Como
Cuba tenta recuperar sua soberania com reformas inspiradas na China e no Vietnã
Cuba
apresentou há poucos dias o que muitos consideram o seu mais amplo pacote de
reformas econômicas em décadas.
O
governo do presidente Miguel Díaz-Canel anunciou um programa com 176 diretrizes
para tentar reativar uma economia em crise.
As
medidas, aprovadas pela Assembleia Nacional do Poder Popular em 18/6, incluem a
ampliação do setor privado, uma maior abertura ao investimento estrangeiro, a
adoção de mecanismos de mercado para alocar recursos e mudanças profundas na
agricultura, no sistema financeiro e no comércio exterior.
Se
forem implementadas, elas reduzirão de forma significativa o rígido controle
que o Estado exerce sobre a economia no sistema socialista cubano.
Um
empresário poderá abrir várias empresas, um agricultor terá mais incentivos
para produzir, companhias privadas poderão importar diretamente seus insumos e
cubanos que emigrantes serão chamados a desempenhar um papel importante na
economia do país.
É
importante destacar que, por enquanto, estas são apenas diretrizes gerais.
Ainda não está claro quando nem por quais mecanismos concretos elas serão
colocadas em prática.
As
medidas surgem em meio a uma crise profunda, marcada por apagões frequentes,
escassez de alimentos e combustível, queda da produção nacional, escassez de
moeda estrangeira e uma emigração em massa que reduziu drasticamente a
população economicamente ativa do país.
A isso
se soma a pressão do governo dos Estados Unidos, comandado pelo presidente
Donald Trump, que intensificou tanto o cerco econômico quanto a ofensiva
política para forçar mudanças na ilha cubana.
Longe
de admitir uma mudança de rumo ideológico, as autoridades cubanas defendem as
reformas como uma resposta às circunstâncias atuais do país para preservar o
projeto socialista implantado após a Revolução que levou Fidel Castro ao poder,
em 1959.
"Não
há soberania com o prato vazio. A alimentação do povo cubano será tratada como
o que é: uma questão de segurança nacional", afirmou o presidente
Díaz-Canel na sessão em que as novas medidas foram aprovadas.
As
reformas parecem apontar para um modelo de socialismo de mercado semelhante ao
da China e ao do Vietnã, em que o planejamento estatal, sob o monopólio
político do Partido Comunista, convive com amplos espaços para a iniciativa
privada e o investimento estrangeiro.
O
próprio Díaz-Canel reconheceu recentemente que estudou "muito" as
reformas adotadas por esses dois países asiáticos para impulsionar o
desenvolvimento econômico sem abrir mão do sistema de partido único.
Tanto a
China, desde o fim da década de 1970, quanto o Vietnã, a partir de meados dos
anos 1980, implementaram profundas reformas orientadas para o mercado que
ajudaram a tirar centenas de milhões de pessoas da pobreza.
A
questão é se Cuba pode seguir um caminho semelhante em um contexto histórico,
econômico, social e político muito diferente.
Também
há dúvidas sobre se o regime está disposto e será capaz de transformar essas
propostas em mudanças concretas, com regras claras, prazos definidos e
implementação contínua ao longo do tempo.
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Quais são as medidas?
As 176
reformas anunciadas pelo governo cubano têm, em linhas gerais, o objetivo de
ampliar o espaço para a iniciativa privada e reduzir parte do controle que o
Estado tradicionalmente exerce sobre a economia.
Se
forem implementadas da forma como foram apresentadas, um empresário poderá
administrar várias empresas, em vez de apenas uma; as empresas privadas poderão
crescer além do limite atual de 100 funcionários; e agricultores terão mais
liberdade para produzir e comercializar seus produtos.
Empresas
privadas e cooperativas também passarão a ter mais liberdade para importar e
exportar produtos e insumos, além de acessar linhas de financiamento.
No
setor estatal, algumas empresas públicas passariam a ter mais autonomia para
operar e poderiam ser transformadas em sociedades empresariais com a
participação de outros agentes econômicos.
O
Estado deixaria, gradualmente, de distribuir recursos de forma centralizada
para avançar rumo a um sistema em que as empresas possam adquirir insumos,
moeda estrangeira e financiamento no mercado.
As
reformas também abririam, pela primeira vez, espaço para a atuação de empresas
em atividades financeiras, como microcrédito, casas de câmbio e até
determinados serviços bancários. Ainda não está claro, porém, se isso
significará a criação de bancos privados propriamente ditos ou apenas uma
abertura limitada do setor financeiro.
Além
disso, as reformas buscam atrair capital dos cubanos que vivem no exterior para
que participem de empresas, financiem novos negócios e invistam em setores
considerados estratégicos para a recuperação econômica.
Para o
economista cubano Pavel Vidal, as medidas mais importantes são as relacionadas
à expansão da atividade econômica fora do controle do Estado.
