Liberland e Próspera:
as micronações que bilionários tentam construir em nome da liberdade a qualquer
custo
Vista
do barco, a República Livre de Liberland não parece grande coisa.
Você
jamais imaginaria que essa extensão plana e lamacenta de várzea do rio Danúbio,
pontilhada de amieiros, barracas e casas na árvore, está ligada a alguns dos
homens mais ricos do mundo, incluindo um dos maiores investidores do negócio
de criptomoedas da
família Trump.
Em
contrapartida, a versão em realidade virtual de Liberland que me mostram —
projetada pelo escritório de arquitetura ZHA, de Zaha Hadid — apresenta torres
reluzentes, parques públicos flutuantes e estruturas aquáticas que desafiam a
gravidade.
Quem me
apresenta o projeto é Vít Jedlička, o presidente de Liberland. Ele fundou essa
micronação em um território disputado entre a Sérvia e a Croácia, com o objetivo de
criar um país digital e verdadeiramente libertário, operado com a mesma
tecnologia das criptomoedas.
Tenho
visitado Liberland ao longo do último ano para produzir um documentário da BBC
Two intitulado The Tech Billionaire Takeover (A Ascensão
dos Bilionários da Tecnologia, em tradução literal).
Liberland
pode parecer uma piada. No entanto, o projeto é financiado por alguns dos
homens mais ricos do setor de criptomoedas e baseia-se em uma ideia que eles
tentam exportar: a de que o próprio governo pode ser substituído.
Chegamos
ao país de barco, já que as autoridades croatas impediram o acesso por terra.
Alguns colonos, vestindo jaquetas corta-vento, saem à margem para nos acenar, e
o presidente Jedlička, comunicando-se por meio de um megafone, entrega uma
medalha oficial a um deles.
Na
maioria das democracias modernas, o voto de cada pessoa tem o mesmo peso. Mas,
em Liberland, a situação é diferente graças a um token de
criptomoeda que pode ser comprado, chamado Liberland Merits.
O
presidente Jedlička me explica que a eleição de uma pessoa ocorre por meio
desses Merits. "Assim, as pessoas que possuem mais Merits têm
maior influência na definição de quem assumirá a liderança do país", diz
ele.
Na
prática, isso significa que é possível votar diretamente com o seu dinheiro.
Liberland
também é totalmente isenta de impostos, algo que seu ministro do Interior, Ivan
Pernar — um controverso ex-deputado croata expulso do parlamento por disseminar
teorias da conspiração — explica.
"Normalmente,
as pessoas que acreditam na liberdade, em finanças descentralizadas e coisas do
gênero tendem a pertencer à classe alta da sociedade", diz Pernar.
"Se você não fizer nenhuma seleção e disser que qualquer um que chegar de
barco é bem-vindo, acabaríamos como o Reino Unido. Não queremos
isso."
"Então
é liberdade, mas... algumas pessoas têm mais liberdade do que outras?",
pergunto. Sugiro que uma das principais formas de obter poder e influência em
Liberland parece ser por meio do dinheiro.
"Claro",
diz Pernar. Ele afirma que, se houvesse "um monte de vagabundos no seu
país sem nada", outros teriam de contribuir para pagar seus benefícios.
Ele
então compara os pobres a animais: "Não alimente os animais, pois, se o
fizer, eles se acostumarão a isso e perderão a capacidade de se alimentar
sozinhos. O mesmo vale para as pessoas".
Para os
apoiadores ricos de Liberland, ajudar os pobres — ou, na verdade, qualquer
forma de tributação ou redistribuição de riqueza — é uma afronta à sua
liberdade individual. Essa visão é compartilhada, como era de se esperar, por
pessoas neste mundo com muito mais dinheiro e influência do que Pernar.
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O bilionário das bananas
No
último ano, tenho convivido com o primeiro-ministro de Liberland, o magnata
chinês das criptomoedas Justin Sun. Com o apoio de Sun
— e de cerca de outros 30 bilionários da tecnologia, segundo eles —, os
habitantes de Liberland podem agora, de fato, ter acesso aos recursos
necessários para começar a construir a versão de sua micronação com torres
reluzentes.
