segunda-feira, 13 de julho de 2026

Eugênio Bucci: Brasil – a pátria apostadeira

A explosão das apostas on-line durante a Copa do Mundo gerou três efeitos visíveis. Em primeiro lugar, o impulsionamento dos lucros de um punhado de milionários sagazes, tão sagazes que sabem se manter invisíveis (a gente deduz que eles se locupletam, mas não consegue enxergar quem eles são).

O segundo efeito visível é a ruína dos mais pobres, tão pobres que ficaram irremediavelmente invisíveis. Em terceiro lugar, surge um debate nas páginas dos jornais acerca da legalidade desse tipo de jogatina e de sua máquina de propaganda. O questionamento que se lê na imprensa é legítimo, mas não tem sido suficiente para mudar a situação. Seu resultado prático não está entre as coisas que são visíveis.

Mesmo assim, vale insistir. Sigamos com o debate. O assédio massivo que leva jovens a se deixarem moer por engrenagens viciantes deveria alarmar a consciência pública. Há quatro dias, no jornal O Estado de S. Paulo, o jornalista e professor Carlos Alberto Di Franco avisou: “O vício em apostas já se consolidou como um grave problema de saúde pública”.

Em seu artigo “Roletas da morte”, publicado na segunda-feira, ele disse mais: “A compulsão leva ao endividamento, destrói famílias, rompe vínculos afetivos, compromete carreiras profissionais e alimenta uma espiral de desespero que, não raramente, termina em suicídio”. A questão incômoda é que essas palavras, embora lúcidas, não alteraram a realidade. As bets continuam aí, faceiras.

Há quase dois anos, no dia 3 de outubro de 2024, eu mesmo escrevi um artigo a respeito, postado no site A Terra é Redonda.[1] No subtítulo já vinha o recado: “É hora de acabar com a publicidade das bets”. Eu argumentava que as mensagens publicitárias das casas de apostas, que causam dependência grave, deveriam sofrer restrições legais, em analogia com o que já acontece com os anúncios de cigarro e de bebidas alcoólicas. Em resumo, não deveriam assediar assim, tão à vontade, as crianças e os adolescentes. Agora pergunto: o que eu escrevi mudou alguma coisa? Nada.

De lá para cá, o cenário piorou. Em maio, há coisa de dois meses, um contingente de 11% da população do Brasil enviava alguma parcela de suas economias para as bets.  Na semana passada, no embalo dos jogos da Copa, o patamar triplicou. De acordo com o levantamento feito pela fintech Klavi, a partir dos números do Open Finance (sistema de integração de dados do Banco Central), já são 34,8% os brasileiros que viraram fregueses dos jogos de azar da era digital. Não, nós não somos mais um país-continente: somos um cassino-continente, isto sim.

A velha pátria de chuteiras tem hoje que empenhar as chancas para quitar as dívidas com o crupiê. Ficou descalça. Pense num garoto indefeso, que já não tem no que acreditar, quase sem – como dizem – “poder de compra”. Ele não escapa. Os seus ídolos nacionais, incluindo os mais famosos e mais bem pagos praticantes profissionais do ludopédio, vão às telas para intimá-lo a dar algum dinheiro aos donos das bets. Narradores supostamente esportivos vêm em reforço: “Jogue com responsabilidaaade”. Não há como fugir ao bombardeio.

Algo de muito sério se esfarelou nos fundamentos da nossa sociedade. A essa altura, além de procurar soluções legais, a cada dia mais insondáveis, a gente poderia tentar entender o que houve conosco em outro plano – não no plano das leis, mas no plano da ética. O que se passa com um país que autoriza a comercialização de uma mercadoria que vai desgraçar tantos destinos? Por que os endinheirados levam as famílias pobres a uma roleta que não oferecem às suas próprias?

Todo mundo aqui sabe que os donos de bets não mandam seus filhos apostarem dinheiro no celular. Ao contrário, tomam providências para mantê-los longe do vício. Por que, então, recrutam os filhos dos outros para a jogatina?

Não falo de um caso isolado ou de mercados de pouco alcance. O que está aí não é uma exceção, é a regra, é um tsunami, um imperativo totalitário de proporções hiperbólicas. Pense na escala desse “problema de saúde pública”: um terço da pátria de chuteiras já é a pátria sem chuteiras, sem eira nem beira: a pátria apostadeira. Veja os comerciais na transmissão das partidas do campeonato mundial de “soccer”. Tente encontrar ali algum espaço que ainda não tenha sido contaminado pelas casas de apostas.

Quem tem costume de lidar com ideias relacionadas à ética há de conhecer um princípio que normalmente leva o nome de “regra de ouro”. O postulado é simples: você não deve dedicar às outras pessoas um tratamento que não gostaria de receber. A “regra de ouro” não vale para o gosto estético ou para preferências pessoais, mas para a convivência entre sujeitos que são titulares de direitos fundamentais.

