Bahia:
Professora demitida por indicar livro fala sobre “dor da censura” e iniciativa
de Dua Lipa
A
professora de história, Daniela Torres foi demitida em 2021 pela direção do
Colégio Vitória Régia, no bairro de Cabula, em Salvador, Bahia. O motivo foi a
indicação aos alunos da obra “Olhos D’Água”, da autora Conceição Evaristo. Para
os diretores, o livro não seria apropriado para o ambiente escolar.
Em
junho deste ano, a cantora inglesa Dua Lipa anunciou o lançamento da Biblioteca
Manifesto, um acervo de 100 livros que foram alvos de censura, perseguição, ou
banimento, em algum lugar do mundo. “Olhos D’Água” está entre as obras
selecionadas justamente em função do ocorrido com a professora Daniela Torres.
A biblioteca está disponível na Livraria Lello, cidade de Porto, em Portugal.
Além da
obra de Conceição Evaristo, a coletânea conta com obras mundialmente
reconhecidas como “O Conto do Aia”, de Margaret Atwood, “1984”, de George
Orwell, “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir, e “The Books Of Jacob” (sem
tradução brasileira), da ganhadora do Nobel de Literatura de 2018, Olga
Tokarczuk. No site da biblioteca, Dua Lipa afirma que o espaço é “um santuário
dedicado aos autores cuja coragem desmascara as estruturas de poder e controle,
e aos leitores que se recusam que lhes digam que livros podem ler”. A cantora
mantém desde 2023 um Clube de Leituras no Service95 que conta com pelo menos
400 mil seguidores.
Segundo
Daniela Torres, a entrada de ”Olhos D’Água” no acervo de Dua Lipa teve um sabor
agridoce. Se por um lado teve a felicidade de ver o livro de Evaristo
reconhecido mundialmente, por outro lembrou a sua luta e o que chama de “a dor
da censura”. “Porque os livros não estão censurados sozinhos”.
“A
biblioteca preserva a memória dos livros, mas quem preserva a memória das
pessoas que mantiveram os livros vivos?”, indaga Torres. A professora relata
que, desde a demissão, que acabou atingindo a sua relação com outra escola, não
conseguiu retornar ao trabalho nas escolas da região. Ela conta sobre essa
experiência no livro “A negra parda que me tornei”, lançado pela Filos Editora,
no ano passado.
Daniela
Torres, em entrevista à Agência Pública, ressalta que, ao ofertar aos alunos a
leitura de Conceição Evaristo, estava colocando em prática a Lei Federal n.º
10.639/2003, que instituiu o ensino obrigatório de história e cultura
afro-brasileira nas escolas.
“Eu
virei, na minha cidade, a pessoa que, por não suportar o racismo, [as outras
pessoas deduzem que] não tem tolerância, que é problemática [e, por isso,] eu
não quero ela na minha escola”, relata. Segundo Torres, a diretoria do Colégio
Vitória Régia chegou, na época, a pedir que ela se desculpasse publicamente aos
pais dos alunos por ter recomendado “Olhos D’Água”.
Mesmo
sendo acusada pelos alunos de causar uma dor que “não era deles”, Torres não
desistiu de indicar a leitura. “Eu trabalhei com meus alunos porque acreditei
na força transformadora do livro. Trazer aquela obra era possibilitar aos meus
alunos conhecer aquela dor, que é uma dor literária, mas [também] da população
[negra brasileira]”. Para ela, a censura não ameaça apenas os livros ou os
autores, mas o direito do estudante de questionar, ter pensamento crítico e
conhecer outras perspectivas.
Atualmente,
Olhos D’Água aparece como leitura obrigatória em vestibulares de universidades
públicas de todo o país. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São
Paulo, por exemplo, tem o livro em sua lista de obras obrigatórias desde 2024.
Em 2023, o vestibular da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)
também incluiu o livro na lista de leitura obrigatória de seu vestibular.
A
Biblioteca Manifesto da cantora britânica, para Daniela Torres, pode ser um
ponto de partida não só para que os livros fiquem conhecidos, junto com suas
histórias de censura e banimento, mas também quem são os professores e
mediadores que foram afetados pela censura.
“Os
livros não são censurados sozinhos, sempre existe alguém que decide colocá-los
nas mãos dos leitores e, muitas vezes, essa pessoa continua perdendo,
[sentindo] as marcas da censura muito tempo depois da notícia desaparecer”,
afirma a professora. Mesmo assim, Daniela Torres continua a luta pelos livros.
“Talvez as nossas histórias não sejam contadas, os nossos nomes sejam apagados
das narrativas históricas. A gente não está lutando por nós, estamos lutando
pelo direito de poder ler, pelo direito de aprender”, conclui.
