Por
que o novo regime do Irã é totalmente diferente do anterior
No mês
passado, o presidente americano, Donald Trump, assinou um acordo
de cessar-fogo com o Irã, durante um jantar
no Palácio de Versalhes, em Paris, na França. Mas muitos
observaram o evento como uma ironia. Seu anfitrião foi o presidente
francês, Emanuel Macron.
Talvez
ele quisesse garantir que o Memorando de Entendimento fosse assinado antes que
Trump mudasse de ideia e pode ter imaginado que os tons dourados da Galeria dos
Espelhos agradariam seu convidado.
Mas a
escolha do local gerou inevitáveis comparações entre o acordo de uma página e
meia assinado naquela noite e o extremamente extenso Tratado de Versalhes,
assinado ao final da Primeira Guerra Mundial, em 1919.
Aquele
tratado reformulou a Europa, mas suas exigências
de enormes reparações deixaram a Alemanha indignada e
amargurada. Elas ajudaram a preparar o cenário para outro confronto global 20 anos depois.
O
acordo com o Irã é diferente em muitos aspectos.
Será que ele poderia vir a ter o mesmo destino?
O
frágil cessar-fogo se manteve com dificuldades até a última quarta-feira (8/7),
quando Trump anunciou o seu rompimento, após uma troca de ataques envolvendo os dois
países na madrugada anterior.
Após
vários conflitos no estreito de Ormuz e regiões próximas, sem que nenhum dos
problemas que levaram à guerra esteja perto de ser resolvido, a situação
no Oriente Médio parece tão precária quanto antes.
Paralelamente,
o Irã atravessa um profundo processo de mudanças.
O país
se despede do seu antigo líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026),
morto há mais de quatro meses durante os devastadores ataques aéreos conjuntos
dos Estados Unidos e Israel que deram
início à guerra, eliminando grande parte dos líderes do regime de Teerã.
Este é
um momento fundamental: um importante lembrete de que a velha guarda cedeu o
lugar para a nova geração. Com os novos rostos, vem um novo enfoque, com suas
próprias implicações.
Os
Estados Unidos e Israel podem ter enviado muitos dos antigos líderes do país
prematuramente para o túmulo, mas teriam eles sido substituídos por adversários
ainda mais temidos?
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Reorganizando o tabuleiro de xadrez
"Esta
guerra trouxe consequências muito maiores e uma envergadura superior à
atribuída até agora", avalia Vali Nasr, professor de assuntos
internacionais e estudos de Oriente Médio da Escola de Estudos Internacionais
Avançados da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.
"Todas
as grandes guerras desta magnitude acabam reorganizando o tabuleiro de
xadrez", explica ele. "É o que irá acontecer no Oriente Médio."
Em
janeiro, o Irã foi sacudido por protestos populares. Trump e o
primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, previram que as
manifestações poderiam ser o presságio do colapso da República Islâmica.
Àquela
altura, a economia iraniana já estava em pedaços, após décadas de sanções
internacionais. O país também seguia gravemente debilitado, devido à Guerra dos 12 Dias contra os
Estados Unidos e Israel, ocorrida seis meses antes.
O
programa nuclear iraniano (que serviu, por muito tempo, de ferramenta de
pressão diplomática) não havia sido aniquilado, como anunciou Trump, mas sofreu
danos consideráveis.
O
paradeiro exato das suas reservas de urânio era
desconhecido. Calculava-se que, se fossem adicionalmente enriquecidas, elas
seriam suficientes para a produção de 10 a 11 armas atômicas.
Mas o
que se acreditava era que grande parte delas jazia sob os escombros, perto do complexo
nuclear de Isfahan.
Além
das suas fronteiras, o "Eixo da Resistência" iraniano (uma
aliança flexível de grupos interpostos e aliados em todo o Oriente Médio) havia
sofrido uma série de importantes reveses.
Na Síria, o regime de Bashar al-Assad, aliado próximo do
Irã, desapareceu. Ele foi varrido em poucas semanas de muita agitação, no final
de 2024.
