O
envelhecimento do cérebro depois dos 60
Com o
envelhecimento, mudanças sutis começam a aparecer no cérebro, sem deixar marcas
perceptíveis. Em determinados momentos, porém, as alterações se intensificam,
provocando um deterioramento acelerado das células e conexões nervosas. Segundo
um estudo da Mayo Clinic, nos Estados Unidos, a velocidade cresce já no fim da
meia-idade, por volta dos 60 anos. De acordo com os pesquisadores, identificar
os breakpoints — ou pontos de inflexão — é essencial para medidas preventivas,
que possam retardar o desenvolvimento de demências como o Alzheimer.
Publicado
na revista Alzheimer's & Dementia, o artigo analisou dados de 2.082
participantes Mayo Clinic Study of Aging, um dos mais robustos acompanhamentos
populacionais sobre envelhecimento cognitivo do mundo. Os cientistas
investigaram biomarcadores ligados ao Alzheimer presentes no sangue, exames de
imagem cerebral e testes cognitivos para identificar os pontos de inflexão, ou
seja, idades em que a deterioração deixa de ocorrer lentamente e passa a
acelerar de forma mais intensa.
Os
resultados mostraram que diversos marcadores biológicos associados à
neurodegeneração sofrem mudanças abruptas entre o fim da meia-idade e o início
da velhice. Entre eles, estão proteínas inflamatórias, indicadores de dano
neuronal e alterações relacionadas ao acúmulo de beta-amiloide e tau — duas
proteínas consideradas centrais no desenvolvimento do Alzheimer.
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Emaranhados
Os
pesquisadores identificaram que um marcador inflamatório chamado GFAP
apresentou mudança importante por volta dos 68 anos. Já o ponto de inflexão do
NfL, relacionado à degeneração dos neurônios, foi detectado no início dos 70. O
p-tau181, proteína ligada à formação dos emaranhados típicos do Alzheimer,
acelerou aos 67 anos. Alterações cognitivas globais começaram a se intensificar
mais cedo, aos 59,8, diz o estudo.
Segundo
os autores, isso significa que o cérebro pode estar entrando em uma fase mais
vulnerável décadas antes de uma pessoa receber o diagnóstico de demência. Para
eles, identificar essas janelas temporais pode ajudar médicos e sistemas de
saúde a definir quando iniciar rastreamentos, acompanhamento cognitivo e
possíveis intervenções preventivas.
"À
medida que a pesquisa sobre Alzheimer se volta para prevenção e tratamento mais
precoce, os biomarcadores sanguíneos terão um papel central na identificação de
quem está mais bem indicado para essas terapias", afirmou, em nota,
Jonathan Graff-Radford, chefe de Neurologia Comportamental da Mayo Clinic e
autor sênior do estudo. "Saber quando esses biomarcadores começam a mudar,
e em que momento se relacionam com o comprometimento cognitivo, ajuda a indicar
as idades em que o rastreamento preventivo pode ter o maior impacto."
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Progressivo
O
estudo também reforça uma mudança recente na compreensão da demência: o
Alzheimer começa a ser encarado não apenas como uma doença da memória, mas como
um processo biológico silencioso e progressivo que se desenvolve ao longo de
muitos anos. Atualmente, estima-se que o acúmulo de beta-amiloide possa começar
cerca de 15 a 20 anos antes do aparecimento das alterações cognitivas
perceptíveis.
As
alterações precoces podem ser identificadas em exames complexos, como PET
cerebral ou coleta de líquor. Para a equipe da Mayo Clinic, biomarcadores
detectados no sangue surgem como alternativa promissora, pois o processo é mais
simples e barato. A medição desses índices, porém, depende de tecnologias
altamente sensíveis, que ainda não estão disponíveis amplamente.
Ainda
assim, os autores acreditam que a identificação dos pontos de inflexão abre
caminho para estratégias mais acessíveis de rastreamento populacional. Em vez
de esperar o aparecimento de sintomas importantes de memória, médicos poderiam
monitorar alterações biológicas ainda em fases iniciais do processo
neurodegenerativo, sugerem.
"Quando
a pesquisa estiver mais avançada e houver tratamentos que alterem o prognóstico
e a progressão da doença, a aplicação desses biomarcadores poderá ser uma
ferramenta de rastreamento", concorda o neurologista Fábio Henrique de
Gobbi Porto, presidente da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz) -
Regional São Paulo. "Por exemplo, por meio da realização de exames em
indivíduos com predisposição genética, seria possível identificar a
neuropatologia antes do aparecimento dos sintomas." O médico observa,
porém, que, atualmente, a detecção dos pontos de inflexão não é possível na
prática clínica.
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Específicos
Segundo
o neurologista Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, Rede Américas,
no dia a dia esses biomarcadores só devem ser usados em casos específicos.
"As mudanças detectadas podem começar a acontecer muito tempo antes e não
necessariamente significam que essa pessoa tem, no momento, uma doença de
Alzheimer já estabelecida, com todos os sintomas típicos de demência",
justifica.
Além
disso, a identificação de uma proteína no sangue não garante que o fenômeno vai
evoluir. "Ela aponta um risco de que isso venha a acontecer em algum
momento." Para o médico, o melhor uso dos biomarcadores é quando há um
conjunto de queixas compatíveis com a doença de Alzheimer, depois de os
sintomas serem avaliados por um especialista.
