terça-feira, 14 de julho de 2026

Os quinze dias que podem mudar a eleição presidencial

Entre esta sexta-feira, 10 de julho, e a Convenção Nacional do Partido Liberal (PL), marcada para 25 de julho, poderá ser tomada a decisão política mais importante das eleições presidenciais de 2026.

À primeira vista, trata-se apenas da convenção destinada a homologar a candidatura de Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto.

Na prática, a convenção decidirá muito mais do que uma candidatura: indicará quem herdará o capital político de Jair Bolsonaro e qual será a estratégia da direita para tentar impedir a reeleição de Lula.

O prazo legal para o registro das candidaturas termina em 15 de agosto. Mas o calendário político corre mais depressa. Depois da convenção dos partidos, marcada de 25 de julho a 5 de agosto, qualquer mudança deixará de ser uma simples negociação partidária para se transformar na substituição pública do candidato escolhido por Jair Bolsonaro. É essa contagem regressiva que dá novo significado aos acontecimentos das últimas semanas. 

Isoladamente, a crise entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro poderia parecer apenas mais um conflito dos inúmeros conflitos que envolvem a família. Vai muito mais além. Observada em conjunto, pode representar o início de uma ampla reorganização da direita brasileira.

<><> A sucessão deixou de ser um assunto de família

Durante meses, Jair Bolsonaro acreditou que bastaria indicar um dos filhos para preservar automaticamente o capital político construído ao longo de sua trajetória.

A escolha de Jair Bolsonaro recaiu sobre Flávio, o filho 01.

Michelle foi encaminhada para disputar uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal e exercer o papel de principal cabo eleitoral do enteado. A estratégia parecia encerrar qualquer disputa sucessória dentro do bolsonarismo.

A realidade seguiu outro caminho. Flávio não conseguiu unificar o campo conservador. O caso Daniel Vorcaro ampliou o desgaste de sua candidatura. Flávio passou a enfrentar resistências entre setores empresariais, dirigentes partidários e lideranças da direita liberal. A viagem aos Estados Unidos, as controvérsias envolvendo o tarifaço de Donald Trump, o desgaste provocado pelo caso Daniel Vorcaro, as declarações sobre o Pix e, por fim, o rompimento público com Michelle passaram a alimentar dúvidas sobre sua capacidade de ampliar alianças para além do eleitorado bolsonarista.

Ao mesmo tempo, Michelle iniciou um movimento na direção oposta. Primeiro, rompeu publicamente com Flávio. Depois, deixou a presidência do PL Mulher. Em seguida, lançou o movimento ImparáveisMB e passou a apresentar-se como líder de um projeto dirigido a homens e mulheres.”

A reportagem de Andréa Jubé, publicada nesta sexta-feira 10, pelo Valor Econômico chama atenção exatamente para essa mudança. Michelle já não fala apenas como ex-primeira-dama ou dirigente partidária. Procura ocupar o espaço de uma liderança nacional disponível para um projeto político mais amplo.

Sua mensagem parece clara. Ela não aceita mais desempenhar um papel secundário.

<>< O personagem silencioso

Há, porém, outro personagem central nessa história.

Valdemar Costa Neto.

Muito antes de Jair Bolsonaro escolher Flávio como sucessor, foi Valdemar quem começou a construir politicamente Michelle.

Em 2023, entregou-lhe o comando nacional do PL Mulher, colocou à sua disposição a estrutura partidária, incentivou viagens pelo país e declarou publicamente que, se Jair não pudesse disputar a Presidência, Michelle seria uma alternativa natural do partido. Na prática, iniciou a formação de uma liderança nacional.

Valdemar aceitou a escolha de Flávio, mas preservou o espaço político construído para Michelle.

Isso não significa que esteja conspirando contra Flávio. Significa apenas que continua preservando aquele que considera um dos maiores patrimônios políticos do PL.

Essa leitura ganha força quando comparada com a análise publicada por Dora Kramer na Folha de S. Paulo. Segundo a jornalista, Jair Bolsonaro e seus filhos costumam tornar-se prisioneiros das próprias palavras e decisões. Michelle, ao contrário, demonstra “roteiro bem pensado, frieza e, sobretudo, visão estratégica”.

A observação ajuda a compreender a diferença entre os movimentos recentes. Flávio passou boa parte da pré-campanha administrando crises provocadas por suas próprias declarações.

Michelle escolheu outro caminho. Saiu do PL Mulher sem abandonar o partido. Rompeu com Flávio sem romper com o legado político de Jair. Criou um movimento próprio sem anunciar candidatura presidencial. Manteve aberta a possibilidade de disputar o Senado, mas também não fechou outras portas.

Sua estratégia consiste justamente em conservar todas as alternativas disponíveis enquanto os demais personagens são obrigados a definir seus caminhos. É exatamente isso que torna os próximos quinze dias decisivos.

