Os
quinze dias que podem mudar a eleição presidencial
Entre
esta sexta-feira, 10 de julho, e a Convenção Nacional do Partido Liberal (PL),
marcada para 25 de julho, poderá ser tomada a decisão política mais importante
das eleições presidenciais de 2026.
À
primeira vista, trata-se apenas da convenção destinada a homologar a
candidatura de Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto.
Na
prática, a convenção decidirá muito mais do que uma candidatura: indicará quem
herdará o capital político de Jair Bolsonaro e qual será a estratégia da
direita para tentar impedir a reeleição de Lula.
O prazo
legal para o registro das candidaturas termina em 15 de agosto. Mas o
calendário político corre mais depressa. Depois da convenção dos partidos,
marcada de 25 de julho a 5 de agosto, qualquer mudança deixará de ser uma
simples negociação partidária para se transformar na substituição pública do
candidato escolhido por Jair Bolsonaro. É essa contagem regressiva que dá novo
significado aos acontecimentos das últimas semanas.
Isoladamente,
a crise entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro poderia parecer apenas mais
um conflito dos inúmeros conflitos que envolvem a família. Vai muito mais além.
Observada em conjunto, pode representar o início de uma ampla reorganização da
direita brasileira.
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A sucessão deixou de ser um assunto de família
Durante
meses, Jair Bolsonaro acreditou que bastaria indicar um dos filhos para
preservar automaticamente o capital político construído ao longo de sua
trajetória.
A
escolha de Jair Bolsonaro recaiu sobre Flávio, o filho 01.
Michelle
foi encaminhada para disputar uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal e
exercer o papel de principal cabo eleitoral do enteado. A estratégia parecia
encerrar qualquer disputa sucessória dentro do bolsonarismo.
A
realidade seguiu outro caminho. Flávio não conseguiu unificar o campo
conservador. O caso Daniel Vorcaro ampliou o desgaste de sua candidatura.
Flávio passou a enfrentar resistências entre setores empresariais, dirigentes
partidários e lideranças da direita liberal. A viagem aos Estados Unidos, as
controvérsias envolvendo o tarifaço de Donald Trump, o desgaste provocado pelo
caso Daniel Vorcaro, as declarações sobre o Pix e, por fim, o rompimento
público com Michelle passaram a alimentar dúvidas sobre sua capacidade de
ampliar alianças para além do eleitorado bolsonarista.
Ao
mesmo tempo, Michelle iniciou um movimento na direção oposta. Primeiro, rompeu
publicamente com Flávio. Depois, deixou a presidência do PL Mulher. Em seguida,
lançou o movimento ImparáveisMB e passou a apresentar-se como líder de um
projeto dirigido a homens e mulheres.”
A
reportagem de Andréa Jubé, publicada nesta sexta-feira 10, pelo Valor Econômico
chama atenção exatamente para essa mudança. Michelle já não fala apenas como
ex-primeira-dama ou dirigente partidária. Procura ocupar o espaço de uma
liderança nacional disponível para um projeto político mais amplo.
Sua
mensagem parece clara. Ela não aceita mais desempenhar um papel secundário.
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O personagem silencioso
Há,
porém, outro personagem central nessa história.
Valdemar
Costa Neto.
Muito
antes de Jair Bolsonaro escolher Flávio como sucessor, foi Valdemar quem
começou a construir politicamente Michelle.
Em
2023, entregou-lhe o comando nacional do PL Mulher, colocou à sua disposição a
estrutura partidária, incentivou viagens pelo país e declarou publicamente que,
se Jair não pudesse disputar a Presidência, Michelle seria uma alternativa
natural do partido. Na prática, iniciou a formação de uma liderança nacional.
Valdemar
aceitou a escolha de Flávio, mas preservou o espaço político construído para
Michelle.
Isso
não significa que esteja conspirando contra Flávio. Significa apenas que
continua preservando aquele que considera um dos maiores patrimônios políticos
do PL.
Essa
leitura ganha força quando comparada com a análise publicada por Dora Kramer na
Folha de S. Paulo. Segundo a jornalista, Jair Bolsonaro e seus filhos costumam
tornar-se prisioneiros das próprias palavras e decisões. Michelle, ao
contrário, demonstra “roteiro bem pensado, frieza e, sobretudo, visão
estratégica”.
A
observação ajuda a compreender a diferença entre os movimentos recentes. Flávio
passou boa parte da pré-campanha administrando crises provocadas por suas
próprias declarações.
Michelle
escolheu outro caminho. Saiu do PL Mulher sem abandonar o partido. Rompeu com
Flávio sem romper com o legado político de Jair. Criou um movimento próprio sem
anunciar candidatura presidencial. Manteve aberta a possibilidade de disputar o
Senado, mas também não fechou outras portas.
Sua
estratégia consiste justamente em conservar todas as alternativas disponíveis
enquanto os demais personagens são obrigados a definir seus caminhos. É
exatamente isso que torna os próximos quinze dias decisivos.
A
convenção do PL poderá confirmar a candidatura de Flávio. Ou poderá representar
o momento em que a direita começará a discutir, de forma irreversível, outra
engenharia política para enfrentar Lula.
