Pragmatismo,
polarização e a escolha de um projeto de sociedade
O que o
pragmatismo político nos ensina? Como corrente filosófica, o pragmatismo
sustenta que o valor, a verdade ou o significado de uma ideia devem ser
aferidos, sobretudo, por suas consequências práticas. Em vez de privilegiar
teorias abstratas ou ideais perfeitos, essa tradição filosófica enfatiza a
ação, a utilidade e os resultados concretos. Uma ideia demonstra seu verdadeiro
valor quando é capaz de produzir efeitos positivos sobre a realidade.
Na vida
cotidiana, o pragmatismo nos convida a definir objetivos com clareza, sem
permitir que abstrações excessivas nos afastem do caminho escolhido. Não
significa abandonar princípios, mas reconhecer que eles precisam dialogar com a
realidade para produzir transformações efetivas.
Na
política, entretanto, o pragmatismo assume contornos mais complexos. Além da
busca por resultados, os métodos empregados para alcançá-los passam a
desempenhar papel decisivo. Em períodos eleitorais, as diferenças entre
projetos políticos tendem a ser acentuadas. A lógica é compreensível: quanto
mais nítidas forem as distinções entre os adversários, maior será a
possibilidade de mobilizar eleitores, consolidar identidades políticas e tornar
mais evidentes os caminhos colocados diante da sociedade.
Foi
justamente essa dimensão concreta da política que levou Maquiavel a ocupar um
lugar singular na história do pensamento político. Em O Príncipe, ele rompeu
com a tradição normativa que buscava descrever como os governantes deveriam
agir e passou a analisar a política como ela efetivamente acontece. O poder,
suas disputas, seus riscos e os mecanismos de sua conservação tornaram-se o
centro da reflexão. Não se tratava de negar a moral, mas de reconhecer que a
lógica da ação política possui dinâmicas próprias, frequentemente distintas da
moral individual.
Aristóteles,
por sua vez, partia de outra perspectiva. Para ele, a política era a mais
elevada das atividades humanas porque tinha como finalidade a realização do bem
comum. A cidade existia para proporcionar uma vida boa aos seus cidadãos, e o
exercício da política encontrava sua legitimidade justamente na busca da
justiça e da virtude. Entre Aristóteles e Maquiavel não há apenas uma oposição;
há duas maneiras distintas de compreender o poder: uma orientada pela
finalidade ética da comunidade, outra pela compreensão realista das
circunstâncias em que o poder é exercido.
Séculos
mais tarde, Max Weber acrescentaria um novo elemento a esse debate ao
distinguir a ética da convicção da ética da responsabilidade. O homem público,
segundo Weber, não pode agir apenas orientado por princípios absolutos; deve
igualmente considerar as consequências de suas decisões. A boa política exige
equilíbrio entre valores e responsabilidade pelos resultados, sem que uma
dimensão elimine a outra.
Norberto
Bobbio também oferece importante contribuição ao lembrar que a democracia não
elimina os conflitos; ao contrário, cria instituições capazes de administrá-los
pacificamente. Divergências são inerentes à vida democrática. O problema não
está na existência das diferenças, mas na incapacidade de transformá-las em um
debate racional, respeitoso e comprometido com o interesse coletivo.
A
história política brasileira revela que, em muitos momentos, o pragmatismo
eleitoral acaba estimulando uma ampliação das divergências. Em disputas
acirradas, frequentemente tudo aquilo que vem do adversário é rejeitado por
princípio, como se reconhecer algum mérito significasse fraqueza política. Esse
comportamento empobrece o debate público, fragiliza as instituições e contribui
para aprofundar a polarização.
Ao
mesmo tempo, seria igualmente ingênuo ignorar que as diferenças entre os
projetos políticos são reais. Modelos distintos de Estado, de desenvolvimento
econômico, de proteção social, de segurança pública e de organização da
sociedade conduzem naturalmente a escolhas diferentes. Em determinadas
circunstâncias, a neutralidade não representa equilíbrio, mas incapacidade de
discernir entre caminhos efetivamente distintos.
As
diferenças, quando apresentadas com honestidade intelectual e respeito à
inteligência do eleitor, ampliam a capacidade da sociedade de fazer escolhas
conscientes. O verdadeiro desafio, portanto, não é eliminar a polarização —
tarefa impossível em uma democracia plural, onde diferentes concepções de
mundo, de Estado e de sociedade inevitavelmente se confrontam. O que realmente
importa é a natureza desse confronto. Diante de projetos políticos e concepções
éticas distintas, cada cidadão é chamado a decidir de que lado deseja estar: de
um pragmatismo que transforma o poder em um fim em si mesmo e admite a
flexibilização dos meios em nome dos resultados, ou de um projeto que, sem
ignorar a realidade da disputa política, orienta suas escolhas pela dignidade da
pessoa humana, pela solidariedade, pela justiça social, pela proteção do
planeta e por um modelo de desenvolvimento que coloque o ser humano, e não
apenas o mercado, no centro das políticas públicas.
É desse
debate qualificado, em que as diferenças são explicitadas com clareza,
responsabilidade e compromisso com a verdade, que nasce a possibilidade de uma
democracia mais madura e da construção de um futuro mais justo, sustentável e
verdadeiramente humano.
Fonte:
Por João Antonio da Silva Filho, em Brasil 247

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