A convenção do PL poderá confirmar a candidatura de Flávio. Ou poderá representar o momento em que a direita começará a discutir, de forma irreversível, outra engenharia política para enfrentar Lula.

<><> A direita liberal entrou no jogo

Enquanto a crise se aprofundava dentro da família Bolsonaro, outra movimentação ocorria no campo conservador. Os principais partidos da direita liberal passaram a discutir não apenas quem seria seu candidato, mas qual seria a melhor fórmula para enfrentar Lula.

As declarações de Ronaldo Caiado marcaram uma mudança importante nesse debate: “Votar em Flávio é eleger Lula”.

O governador de Goiás deixou de tratar a disputa como uma divergência entre dois aliados do PL. Transformou a viabilidade eleitoral de Flávio numa questão estratégica para toda a direita.

Ao mesmo tempo, editoriais de grandes jornais, manifestações de dirigentes partidários e sinais vindos de setores empresariais passaram a demonstrar crescente desconforto com a candidatura de Flávio.

O debate deixou de ser apenas interno ao bolsonarismo. Passou a envolver toda a direita brasileira.

<><> Michelle pode ser a ponte

É nesse contexto que Michelle Bolsonaro ganha importância política. Separadamente, cada campo possui limitações evidentes. A direita liberal reúne governadores, partidos estruturados, maior interlocução com o empresariado e experiência administrativa.

O bolsonarismo conserva um eleitorado fiel, forte presença entre os evangélicos, grande capacidade de mobilização e uma identidade política consolidada. O desafio consiste em reunir esses dois patrimônios eleitorais. Flávio Bolsonaro foi escolhido justamente para cumprir essa missão. Até agora, não conseguiu.

Michelle, ao contrário, passou a oferecer exatamente aquilo que falta para uma eventual composição. Ela pode levar para uma chapa o sobrenome Bolsonaro, parte importante do eleitorado evangélico, o voto feminino conservador e uma parcela significativa da militância bolsonarista.

Em contrapartida, um candidato da direita liberal ofereceria aquilo que o bolsonarismo ainda não conseguiu construir sozinho: uma ampla coligação partidária, apoio de governadores, maior diálogo com o empresariado e melhores condições de disputar o eleitorado de centro.

Ronaldo Caiado representa hoje o exemplo mais visível dessa possibilidade. Caiado simboliza, hoje, o esforço da direita tradicional para construir uma candidatura capaz de ultrapassar as fronteiras do próprio campo conservador. 

Nesse cenário, Michelle poderia funcionar como a ponte entre esse projeto e o eleitorado bolsonarista. Mas porque Caiado simboliza o esforço da direita tradicional para construir uma candidatura nacional capaz de ultrapassar as fronteiras do próprio campo conservador.

Michelle poderia tornar-se a ligação entre esse projeto e o eleitorado bolsonarista.

<><> A indefinição já atinge o próprio PL

Outro sinal de que a candidatura presidencial permanece em aberto surgiu nesta sexta-feira.

Segundo informação publicada por Bela Megale, em O Globo, a demora de Flávio Bolsonaro em definir o candidato do PL ao governo do Rio de Janeiro passou a provocar dúvidas, entre dirigentes do partido, sobre a própria candidatura presidencial do senador.

Não se trata de um detalhe regional. O Rio de Janeiro é o principal reduto eleitoral da família Bolsonaro e um dos palanques mais importantes da campanha nacional.

Quando a indefinição sobre o candidato à Presidência começa a atrasar decisões estratégicas no maior Estado do bolsonarismo, o problema deixa de ser apenas presidencial.

Passa a atingir toda a organização eleitoral do partido.

Esse talvez seja o sinal mais eloquente de que a crise entrou numa nova etapa. Já não envolve apenas Jair, Flávio ou Michelle. Começa a interferir diretamente na montagem das chapas estaduais e na estratégia nacional do PL.

<><> A decisão continua nas mãos de Jair

Nada disso significa que Flávio Bolsonaro esteja fora da disputa. Muito menos que Michelle já tenha decidido disputar a eleição ou integrar qualquer chapa, amparada pelo espólio de Jair Bolsonaro, seu marido a quem no momento deles dois chama de “Galego”.

O que mudou foi o ambiente político.

Pela primeira vez desde que Jair anunciou o nome do filho como sucessor, a hipótese de uma reorganização mais ampla da direita deixou de parecer improvável.

Mas essa reorganização depende de uma decisão que somente Jair Bolsonaro poderá tomar. Foi ele quem escolheu Flávio. Foi ele quem definiu a sucessão familiar.

Se concluir que a candidatura do filho não reúne mais condições de unificar a direita, caberá ao próprio Jair decidir se mantém sua escolha ou se autoriza outra composição.

Talvez esteja aí a maior ironia desta campanha.

Depois de impedir que Michelle se tornasse sua sucessora, Jair poderá descobrir que ela é justamente a integrante da família com melhores condições de preservar o patrimônio político construído pelo bolsonarismo.