A
gerontóloga Claudia Alves, autora do livro O Bom do Alzheimer, concorda que,
por enquanto, há poucas evidências sobre benefícios e riscos do rastreamento
populacional em idosos assintomáticos. "O mais viável, no momento, parece
ser rastreamento direcionado: pessoas com queixa de memória, histórico familiar
forte, declínio funcional percebido, ou grupos de maior risco. Para política
pública, talvez faça mais sentido começar por prevenção populacional, com
monitoramento de pressão arterial, diabetes, colesterol, audição, visão,
atividade física e educação em saúde", acredita.
Atualmente,
existem tratamentos com foco em alguns sintomas do Alzheimer, podendo melhorar
a qualidade de vida dos pacientes. Também já foram aprovados medicamentos que
tentam modificar o curso da doença, embora ainda sejam limitados. "São
tratamentos que induzem uma limpeza dessa substância normal, chamada
beta-amiloide, que se acumula no cérebro. Isso tem mostrado que existe um
resultado, mas, infelizmente, não é uma cura. É uma forma de modificar, de
retardar a progressão", observa Carlos Uribe.
Tanto
do ponto de vista individual quanto para políticas públicas, Priscilla Mussi,
coordenadora de geriatria e do programa Cuidar , do Hospital Santa Lúcia (HSL),
acredita que o mais importante, na fase atual de conhecimento sobre a doença, é
apostar em estratégias preventivas apontadas pela ciência. "O que nós
temos de evidência atual para diminuir o risco e retardar a progressão de
Alzheimer é uma alimentação saudável (pouco carboidrato e muitos vegetais)
atividade física regular (musculação e aeróbico) e estímulos cerebrais
contínuos, como estudo e socialização", aponta.
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Fatores modificáveis
Segundo
o relatório de 2024 da Comissão Lancet, existem 14 fatores de risco
modificáveis do Alzheimer:
• Baixo nível educacional
• Hipertensão arterial
• Colesterol LDL elevado
• Obesidade
• Diabetes
• Tabagismo
• Consumo excessivo de álcool
• Traumatismo cranioencefálico
• Perda de visão não tratada
• Perda auditiva
• Isolamento social
• Falta de atividade física
• Poluição do ar
• Depressão
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Três perguntas para Fábio Henrique de Gobbi Porto, médico neurologista,
presidente da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz) – Regional São Paulo
• O estudo identificou “pontos de
inflexão” nos biomarcadores do Alzheimer por volta dos 60 a 70 anos. Nesse
momento, já é possível observar mudanças clínicas que possibilitem o
diagnóstico?
Atualmente,
a detecção desses pontos não é possível em contextos clínicos usuais. O que se
observa é que muitos biomarcadores precedem os sintomas clínicos em vários
anos. Portanto, esses biomarcadores apresentam a característica de se alterar
antes da manifestação de alterações cognitivas, especialmente aqueles
relacionados ao acúmulo da proteína amiloide. Essas alterações precedem o
surgimento de sintomas cognitivos e a atrofia cerebral detectada por
ressonância magnética. Consequentemente, esses biomarcadores podem predizer o
declínio cognitivo e são classificados como biomarcadores da fase pré-clínica
da doença.
• Proteínas como GFAP, NfL e p-tau181
poderiam ser biomarcadores clínicos da doença?
Sim.
Diversos biomarcadores, como o GFEP, o neurofilamento e as proteínas PTAL 1811
e PTAL 217, precedem o surgimento dos sintomas. Indivíduos que apresentam esses
biomarcadores demonstram um risco aumentado de desenvolver os sintomas
associados. A aplicação desses biomarcadores, quando a pesquisa estiver mais
avançada e houver tratamentos que alterem o prognóstico e a progressão da
doença, poderá ser como ferramenta de rastreamento. Por exemplo, por meio da
realização de exames em indivíduos com predisposição genética, seria possível
identificar a neuropatologia antes do aparecimento dos sintomas.
• O rastreamento precoce é viável para
políticas públicas?
Atualmente,
a questão da rastreabilidade em indivíduos assintomáticos é controversa. No
estado atual do conhecimento científico e técnico, não é recomendada a triagem
de pessoas sem sintomas. Isso se deve à ausência de tratamentos comprovadamente
eficazes para modificar o curso natural da doença nesses casos. Embora essa
situação possa mudar no futuro, hoje, não há indicação para realizar
biomarcadores em assintomáticos. Em contraste, a triagem precoce de sintomas
cognitivos, embora não haja evidências substanciais de sua custo-efetividade e
impacto em larga escala na saúde pública, é considerada mais relevante, uma vez
que os tratamentos mostram maior eficácia quando administrados em estágios
iniciais da doença. A questão de implementar uma triagem universal, semelhante
às práticas de rastreamento para câncer de mama e próstata, para a
identificação precoce da doença é objeto de debate. Com o desenvolvimento de
novas medicações, essa abordagem pode se tornar mais viável no futuro. Contudo,
a triagem em pessoas assintomáticas permanece sem indicação.
Fonte:
Correio Braziliense

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