Economia
ajuda Lula às vésperas da eleição
A Faria
Lima, centro financeiro do país, reagiu contrariada à surpreendente baixa da
inflação em junho. Segundo o IBGE divulgou sexta-feira, 10 de julho, o IPCA de
junho, a inflação oficial, que mede as despesas das famílias com renda de até
40 salários-mínimos (R$ 64.840), subiu apenas 0,16% no mês passado, a metade do
número esperado pelo mercado financeiro. O mercado tem uma torcida velada pela
inflação. Com os preços em alta, o Banco Central é obrigado a elevar os juros
da taxa Selic (que está em 14,25% ao ano), ou refreia o ritmo de baixa. O IPCA
acumulado em 12 meses desceu de 4,72% em maio para 4,64%. Quase três vezes a
inflação, o que abre espaço a mais redução de juros. O que tende a reduzir os
ganhos dos bancos e dos rentistas.
O
governo comemora a desaceleração da alta dos preços. Além de aliviar um pouco
as dívidas das famílias e pequenas e médias empresas (atendidas pelo
Desenrola), evita que o Tesouro Nacional pague juros mais altos no giro da
dívida pública líquida. Ela se aproxima dos R$ 9 trilhões e envolve o pagamento
anual de R$ 1,1 trilhão aos bancos e rentistas, o que concentra a renda. Outro
fator para contrariar ainda mais os economistas e gestores de recursos da Faria
Lima é que eles ganham mais quando a economia vai mal. A economia, apesar dos
trancos causados pela guerra dos EUA-Israel contra o Irã, desde 28 de
fevereiro, vai bem, obrigado, com crescimento e baixo desemprego. Mas o eixo
valoriza a crise. Nas crises, os operadores ganham mais com as arbitragens de taxas
de juros.
Mas há
uma outra razão para aumentar a contrariedade do eixo da Faria Lima com o
agronegócio e os que reagem à política do governo Lula de inverter a carga
tributária que sempre recaiu mais sobre os impostos no consumo, do que na renda
e sobre o patrimônio, como ocorre desde o século passado nos 32 países que
fazem parte da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE):
é de ordem política. O candidato do coração do eixo da Faria Lima com o
agronegócio (PIB bem maior fora das porteiras das fazendas) era o governador de
São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Tarcísio liderava as
pesquisas. No entanto, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos pela
tentativa golpista, temia não receber indulto presidencial de seu ex-ministro
da Infraestrutura.
Desconfiado,
o ex-presidente achava mais confiável se o filho 01, senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ), fosse eleito. Com a vantagem de que o clã Bolsonaro poderia ampliar
seu esquema de poder (com maior presença no Senado), posto em dúvida com uma
hipotética vitória do governador de São Paulo em outubro de 2026, que o
cacifaria para a reeleição em 2030. Foi por isso que indicou o filho senador em
novembro do ano passado. Apesar das desconfianças de muitos empresários,
sobretudo paulistas, quando aprovou (com apoio do governador paulista), o
tarifaço de Donald Trump contra o Brasil em junho de 2025, Flávio vinha
crescendo nas pesquisas. O irmão 03, o ex-deputado federal (cassado) Eduardo
Bolsonaro, que trama nos Estados Unidos contra o Brasil nos escaninhos do
governo Trump (em especial, o Departamento de Estado, comandado pelo secretário
Marco Rubio), voltou à carga este ano. Ainda assim, Flávio Bolsonaro vinha
empatado nas pesquisas do segundo turno.
Tudo
mudou em maio. Sem espaço na disputa presidencial, o governador Tarcísio optou
por uma reeleição em que lidera as pesquisas, e encerrou as chances de ainda
ser lançado à Presidência. Mas, em 13 de maio, o site “Intercept Brasil”
revelou as conversas de Flávio Bolsonaro, iniciadas em 2024, com o então
banqueiro Daniel Vorcaro, para tentar levantar aporte de R$ 134 milhões do
Banco Master para bancar, sabe-se lá em troca de quê, o filme “Dark Horse”, ou
“o azarão”, uma coprodução brasileira-americana sobre a vida do ex-presidente
Jair Bolsonaro. Parte do dinheiro amealhado pelo ex-banqueiro saiu de
aplicações milionárias e com interferências políticas de fundos de pensão
estaduais e municipais, acima do teto de seguro do Fundo Garantidor de Crédito
(FGC). À medida que as revelações da Polícia Federal avançavam e Flávio era
pego em contradições, seus números caíam a cada pesquisa eleitoral.
