De
Caruaru para o mundo: o legado de Mestre Vitalino
em 10
de julho de 1909, nascia o artesão Vitalino Pereira dos Santos, o Mestre
Vitalino, um dos maiores expoentes da arte popular brasileira. Declarado
patrono da arte pernambucana, Vitalino é o criador de um dos mais influentes
estilos de cerâmica popular, abrangendo as temáticas sociais e as referências
culturais do Nordeste.
As
obras de Mestre Vitalino documentam o cotidiano dos trabalhadores, a
religiosidade, o folclore, as lutas e as tradições do povo sertanejo. Suas
figuras retratam cangaceiros, retirantes, padres, trabalhadores, batismos,
casamentos e funerais, criando uma crônica visual da vida no Sertão.
Internacionalmente
reconhecido, o trabalho de Mestre Vitalino ajudou a elevar a cerâmica popular a
um novo patamar na arte brasileira. Ele também foi responsável por transformar
a cidade de Caruaru em um dos principais polos cerâmicos do continente americano.
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Juventude e primeiras obras
Vitalino
Pereira dos Santos nasceu no Sítio Campos, em Caruaru, no Agreste de
Pernambuco. Era filho do lavrador Marcelino Pereira dos Santos e da louceira
Josefa Maria da Conceição. O interesse pelo artesanato foi uma herança da mãe.
Vitalino cresceu vendo Josefa coletar o barro do Rio Ipojuca para produzir
utensílios domésticos de argila, como panelas, potes e moringas,
comercializados nas feiras de Caruaru.
Aos
seis anos de idade, Vitalino começou a produzir figuras de barro representando
animais, feitas com as sobras do material utilizado por sua mãe. As peças
deveriam servir como brinquedos, mas eram tão bonitas que acabaram se tornando
elementos de decoração. Uma de suas esculturas, a figura de um gato-maracajá
fugindo de um caçador, foi tão bem executada que uma cliente do Recife se
prontificou a comprar a peça. A brincadeira acabaria virando profissão e
Vitalino passou a comercializar suas esculturas de bois e cavalos.
Na
adolescência, Vitalino fundou a banda Zabumba, onde desempenhou o papel de
tocador de pífano. A experiência musical permeou sua arte e se tornou uma
importante fonte de inspiração. Figuras de violeiros, zabumbeiros e dançarinos
apareceriam com frequência em sua produção cerâmica.
Vitalino
era analfabeto, mas seu enorme talento artístico e os numerosos seguidores que
amealhou ao longo da vida lhe valeram o título de “mestre”. No início dos anos
30, o ceramista se casou com Joana Maria da Conceição. O casal teve 16 filhos,
mas somente seis sobreviveram. A família inteira se envolveu no ofício do
artesão, auxiliando-o na confecção e pintura das figuras.
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A arte de Vitalino
A
partir dos anos 30, Mestre Vitalino passou a produzir obras referenciando as
tensões sociais e os conflitos armados no Sertão. O cangaço ganhou amplo
destaque, evidenciando sua importância para o imaginário popular nordestino.
Vitalino
produziu diversas esculturas de personalidades como Lampião, Maria Bonita e
Corisco. Notabilizou-se ainda pelos conjuntos escultóricos de caráter
narrativo, representando policiais enfrentando bandidos e os confrontos entre
os bandoleiros e as volantes.
Sua
técnica era rudimentar e manual, dispensando o uso de moldes. Cada peça era
única, modelada à mão, seca ao sol e depois queimada em forno. A princípio, as
peças mantinham a cor natural da argila. Mais tarde, Vitalino passou a
pintá-las com tintas industriais, privilegiando as cores fortes e vibrantes.
Mestre
Vitalino desenvolveu um estilo bastante original, marcado pela expressividade e
pelas composições teatralizadas. Suas peças se diferenciavam pelas linhas
suaves e volumes arredondados, com toques sutis de humor e ironia. Muito
admirado, esse estilo acabaria por inaugurar uma nova iconografia de cerâmica
popular, forjando uma estética que até hoje serve de referência aos artesãos
nordestinos.
Além do
cangaço, Vitalino tinha predileção por representar o cotidiano e os hábitos dos
trabalhadores rurais e urbanos, bem como os ritos de passagem do ser humano
(nascimento, casamento e morte), frequentemente pontuados por comentários sobre
o status social das figuras representadas.
O
artista pernambucano também se interessou pela temática folclórica e pela
cultura popular, modelando figuras típicas de festas e folguedos como o
bumba-meu-boi e o cavalo-marinho. Abordou igualmente as crenças populares, os
rituais e as procissões religiosas e se ocupou da denúncia dos problemas
sociais da região, retratando o flagelo da seca, a miséria e o drama dos
retirantes.
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Reconhecimento e legado
Estabelecido
no povoado de Alto do Moura desde a década de 1940, Mestre Vitalino começou a
se destacar a partir da Primeira Exposição de Cerâmica Pernambucana, organizada
pelo educador Augusto Rodrigues no Rio de Janeiro.
Considerada
um marco no reconhecimento da arte popular brasileira, a mostra impulsionou a
carreira de Vitalino e o tornou nacionalmente conhecido. Suas obras estamparam
uma matéria na revista “O Cruzeiro” e passaram a figurar em diversas exposições
pelo país.
Em
1955, as obras de Mestre Vitalino integraram a exposição “Arte Primitiva e
Moderna Brasileiras”, sediada em Neuchâtel, na Suíça. Sua produção cerâmica foi
retratada no livro “Vitalino”, produzido pela Fundação Joaquim Nabuco, com
texto do antropólogo René Ribeiro e fotografias de Marcel Gautherot e Cecil
Ayres.
O
ceramista se tornou amigo do colecionador Abelardo Rodrigues, que formou um
vasto acervo de suas obras, posteriormente doado ao Museu do Barro de Caruaru.
As esculturas de Vitalino passaram a compor importantes coleções brasileiras e
internacionais. O pernambucano foi o primeiro artista popular do Brasil a ter
suas peças incorporadas à coleção do Museu do Louvre.
A
atuação de Mestre Vitalino foi essencial para transformar o cotidiano dos
habitantes de Alto do Moura. Inspirados pelo seu exemplo, as famílias do
vilarejo começaram a se dedicar à produção cerâmica. Congregando mais de 700
ateliês, o povoado se converteu em referência nacional em artesanato e foi
reconhecido pela Unesco como um dos mais importantes centros cerâmicos
contemporâneos das Américas.
Mestre
Vitalino faleceu em 20 de janeiro de 1963, aos 53 anos, vitimado pela varíola.
Sua residência foi convertida na Casa Museu Mestre Vitalino em 1971, dedicada a
abrigar suas obras, documentos e objetos pessoais. Ele foi postumamente
laureado com o título de patrono da arte pernambucana e inspirou o samba-enredo
da Império da Tijuca nos carnavais de 1977 e 2009.
No
centenário de seu nascimento, Mestre Vitalino foi agraciado com a Ordem do
Mérito Cultural. Também foi homenageado com a obra sinfônica “O Massapê Vivo”,
de Jorge Antunes, premiada na 18ª Bienal de Música Brasileira Contemporânea.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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