MP
pede laudos para avaliar se usina de etanol da BP causou dano ambiental no TO
O
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TOCANTINS aguarda a conclusão de dois laudos periciais
para avaliar se obras da Pedro Afonso Bioenergia, subsidiária da BP Bionergy,
causou degradação ambiental na Fazenda Gorgulho, no município de Pedro Afonso,
às margens do Rio Tocantins.
A BP
Bionergy é uma empresa de bioenergia controlada pela BP, multinacional
britânica de combustíveis fósseis. A BP passou a controlar integralmente a
operação brasileira em 2024, após adquirir a participação de 50% da Bunge na
antiga joint venture BP Bunge Bioenergia. Focada na produção de etanol, açúcar
e bioeletricidade a partir da cana-de-açúcar, a empresa possui 11 unidades
industriais em cinco estados brasileiros.
Segundo
as denúncias, encaminhadas sob anonimato ao MP-TO em setembro de 2025 e
reveladas pelo Jornal Opção Tocantins, a instalação de uma adutora de água,
destinada à irrigação de lavouras de cana-de-açúcar e ao abastecimento da usina
de biocombustível da Pedro Afonso Bioenergia, teria causado a alteração do
fluxo natural das águas locais, a destruição de nascentes e impactos em áreas
de reprodução de peixes no rio Tocantins.
Em maio
de 2026, uma nova denúncia, protocolada pelo espólio do proprietário de parte
da área onde a obra está sendo realizada, acusa a empresa de ter desmatado
aproximadamente 5 mil hectares de Cerrado — o equivalente a aproximadamente 7
mil campos de futebol — para a implantação de áreas de rotação de culturas
destinadas à irrigação. O desmate teria ocorrido sem a realização de estudos
ambientais compatíveis com a dimensão da intervenção.
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Empresa nega irregularidades
Em
manifestação enviada ao Ministério Público, a Pedro Afonso Bioenergia negou as
irregularidades e afirmou que as obras fazem parte de “um projeto regular de
irrigação agrícola”, licenciado pelo Naturatins (Instituto Natureza do
Tocantins), autarquia ambiental vinculada ao Executivo estadual, e acompanhado
pelas autoridades competentes.
Em nota
enviada à Repórter Brasil, a Pedro Afonso Bioenergia reafirmou os argumentos
contidos na manifestação ao MP-TO, mas não respondeu às perguntas relacionadas
aos impactos do sistema de adutoras ou a denúncia de supressão de cinco mil
hectares. A empresa também não respondeu aos questionamentos sobre eventual
consulta ao povo Xerente que vive na região.
No
Estudo Ambiental Simplificado apresentado pela empresa ao Naturatins, acessado
pela Repórter Brasil, a Pedro Afonso Bioenergia apontou não ser necessário
suprimir vegetação para a implantação do sistema de irrigação. A Licença de
Instalação do empreendimento autoriza o Naturatins a suspender ou cancelar a
autorização em caso de “omissão ou falsa descrição de informações relevantes
que subsidiaram a expedição da licença”.
A usina
da Pedro Afonso Bioenergia é certificada pelo RenovaBio, política nacional de
biocombustíveis do governo brasileiro que permite que empresas vendam uma
espécie de crédito de carbono (CBIO). A venda dos CBIOSs baseia-se nas emissões
evitadas de gases de efeito estufa com a substituição de combustíveis fósseis
por fontes renováveis, como o etanol de cana-de-açúcar, mas os empreendimentos
vendedores devem comprovar que a biomassa utilizada não advém de áreas de
desmatamento recente.
Segundo
apuração da Repórter Brasil, a eventual comprovação de irregularidades em áreas
ou dados que constam no processo de certificação podem levar à sua revisão ou
cancelamento.
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Uma sequência de alertas
O
processo de licenciamento da usina foi aberto em dezembro de 2023. Em maio de
2024, o Naturatins notificou a empresa sobre pendências, entre elas a falta de
outorga da ANA (Agência Nacional de Águas), que autoriza a captação em rio de
domínio federal. À reportagem, a agência confirmou ter emitido duas outorgas
nos meses seguintes, enquanto outras três foram concedidas em 2025 — depois,
portanto, da Licença de Instalação, aprovada em novembro de 2024.
Além
disso, segundo documentos acessados pela reportagem, as certidões de registro
imobiliário anexadas ao processo de licenciamento mostravam que a Pedro Afonso
Bioenergia não tinha propriedade registrada sobre as terras, o que, por si só,
não impede o licenciamento, desde que haja comprovação de posse legítima com
anuência do proprietário.