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O efeito Michelle
Por
sinal, esta semana será divulgada a pesquisa Quaest-Genial com as avaliações,
em julho, sobre o afastamento da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro da
campanha do enteado Flávio, a quem acusou, em vídeo divulgado dia 24 de junho,
antes do jogo do Brasil com a Escócia. Os dois estão brigados desde o fim do
ano passado, quando Flávio, já indicado pelo pai à Presidência, criticou a
atuação da então presidente do PL Mulher nas articulações da chapa do PL no
Ceará. No vídeo produzido com ajuda do deputado federal Nikolas Ferreira
(PL-MG), Michelle acusou o senador de ter sido “grosseiro” e de tê-la
“apunhalado pelas costas”.
O vídeo
caiu como uma bomba no PL, nas hostes bolsonaristas e entre o eleitorado
evangélico, sem contar o eleitorado feminino (maioria destacada do país). O
vídeo e a reação tardia do senador expuseram as divergências dentro do clã.
Antes, só Carlos Bolsonaro, com eleição ameaçada a senador pelo PL em Santa
Catarina, divergia da madrasta, o que se alastrou aos quatro filhos homens do
ex-presidente. A pesquisa será o primeiro termômetro após o impacto. E a
pesquisa ainda vai captar a reação à última demonstração de vassalagem e
entreguismo de Flávio Bolsonaro ao governo Trump. Para disfarçar o desgaste com
Michelle, foi a Washington pedir, “proforma”, para não taxar o Brasil antes da
eleição “para não ajudar Lula”. "Depois da votação pode taxar". E, se
for eleito, facilitará os interesses americanos no Brasil.
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Crises se sucedem no PL
Enquanto
isso as crises se intensificam nas chapas do PL, sobretudo no Estado do Rio de
Janeiro. O palanque eleitoral do partido no estado onde o clã Bolsonaro tinha
sua base eleitoral está se destroçando. O ex-governador Cláudio Castro, que
renunciou em abril, era o candidato ao Senado e teria como sucessor o
presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Rodrigo
Bacellar, também do PL. Mas este foi preso por envolvimento com o Comando
Vermelho. Seu sucessor na Alerj (origem das “rachadinhas” do então deputado
estadual Flávio Bolsonaro, cujas investigações da Polícia Federal foram
suspensas em abril de 2020, no governo Bolsonaro, com a troca de
superintendentes da PF e até do então ministro da Justiça e Segurança Sérgio
Moro) seria Douglas Ruas (PL-RJ).
A posse
de Ruas no governo, afinal eleito para a Alerj e assim à linha de sucessão para
assumir o Palácio Guanabara (a primeira eleição foi anulada por fraude), foi
impedida pelo Supremo Tribunal Federal. Enquanto isso, o quarto nome na linha
de sucessão do Executivo fluminense, o presidente do Tribunal de Justiça -RJ,
desembargador Ricardo Couto, segue fazendo uma faxina no empreguismo político
na máquina do Estado do Rio. Mais de 3.500 funcionários fantasmas, que sequer
batiam ponto, foram exonerados. Outros escândalos de desvios de recursos foram
atacados pelo Ministério Público do ERJ e a Polícia Federal. A última operação,
esta semana, levou à prisão do ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canelas
(União), escalado a disputar o Senado pelo PL-RJ, tendo Rogéria Bolsonaro, mãe
do Flavio, como suplente.
O
resultado não é desprezível. O palanque de Flávio Bolsonaro no Estado do Rio de
Janeiro, terceiro colégio eleitoral do país, com mais de 13 milhões de
eleitores, está em aberto. E, pela primeira vez, desde 2018, o eleitorado
mostra-se dividido entre Lula e o clã Bolsonaro.
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Sudeste decide a eleição?
Como é
sabido, o Nordeste vota em peso no conterrâneo nascido em Garanhuns (PE). Os
três estados do Sul, assim como os do Centro-Oeste, garantem a liderança para
Flávio Bolsonaro (ou outro candidato que o PL apresente até a data limite de 5
de agosto – a 60 dias do primeiro turno). Assim, o pêndulo da eleição vai
depender muito do Sudeste, o maior colégio eleitoral do país, que pode decidir
a fatura no primeiro turno, em 4 de outubro.
No
momento, Minas Gerais (o segundo estado do país, com quase 17 milhões de
eleitores) registra ligeira vantagem para Lula. Em São Paulo, com mais de 35
milhões de eleitores, apresenta vantagem folgada de Tarcísio de Freitas contra
Fernando Haddad, mas Lula tem empate técnico com o senador em algumas
pesquisas. Perder de pouco era a missão de Haddad. Pode sair melhor que a
encomenda.