Alguém que não goste de couve e é dono de um restaurante pode muito bem servir couve para quem a aprecia. Mas, em matéria de direitos, não se deve fazer aos demais o que não se quer para si. O nosso problema de saúde pública é que a sociedade, hoje, remunera – e muito bem – aqueles que levam os filhos dos outros a um vício que não deseja para os seus próprios filhos. E isso para falarmos apenas dos efeitos visíveis.

•        PL Rafael: Projeto proíbe “comissão” por perdas em bets e responsabiliza influenciadores. Por Por Ed Wanderley e Thiago Domenici

Após o relato de Vânia de Souza Borges sobre a morte do filho Rafael emocionar leitores em todo o Brasil, a história da professora inspirou um projeto de lei para responsabilizar diretamente influenciadores que divulguem bets e para proibir no Brasil o modelo de negócios que os permite lucrar em cima dos valores perdidos por apostadores que cliquem em seus links.

O PL Rafael, Projeto de Lei 3.613/26, em alusão ao jovem de Uberlândia (MG) Rafael Borges Amaral, que morreu aos 26 anos pressionado por seu vício em apostas online, foi protocolado pela deputada federal Dandara Tonantzin (PT-MG), conterrânea de Vânia e Rafael. O texto, apresentado na última quarta-feira (8), fundamenta a proposta a partir da história contada pela Agência Pública no especial Jogo Perigoso: O Brasil das Bets, que pode ser conferida aqui.

O projeto propõe a responsabilização solidária de toda a cadeia de divulgação de apostas – o que inclui influenciadores, afiliados, anunciantes, operadores e plataformas – por eventuais danos causados ao consumidor. Além disso, tenta proibir o modelo de contrato que prevê comissões aos influenciadores e permite remuneração proporcional às perdas registradas por seus seguidores que clicarem em seus links de divulgação, o chamado revshare (Revenue Share Agreement), que a Pública explica nesta reportagem.

“Quanto mais o consumidor perde, mais o influenciador lucra. Nosso projeto quer acabar com esse incentivo perverso. […] Quem ganha com a indicação também deve responder por ela”, declarou a deputada Dandara.

A morte de Rafael não é um caso isolado, é o retrato mais doloroso de um problema que atinge uma geração inteira de jovens brasileiros. O Estado não pode mais tratar isso como problema individual. É uma questão de saúde pública.

Na terça-feira (7), a parlamentar também apresentou um outro projeto motivado pela história da professora Vânia, o PL 3.563/26, que propõe a obrigatoriedade das plataformas de apostas de notificarem a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, sempre que forem identificados padrões de risco por parte dos apostadores em atividade.

A ideia é que haja um bloqueio preventivo temporário do usuário por um mínimo de 60 dias e disparos obrigatórios de recomendações de busca por apoio psicológico e tratamento para esse usuário, assim que o comportamento for detectado. O projeto ainda não contempla detalhamento de quais seriam esses padrões de risco e os limites do que seria aceitável.

Informada pela Pública sobre os projetos de lei protocolados na Câmara dos Deputados, Vânia se disse muito feliz com a dimensão tomada pela história de sua família. “Eu sei que ainda é apenas é um projeto, mas é por meio dessas atitudes que alguma medida efetiva será tomada. Vamos torcer para que o projeto seja aprovado e torne-se uma lei”, disse a professora.

<><> MJSP e Ministério Público acionados para investigarem influenciadores

Antes de falar com a Pública, a professora Vânia buscou a CPI das Bets, cujo primeiro relatório foi o primeiro a ser arquivado em 10 anos no Senado, para relatar sua história e como ela não havia conseguido auxílio junto à Polícia Civil de Minas Gerais e ao Ministério Público do estado. Após a repercussão da reportagem, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) foi acionado, também pela deputada federal Dandara.

A solicitação do documento MJ – SEI 08001.003232/2026-69 é para que seja aberta uma investigação sobre a atuação de influenciadores digitais, agências de publicidade e afiliados na promoção de plataformas de apostas, por meio da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC), para verificarem indícios de publicidade enganosa e abusiva, práticas digitais predatórias e falhas de proteção ao consumidor.

A parlamentar também acionou o Ministério Público de Uberlândia (MPMG – SEI 9990000001.008466/2026-87) para verificar o andamento da notícia de fato aberta junto às promotorias de defesa do consumidor e saúde, para verificar as medidas adotadas e solicitar que a Defensoria Pública de Minas Gerais preste suporte no caso.

A Pública entrou em contato com o MJSP e o MPMG na tarde desta sexta-feira (10) para verificar os encaminhamentos sobre os pedidos e aguarda resposta. Em caso de manifestação, este espaço será atualizado.

Sobre os desenvolvimentos de seu relato na Câmara e também no seu estado, a professora Vânia foi sucinta e resumiu: “Graças a Deus está surtindo efeito”.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Agencia Pública

 

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