A
fortuna de Sun é estimada em US$ 8,5 bilhões. Ele é talvez mais conhecido por
ter comprado, por US$ 6,2 milhões, uma obra de arte que consistia em uma banana
fixada a uma parede com fita adesiva e, em seguida, tê-la comido.
Ele
também foi acusado por órgãos reguladores dos Estados Unidos de fraude e
manipulação de mercado. Sun nega as acusações e, recentemente, firmou um acordo
de US$ 10 milhões para encerrar o caso.
Sua
empresa, a Tron, é uma blockchain — uma rede de global onde é
possível comprar e vender criptomoedas. Ao contrário de um banco, ela não é
administrada por uma autoridade única; é descentralizada e opera em diversos
computadores ao redor do mundo, o que dificulta a tributação e a regulamentação.
Essa
mesma tecnologia está sendo utilizada para gerir o governo de Liberland e, um
dia — se depender de Sun —, poderá gerir outros também.
Os
cidadãos votam em leis e referendos usando tokens digitais, e
a própria votação é contabilizada e executada automaticamente por meio de
código, em vez de ser contada por autoridades humanas.
Na
prática, porém, a tecnologia ainda está em fase inicial, e a atuação de
autoridades humanas continua sendo necessária para implementar as leis.
Segundo
a empresa de análise de blockchain TRM Labs, a Tron é uma das
maiores plataformas para a movimentação de criptoativos ilícitos — incluindo,
segundo relatos, fundos ligados ao Hamas e ao Hezbollah, bem como recursos
de cartéis de drogas e redes da máfia.
Sun
afirma que a Tron estabeleceu novas parcerias com autoridades policiais para
combater transações ilegais na blockchain, resultando em uma queda
significativa no volume de atividades ilícitas na plataforma.
A
família Trump o acolheu como principal investidor de tokens em
seu próprio empreendimento de criptomoedas, a World Liberty Financial. Sun
investiu mais de US$ 75 milhões na empresa, além de outros milhões na memecoin de
Donald Trump, investimento que lhe garantiu um jantar com o presidente dos EUA.
Memecoins são
criptomoedas criadas a partir de memes ou piadas de redes sociais. Trump deixou
seu cargo na empresa ao assumir a Presidência, mas o fundo familiar ainda detém
a companhia e lucra com ela por meio da venda de uma criptomoeda chamada USD1.
Ele lucrou mais de US$ 1,4 bilhão com criptoativos no último ano e tem
potencial para ganhar muito mais.
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Um planeta sem fronteiras?
Pode-se
afirmar com segurança que a família Trump lucrou muito com sua relação com Sun.
Mas o que Sun e outros empreendedores de criptomoedas que se aproximaram dos
Trump esperam em troca? Liberland talvez ofereça uma pista.
Sun é
uma pessoa calorosa e simpática. Assim como outros bilionários que conheci,
tive a impressão de que Sun raramente convivia com pessoas que não trabalhassem
para ele ou que não estivessem interessadas em seu dinheiro. A maior parte de
nossas conversas girava em torno de ficção científica e videogames.
No
verão passado, logo após retornar do espaço — viagem pela qual pagou US$ 29
milhões à Blue Origin, empresa de Jeff Bezos —, Sun me ligou para contar sobre
a experiência.
Ele
ficou impressionado com a ideia de que "o planeta em si não tem
limites", ou seja, não possui fronteiras, e de que "sequer existe, a
princípio, o conceito de país".
A noção
de que o Estado-nação está ultrapassado e poderia, portanto, ser substituído
pela tecnologia blockchain é uma das razões pelas quais ele
decidiu concorrer ao cargo de primeiro-ministro de Liberland.
Liberland
não é um caso isolado; é um dos vários protótipos desse tipo de micronação —
áreas reivindicadas como nações independentes, mas não reconhecidas legalmente
como tal.
