A
vitória bloqueada
É
possível vencer uma eleição e não conquistar o direito de governar. A
contradição desaparece quando se abandona a imagem infantil da democracia como
uma cena encerrada na contagem dos votos. O povo escolhe, a Justiça Eleitoral
proclama o resultado, o candidato sobe a rampa e o poder muda de mãos.
A
história, porém, não cabe nessa cerimônia. O governo muda de endereço; o poder,
nem sempre. Pode continuar alojado na propriedade concentrada, no sistema
financeiro, no controle do orçamento, nas grandes plataformas digitais, nos
meios de comunicação, nas corporações que atravessam o Estado e nas relações
internacionais que delimitam o horizonte de uma economia dependente.
A
eleição abre a porta do governo. Não assegura que estejam abertas as passagens
por onde uma sociedade poderia caminhar em direção a outro futuro. Em 2026, o
Brasil poderá reencontrar essa velha diferença. Uma candidatura democrática
poderá vencer nas urnas e descobrir, já no dia seguinte, que sua vitória está
cercada por forças que não receberam votos, mas conservam a capacidade de
determinar o que pode ou não acontecer.
Nada
disso diminui a importância das eleições. Em certas conjunturas, votar é
interromper uma marcha em direção ao abismo. Quando o autoritarismo deixa de
ser apenas opinião extremista e se transforma em linguagem cotidiana,
organização social e programa de poder, derrotá-lo eleitoralmente é uma
necessidade histórica. A urna protege vidas, direitos, instituições e a
possibilidade de continuar disputando o sentido da sociedade. O erro começa
quando a necessidade é confundida com suficiência.
Vencer
o autoritarismo nas urnas não dissolve as condições que o produziram. Ele pode
perder a Presidência e continuar vivo nas polícias, nos quartéis, nas igrejas
convertidas em máquinas eleitorais, nas escolas militarizadas, nas redes
digitais, nas famílias partidas pelo ressentimento e nas empresas que
aprenderam a tratar a democracia como um custo. Pode permanecer forte no
Parlamento. A derrota o afasta do centro formal do Executivo, mas não o retira
da sociedade. Por isso, a vitória democrática já nasce com uma tarefa maior do
que a celebração: sobreviver ao cerco de tudo aquilo que perdeu sem
desaparecer.
As
eleições de 2026 não decidirão apenas a Presidência. Renovarão a Câmara, os
governos estaduais e dois terços do Senado. Um presidente pode receber dezenas
de milhões de votos e iniciar o mandato diante de um Congresso cuja maioria
possui outro programa e outra concepção de país. Não é preciso romper a ordem
institucional. Basta controlar a pauta, fragmentar o orçamento, convocar
ministros, produzir comissões de investigação, bloquear nomeações, fabricar
crises e converter cada votação em nova transferência de recursos e poder.
A
governabilidade deixa de ser o esforço legítimo para formar maioria e passa a
funcionar como nome elegante de uma expropriação. O Executivo vence, mas
precisa recomprar todos os dias o direito de executar o programa que recebeu
votos para realizar. A soberania popular é reconhecida na noite da apuração e
submetida, na manhã seguinte, a um sistema de pedágios.
Durante
muito tempo, o presidencialismo de coalizão foi descrito como uma engenharia
necessária à pluralidade partidária brasileira. A descrição institucional era
correta, mas envelheceu. O Congresso ampliou sua capacidade de apropriar-se da
formulação, da distribuição e da execução de parcelas decisivas do orçamento.
Não estamos diante de um detalhe contábil.
O
orçamento é o momento em que uma política abandona o discurso e ingressa na
vida. Por ele se constroem escolas, funcionam hospitais, sobrevivem
universidades, se planejam obras e se dá continuidade a programas nacionais.
Quando frações crescentes desses recursos são distribuídas por circuitos
fragmentados, pouco transparentes e eleitoralmente apropriáveis, o Estado perde
capacidade de planejar e o território nacional se transforma num arquipélago de
clientelas.
Uma
emenda parlamentar pode atender a uma necessidade real. Uma ambulância, uma
unidade de saúde ou uma estrada local não se tornam ilegítimas por terem sido
viabilizadas por um deputado. O problema aparece quando o planejamento
universal é substituído por concessões territorialmente fragmentadas e
politicamente personificadas. O cidadão deixa de reconhecer o serviço público
como direito e passa a recebê-lo como favor.
O
parlamentar surge como proprietário simbólico de um recurso que pertence à
sociedade. O município, dependente da transferência, aprende que sobreviver não
significa integrar um projeto nacional, mas manter aberta a porta do gabinete
certo. O orçamento se converte em tecnologia de fidelização. A República
conserva seus ritos, porém fala a língua do favor: o que deveria chegar como
direito vem marcado pelo nome de quem o entregou.