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A direita liberal entrou no jogo
Enquanto
a crise se aprofundava dentro da família Bolsonaro, outra movimentação ocorria
no campo conservador. Os principais partidos da direita liberal passaram a
discutir não apenas quem seria seu candidato, mas qual seria a melhor fórmula
para enfrentar Lula.
As
declarações de Ronaldo Caiado marcaram uma mudança importante nesse debate:
“Votar em Flávio é eleger Lula”.
O
governador de Goiás deixou de tratar a disputa como uma divergência entre dois
aliados do PL. Transformou a viabilidade eleitoral de Flávio numa questão
estratégica para toda a direita.
Ao
mesmo tempo, editoriais de grandes jornais, manifestações de dirigentes
partidários e sinais vindos de setores empresariais passaram a demonstrar
crescente desconforto com a candidatura de Flávio.
O
debate deixou de ser apenas interno ao bolsonarismo. Passou a envolver toda a
direita brasileira.
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Michelle pode ser a ponte
É nesse
contexto que Michelle Bolsonaro ganha importância política. Separadamente, cada
campo possui limitações evidentes. A direita liberal reúne governadores,
partidos estruturados, maior interlocução com o empresariado e experiência
administrativa.
O
bolsonarismo conserva um eleitorado fiel, forte presença entre os evangélicos,
grande capacidade de mobilização e uma identidade política consolidada. O
desafio consiste em reunir esses dois patrimônios eleitorais. Flávio Bolsonaro
foi escolhido justamente para cumprir essa missão. Até agora, não conseguiu.
Michelle,
ao contrário, passou a oferecer exatamente aquilo que falta para uma eventual
composição. Ela pode levar para uma chapa o sobrenome Bolsonaro, parte
importante do eleitorado evangélico, o voto feminino conservador e uma parcela
significativa da militância bolsonarista.
Em
contrapartida, um candidato da direita liberal ofereceria aquilo que o
bolsonarismo ainda não conseguiu construir sozinho: uma ampla coligação
partidária, apoio de governadores, maior diálogo com o empresariado e melhores
condições de disputar o eleitorado de centro.
Ronaldo
Caiado representa hoje o exemplo mais visível dessa possibilidade. Caiado
simboliza, hoje, o esforço da direita tradicional para construir uma
candidatura capaz de ultrapassar as fronteiras do próprio campo conservador.
Nesse
cenário, Michelle poderia funcionar como a ponte entre esse projeto e o
eleitorado bolsonarista. Mas porque Caiado simboliza o esforço da direita
tradicional para construir uma candidatura nacional capaz de ultrapassar as
fronteiras do próprio campo conservador.
Michelle
poderia tornar-se a ligação entre esse projeto e o eleitorado bolsonarista.
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A indefinição já atinge o próprio PL
Outro
sinal de que a candidatura presidencial permanece em aberto surgiu nesta
sexta-feira.
Segundo
informação publicada por Bela Megale, em O Globo, a demora de Flávio Bolsonaro
em definir o candidato do PL ao governo do Rio de Janeiro passou a provocar
dúvidas, entre dirigentes do partido, sobre a própria candidatura presidencial
do senador.
Não se
trata de um detalhe regional. O Rio de Janeiro é o principal reduto eleitoral
da família Bolsonaro e um dos palanques mais importantes da campanha nacional.
Quando
a indefinição sobre o candidato à Presidência começa a atrasar decisões
estratégicas no maior Estado do bolsonarismo, o problema deixa de ser apenas
presidencial.
Passa a
atingir toda a organização eleitoral do partido.
Esse
talvez seja o sinal mais eloquente de que a crise entrou numa nova etapa. Já
não envolve apenas Jair, Flávio ou Michelle. Começa a interferir diretamente na
montagem das chapas estaduais e na estratégia nacional do PL.
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A decisão continua nas mãos de Jair
Nada
disso significa que Flávio Bolsonaro esteja fora da disputa. Muito menos que
Michelle já tenha decidido disputar a eleição ou integrar qualquer chapa,
amparada pelo espólio de Jair Bolsonaro, seu marido a quem no momento deles
dois chama de “Galego”.
O que
mudou foi o ambiente político.
Pela
primeira vez desde que Jair anunciou o nome do filho como sucessor, a hipótese
de uma reorganização mais ampla da direita deixou de parecer improvável.
Mas
essa reorganização depende de uma decisão que somente Jair Bolsonaro poderá
tomar. Foi ele quem escolheu Flávio. Foi ele quem definiu a sucessão familiar.
Se
concluir que a candidatura do filho não reúne mais condições de unificar a
direita, caberá ao próprio Jair decidir se mantém sua escolha ou se autoriza
outra composição.
Talvez
esteja aí a maior ironia desta campanha.
Depois
de impedir que Michelle se tornasse sua sucessora, Jair poderá descobrir que
ela é justamente a integrante da família com melhores condições de preservar o
patrimônio político construído pelo bolsonarismo.