No Líbano, Israel eliminou
destacados membros do Hezbollah, um grupo apoiado
pelo Irã, e também dizimou seus combatentes, valendo-se de pagers e walkie-talkies explosivos.
Na
Faixa de Gaza, outro aliado de Teerã, o Hamas, teve destino
parecido. Israel respondeu aos devastadores ataques do grupo em outubro de
2023 com uma ofensiva implacável, que arrasou grande parte da Faixa de Gaza, pondo fim à vida de
dezenas de milhares de civis.
Por
fim, foi a vez dos rebeldes houthis do Iêmen. Apoiados pelo Irã,
eles lançaram mísseis balísticos contra Israel, em resposta à guerra em Gaza, e
começaram a atacar navios no mar Vermelho.
Israel,
EUA e o Reino Unido lançaram
contra-ataques, alguns deles dirigidos à cúpula do grupo.
Depois
de tantos reveses internos e externos, o consenso era que o Irã se encontrava
em estado de grande vulnerabilidade.
O
jornal The New York Times noticiou que Trump havia recebido diversos relatórios
de inteligência, indicando que aquele era o momento mais fraco do Irã desde
a Revolução Islâmica de 1979.
A ideia
de que Teerã poderia enfrentar os Estados Unidos e Israel até chegar a um
impasse parecia absurda. Mas foi o que aconteceu.
A
República Islâmica permanece de pé, graças, em parte, à sua capacidade de
fechar uma das vias marítimas mais importantes do mundo (o estreito de Ormuz), estrangulando a
economia global.
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Vantagem para Teerã?
Trump
gosta de dizer que conseguiu uma mudança de regime no Irã. Vali Nasr não o
contradiz, mas afirma que isso, na verdade, jogou a favor de Teerã.
"Uma
geração totalmente nova assumiu o poder", destaca ele. "Eles têm uma
agenda muito clara. Eles administraram a guerra e, agora, gerenciarão também a
paz."
A nova
cúpula dirigente não é composta pelo tipo de pessoas que Washington costuma
chamar de "ideólogos apocalípticos de mente confusa", segundo Nasr,
mas por líderes, em sua maioria, da era posterior à revolução.
Eles
estão implacavelmente concentrados na preservação do Estado e dispostos a agir
com determinação maior que os seus predecessores.
Aos 56
anos, o novo líder supremo do país, Mojtaba Khamenei, é 30 anos mais
jovem que seu pai e antecessor. Acredita-se que Ali Khamenei tivesse a saúde
fragilizada quando morreu, logo no início da guerra.
O
presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, é mais velho. Ele
tem 71 anos, mas a geração que protagonizou a revolução de 1979 já desapareceu
por completo.
Duas
figuras-chave ainda caminham para os 70 anos de idade: o presidente do
Parlamento iraniano e negociador-chefe, Mohammad Bagher Ghalibaf, e o
comandante-chefe da Guarda Revolucionária, Ahmad Vahidi.
Da
mesma forma que o novo líder supremo, ambos mantêm fortes vínculos com o
todo-poderoso Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI).
"São
filhos da revolução", afirma Sanam Vakil, diretora do Programa de Oriente
Médio e Norte da África do centro de estudos Chatham House, em Londres.
"Não
há mais uma pessoa de 86 anos liderando a República Islâmica", destaca
ela. "O grande freio da evolução do sistema era Ali Khamenei."
Durante
décadas, o cauteloso Khamenei seguiu uma estratégia denominada, às vezes,
"nem guerra, nem paz". Mas seus sucessores são mais audazes.
Eles
lançaram ataques contra bases militares americanas na região e, poucas semanas
depois, já estavam dispostos a se sentar para negociar o fim das hostilidades —
em termos que, à primeira vista, estão longe de serem humilhantes para Teerã.
"Eles
demonstraram sua disposição de travar guerras de forma muito mais agressiva do
que a geração anterior", afirma Nasr.
Quando
Trump ordenou o ataque aéreo que pôs fim à vida do ex-comandante da Guarda
Revolucionária, Qasem Soleimani (1957-2020), o
Irã anunciou deliberadamente sua intenção de realizar represálias, até lançar
12 mísseis balísticos contra bases americanas no Iraque.