Uma
eventual vitória democrática encontrará esse mecanismo fortalecido. O governo
apresentará seu programa, mas grande parte da capacidade estatal estará
comprometida por despesas obrigatórias, vinculações, serviço da dívida, regras
fiscais e apropriações parlamentares. Entre a promessa e a execução haverá uma
passagem estreita. Cada política pública será submetida a negociações que
raramente discutem apenas o seu mérito.
O preço
de uma medida social poderá ser uma concessão administrativa; o preço de uma
votação econômica, a liberação de recursos; o preço da estabilidade, a
aceitação de que o governo governe menos. Surge então o paradoxo: quanto mais
ameaçada estiver a democracia, mais o Executivo dependerá de alianças com
forças que não compartilham seu projeto. Em nome de evitar o retorno do
autoritarismo, poderá acomodar interesses que reduzem a capacidade de realizar
as mudanças cuja ausência alimenta o próprio autoritarismo. A defesa da
democracia corre o risco de virar administração das condições sociais que a
enfraquecem.
O cerco
começa também na economia. Um governo pode vencer prometendo emprego,
investimento, proteção social, ciência e reconstrução dos serviços públicos.
Antes de executar qualquer medida, será julgado por uma instância que não
aparece na Constituição: a reação dos mercados. A expressão é vaga de
propósito. Os mercados não possuem uma única voz, mas seus interesses mais
poderosos se apresentam como se fossem a própria razão econômica.
Uma
política que amplie direitos será traduzida em impacto fiscal; um investimento
público, em risco; uma elevação do salário mínimo, em pressão inflacionária; a
tributação dos mais ricos, em ameaça à confiança. O capital fala em nome do
futuro porque controla instrumentos capazes de desorganizar o presente. Juros,
câmbio, fuga de capitais, preços de ativos e expectativas funcionam como
mecanismos disciplinares. A eleição escolhe o governo; a finança procura
escolher os limites de sua escolha.
Uma
taxa de juros muito elevada não é apenas um número técnico. Ela encarece o
crédito produtivo, desestimula investimentos, aumenta o custo da dívida pública
e transfere renda aos detentores de ativos financeiros. O Estado arrecada da
sociedade e devolve parcela desses recursos à riqueza rentista. Ao mesmo tempo,
cada gasto social precisa provar que merece existir. A dívida quase nunca é
interrogada com a mesma severidade quando remunera patrimônio.
Há uma
assimetria moral no debate econômico: o recurso destinado ao pobre deve
justificar-se; o rendimento apropriado pela riqueza aparece como consequência
natural das leis da economia. Essa naturalização é uma forma discreta de poder.
Bloqueia alternativas antes mesmo que sejam formuladas, pois ensina a sociedade
a considerar irresponsável tudo o que ameaça a duração dos privilégios.
Há
ainda uma disputa pelo tempo. Um governo eleito dispõe de quatro anos. Os
poderes que o cercam vivem em outro calendário. O capital financeiro opera
continuamente, o Congresso negocia todos os dias, as plataformas modulam a
atenção a cada segundo e os grandes grupos econômicos planejam sua reprodução
por décadas.
O
governo começa a ser julgado antes de tomar posse. Precisa produzir resultados
imediatos, responder a crises herdadas, recompor instituições destruídas,
formar maioria e preparar a eleição seguinte. Sua duração é curta; a das
estruturas, longa. Essa desigualdade favorece quem pode esperar.
Uma
política educacional exige anos. Uma universidade não recupera laboratórios,
pesquisadores e projetos em poucos meses. Uma política industrial precisa de
continuidade. O sistema de bloqueio, porém, exige resultados rápidos e oferece
instabilidade permanente. Quando os efeitos não aparecem logo, anuncia-se o
fracasso.
A
vitória bloqueada é também uma vitória sem duração. Recebe mandato para iniciar
uma mudança, mas não o tempo histórico necessário para completá-la. Cada medida
deve provar sua eficácia antes de amadurecer. Cada programa social é ameaçado
por uma nova regra fiscal. Cada investimento depende da permanência de uma
coalizão instável. Cada instituição recomposta teme a eleição seguinte. O
futuro deixa de ser campo de construção e se converte em prazo de validade.
Governa-se
sob a sensação de que tudo poderá ser interrompido. Essa insegurança produz
prudência e, aos poucos, paralisia. O governo aprende a evitar conflitos,
reduzir expectativas e apresentar como conquista aquilo que conseguiu impedir
que fosse destruído. A política democrática assume posição defensiva. Em vez de
prometer transformação, promete evitar que a sociedade piore. Essa função pode
ser indispensável, mas não pode constituir o horizonte permanente de uma
democracia.