"Acabar
com o limite de 100 funcionários para empresas privadas, permitir que elas
sejam empresas privadas de fato, e não apenas micro, pequenas e médias
empresas; permitir que uma pessoa tenha participação societária em uma empresa;
e que as empresas privadas possam atuar em diferentes atividades, e não apenas
em uma (...) Para mim, isso é fundamental", afirma Vidal em entrevista à
BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
Vidal
considera que uma das mudanças mais relevantes pode ocorrer na agricultura,
onde uma maior liberdade para produzir, comercializar e definir preços ajudaria
a criar incentivos econômicos semelhantes aos que impulsionaram as primeiras
reformas na China e no Vietnã.
Miguel
Alejandro Hayes, economista cubano radicado em Miami, nos EUA, aponta o fim do
limite de funcionários como uma das mudanças mais importantes. "Na
prática, eles estão autorizando a existência de grandes empresas
privadas", afirma Hayes em entrevista à BBC News Mundo.
Apesar
disso, Hayes se mostra cético quanto à implementação efetiva dessas medidas e à
ideia de que elas representem uma ruptura profunda com o passado.
Segundo
Hayes, muitas das propostas atualizam o marco legal, mas não transformam de
fato o sistema. Para o economista, se a estrutura de poder político e econômico
permanecer inalterada, "todo o resto é cosmético".
Hayes
acredita ainda que parte das reformas busca formalizar práticas que já existem.
"Eles não vão autorizar casas de câmbio privadas. Vão legalizar as que já
existem", exemplifica, referindo-se ao mercado informal de moedas
estrangeiras que opera há anos fora dos canais oficiais.
Outro
economista cubano, Emilio Morales, é ainda mais crítico. Para ele, as medidas
refletem "uma falsa disposição para mudar, o mesmo discurso de mudança que
o regime sempre apresenta quando as crises chegam ao limite, mas que nunca
consegue colocar em prática porque, na realidade, não tem interesse em que os
cubanos prosperem".
Embora,
à primeira vista, as reformas pareçam as mais favoráveis ao setor privado em
Cuba desde 1959, ainda não se sabe até que ponto elas resultarão em mudanças
concretas.
Também
permanecem dúvidas sobre aspectos essenciais: quais setores continuarão sob
controle exclusivo do Estado, como funcionará a abertura do sistema bancário,
quais serão os limites para a participação privada em empresas estatais e
quando e de que forma muitas das diretrizes entrarão em vigor.
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A inspiração em China e Vietnã
Se as
novas medidas anunciadas por Cuba têm como referência a China e o Vietnã, é
porque os dois países adotaram economias de mercado sem abrir mão do controle
político absoluto exercido por seus respectivos partidos comunistas.
A China
iniciou seu processo de abertura em 1978, sob a liderança de Deng Xiaoping. O
Vietnã seguiu o mesmo caminho em 1986, com o programa conhecido como Đổi Mới
(Renovação).
Partindo
da premissa de preservar o socialismo, e não de abandoná-lo, tanto o Partido
Comunista da China quanto o Partido Comunista do Vietnã promoveram reformas que
ampliaram significativamente o papel do mercado, da iniciativa privada e do
investimento estrangeiro.
As
empresas privadas passaram a ocupar um espaço cada vez maior na economia, os
agricultores ganharam mais incentivos para produzir, as estatais conquistaram
maior autonomia e os dois países abriram gradualmente suas economias ao
comércio e ao investimento internacionais.
Embora
a renda per capita ainda esteja abaixo da registrada em países vizinhos, como
Coreia do Sul e Japão, e também dos níveis dos EUA, da Europa e de outras
economias desenvolvidas, os resultados são inegáveis: a China se tornou a
segunda maior economia do mundo, e o Vietnã está entre as economias que mais
crescem no Sudeste Asiático.
Várias
das medidas anunciadas agora por Cuba lembram essa fórmula, como conceder mais
autonomia às empresas estatais, ampliar o espaço para a iniciativa privada,
descentralizar a distribuição de recursos, liberalizar parcialmente a
agricultura e tentar atrair capital da diáspora.
Também
se aproximam do modelo adotado por China e Vietnã a substituição gradual de
parte dos subsídios universais por programas voltados aos grupos mais
vulneráveis e a criação de incentivos para que as empresas operem segundo
critérios de mercado.
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Cuba pode adotar esse modelo?
As
medidas anunciadas por Cuba têm muitos pontos em comum com as reformas
implementadas pela China e pelo Vietnã. Mas a questão é se Cuba reúne hoje as
condições que permitiram àqueles países transformar a abertura econômica em uma
história de sucesso.
As
diferenças são significativas. Cuba enfrenta uma economia praticamente
paralisada, uma crise energética cada vez mais grave, um acesso limitado ao
capital internacional e uma população envelhecida.
Quando
China e Vietnã iniciaram suas reformas, também eram países pobres. Mas contavam
com uma população jovem, abundante mão de obra e grande potencial para se
integrar à economia mundial.
Cuba,
por outro lado, viu sua população cair de cerca de 11 milhões para
aproximadamente 9 milhões de habitantes em razão da emigração em massa. Além
disso, tem uma das populações mais envelhecidas da América Latina: 25,7% dos
cubanos têm mais de 60 anos, segundo dados oficiais.