Projetos
como Próspera, em Honduras; o Seasteading Institute, de
Peter Thiel; e a Draper Nation, de Tim Draper — um país totalmente
digital que utiliza o Bitcoin como moeda — buscam concretizar essa mesma ideia.
Encontro-me
com Draper — ele próprio um bilionário investidor do setor de tecnologia — na
Draper University, no Vale do Silício; trata-se de um programa intensivo de
capacitação para jovens fundadores de empresas de tecnologia, onde os alunos
juram "promover a liberdade a qualquer custo".
Draper
me diz acreditar que o governo presta um "serviço ruim a um custo
elevado" e que a tecnologia blockchain simplesmente o
substituirá. "É apenas uma questão de tempo", diz.
Muitas
dessas ideias remontam ao controverso pensador e fundador de empresas de
tecnologia Curtis Yarvin, frequentemente chamado de "fundador do Dark
Enlightenment", o iluminismo sombrio.
Ele
conquistou admiradores na direita americana, incluindo o bilionário da
tecnologia Peter Thiel e figuras da atual administração Trump, como o
vice-presidente JD Vance.
Sua
filosofia é notoriamente confusa, mas resume-se, essencialmente, a uma crítica
à democracia (que, segundo ele, fracassou devido aos níveis ainda elevados de
imigração) e à conclusão de que deveríamos substituí-la por uma estrutura
autoritária situada em algum ponto entre uma corporação, uma monarquia e uma
micronação gerida por blockchain.
Apesar
de considerar a mídia como uma das metades da "Catedral" — termo que
ele usa para descrever o que acredita ser um poder ideológico repressivo,
composto por jornalistas e acadêmicos, que governa secretamente a sociedade
ocidental —, ele concorda em se encontrar comigo em Berkeley, na Califórnia.
Fazemos
uma breve caminhada enquanto Yarvin, que tem a aparência de um roqueiro punk
envelhecido, discorre em narrativas longas e sinuosas, fazendo referência a
textos esotéricos e períodos históricos para fundamentar seus argumentos.
Em
nossa conversa, ele expõe seu conceito de "Patchwork" (ou
"Mosaico"), no qual os Estados-nação tradicionais seriam substituídos
por uma rede global de minipaíses soberanos, pertencentes a acionistas e
competindo por cidadãos da mesma forma que uma empresa compete por clientes.
Ele
acredita que a tecnologia blockchain pode ser usada para
concretizar esse mundo e que o resultado seriam "monarquias
corporativas" governadas por "reis-CEOs".
Esses
monarcas corporativos responderiam a um conselho oculto de acionistas, que
poderiam, inclusive, controlar as forças armadas e a polícia por meio de algo
que ele chamou de "crypto dingus" — um dispositivo
criptográfico capaz de, essencialmente, desativar todas as armas de fogo.
Muitos
desses bilionários da tecnologia veem Trump — e o cargo que ele ocupa — como
algo ultrapassado, destinado a ser substituído por sua tecnologia superior. Ao
longo dos encontros que tive com eles, fui percebendo cada vez mais que eles se
viam como os verdadeiros detentores do poder.
O lobby das
criptomoedas superou a indústria de combustíveis fósseis e tornou-se o mais
poderoso dos EUA, tendo contribuído com US$ 238 milhões no ciclo eleitoral mais
recente, segundo uma análise da Fox Business. Yarvin, Sun, Draper e Liberland
oferecem um vislumbre do futuro que alguns deles imaginam para nós.
Eles
todos me disseram como a tecnologia blockchain e as
criptomoedas podem nos libertar — a nós e ao nosso dinheiro — do controle
governamental. Mas a quem entregaríamos esse controle em troca? Todos os
exemplos que vi mostram a riqueza e o poder fluindo para quem detém o controle
da tecnologia.