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O relógio começou a correr
Michelle
e Flávio ainda possuem uma importante rede de proteção. Ela aparece como
favorita à disputa pelo Senado no Distrito Federal. Ele poderá buscar a
reeleição para o Senado pelo Rio de Janeiro, caso sua candidatura presidencial
não prospere.
Mas
essa margem de manobra tem prazo para terminar. Entre 10 e 25 de julho – quando
a convenção do PL vai oficializar o candidato a presidente — a direita também
precisará decidir seu rumo. Depois da convenção dos partidos, restará apenas o
registro formal das candidaturas na Justiça Eleitoral, marcada para próximo dia
25 de julho.
Os
próximos quinze dias dirão muito mais do que se Flávio Bolsonaro continuará ou
não candidato à Presidência. Dirão quem herdará o capital político de Jair
Bolsonaro. Dirão se Michelle permanecerá candidata ao Senado ou passará a
ocupar outro espaço na reorganização da direita
Caiado
simboliza, hoje, o esforço da direita tradicional para construir uma
candidatura capaz de ultrapassar as fronteiras do próprio campo conservador.
Nesse cenário, Michelle poderia funcionar como a ponte entre esse projeto e o
eleitorado bolsonarista.
Será
esta, afinal, a fórmula que a direita procura há quase um quarto de século para
tentar derrotar Lula nas urnas?
• Campanha “Imparáveis”: manobra para
esconder a crise do bolsonarismo. Por Ricardo Mezavila
A
ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro lançou antes do previsto a campanha digital
“Imparáveis”, apresentada como uma forma de “defender sua imagem” contra o que
ela chama de “metralhadora de mentiras”. Mas para quem acompanha de perto o
cenário político, essa iniciativa não passa de mais uma jogada de marketing,
tentando virar o jogo num momento em que o bolsonarismo perde força,
credibilidade e espaço diante de propostas que realmente atendem ao povo.
Usar a
Mulher-Maravilha como símbolo é uma tentativa barata e superficial de se passar
por vítima ou heroína. Na realidade, o grupo político ao qual pertence acumula
problemas, suspeitas e questões sérias que nunca foram explicadas de verdade à
população.
O fato
de terem antecipado o lançamento já mostra o nervosismo nos bastidores. O
motivo principal é o desempenho ruim da candidatura do senador Flávio
Bolsonaro: ele cai nas pesquisas, perde apoio e já não representa uma ameaça
eleitoral — especialmente aqui no Rio de Janeiro. Os números deixam claro: o
eleitorado percebeu que promessas vazias e discurso de confronto, marca
registrada da direita conservadora, não resolvem nada. Não geram emprego, não
melhoram a saúde, não ampliam a educação e nem garantem direitos sociais.
Com o
filho mais velho perdendo terreno nas intenções de voto, a família Bolsonaro
aposta na única figura que ainda não tem uma rejeição tão alta — Michelle —
para tentar manter sua influência e continuar aparecendo no debate público,
mesmo sem apresentar qualquer projeto que beneficie a maioria.
E a
pressão só aumenta, ainda mais por causa do contraste com o governo Lula e as
propostas da esquerda. Enquanto o governo federal mostra resultados concretos,
melhora a vida da população mais pobre, recupera programas sociais destruídos
nos anos anteriores e cresce em aprovação, a oposição fica cada vez mais sem
argumentos. Para completar, corre nos bastidores a informação de que pode
surgir um vídeo comprometedor envolvendo Flávio Bolsonaro — algo que deixa o
grupo ainda mais inseguro.
Se for
verdade, é mais um capítulo de uma história marcada por suspeitas, falta de
transparência e práticas que não têm nada a ver com o que o povo brasileiro
precisa. Não é à toa que há tanta apreensão: em cada crise, a resposta nunca é
explicar os fatos, assumir erros ou propor soluções. A saída é sempre criar
novas campanhas para desviar a atenção e confundir a opinião pública.
Nesse
cenário, a campanha “Imparáveis” tem um papel muito claro: tentar limpar a
imagem de um grupo em dificuldade, ganhar tempo e manter sua base mobilizada
com discursos de perseguição, ao invés de debater ideias sérias e caminhos para
o desenvolvimento do país. A versão da assessoria, de que antecipou tudo apenas
por “demanda do público”, não convence ninguém: é a mesma desculpa de sempre,
usada para esconder as verdadeiras razões.
Para
quem defende projetos que priorizam a maioria, a justiça social e a democracia
— como faz a esquerda — essa iniciativa não passa de uma jogada política vazia.
Não existe “defesa de imagem” quando o grupo se recusa a responder sobre suas
ações passadas e presentes.
A
estratégia é simples: quando os fatos não estão a seu favor, inventa-se uma
narrativa para parecer que eles são as vítimas. Mas o povo já aprendeu a
diferenciar campanha de marketing de compromisso real. E cada vez mais enxerga
essas manobras pelo que realmente são: uma tentativa desesperada de continuar
tendo espaço e influência, sem oferecer nada de concreto, enquanto o país segue
avançando com políticas que transformam a vida da maioria.
Fonte: Por
Gustavo Tapioca, em Brasil 247

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