Em
fevereiro de 2026, a assessoria jurídica do Naturatins emitiu um parecer
concluindo que justamente “a documentação acostada aos autos é insuficiente
para dar comprovação de propriedade [à Pedro Afonso Bioenergia]”.
Em
março, a área técnica de licenciamento da autarquia emitiu nota técnica na
mesma direção e deu à empresa prazo de 30 dias para regularizar a documentação
confirmando, entre outros pontos, posse legítima ou anuência do proprietário
para o empreendimento, com uma advertência expressa: o descumprimento
acarretaria a revogação das licenças. O prazo venceu em 24 de abril de 2026.
Em maio
de 2026, um novo parecer da assessoria jurídica do Naturatins reiterou a
insuficiência da documentação, acrescentou que a posse apresentada pela empresa
estava “juridicamente fragilizada” pelo litígio com o dono da terra em
registros públicos e recomendou formalmente a suspensão temporária do processo
de licenciamento.
Em
contato com a Repórter Brasil, a autarquia limitou-se a afirmar que o
licenciamento segue em tramitação regular, conforme os procedimentos técnicos,
jurídicos e administrativos previstos na legislação ambiental.
Segundo
informou o MP-TO à reportagem, uma liminar da 1ª Vara da Fazenda Pública de
Palmas (TO) atendeu um pedido da Pedro Afonso Bioenergia e determinou que o
Naturatins não suspendesse nem rejeitasse o licenciamento, que segue aberto.
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Possíveis impactos em terra indígena
Outra
questão envolvendo o projeto de irrigação da Pedro Afonso Bioenergia diz
respeito aos seus impactos à TI (Terra Indígena) Xerente. Segundo uma carta
aberta divulgada em junho deste ano pela Frente Estudantil em Defesa do Rio
Tocantins e Meio Ambiente, o empreendimento estaria localizado dentro de um
raio de 10 quilômetros do território, distância que obriga a manifestação da
Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) no processo de licenciamento,
segundo a Portaria Interministerial nº 60/2015.
De
acordo com a carta, o órgão indigenista não respondeu ofício sobre o assunto
que o Naturatins havia enviado dentro do prazo regulamentar. O prosseguimento
do licenciamento sem essa manifestação configuraria, segundo a Frente
Estudantil, desrespeito à Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do
Trabalho) e ao artigo 231 da Constituição Federal, que garantem a comunidades
tradicionais o direito à consulta prévia, livre e informada sobre projetos que
possam afetar seu território.
Procurada
pela Repórter Brasil, a Funai em Palmas (TO) afirmou que a denúncia de violação
de direitos dos povos indígenas da TI Xerente apresentada pela Frente
Estudantil está em análise na Coordenação-Geral de Análise de Impacto
Ambiental, em Brasília (DF) (leia aqui a resposta na íntegra).
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Silêncio dos investidores da BP
A BP é
uma empresa de capital aberto, com ações negociadas nas principais bolsas de
valores do mundo. Questionados pela reportagem, acionistas da BP não se
manifestaram diretamente sobre os possíveis danos ambientais causados pela
subsidiária brasileira da multinacional.
Um dos
principais acionistas da empresa é o Norges Bank Investment Management (NBIM),
maior do fundo soberano do mundo, controlado pelo governo da Noruega. À
Repórter Brasil, ele afirmou apenas que mantém diretrizes sobre clima e
natureza para todas as empresas de sua carteira, mas disse que não comenta
investimentos individuais (leia aqui a resposta na íntegra).
Em um
documento de expectativas sobre natureza dirigido às empresas de sua carteira,
o fundo afirma que companhias devem “demonstrar se eliminaram o desmatamento de
suas atividades e cadeias de valor” e respeitar “o direito ao consentimento
livre, prévio e informado” dos povos indígenas.
Apontadas
por dados da LSEG (grupo internacional de dados e infraestrutura de mercado
financeiro) entre as maiores acionistas da BP em 2025, as gestoras de
investimentos BlackRock, Elliott e Vanguard não responderam à reportagem.
A
BlackRock declara em seu comentário oficial sobre capital natural que espera
que empresas com impactos relevantes sobre habitats naturais “publiquem
políticas de desmatamento zero e estratégias sobre biodiversidade”. Já a
Vanguard afirma que os conselhos de administração devem exercer “supervisão
contínua dos riscos materiais” — incluindo ambientais — capazes de afetar os
retornos de longo prazo.