¨
Se eles podem, você também pode criar a sua a sua
micronação. Já pensou nisso? Por Juliana Andrade
Pra
começar um país, você precisa de pelo menos duas coisinhas básicas: um
território e o um reconhecimento das Nações Unidas. Se você não conseguir ter
isso, você para a categoria de estados conhecidos como micronações.
Já
existem algumas micronações espalhadas por aí, e cada uma com a sua
peculiaridade. Tem desde um considerável espaço territorial até mesmo uma casa,
como é o caso do austríaco Edwin Lipburger.
>>>
11 micronações que você deveria conhecer:
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República de Kugelmugel
As
autoridades austríacas não deixaram que Edwin Lipburger tivesse uma casa em
forma de bola, então sabe o que ele fez? Declarou independência! A bola, oops,
a casa, foi transferida para um parque de Viena e delimitada com cerca de arame
farpado. Edwin se recusou a pagar impostos e só não foi para a prisão porque o
presidente austríaco perdoou.
<><>
North Dumpling Island
Localizada
na costa de Connecticut, esta ilha foi comprada por Dean Kamen. Ele até tentou
construir uma turbina eólica, mas o governo dos Estado Unidos negou. Mais
tarde, ele teve que assinar um pacto de não agressão com o então presidente
George W. Bush.
<><>
Reino da Valáquia
Fundada
em 1997 pelo fotógrafo Tomáš Harabiš, esta micronação foi criada em um canto da
República Checa com a intenção de atrair turistas. Deu super certo, inclusive
eles fizeram passaporte para 80 mil cidadãos e já teve até golpe palaciano.
Relações
Internacionais
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Whangamomona
Com
sede na cidade da Nova Zelândia, esta micronação já teve uma cabra como
Presidente, que permaneceu no posto entre 1999 e 2001. Quer que continue ou
pode parar por aqui? Melhor parar, né?
Guias e
documentários de viagens
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Filettino
Para
reduzir os custos administrativos, os habitantes desta pequena vila italiana se
fundiu com a aldeia vizinha e pensaram: Por que não declarar independência? Foi
isso que aconteceu. A micronação tem a sua própria moeda, estabeleceu um brasão
e fez uma Constituição.
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Principado de Hutt River
Essa é
uma das micronações mais famosas. O agricultor de trigo Leonard Castelo começou
esse pequeno país no meio da Austrália por estar insatisfeito com uma quota
imposta pelo governo ao trigo. Sua população é de apenas 60 habitantes.
Relações
Internacionais
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República de Minerva
Foi uma
tentativa do milionário Michael Oliver em criar um microestado. Em 1971, ele
enviou barcos carregados de areia da Austrália para elevar o nível dos recifes
sobre o mar, assim ele criou uma ilha artificial que permitiu a construção de
uma torre onde se içou a nova bandeira. Em 1982, tropas do exército de Tonga,
os expulsaram de lá.
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Molossia
Localizada
no meio de Nevada, essa micronação começou em 1977 com um senhor chamado Kevin
Baugh. Trata-se um território com meio hectare que comporta uma população de
seis habitantes, um banheiro, uma ferrovia em miniatura e até um campo de
batalha.
Material
de referência geográfica
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Akhzivland
Depois
que o governo israelense tentou demolir sua casa, Eli Avivi declarou
independência e foi reconhecido pelo Ministério do Turismo Israel como uma
micronação. Atualmente, Eli investe fortemente em seu território para atrair
turistas do mundo inteiro.
Relações Internacionais
<><> The Grand Duchy of Westarctica
Em
2001, quando Travis McHenry viu que havia um pedaço de território dando sopa lá no
antártico, ele não pensou duas vezes em se tornar a realeza. Porém, até o
momento, tudo o que seu país conseguiu foi produzir alguns selos.
<><>
Republic of Morac-Songhrati-Meads
Fundada
pelo capitão naval James Meads na década de 1870 sobre as Ilhas Spratly, a
República Morac, foi campo de batalha entre China , Malásia, Taiwan e Vietnã na
Segunda Guerra Mundial.
Fonte:
Por Matt Shea, Liberland/BBC News/Guia da Semana

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