terça-feira, 14 de julho de 2026

Pragmatismo, polarização e a escolha de um projeto de sociedade

O que o pragmatismo político nos ensina? Como corrente filosófica, o pragmatismo sustenta que o valor, a verdade ou o significado de uma ideia devem ser aferidos, sobretudo, por suas consequências práticas. Em vez de privilegiar teorias abstratas ou ideais perfeitos, essa tradição filosófica enfatiza a ação, a utilidade e os resultados concretos. Uma ideia demonstra seu verdadeiro valor quando é capaz de produzir efeitos positivos sobre a realidade.

Na vida cotidiana, o pragmatismo nos convida a definir objetivos com clareza, sem permitir que abstrações excessivas nos afastem do caminho escolhido. Não significa abandonar princípios, mas reconhecer que eles precisam dialogar com a realidade para produzir transformações efetivas.

Na política, entretanto, o pragmatismo assume contornos mais complexos. Além da busca por resultados, os métodos empregados para alcançá-los passam a desempenhar papel decisivo. Em períodos eleitorais, as diferenças entre projetos políticos tendem a ser acentuadas. A lógica é compreensível: quanto mais nítidas forem as distinções entre os adversários, maior será a possibilidade de mobilizar eleitores, consolidar identidades políticas e tornar mais evidentes os caminhos colocados diante da sociedade.

Foi justamente essa dimensão concreta da política que levou Maquiavel a ocupar um lugar singular na história do pensamento político. Em O Príncipe, ele rompeu com a tradição normativa que buscava descrever como os governantes deveriam agir e passou a analisar a política como ela efetivamente acontece. O poder, suas disputas, seus riscos e os mecanismos de sua conservação tornaram-se o centro da reflexão. Não se tratava de negar a moral, mas de reconhecer que a lógica da ação política possui dinâmicas próprias, frequentemente distintas da moral individual.

Aristóteles, por sua vez, partia de outra perspectiva. Para ele, a política era a mais elevada das atividades humanas porque tinha como finalidade a realização do bem comum. A cidade existia para proporcionar uma vida boa aos seus cidadãos, e o exercício da política encontrava sua legitimidade justamente na busca da justiça e da virtude. Entre Aristóteles e Maquiavel não há apenas uma oposição; há duas maneiras distintas de compreender o poder: uma orientada pela finalidade ética da comunidade, outra pela compreensão realista das circunstâncias em que o poder é exercido.

Séculos mais tarde, Max Weber acrescentaria um novo elemento a esse debate ao distinguir a ética da convicção da ética da responsabilidade. O homem público, segundo Weber, não pode agir apenas orientado por princípios absolutos; deve igualmente considerar as consequências de suas decisões. A boa política exige equilíbrio entre valores e responsabilidade pelos resultados, sem que uma dimensão elimine a outra.

Norberto Bobbio também oferece importante contribuição ao lembrar que a democracia não elimina os conflitos; ao contrário, cria instituições capazes de administrá-los pacificamente. Divergências são inerentes à vida democrática. O problema não está na existência das diferenças, mas na incapacidade de transformá-las em um debate racional, respeitoso e comprometido com o interesse coletivo.

A história política brasileira revela que, em muitos momentos, o pragmatismo eleitoral acaba estimulando uma ampliação das divergências. Em disputas acirradas, frequentemente tudo aquilo que vem do adversário é rejeitado por princípio, como se reconhecer algum mérito significasse fraqueza política. Esse comportamento empobrece o debate público, fragiliza as instituições e contribui para aprofundar a polarização.

Ao mesmo tempo, seria igualmente ingênuo ignorar que as diferenças entre os projetos políticos são reais. Modelos distintos de Estado, de desenvolvimento econômico, de proteção social, de segurança pública e de organização da sociedade conduzem naturalmente a escolhas diferentes. Em determinadas circunstâncias, a neutralidade não representa equilíbrio, mas incapacidade de discernir entre caminhos efetivamente distintos.

As diferenças, quando apresentadas com honestidade intelectual e respeito à inteligência do eleitor, ampliam a capacidade da sociedade de fazer escolhas conscientes. O verdadeiro desafio, portanto, não é eliminar a polarização — tarefa impossível em uma democracia plural, onde diferentes concepções de mundo, de Estado e de sociedade inevitavelmente se confrontam. O que realmente importa é a natureza desse confronto. Diante de projetos políticos e concepções éticas distintas, cada cidadão é chamado a decidir de que lado deseja estar: de um pragmatismo que transforma o poder em um fim em si mesmo e admite a flexibilização dos meios em nome dos resultados, ou de um projeto que, sem ignorar a realidade da disputa política, orienta suas escolhas pela dignidade da pessoa humana, pela solidariedade, pela justiça social, pela proteção do planeta e por um modelo de desenvolvimento que coloque o ser humano, e não apenas o mercado, no centro das políticas públicas.

É desse debate qualificado, em que as diferenças são explicitadas com clareza, responsabilidade e compromisso com a verdade, que nasce a possibilidade de uma democracia mais madura e da construção de um futuro mais justo, sustentável e verdadeiramente humano.

 

Fonte: Por João Antonio da Silva Filho, em Brasil 247

 

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