Além de
confirmar se o envolvimento do senador baiano Jaques Wagner, (líder do PT no
Senado até as revelações de suas relações com o ex-sócio de Daniel Vorcaro,
Augusto Lima) produziu efeitos no quarto colégio eleitoral do país (a Bahia
conta com 11,5 milhões de votos), será possível avaliar a disputa nas
principais regiões do país. E ainda tem o último escândalo de R$ 119 milhões
envolvendo as emendas do presidente do PL, Valdemar Costa Neto.
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Efeito até cinco salários
Na
eleição de 2022, a dupla Paulo Guedes e Jair Bolsonaro fez o diabo e sangrou os
cofres do Tesouro (nacional e dos estados) para tentar reeleger o capitão.
Cortou impostos, inclusive ICMS, da gasolina, diesel e álcool, que dispararam
com a guerra da Rússia com a Ucrânia. Aumentou em 50% o Auxílio Emergencial e
deu mesadas mensais de R$ 1 mil a caminhoneiros e taxistas. O esquema vigorou
de 1º de julho a 31 de dezembro de 2022, mas os estragos nas finanças da União
e estados só foram superados em 2024.
O
estrago da escalada da inflação, devido ao sistema de paridade de preços
internacional (PPI) que forçava a Petrobras a atrelar os preços domésticos aos
preços internacionais (em alta) e ao câmbio, foi de tal ordem que as benesses
impediram a vitória de Lula no primeiro turno em 3 de setembro. Já no segundo
turno, em 30 de outubro, o pagamento de mais um mês de mesadas e os impactos na
baixa dos combustíveis na inflação encurtaram a distância, e Lula ganhou por
apenas 2,1 milhões de votos.
Eleito,
Lula arquivou o PPI em maio de 2023 e cumpriu a promessa de abrasileirar os
preços da Petrobras. A estatal foi preparada para ser privatizada, se Bolsonaro
fosse reeleito. E 50% do parque de refino estavam à venda (a estatal só ficaria
com as refinarias de São Paulo e Rio de Janeiro). Lula orientou a Petrobras a
operar em plena carga as refinarias mantidas (de importante, só foi privatizada
a Landulpho Alves - atual Acelen - para o fundo Mubadala, dos Emirados Árabes
Unidos). As refinarias passaram a usar mais de 70% do óleo mais leve do pré-sal
(que a companhia extrai a US$ 22, incluindo impostos e aluguel de equipamentos)
e a operar acima de 90% da capacidade (era de 70% no governo Bolsonaro). Assim,
quando houve novo choque em fevereiro deste ano, o governo Lula pôde sustentar,
com subsídios temporários, os preços da gasolina, do diesel e do GLP, evitando
escalada da inflação, que se refletiu na queda do IPCA para 0,16% em junho.
Na
faixa das famílias com renda de até dois salários-mínimos (R$ 3.242), os
programas sociais como o Bolsa Família e o vale gás estão gerando efeitos
eleitorais. Mas os maiores ganhos recaem sobre a faixa com renda familiar de
até cinco salários-mínimos (R$ 8.105), que teve isenção do Imposto de Renda
mensal (ganhos médios de R$ 400 mensais). E o resultado de junho do INPC, que
mede as despesas das famílias com renda de até cinco mínimos, que foi uma alta
de apenas 0,13%, fez a taxa acumulada em 12 meses recuar dos 4,42%, em maio,
para 4,33%. A maior desaceleração veio justamente dos alimentos, item que mais
pesa nas famílias de menor renda. As previsões para julho e agosto são (se
Trump não apertar o gatilho) de inflação negativa em agosto, último índice a
ser divulgado pelo IBGE (em 11 de setembro) antes da eleição em 4 de outubro.
Nas 16
regiões pesquisadas pelo IBGE, em julho, o IPCA foi menor em todas elas,
comparado ao resultado de maio. E em oito capitais ficaram abaixo do índice
nacional de 0,16%. Vale registrar que, no maior colégio eleitoral do país, a
cidade de São Paulo, houve redução de 0,03% no IPCA. A maior baixa foi no
Recife (7º colégio eleitoral do país), com -0,04%. Em Belém, capital do Pará
(9º colégio), a alta foi de apenas 0,07%. Em Belo Horizonte, capital do segundo
colégio, a alta foi de 0,12%, a mesma de Fortaleza (CE), 8º contingente de
votos do país. Na Bahia, a capital Salvador ficou com alta de 0,15%, também
abaixo da média nacional.
Fonte:
Po6 Gilberto Menezes Côrtes, no JB

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