Não
houve baixas entre os militares americanos.
Neste
ano, frente a uma ofensiva total por parte dos Estados Unidos e Israel, o Irã
não demonstrou essa mesma contenção.
Teerã
lançou ataques com drones e mísseis contra diversas bases americanas na região. Elas incluíram a
sede da Quinta Frota dos Estados Unidos no Bahrein e a base aérea de al-Udeid,
no Catar.
Seis
soldados americanos foram mortos no Kuwait e centenas ficaram feridos durante
os combates.
A
disposição do Irã de atacar os aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico, interromper o
tráfego marítimo e fechar o estreito de Ormuz também parecem ter tomado a Casa
Branca de surpresa.
Por
décadas, Washington tentou conter Teerã por meio da sua rede de instalações
militares e suas relações cada vez maiores com os países do Golfo.
Mas a
resposta contundente do Irã aos ataques israelenses e americanos indicou que
esta estratégia deixou de funcionar.
"Muitos
destes países esperavam que as bases militares americanas no seu território
oferecessem segurança, não que os transformassem em alvos", avalia Ali
Vaez, diretor do projeto sobre o Irã do centro de estudos International Crisis
Group.
"Os
Estados do Golfo, agora, questionam a credibilidade do guarda-chuva de
segurança americano e sua própria estratégia de dissuasão", segundo ele.
Relatórios
indicam que a maior parte dos países do Golfo está sondando o terreno com o
Irã, para tentar reparar as relações com seu perigoso vizinho.
Citando
um diplomata anônimo, a agência de notícias AFP chegou a noticiar que a Arábia Saudita se preparava
para realizar uma "cúpula de reconciliação", que reuniria o Irã e os
vizinhos dos sauditas no Golfo.
A
Arábia Saudita restabeleceu relações diplomáticas com Teerã em 2023, após
décadas de inimizade.
Mas,
apesar de toda a sua indignação ao se verem capturados em meio a uma guerra que
eles não desejavam e tentaram evitar a todo custo, Vaez duvida que alguém
esteja disposto a romper seus vínculos com o Exército americano.
"Eles
dependem muito dos Estados Unidos para romper completamente os acordos de
segurança", afirma ele. "Eles podem tentar diversificar suas opções,
mas, no final das contas, não têm mais a quem recorrer."
Sem
buscar grandes paralelos históricos, Vaez qualifica a situação atual de
"momento maleável", carregado de possibilidades, enquanto antigos
adversários contemplam um novo tipo de relações.
"Percebo
certo grau de realismo que não existia no passado", destaca ele.
Mas
onde está o povo iraniano?
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Os novos pragmáticos
Em
janeiro, Trump prometeu aos cidadãos iranianos que "a ajuda estava a
caminho". E, ao iniciar a guerra, em 28 de fevereiro, ele foi ainda mais
explícito. "Quando terminarmos, assumam o controle do seu governo", recomendou
ele. "Será de vocês."
Até o
momento, estas promessas se mostraram ilusórias. Teerã pode ter uma nova
geração no comando, mas ela ainda não ofereceu ao seu povo a perspectiva de um
futuro mais livre e próspero.
Considerando
que o regime está totalmente preocupado com a própria sobrevivência, a analista
Aniseh Bassiri Tabrizi, da Chatham House, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes
Unidos, não espera observar um enfoque diferente em relação aos dissidentes.
"Eles manterão um enfoque muito forte nas ruas", afirma ela.
Mas,
como o jihab não é mais obrigatório fora das instituições estatais, mesmo antes
da guerra, e com o álcool discretamente disponível nos restaurantes de Teerã,
existem também sinais de que o regime pode estar deixando gradualmente de lado
alguns dos seus velhos tabus.
Para
Vali Nasr, tudo é impulsionado pela necessidade de restaurar a fé no Estado
iraniano. "Eles tomaram a decisão pragmática de que a sua raison
d'état (a razão do Estado) exige a flexibilização destes pontos",
explica ele.