Leia
abaixo os principais trechos da entrevista com Daniela Torres:
• Como você recebeu a notícia de que
“Olhos D’Água”, de Conceição Evaristo, estava no acervo de livros censurados da
cantora Dua Lipa?
Eu fui
pega de surpresa [pela notícia da] inclusão do livro “Olhos d’Água” entre as
100 obras que vão compor o acervo da Dua Lipa na biblioteca. Recebi essa
matéria de uma outra pessoa e, no primeiro momento, é claro que eu fiquei muito
feliz que a obra tinha alcançado esse patamar. Ao mesmo tempo, fiquei muito
intrigada com essa questão de você construir uma biblioteca com 100 obras que
foram censuradas.
Comecei
a refletir sobre quem estava sob a posse dessas obras, quando elas foram
censuradas, quem foram as pessoas que sofreram a dor da censura na pele, porque
nem todas as vezes são os autores. Esse processo de censura [que] aconteceu
[comigo] no ano de 2021. A obra foi censurada na escola, passei por um processo
muito doloroso e desgastante para conseguir uma demissão assistida. Eu já tinha
quase 18 anos trabalhando [nesta] escola, tinha os meus direitos trabalhistas e
não queria pedir demissão.
Sofri
uma rejeição dentro da escola porque todas as pessoas, tirando três, com as
quais trabalhei durante 18 anos — funcionários do corredor, coordenação e
professores —, todas pararam de falar comigo. Eu me tornei uma persona non
grata dentro da escola. Criou-se um clima de que [os outros trabalhadores]
precisavam escolher um lado: se você escolhe o lado da Daniela, você está fora
da escola. As pessoas, com medo de demissão, acabaram me isolando.
Foi um
ano muito difícil. A obra está em todos os jornais; [o livro] é excelente. Não
estou aqui para tirar o mérito da obra. A obra é fantástica; já era premiada
quando foi censurada na escola em que eu trabalhava, mas eu carreguei sozinha a
dor dessa censura. Gerou minha demissão de duas escolas, fechou todas as portas
na minha cidade, porque eu passei a ser uma professora problemática.
• Como você se tornou escritora?
Tornar-me
escritora foi o caminho que a censura me jogou. É aquela ideia que falamos:
“pegar o limão e fazer uma limonada”. Escrevi um livro para contar o meu
processo de letramento, porque durante muito tempo eu vivi no limbo da
branquitude, sendo aquela mulher que era clara demais para ser negra, escura
demais para ser branca. Então, quando eu passei a construir o meu processo de
identidade racial, foi exatamente no momento em que eu mudei a minha prática
pedagógica.
Trabalhei
18 anos em uma escola, 11 anos em outra escola, e as escolas não sabiam que
trabalhava com essas obras porque vivia como se eu fosse branca. Quando eu
passei a fazer a lei federal n.º 10.639/2003 [que instituiu o ensino
obrigatório de história e cultura afro-brasileira nas escolas] funcionar na
prática, isso incomodou. Porque as escolas eram acostumadas a trabalhar o
currículo como testemunha [como apenas um observador]. É o projeto do 20 de
novembro, é o dia para comemorar o zumbi, é muita dança, comida,
caracterização. Aí, quando você começa com o debate, traz a dor e traz
transformação, isso incomoda.
Eu
estava pesquisando que a biblioteca vai botar 100 livros que sofreram censura
pelo mundo. Eu fui pesquisar sobre esses livros. Eu conheço a minha história
que está por trás de Olhos D’Água, mas, nos outros livros, [queria saber] quem
são essas pessoas comuns. Estava vendo que as histórias são distintas, mas, por
exemplo, o Conto da Aia, de Margaret Atwood, está entre as obras [porque] foi
proibido em uma cidade norte-americana.
Ele já
era uma série, já era um livro famoso, de grande repercussão. Ele ganhou os
holofotes quando, em uma formatura [da Academia de Belas-Artes de Idaho,
Estados Unidos], uma estudante protestou, entregando o livro ao representante
da escola .
A
estudante foi o ícone da mídia. Mas quem botou o livro na escola? Foi a
bibliotecária. Ela construiu a biblioteca da escola, selecionou as obras e,
quando começou o processo de censura, ela solicitou aposentadoria. Ela é a
pessoa que sentiu a dor da censura do Conto da Aia, e o seu nome foi esquecido
na história.
Quem
são as pessoas? Quem são os bibliotecários, os professores, os mediadores de
leitura? Quem pagou o preço? Onde estão essas pessoas? A biblioteca preserva a
memória dos livros, mas quem preserva a memória das pessoas que mantiveram os
livros vivos?
• Vendo agora, qual foi a importância para
a senhora insistir na indicação do livro? A senhora mudaria alguma coisa? Como
não insistir em Olhos d’Água?