A
Elliott, por sua vez, não publica compromissos socioambientais. A empresa, pelo
contrário, pressiona a BP a abandonar suas ambições em energia renovável e a
voltar seu foco para a produção de petróleo e gás — pressão que coincidiu com o
anúncio da multinacional britânica, em 2025, de cortar cerca de 5 bilhões de
dólares anuais dos investimentos em baixo carbono.
Eduardo
Trevisan, especialista em cadeias agropecuárias e biocombustíveis do Imaflora,
organização brasileira que atua com certificações, auditorias e
sustentabilidade socioambiental, critica o silêncio dos financiadores da BP
sobre as denúncias contra sua subsidiária brasileira.
Para
ele, há uma série de medidas de monitoramento que podem ser tomadas por
investidores. “Justamente para reduzir riscos socioambientais, quem investe
pode solicitar avaliações prévias, diligências e auditorias antes de financiar
uma usina ou operação agroflorestal”, explica.
Para
Merel van der Mark, coordenadora da Florestas & Finanças, coalizão
internacional que monitora fluxos financeiros associados ao desmatamento,
instituições financeiras expostas a uma empresa global têm a obrigação de
avaliar riscos socioambientais nas subsidiárias locais.
“Esse
acompanhamento deve continuar mesmo depois de estabelecida a relação
financeira, sobretudo quando uma dessas operações é alvo de investigação
ambiental”, pondera.
• Usina de cana da BP pode perder selo
federal se dano ambiental no TO for provado
MONITORADA
PELO MP-TO (Ministério Público do Tocantins) por possíveis danos ambientais, a
usina da Pedro Afonso Bioenergia, subsidiária da BP Bioenergy no município de
mesmo nome, no Tocantins, pode perder seu certificado no RenovaBio caso as
denúncias sejam comprovadas e estejam relacionadas a áreas certificadas ou a
dados informados no processo de certificação, confirmou a ANP (Agência Nacional
do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) à Repórter Brasil.
O
RenovaBio é a política nacional de biocombustíveis do governo brasileiro.
Ele permite que empresas negociem na
bolsa de valores (B3) uma espécie de crédito de carbono conhecido como CBIO
(Crédito de Descarbonização). Os CBIOs são calculados a partir das emissões de
gases de efeito estufa supostamente evitadas com a substituição de combustíveis
fósseis por fontes renováveis, como o etanol, na matriz energética brasileira.
Somente em 2025, de acordo com o governo federal, o volume financeiro dos CBIOs
negociados atingiu R$ 2,4 bilhões.
No
entanto, o RenovaBio veta a concessão de certificados a usinas que produzem
biocombustíveis em áreas onde ocorreu desmatamento recente, já que, no Brasil,
o corte de matas nativas é a principal fonte de emissões de gases causadores do
aquecimento global.
A
certificação da Pedro Afonso Bioenergia é válida até 1º de dezembro de 2027. A
apuração do MP-TO envolve possíveis danos ambientais na Fazenda Gorgulho, às
margens do Rio Tocantins, causadas por obras relacionadas a uma adutora
destinada à irrigação de lavouras de cana-de-açúcar e ao abastecimento da
usina.
A
suspeita inclui aterramento irregular em APP (Área de Preservação Permanente) e
destruição de nascentes. Além disso, outra denúncia aponta a supressão de
aproximadamente 5 mil hectares de vegetação nativa — o equivalente a cerca de 7
mil campos de futebol — para implantação de áreas de plantio destinadas à
irrigação.
O MP-TO
aguarda a conclusão de dois laudos periciais para avaliar se as obras da Pedro
Afonso Bioenergia causaram degradação ambiental na Fazenda Gorgulho.
Em
manifestação ao MP-TO, a empresa alegou que as obras na fazenda integram um
projeto regular de irrigação, devidamente licenciado, acompanhado por estudos
de impacto ambiental e outorgas de água.
A
empresa reafirmou os argumentos contidos na manifestação em nota enviada à
Repórter Brasil, mas não respondeu às perguntas relacionadas aos impactos do
sistema de adutoras ou a denúncia de supressão de cinco mil hectares (leia aqui
a resposta na íntegra).
Segundo
apurou a Repórter Brasil, a usina da subsidiária da BP Bioenergy possui
histórico recente de vendas de etanol a Vibra (antiga BR Distribuidora),
Ipiranga e Raízes, as três maiores distribuidoras de combustível do Brasil.
