A
medida de Trump que pode facilitar acesso de grupos terroristas, do CV e do PCC
a fuzis americanos
Comprar
um fuzil online e receber na porta de casa. Essa é uma das possibilidades que
está em estudo no governo de Donald Trump,
presidente dos Estados
Unidos.
Sua
gestão está revisando uma série de regras no país com o objetivo de reverter
supostas violações ao "direito do povo de possuir e portar armas",
previsto na segunda emenda da Constituição americana.
Após
determinação da Casa Branca, o Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e
Explosivos (ATF, na sigla em inglês) apresentou, no final de abril, 34
propostas de mudanças na regulação do comércio de armas, que estão em
tramitação.
Entre
as mudanças previstas está reverter restrições aplicadas pelo governo de Joe Biden,
como a ampliação da exigência de licença na venda de armas, e liberar o
comércio online, eliminando a necessidade de que o comprador compareça a uma
loja física para conferência de seus antecedentes criminais, o que passaria a
ocorrer apenas digitalmente.
Críticos
das mudanças dizem que a facilitação do acesso a armas é um problema interno
para os EUA, onde tiroteios em espaços públicos e escolas são recorrentes, e
também pode alimentar o tráfico internacional, facilitando até mesmo a
aquisição de armamentos pesados por organizações
criminosas, inclusive no Brasil.
Em
maio, a administração Trump declarou como
terroristas as duas maiores facções brasileiras, o Primeiro Comando
da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), decisão que, segundo o governo de
Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seria equivocada e abriria espaço para ataques
americanos ao território brasileiro.
Na
visão do governo brasileiro, esses grupos não agem com motivações terroristas e
devem ser combatidos sem a necessidade dessa classificação.
Maior
produtor de armas do mundo, os EUA são historicamente uma origem importante dos
armamentos usados por essas facções, embora a produção doméstica de fuzis em
fábricas clandestinas esteja crescendo nos últimos anos, como apontam
especialistas e o próprio Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Uma
forma de importação ilegal é o envio de armas compradas legalmente nos EUA e
depois traficadas para o Brasil, despachadas dentro de mercadorias comuns.
No
final de maio, por exemplo, um fuzil AK-47 enviado da Flórida foi flagrado na
inspeção alfandegária no Aeroporto de Viracopos, desmontado e escondido dentro
de um forno.
Em
março do ano passado, a Receita Federal localizou no mesmo aeroporto 30 fuzis
desmontados e camuflados em diferentes mercadorias, como prensas hidráulicas,
que teriam como destino os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina
e Rio Grande do Sul.
Outra
rota de entrada comum é pela fronteira sul do país. No mês passado, a Polícia
Rodoviária Federal realizou no interior do Paraná, próximo ao Paraguai, a maior
apreensão de fuzis da sua história: das 26 unidades, 22 eram Colt, marca
americana, mas os itens ainda serão periciados para confirmar sua origem.
"As
mudanças na regulamentação de armas que o governo Trump está promovendo podem,
sim, afetar o tráfico internacional", diz à BBC News Brasil John
Lindsay-Poland, coordenador do projeto Stop US Arms to Mexico, que atua contra
o tráfico de armas dos EUA para grupos criminosos mexicanos.
"Uma
das propostas especialmente preocupantes é permitir a venda e a entrega de
armas pelos Correios, sem qualquer interação presencial entre vendedor e
comprador, incluindo fuzis AR-15. O comprador pode ser qualquer pessoa que não
tenha uma razão legítima para adquirir a arma nem a capacidade de
utilizá-la."
Na
visão de Poland, a decisão de designar facções brasileiras como grupos
terroristas não deve impactar no combate ao tráfico de armas dos EUA para esses
grupos.
"Pela
nossa análise, o principal problema é o tamanho, a permissividade e o caráter
militarizado do mercado civil de armas nos Estados Unidos, o que faz com que um
grande número de transações suspeitas seja perfeitamente legal", ressalta.
"Assim,
mesmo que uma arma seja comprada nos EUA ou exportada legalmente e depois
traficada para essas organizações criminosas, não há qualquer consequência para
quem vendeu a arma, mesmo quando o grupo criminoso é designado como organização
terrorista. O que é necessário são mudanças na regulamentação do próprio
mercado varejista de armas nos Estados Unidos."