Quando
a democracia oferece apenas proteção contra a catástrofe, o autoritarismo ganha
o privilégio de representar a mudança. Pouco importa que sua mudança seja
destrutiva. Ele aparece como força, ruptura e decisão, enquanto o campo
democrático é associado à cautela, à gestão e à repetição. O ressentimento
encontra então uma linguagem pronta.
Trabalhadores
submetidos à insegurança, pequenos empresários endividados, jovens sem
perspectiva e famílias exaustas são convidados a dirigir sua raiva contra
professores, mulheres, negros, indígenas, imigrantes, pessoas LGBTQIA+,
servidores e movimentos sociais. O conflito entre capital e trabalho é
convertido em guerra entre os que vivem formas diferentes da mesma
precariedade. O autoritarismo protege o poder econômico enquanto oferece os
vulneráveis como culpados pela desordem.
Derrotá-lo
eleitoralmente sem alterar as condições que alimentam sua linguagem significa
adiar seu retorno. Ele continuará esperando a próxima crise, o próximo
escândalo, a próxima alta de preços, o próximo erro. Não precisa manter maioria
social estável. Precisa apenas impedir que a democracia transforme esperança em
experiência concreta. Cada promessa frustrada será usada para dizer que as
instituições são inúteis.
Cada
negociação obscura provará, na narrativa autoritária, que todos são iguais.
Cada política bloqueada aparecerá não como resultado do bloqueio, mas como
incapacidade de quem tentou realizá-la. O poder que impede o governo de
governar acusa-o de não ter governado. Essa talvez seja a peça mais eficiente
do mecanismo: produzir a impotência do adversário e depois transformá-la em
argumento para voltar.
As
plataformas digitais ocupam posição decisiva nesse processo. Não são simples
meios por onde opiniões circulam. São empresas que organizam a visibilidade,
selecionam prioridades e convertem atenção em mercadoria. Seus algoritmos não
precisam ter ideologia própria para produzir efeitos políticos. Basta que
premiem aquilo que mantém o usuário conectado: medo, indignação, simplificação,
escândalo, hostilidade.
A
democracia exige tempo para argumentar; a plataforma recompensa a reação
instantânea. A política pública precisa explicar mediações; a mentira oferece
culpados. A realidade é contraditória; o vídeo curto apresenta certeza. Quem
governa democraticamente responde pelo conjunto da sociedade. Quem pretende
destruí-la escolhe um inimigo por dia.
O
Estado brasileiro não é uma máquina vazia que passa integralmente às mãos de
quem vence a eleição. Possui camadas históricas, burocracias, corporações,
regras e interesses sedimentados. Há servidores comprometidos com a legalidade
e o interesse público, sem os quais o país não funcionaria. Há também
estruturas que desenvolveram projetos próprios de poder.
A
tentativa de golpe mostrou que parcelas do aparelho estatal podem deixar de
reconhecer a soberania popular quando o resultado contraria suas convicções ou
seus interesses. A defesa da democracia exige, por isso, algo maior que
lealdade circunstancial: uma cultura republicana em que nenhuma corporação se
imagine tutora da sociedade. A legalidade, sozinha, não corrige essa fissura; é
preciso democratizar por dentro aquilo que se pretende defender por fora.
Há
também o limite externo. O Brasil escolhe dentro de uma economia mundial
hierarquizada. Fluxos de capital, cadeias produtivas, propriedade tecnológica,
patentes, agências de risco, organismos multilaterais e decisões tomadas nos
centros financeiros reduzem a autonomia dos países dependentes. Nenhum governo
pode ignorar essas determinações. Reconhecer limites, porém, não é convertê-los
em destino.
A
dependência se torna mais poderosa quando deixa de ser nomeada e aparece como
simples adaptação ao mundo. O país é aconselhado a oferecer segurança ao
investidor, flexibilidade ao capital, disciplina ao orçamento e paciência à
população. A soberania nacional parece anacrônica, embora as grandes potências
mobilizem seus Estados para proteger empresas, tecnologias, moedas e interesses
estratégicos. Aos centros, política industrial. À periferia, obediência fiscal.
Uma
vitória democrática continuará bloqueada se aceitar como realismo a
administração permanente dessa assimetria. Governar não é negar a inserção
internacional, mas impedir que ela defina sozinha o futuro. Isso exige ciência,
tecnologia, indústria, universidades públicas, infraestrutura, integração
latino-americana e capacidade estatal de planejamento.