Questionadas, a Vibra disse ter solicitado esclarecimentos formais à Pedro
Afonso Bioenergia, enquanto a Ipiranga afirmou que as denúncias apresentadas
pela reportagem serão apuradas internamente. A Raízen preferiu não se
manifestar.
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ANP e certificadora não informam detalhes sobre certificação
Nem a
ANP nem a Benri, empresa de auditoria credenciada pela agência para certificar
a usina de Pedro Afonso, responderam à Repórter Brasil se a Fazenda Gorgulho
foi incluída no cálculo do potencial de emissão de CBIOs.
Essa
informação é decisiva por causa das próprias regras do RenovaBio. Pelos
critérios do programa, somente pode ser contabilizada como elegível para gerar
CBIOs a biomassa produzida em imóvel rural sem ocorrência de supressão de
vegetação nativa a partir de novembro de 2018.
A
denúncia em apuração no MP-TO aponta justamente supressão de vegetação nativa
em larga escala em áreas de plantio ligadas à usina da Pedro Afonso Bioenergia.
Em
resposta por email, a ANP afirmou que informações detalhadas “não podem ser
divulgadas conforme a Lei de Acesso à Informação, por envolver dados pessoais
e/ou informações protegidas por sigilo comercial, industrial ou empresarial”.
Citando
“obrigações de confidencialidade assumidas contratualmente”, o Benri também não
forneceu essas informações à reportagem.
Perguntada
sobre as consequências de uma eventual constatação de que uma área com
supressão irregular de vegetação nativa, intervenção irregular em APP ou
irregularidade ambiental tenha fornecido cana-de-açúcar usada no cálculo do
volume elegível, a ANP afirmou que poderá revisar “o volume elegível, a Nota de
Eficiência Energético-Ambiental (NEEA), o fator de geração de CBIOs e, quando
aplicável, os próprios CBIOs emitidos com base nas informações originalmente
declaradas”.
Segundo
Eduardo Trevisan, especialista em cadeias agropecuárias e biocombustíveis do
Imaflora, o RenovaBio mede o desempenho climático e energético da produção, mas
não funciona como uma certificação socioambiental ampla. “Uma operação pode
estar no RenovaBio e ainda apresentar problemas sociais ou ambientais não
capturados pelo sistema”, alerta.
Trevisan
defende que o setor de biocombustíveis seja analisado para além do balanço de
carbono, com atenção a impactos sobre água, vegetação nativa, comunidades e
territórios.
Coordenadora
da coalizão internacional Florestas & Finanças, Merel van der Mark defende
que dados de rastreamento da origem dos produtos e de avaliação dos impactos da
cadeia de produção não deveriam ser sigilosos, e que a ausência de informações
dificulta o controle social e a avaliação de riscos.
Ela
ressalta, no entanto, que “a falta de dados não é uma desculpa para as
instituições financeiras não monitorarem seus clientes. Os bancos e
investidores podem exigir mais transparência e rastreabilidade”, acredita.
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Distribuidoras anunciam medidas
Questionada
pela Repórter Brasil, a Vibra, distribuidora com histórico de compras e etanol
da usina, respondeu que, após tomar conhecimento das informações divulgadas
pela imprensa, “solicitou esclarecimentos formais à Pedro Afonso Bioenergia
sobre os fatos noticiados”. A distribuidora afirmou que acompanha o tema e,
caso sejam detectadas irregularidades que violem seus princípios, “o compliance
em conjunto à governança da companhia tomarão as medidas previstas”.
Em seu
Manual para Fornecedores, a Vibra diz que as empresas devem adotar “as melhores
práticas de gestão ambiental”, mitigar impactos de suas atividades e atender
aos requisitos legais aplicáveis “considerando inclusive o local de produção,
entrega ou execução dos bens ou serviços” fornecidos à companhia.
A
Ipiranga, por sua vez, declarou que as informações apresentadas pela Repórter
Brasil serão apuradas internamente, e que, “caso sejam identificadas situações
que demandem providências, as medidas cabíveis serão adotadas”.
Já a
Raízen preferiu não se manifestar. A empresa afirma, em seu código de conduta
para fornecedores, parceiros e subcontratados, que é “condição de
relacionamento” o “cumprimento integral da legislação ambiental”, com adequação
“a todas as licenças ambientais necessárias”. A distribuidora prevê penalidades
em caso de descumprimento das diretrizes, incluindo “a rescisão do contrato ou
relacionamento”.
Fonte:
Repórter Brasil

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