O êxodo
migratório dos últimos anos também provocou uma significativa fuga de
profissionais qualificados.
A isso
se somam a deterioração da infraestrutura, uma grave crise energética e a falta
de uma base industrial voltada para a exportação, como a que impulsionou o
crescimento da China e, mais tarde, do Vietnã.
"Na
fase inicial das reformas no Vietnã e na China, a agricultura foi um importante
motor do crescimento econômico", afirma o economista cubano Vidal.
Em
Cuba, por outro lado, "a população é predominantemente urbana e muito
envelhecida, o que representa um grande desafio para todos os setores da
economia, especialmente para a agricultura, por causa da escassez de mão de
obra jovem", diz Vidal.
O
economista destaca ainda outro fator considerado essencial: a inserção
internacional. "O Vietnã conseguiu atrair o capital da diáspora, além de
conhecimento e conexões internacionais", afirma.
Vidal
avalia que as reformas terão alcance limitado se Cuba continuar isolada da
economia internacional e sem acesso regular ao sistema financeiro global.
E essa
situação não tem solução simples. Cuba está praticamente falida: enfrenta uma
grave escassez de moeda estrangeira, perdeu o acesso ao crédito internacional
por causa do não pagamento de suas dívidas e sofre com a falta de liquidez.
Também
pesa a continuidade das sanções dos EUA. Embora o embargo esteja em vigor há
mais de seis décadas, o governo Trump endureceu as restrições financeiras e
comerciais contra a ilha, dificultando ainda mais o acesso a moedas
estrangeiras, ao investimento estrangeiro e ao financiamento internacional.
Recentemente,
o Departamento de Estado dos EUA anunciou novas sanções contra o Gaesa
(conglomerado de empresas estatais cubanas) e instituições financeiras ligadas
a esse conglomerado empresarial controlado pela elite militar cubana,
responsável por grande parte dos negócios realizados em moeda estrangeira na
ilha.
Essas
restrições reduzem a entrada de investimentos, elevam o custo das operações
financeiras e tornam ainda mais difícil o acesso ao crédito internacional.
Também desestimulam potenciais investidores e dificultam a permanência das
poucas empresas estrangeiras que ainda operam em Cuba.
De
fato, as principais redes hoteleiras estrangeiras que atuam no país, entre
elas, as espanholas Meliá e Iberostar, deixaram, no início de junho, a maior
parte dos hotéis que administravam, citando o aumento da insegurança jurídica,
a deterioração das condições de operação e a crise energética.
Se esse
cenário persistir, é difícil imaginar que as reformas, sozinhas, consigam
promover a recuperação econômica pretendida pelo governo.
A BBC
News Mundo procurou o governo cubano para comentar esta reportagem, mas não
obteve resposta.
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Vontade de mudar ou estratégia de sobrevivência?
O
governo de Díaz-Canel deposita boa parte de suas expectativas de recuperação
econômica na atração de investimento estrangeiro e de capital vindo da
diáspora. Mas essa também não parece ser uma tarefa simples.
"A
credibilidade é o principal problema", afirma Hayes. Segundo ele, a falta
de clareza regulatória, a insegurança jurídica e o histórico de mudanças nas
regras ao longo de décadas podem afastar potenciais investidores.
A
cautela também se explica pelos antecedentes. Nos últimos anos, Cuba aprovou
medidas como a ampliação do trabalho por conta própria, a concessão de terras
em usufruto, a unificação monetária e a autorização para a criação de micro,
pequenas e médias empresas privadas.
Embora
algumas dessas iniciativas tenham produzido avanços pontuais, a maioria não
alcançou os resultados esperados ou acabou sendo restringida por novas normas,
o que alimentou o ceticismo sobre a capacidade de o sistema promover reformas.
Alguns
economistas, como Emilio Morales, interpretam o anúncio mais recente do governo
cubano como uma reação a uma situação conjuntural, e não como parte de uma
estratégia planejada de transformação.
"O
anúncio foi feito quando o governo cubano passou a sentir de forma mais intensa
a pressão exercida pelo governo Trump", afirma.
E
acrescenta que o anúncio das novas reformas "não decorre de vontade
própria, muito menos da convicção política de que é preciso promover mudanças
profundas na economia do país. Na realidade, trata-se de uma estratégia
emergencial de última hora para tentar resistir à pressão dos EUA".
"Cuba
precisa de uma mudança política que enterre esse sistema e abra caminho para
uma democracia com separação dos Poderes, livre iniciativa, livre mercado e
liberdade de pensamento", afirma.
Assim,
permanecem várias dúvidas: se as medidas serão implementadas, se resistirão às
pressões internas, se conseguirão atrair investimento estrangeiro e capital da
diáspora e se terão impacto real sobre a produção, o emprego e o padrão de vida
dos cubanos.
Embora
as reformas apontem para um caminho semelhante ao seguido por China e Vietnã,
ainda resta saber se Cuba conseguirá percorrê-lo em um contexto econômico,
demográfico e geopolítico que, à primeira vista, é muito mais adverso.
Fonte:
BBC News

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