Não, eu
tive essa oportunidade de voltar atrás, porque, em algum momento, ali no início
do processo, a escola me chamou e pediu que eu esquecesse o trabalho e se
pedisse desculpas aos pais, tudo estaria resolvido. Eles fariam um evento e me
dariam um microfone, no qual eu pediria desculpas aos pais, porque eu assumiria
que o livro não era apropriado para trabalhar na escola, e ficaria tudo
tranquilo.
Eu não
quis, eu trabalhei [o livro] com meus alunos porque eu acreditei na força
transformadora do livro. A obra já [tinha impacto] internacional; trazer aquela
obra era possibilitar aos meus alunos conhecer aquela literatura e aquela dor,
que é uma dor literária, mas é [também] da população [negra brasileira]. Eu
jamais aceitaria anular a obra, porque Olhos D’Água está entre as minhas obras
preferidas.
Eu me
lembro quando os pais disseram que o livro tinha identidade comigo. E eu disse
a eles que eu agradecia ter essa identidade, que eu não sou ruim, não. E que,
se eu tivesse o talento da Conceição Evaristo, eu escreveria ou ajudaria mil
vezes, porque eu não achava a obra mal escrita e nem mesmo pornográfica. Eles
diziam que a obra era pornográfica porque um conto do livro tem uma cena de
estupro. E eu dizia a eles que estupro não é sexo, estupro é violência.
Então,
eu fico muito emocionada com esse reconhecimento internacional de “Olhos
D’Água”. E isso me faz refletir muito também sobre por que os livros são
censurados. Por que eu fui para [o livro] Olhos D’Água? Eu fui a mediadora. O
livro é maravilhoso. O livro chegou hoje no cenário internacional, apenas com
100 obras, e isso é um patamar incrível. E eu me sinto orgulhosa de ter sido a
mediadora desse processo.
Então,
se eu fosse trocar, eu permaneceria com a minha vivência de Conceição Evaristo.
• A censura não atingiu só o livro da
Conceição Evaristo. Em 2024, o livro “Avesso da Pele”, do Jefferson Tenório,
foi retirado pelas secretarias de Educação de estados como Paraná, Goiás e Mato
Grosso do Sul. O que a senhora falaria para outras pessoas, para as outras
professoras e bibliotecárias, que também sofrem, ou sofreram, com a dor da
censura?
Quando
fui perseguida, eu sabia que não estava apenas ensinando o livro. Eu estava
dizendo aos meus alunos que suas histórias importavam, que a literatura negra
também é literatura brasileira, e que eu tinha o direito de me reconhecer no
que eles viram.
As
consequências foram minhas, porque elas não foram só profissionais, elas foram
consequências até familiares. Cheguei a ouvir pessoas dizendo: “você foi
inventar de ser negra e agora está passando por isso”. Então, comecei a
conviver com medo, com a insegurança, com a exposição pública e com a sensação
de que ensinar história e literatura podia custar muito caro.
Mas eu
também aprendi uma coisa: quando um livro é atacado, não é só a obra que está
em disputa, mas o direito dos estudantes de fazer perguntas, de conhecer outras
perspectivas e de construir um pensamento crítico. Eu podia ter desistido,
poderia nunca mais levar um livro como “Olhos D’Água” em uma sala de aula. Se
eu fizesse isso, a censura teria vencido. Eu acho que é por isso que eu
continuo lutando.
Eu luto
pelo direito de qualquer professora ir para uma sala de aula sem medo, sem
dúvida. Eu luto porque eu sei que os livros transformam vidas. E é justamente
para acreditar nisso que eu também aprendi que eles podem incomodar. Por quê?
Porque a sociedade prefere que a gente aprenda a não questionar, que a gente
aprenda a não refletir, que a gente aprenda a não reconhecer as desigualdades.
E hoje, quando eu olho para trás e olho para frente e vejo onde o Olhos D’Água
chegou, eu vejo que isso é uma responsabilidade.
Aquela
história, que começou lá em 2021, em uma escola, no bairro de Cabula, na cidade
de Salvador, no estado da Bahia, continua em mim. E é por isso que eu falo para
a gente pensar. A questão é saber se as pessoas que defenderam os livros também
conseguiram sobreviver.
Então,
o que eu falo para as pessoas que carregam os livros, que seguram os livros,
que lutam pelos livros, é que elas não desistam. Porque são essas pessoas que
vão transformar a sociedade lá na frente. Que talvez as nossas histórias não
sejam contadas. Que os nossos nomes sejam apagados das narrativas históricas. A
gente não está lutando por nós, estamos lutando pelo direito de poder ler, pelo
direito de aprender. E mais que isso, é pelo direito de enfrentar o sentido.
Fonte:
Por Por Wanessa Celina, da Agência Pública

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