Para o
pesquisador Bruno Langeani, consultor sênior no Instituto Sou da Paz, ainda não
está claro se a classificação das facções brasileiras como terroristas terá
impacto no tráfico de armas dos EUA para o Brasil.
"Será
que, dentro desse esforço de classificação de organizações terroristas, haverá
sanções a essas lojas da Flórida que aparecem com frequência em rastreamentos
de armas que terminam no Brasil?", questiona.
"Se
não tiver sanção para esses grandes players, vai ficar muito claro
que essa é uma medida mais de interesse político-eleitoral do que de fato
interessada em enfraquecer essas organizações criminosas."
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Menos restrições também para exportações legais
De
acordo com Matt Schroeder, pesquisador sênior da ONG suíça Small Arms Survey, o
tráfico ilegal dos EUA para outros países movimenta dezenas de milhares de
armas por ano.
Ele diz
que a exportação ilegal é realizada por "organizações criminosas, algumas
bastante amadoras, que pagam pessoas para entrarem em lojas e comprarem armas,
geralmente pequenas quantidades por vez".
"Essas
pessoas não têm antecedentes criminais, então conseguem comprar legalmente e
passar pelas verificações de antecedentes. Depois, essas armas são reunidas,
coletadas por diferentes integrantes da organização que estão baseados nos
Estados Unidos, e enviadas para o país de destino", continua.
"Esse
é o grande problema: a frequência com que isso acontece com sucesso. Às vezes,
eles são descobertos, mas frequentemente só são pegos depois de operar por anos
e já terem exportado dezenas de armas, às vezes centenas, em alguns casos
milhares", reforçou.
Na sua
avaliação, como já é fácil comprar armas legalmente nos EUA e depois
exportá-las de maneira irregular, as medidas que o governo Trump pretende
adotar para facilitar as vendas domésticas não devem ter impacto significativo
no tráfico internacional.
Por
outro lado, ele acredita que o afrouxamento dos controles sobre exportações
legais pode levar a um aumento do desvio de armas após a exportação,
especialmente em determinados países.
Em
setembro de 2025, a administração Trump revogou restrições do governo Biden
para dificultar exportações de armamentos civis para 36 países considerados
sensíveis, devido a históricos de violações de direitos humanos e desvio de
armas para o crime, incluindo vizinhos do Brasil, como Paraguai, Suriname,
Colômbia e Peru.
Ao
justificar a revogação, o Departamento de Comércio dos EUA disse que o fim das
restrições criaria "centenas de milhões de dólares por ano em
oportunidades de exportação" para a indústria armamentista.
Na
ocasião, a mudança também foi criticada pela Anistia Internacional. Segundo a
organização, embora relatórios do próprio governo americano mostrem "que a
maioria das armas fabricadas nos Estados Unidos recuperadas em cenas de crimes
em outros países havia sido contrabandeada ilegalmente para fora dos Estados
Unidos", há também "um número significativo de armas de fogo
exportadas legalmente que acabam sendo usadas em crimes, incluindo violações de
direitos humanos".
"Um
relatório do Escritório de Prestação de Contas do Governo dos EUA [GAO, na
sigla em inglês], publicado em 2022, descobriu que quase 20% das armas de crime
de origem americana recuperadas na América Central podiam ser rastreadas até
exportações licenciadas", disse a Anistia Internacional.
A BBC
News Brasil questionou a Casa Branca sobre as críticas às medidas para
facilitar vendas de armas e os possíveis impactos no tráfico internacional, mas
não obteve resposta até a publicação dessa reportagem.
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A origem dos fuzis apreendidos no Brasil
A
apreensão de fuzis no Brasil cresceu nos últimos cinco anos, como mostra
levantamento recente do Instituto Sou da Paz. Em 2025, foram 2.152 unidades
apreendidas, alta de 167% desde 2021.
Uma
pesquisa anterior do mesmo instituto analisou a origem desses armamentos e
apontou o predomínio de armas brasileiras e americanas.
Do
total de 3.119 fuzis apreendidos entre 2019 e 2023, foi possível identificar a
origem de 1.701 (54,5% do total), dos quais 738 eram dos EUA, 586 eram do
Brasil e os 377 restantes eram de outros países.
De
acordo com Langeani, o tráfico desses armamentos passa por uma transformação no
Brasil, com o aumento de fábricas clandestinas dentro do país.
Segundo
ele, limitações no trabalho das perícias policiais dificultam identificar
adequadamente a origem dessas armas, o que seria importante para traçar as
políticas públicas de combate ao tráfico.