Exige
enfrentar a estrutura tributária que protege patrimônio e consumo de luxo
enquanto pesa sobre a renda baixa e o consumo popular. Sem deslocar recursos,
não há política estrutural. Sem enfrentar privilégios, a democracia distribui
apenas o espaço deixado por aqueles que nunca submetem sua riqueza à decisão
coletiva. A conciliação pode ser necessária em certos momentos. Quando vira
princípio, transforma-se em método de conservação.
Negociar
é inevitável. O problema é negociar sem acumular força social para alterar os
termos da negociação. Um governo progressista que dependa apenas de acordos
parlamentares ficará prisioneiro daqueles com quem precisa acordar. Para não
ser bloqueada, uma vitória eleitoral deve tornar-se presença organizada na
sociedade.
Sindicatos,
movimentos populares, universidades, associações profissionais, coletivos
culturais, comunidades religiosas democráticas e organizações de bairro não
podem ser convocados apenas durante a campanha ou em momentos de crise. A
democracia precisa de infraestrutura social permanente. Sem ela, o governo fala
em nome do povo, mas negocia sozinho diante dos poderes organizados. O cidadão
vota, retorna à vida privada e espera. Os grupos econômicos não voltam para
casa. Permanecem organizados todos os dias.
Ganhar
tempo é necessário. A pergunta é: para quê? Em 2022, a democracia brasileira
ganhou tempo ao interromper a continuidade imediata de um projeto autoritário.
Esse intervalo permitiu recompor políticas, recuperar instituições, reconstruir
relações internacionais e deter parte da destruição. Mas o tempo político não
se acumula sozinho.
Quando
não é convertido em organização, consciência e transformação material, volta a
ser capturado pelas forças derrotadas. O autoritarismo usa o intervalo para
reorganizar sua linguagem, escolher novos representantes, ampliar presença
territorial e reaparecer como novidade. A democracia, ocupada apenas com a
administração cotidiana, pode descobrir tarde que protegeu as instituições sem
renovar as bases sociais de sua legitimidade.
A
tarefa de 2026 não será apenas vencer. Será impedir que a vitória se reduza a
uma autorização temporária para administrar o que já existe. Isso não significa
exigir rupturas retóricas sem correlação de forças. Significa reconhecer que a
correlação de forças não é fotografia imóvel. Ela muda por meio de decisões,
conflitos, pedagogias públicas e experiências coletivas.
Uma
política que melhora concretamente a vida organiza consciência. Uma escola
pública fortalecida produz cidadania. Uma universidade presente no território
amplia o horizonte social. Um trabalho protegido permite que o sujeito levante
os olhos da urgência e pense o futuro. A participação não nasce de apelos
abstratos. Nasce quando as pessoas percebem que sua ação modifica a realidade.
A
vitória deixa de estar bloqueada quando o governo não apenas ocupa o Estado,
mas ajuda a sociedade a reconhecer o poder que possui. Isso exige
transparência, comunicação direta e coragem para nomear conflitos. Não há
transformação sem adversários. A tentativa de governar como se todos os
interesses pudessem convergir termina favorecendo os interesses mais fortes,
porque são eles que já possuem os meios de impor sua vontade.
Uma
democracia madura não precisa fabricar inimigos, mas deve revelar antagonismos.
Precisa explicar por que determinado privilégio impede determinado direito; por
que a riqueza de poucos custa o tempo de muitos; por que uma política foi
bloqueada; quem ganha e quem perde com cada decisão. Quando o conflito é
escondido, a população vê apenas o resultado incompleto e atribui ao governo
toda a responsabilidade por sua incompletude.
Talvez
essa seja a pergunta decisiva de 2026: quem governará no dia seguinte à
vitória? A resposta formal indicará um presidente, ministros, deputados e
senadores. A resposta histórica dependerá de outra coisa. Governarão os votos
ou os vetos? O programa apresentado à sociedade ou a soma dos limites impostos
por poderes que não se submetem às urnas? A esperança organizada ou o medo de
perder a próxima votação?
A
democracia brasileira não precisa apenas de uma vitória eleitoral. Precisa
recuperar a capacidade de transformar o voto em direção, a direção em política
e a política em duração histórica. O Brasil poderá derrotar novamente o
autoritarismo. Será uma conquista de valor incalculável. Mas a celebração não
deve esconder o perigo. Uma vitória que não enfrenta seus bloqueios começa a
preparar, sem desejar, a próxima derrota.
O
futuro não será protegido apenas impedindo que o pior retorne. Será protegido
quando a maioria puder experimentar, na vida cotidiana, que a democracia não
serve somente para escolher quem administra o presente, mas para conquistar o
direito de produzir outro tempo. A urna abre a passagem. A história começa
quando o povo consegue atravessá-la.
Fonte:
Por João dos Reis Silva Júnior, em A Terra é Redonda

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