<><> O relógio começou a correr

Michelle e Flávio ainda possuem uma importante rede de proteção. Ela aparece como favorita à disputa pelo Senado no Distrito Federal. Ele poderá buscar a reeleição para o Senado pelo Rio de Janeiro, caso sua candidatura presidencial não prospere.

Mas essa margem de manobra tem prazo para terminar. Entre 10 e 25 de julho – quando a convenção do PL vai oficializar o candidato a presidente — a direita também precisará decidir seu rumo. Depois da convenção dos partidos, restará apenas o registro formal das candidaturas na Justiça Eleitoral, marcada para próximo dia 25 de julho.

Os próximos quinze dias dirão muito mais do que se Flávio Bolsonaro continuará ou não candidato à Presidência. Dirão quem herdará o capital político de Jair Bolsonaro. Dirão se Michelle permanecerá candidata ao Senado ou passará a ocupar outro espaço na reorganização da direita

Caiado simboliza, hoje, o esforço da direita tradicional para construir uma candidatura capaz de ultrapassar as fronteiras do próprio campo conservador. Nesse cenário, Michelle poderia funcionar como a ponte entre esse projeto e o eleitorado bolsonarista.

Será esta, afinal, a fórmula que a direita procura há quase um quarto de século para tentar derrotar Lula nas urnas?

•        Campanha “Imparáveis”: manobra para esconder a crise do bolsonarismo. Por Ricardo Mezavila

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro lançou antes do previsto a campanha digital “Imparáveis”, apresentada como uma forma de “defender sua imagem” contra o que ela chama de “metralhadora de mentiras”. Mas para quem acompanha de perto o cenário político, essa iniciativa não passa de mais uma jogada de marketing, tentando virar o jogo num momento em que o bolsonarismo perde força, credibilidade e espaço diante de propostas que realmente atendem ao povo.

Usar a Mulher-Maravilha como símbolo é uma tentativa barata e superficial de se passar por vítima ou heroína. Na realidade, o grupo político ao qual pertence acumula problemas, suspeitas e questões sérias que nunca foram explicadas de verdade à população.

O fato de terem antecipado o lançamento já mostra o nervosismo nos bastidores. O motivo principal é o desempenho ruim da candidatura do senador Flávio Bolsonaro: ele cai nas pesquisas, perde apoio e já não representa uma ameaça eleitoral — especialmente aqui no Rio de Janeiro. Os números deixam claro: o eleitorado percebeu que promessas vazias e discurso de confronto, marca registrada da direita conservadora, não resolvem nada. Não geram emprego, não melhoram a saúde, não ampliam a educação e nem garantem direitos sociais.

Com o filho mais velho perdendo terreno nas intenções de voto, a família Bolsonaro aposta na única figura que ainda não tem uma rejeição tão alta — Michelle — para tentar manter sua influência e continuar aparecendo no debate público, mesmo sem apresentar qualquer projeto que beneficie a maioria.

E a pressão só aumenta, ainda mais por causa do contraste com o governo Lula e as propostas da esquerda. Enquanto o governo federal mostra resultados concretos, melhora a vida da população mais pobre, recupera programas sociais destruídos nos anos anteriores e cresce em aprovação, a oposição fica cada vez mais sem argumentos. Para completar, corre nos bastidores a informação de que pode surgir um vídeo comprometedor envolvendo Flávio Bolsonaro — algo que deixa o grupo ainda mais inseguro.

Se for verdade, é mais um capítulo de uma história marcada por suspeitas, falta de transparência e práticas que não têm nada a ver com o que o povo brasileiro precisa. Não é à toa que há tanta apreensão: em cada crise, a resposta nunca é explicar os fatos, assumir erros ou propor soluções. A saída é sempre criar novas campanhas para desviar a atenção e confundir a opinião pública.

Nesse cenário, a campanha “Imparáveis” tem um papel muito claro: tentar limpar a imagem de um grupo em dificuldade, ganhar tempo e manter sua base mobilizada com discursos de perseguição, ao invés de debater ideias sérias e caminhos para o desenvolvimento do país. A versão da assessoria, de que antecipou tudo apenas por “demanda do público”, não convence ninguém: é a mesma desculpa de sempre, usada para esconder as verdadeiras razões. 

Para quem defende projetos que priorizam a maioria, a justiça social e a democracia — como faz a esquerda — essa iniciativa não passa de uma jogada política vazia. Não existe “defesa de imagem” quando o grupo se recusa a responder sobre suas ações passadas e presentes. 

A estratégia é simples: quando os fatos não estão a seu favor, inventa-se uma narrativa para parecer que eles são as vítimas. Mas o povo já aprendeu a diferenciar campanha de marketing de compromisso real. E cada vez mais enxerga essas manobras pelo que realmente são: uma tentativa desesperada de continuar tendo espaço e influência, sem oferecer nada de concreto, enquanto o país segue avançando com políticas que transformam a vida da maioria.

 

Fonte: Por Gustavo Tapioca, em Brasil 247

 

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