu povo. Infelizmente não conseguimos, desculpa a todo
mundo”. Danilo Alvim sai chorando no ombro de um repórter/influencer.
1950 –
A torcida incentiva, grita, mas os uruguaios defendem-se bem, e o resultado
final é mesmo o 2×1. Acabou. Nunca mais o Brasil será campeão da Copa de 1950.
Agora, nunca mais mesmo. Felipão chama o time para os vestiários, e o mais
abatido de todos é Bernard que, a partir daquele dia, passa a ser conhecido,
como “Tristeza nas Pernas” – especialmente depois que Francisco Alves, o Rei da
Voz, grava uma canção com este título – , e abandona a carreira de jogador,
para se tornar motorista.
Presente
ao estádio, Assis Chateubriand, que cogitara levar os craques brasileiros à
inauguração de sua TV Tupi, dali a dois meses, desiste do convite.
Demitido
pela CBD, Felipão vai para o exílio na Ilha de Elba, onde é nomeado treinador
da seleção local. Zezé Moreira assume a Seleção Brasileira, ficando até a Copa
de 1954 – quando estreiam uma novidade exótica, um uniforme com as quatro cores
da bandeira, sendo a camisa num faiscante amarelo. Hulk, Marcelo, Júlio César,
Fernandinho e Dante passam a saltar de um time para o outro até o final da
carreira. Uma vez aposentados, todos passam a morar em casebres de periferia.
Neymar, que estava contundido na final contra o Uruguai, dá entrevistas para a
BBC em sua casa de um quarto, em um subúrbio de Osasco.
2014 –
Encerrada a Copa, os jogadores da Seleção se transferem, todos, para clubes da
Europa. Contratado pela Internazionale, Chico se naturaliza italiano e vira
ídolo em Milão, onde é conhecido como Francesco. Ademir e Chico assinam com o
Chelsea, onde permanecem por 10 anos como jogadores – trajetória de sucesso
continuada, depois, como executivos e managers do clube londrino.
Após
ganhar por três vezes seguidas o prêmio da FIFA de melhor jogador do mundo,
Barbosa é imortalizado em Madrid – onde defende o Real até sua aposentadoria. A
arena do clube passa a ser, carinhosamente, chamada pelos torcedores merengues
de Santiago Barboseu. Ao retornar ao Brasil, adquire a SAF do Vasco, passando a
ser dono de seu clube de coração.
A única
coisa que incomoda Barbosa é quando algum hater escreve em um de seus perfis
chamando-o de mercenário. Mas nada suficiente para que não relaxe em seu
veleiro, invariavelmente estacionado em Monte Carlo – o Monaconã.
2026 –
“O impossível acontece para quem é TrapBet, a bet da diversão!”. Bigode e
Juvenal, a dupla de zaga, repetiram tanto esta frase para as câmeras que, às
vezes, se pegavam falando-as sozinhos, onde quer que estivessem.
Mas
valera a pena: 200 mil reais cada, somente para a gravação do comercial em que,
em meio à desolação pela derrota num Mineirão cenográfico, com camisas da
Alemanha estilizadas à la Flamengo, conversam com um gênio que, saído de uma
lâmpada, pergunta: – “E aí, Juvepeta? Qual a odd pra hoje?”
Juvenal,
com a mão na cabeça, faz cara de não sei. O gênio – representado por Compadre
Washington, do É o Tchan – se volta, então, para seu companheiro de
defesa: – “E você? Be good, meu caro!”
Bigode
coca o queixo, olha para o céu e, com sorriso maroto, murmura: – “Acho que…
sete”.
Juvenal
e o gênio se entreolham, arregalados. Mas, súbito, começam a sorrir e, em
uníssono, olham para a câmera: – “É sete? Vai de TrapBet!”
“Produto
para maiores de dezoito anos, jogue com responsabilidade” (voz em off em
velocidade triplicada).
Gênio
da lâmpada e tigre pulam abraçados, dentro de pote dourado. Corta.
Fonte: Por
André Assis, em A Terra é Redonda

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