Depois
da comoção gerada pelo derramamento de sangue em massa, em janeiro, o regime
demonstrou que consegue, pelo menos, proteger a soberania do país.
Para os
iranianos, a guerra foi profundamente confusa.
O
horror frente à brutalidade do regime gradualmente deu lugar a outro tipo de
horror, à medida que as bombas americanas e israelenses caíam sobre o seu país,
matando civis e danificando infraestrutura vital.
A morte
de dezenas de crianças em uma escola primária da cidade de Minab, no primeiro dia da
guerra, fez com que alguns se perguntassem quem era o verdadeiro inimigo.
Afinal, apesar de prometerem libertá-los, Israel e os Estados Unidos pareciam
decididos a destruir o país.
Mas,
depois de enfrentar o poder combinado dos Estados Unidos e de Israel, os novos
líderes iranianos poderão capitalizar esta oportunidade potencialmente fugaz de
reconstruir a abalada legitimidade do regime?
"Esta
é uma espécie de momento 'China depois de Mao'", explica Vaez, "no
sentido de que o sistema, como um todo, reconhece que tem que ceder em algum
ponto. Esta nova liderança entende que precisa de um novo contrato
social."
A
questão é se eles conseguirão atingir este objetivo.
Agora,
mais do que nunca, a elite do CGRI governa o Irã, enquanto um grande número de
jovens formados, ainda afligidos pela perda de milhares dos seus amigos na
sangrenta repressão de janeiro, sentem que não têm voz ativa para determinar o
futuro do país.
Este é
um ponto de inflexão, com o Irã em equilíbrio precário entre velhas certezas e
possibilidades futuras, dentro do país e no exterior.
Mesmo
com uma série de enfrentamentos no Golfo Pérsico, Teerã optou por um processo
diplomático com os Estados Unidos que poderá resultar no que o vice-presidente
americano, J.D. Vance, já chamou de "relação fundamentalmente
transformada".
Frente
à tentadora perspectiva de um alívio das sanções, em troca de concessões
nucleares, a capacidade do regime iraniano de gerenciar a economia poderá
ajudar a restaurar sua maltratada reputação interna.
Desde a
assinatura do Memorando de Entendimento, o Irã já se beneficiou de isenções às
sanções americanas, permitindo ao país exportar petróleo e derivados por 60
dias.
Poderiam
surgir outras formas de alívio durante o período de negociação de 60 dias,
incluindo o descongelamento de bilhões de dólares em ativos iranianos. E,
quando se chegar ao acordo definitivo, poderá vir o prêmio maior: a suspensão
de todas as sanções internacionais.
O
memorando também faz referência à criação de um plano de "reconstrução e
desenvolvimento", avaliado em US$ 300 bilhões (cerca de R$ 1,5 trilhão),
embora não se saiba ao certo quem irá financiá-lo.
Em
conjunto, esses incentivos econômicos representam um fator poderoso para que os
novos líderes do Irã cheguem a um acordo.
Sanam
Vakil concorda que a região enfrenta "uma janela de oportunidade",
mas se mostra cautelosa. "Existe um cenário possível no qual não se chega
a um acordo, isso se prolonga indefinidamente, o presidente Trump perde a
paciência e diz: 'bem, está na hora do terceiro assalto'."
Nenhum
dos especialistas com quem conversei acredita que o futuro esteja garantido.
Décadas
de relações tortuosas entre o Irã, seus vizinhos do Oriente Médio e os Estados
Unidos deixaram um legado tóxico, caracterizado por profundas suspeitas e falta
de confiança quase absoluta.
Não
faltam motivos para o fracasso: desacordos sobre o programa nuclear iraniano, o
futuro do estreito de Ormuz, a guerra no Líbano e as arraigadas posturas dos
setores mais intransigentes de todas as partes.
Após
três meses de convulsão, a região começa a mudar de aspecto. Mas muitas coisas
devem sair bem para que este momento, ainda instável, possa se consolidar em
algo melhor.
Fonte:
BBC News

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