Por
isso, ele questiona os resultados de outro levantamento, feito pela Polícia
Militar do Rio de Janeiro com base nas armas que apreendeu em 2024.
A
corporação identificou que praticamente todas (94,7%) tinham sido fabricadas no
exterior, principalmente nos Estados Unidos (60%). Outros países citados foram
Israel, Alemanha, Áustria e República Tcheca.
Langeani,
porém, diz que há armas falsificadas produzidas clandestinamente — ou seja, são
vendidas como sendo de uma marca americana, por exemplo, mas não são originais.
"Não
dá para a Polícia Militar do Rio de Janeiro pegar o valor de face desses fuzis
e colocar num relatório. É uma coisa um pouco amadora de se fazer. E, se você
faz diagnóstico errado de saída, quando for tentar fazer as estratégias de
combate, vai estar olhando errado", critica.
Ele
ressalta que outro fator também reduziu, nos últimos anos, a necessidade do
crime organizado recorrer ao tráfico internacional: a flexibilização das regras
para a compra de armas no Brasil no governo de Jair Bolsonaro (PL), permitindo
inclusive a aquisição, por civis, de calibres que antes eram restritos às
Forças Armadas.
Entre
as principais mudanças, pessoas registradas como CACs (colecionadores,
atiradores desportivos e caçadores) passaram a poder comprar fuzis, e cada
indivíduo podia adquirir até 30 armas.
Segundo
o pesquisador, essa facilidade contribuiu para abastecer o crime organizado, já
que criminosos podiam cooptar pessoas sem antecedentes criminais para comprar
armas legalmente em seu nome.
As
medidas foram revogadas em 2023, no governo Lula. No entanto, quem adquiriu
armas durante o período de vigência das regras mais flexíveis não foi obrigado
a devolvê-las. Além disso, ressalta Langeani, também continuam podendo comprar
munição para seus fuzis, o que seria mais um caminho de desvios para abastecer
as facções.
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Fábricas clandestinas são 'principal dor de cabeça'
No
Ministério da Justiça e Segurança Pública, as fábricas clandestinas são
consideradas a "principal dor de cabeça atual" quando o assunto é
tráfico de armas, disse à BBC News Brasil a diretora de Ensino e Pesquisa da
Secretaria Nacional de Segurança Pública, Michele dos Ramos, que representa a
pasta na recém-criada Rede Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Armas,
Munições, Acessórios e Explosivos (Renarme).
A
iniciativa, instituída em março pelo governo Lula, reúne também representantes
dos ministérios da Defesa e da Fazenda, e dos governos estaduais, com foco em
combater o tráfico de armas de forma integrada no país.
"Essas
armas [fabricadas clandestinamente] ainda têm uma qualidade muito menor do que
um fuzil importado dos Estados Unidos, mas a qualidade já aumentou muito nos
últimos cinco anos", ressalta Ramos.
"E
o custo operacional para que essa arma chegue a determinada facção vai ser
muito menor do que o custo de trazer dos Estados Unidos."
No ano
passado, uma fábrica clandestina foi fechada pela Polícia Militar e a Polícia
Federal, em Santa Bárbara d'Oeste, no interior de São Paulo. O local, que se
apresentava como uma produtora de peças aeronáuticas, usava equipamentos
industriais de alta precisão e tinha capacidade de produzir 3,5 mil fuzis por
ano, segundo reportagem do programa Fantástico, da Rede Globo.
O
diretor de Operações Integradas e de Inteligência da Senasp, José Anchiêta Nery
Neto, exemplifica o poder dessas armas.
"Um
determinado fuzil de um fabricante legalizado pode ter uma capacidade de 10 mil
disparos ininterruptos. Talvez a versão fabricada aqui, que é chamada de arma
fantasma, terá uma capacidade de 3 mil disparos. Mas, infelizmente, ela serve
perfeitamente para o combate urbano, e vai ter um preço menor."
Segundo
ele, há fábricas que usam alguns componentes importados na fabricação desses
fuzis, mas há também aquelas que produzem tudo nacionalmente.
"Esses
fabricantes compram material da indústria naval para cortar aço, software para
poder desenhar os equipamentos, e aí vão montar em cima de uma plataforma
existente, como o AR-15, na plataforma americana, ou AK-47, na plataforma
russa. Reproduz o que existe", explicou.
Fonte:
BBC News

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