Os
benefícios de tributar super-ricos
Por que
o Brasil não tributa as grandes fortunas? Essa foi a pergunta que norteou mais
uma edição do Diálogos IJF, promovido pelo Instituto Justiça Fiscal (IJF). O
convidado foi o economista e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea), Pedro Humberto Carvalho, doutor em Política Tributária e
especialista em tributação da riqueza. A mediação foi do presidente do IJF,
Paulo Gil.
Criado
para ampliar o debate público sobre tributação, orçamento e justiça social, o
ciclo Diálogos IJF busca aproximar temas econômicos do cotidiano da população e
contribuir para a formação cidadã sobre o papel dos tributos na construção de
uma sociedade menos desigual.
Durante
a palestra, Pedro Humberto Carvalho apresentou um panorama histórico da
tributação sobre grandes patrimônios no mundo, discutiu as experiências
internacionais e defendeu que os avanços na cooperação tributária global
reduziram significativamente os riscos de evasão fiscal, tornando mais viável a
instituição do Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF), previsto no artigo 153 da
Constituição Federal desde 1988, mas nunca regulamentado pelo Congresso
Nacional.
Para o
pesquisador, um IGF estruturado com base ampla poderia gerar arrecadação entre
0,5% e 0,7% do PIB, valor semelhante ao arrecadado atualmente pelo IPTU em todo
o país. Segundo ele, por incidir sobre patrimônio acumulado, o imposto tende a
produzir impactos econômicos menores do que tributos cobrados sobre produção,
consumo ou lucro empresarial.
Ao
responder sobre um possível desenho para o IGF brasileiro, Pedro Humberto
Carvalho defendeu um modelo simples, com poucas exceções, preservando apenas
imóveis residenciais de menor valor e adotando poucas faixas de tributação, com
alíquotas em torno de 1% e 1,5%.
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Imposto de caráter político
Logo no
início da exposição, o pesquisador observou que, embora a carga tributária
brasileira corresponda a cerca de 35% do Produto Interno Bruto (PIB), ela é
fortemente concentrada em tributos indiretos incidentes sobre o consumo. Esse
modelo, afirmou, torna o sistema regressivo e acaba penalizando
proporcionalmente a população de menor renda.
Na
avaliação de Carvalho, o debate sobre o Imposto sobre Grandes Fortunas é muito
mais político do que arrecadatório. Segundo ele, mesmo em países onde sua
participação na arrecadação não é elevada, o tributo costuma ser alvo
prioritário de governos de direita, que historicamente promoveram sua redução
ou extinção. Ao mesmo tempo, afirmou que sua arrecadação não é desprezível,
como afirmam os adversários do tributo.
Para
ilustrar esse processo, o pesquisador apresentou um levantamento com 13 países
que adotaram o IGF em algum momento da história, mostrando como reformas
posteriores alteraram significativamente sua abrangência e arrecadação.
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Experiência internacional mostra diferentes modelos
Segundo
o pesquisador, um imposto abrangente sobre a riqueza já existiu em praticamente
toda a Europa Ocidental, além de países como Argentina, Uruguai e Colômbia. A
partir da década de 1990, diversos governos reduziram ou extinguiram esse tipo
de tributação. Ainda assim, o imposto permanece em vigor na Espanha, Noruega,
Suíça, Uruguai e Colômbia, demonstrando que existem diferentes modelos de
tributação do patrimônio.
A
arrecadação varia conforme o desenho adotado por cada país. Na Suíça, por
exemplo, o imposto sobre patrimônio corresponde a cerca de 1,35% do Produto
Interno Bruto (PIB). No Uruguai, representa aproximadamente 0,94% do PIB,
enquanto na Noruega alcança 0,61%.
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Sistema tributário concentra a carga sobre trabalhadores
Um dos
pontos centrais da apresentação foi a baixa progressividade do sistema
tributário brasileiro.
Dados
das declarações do Imposto de Renda da Pessoa Física de 2023 mostram que
contribuintes com renda mensal entre R$ 14 mil e R$ 34 mil pagaram, em média,
uma carga efetiva de 14%, considerando Imposto de Renda e contribuição
previdenciária. Já os 0,1% mais ricos, com renda superior a R$ 400 mil por mês,
tiveram tributação efetiva de apenas 2,2%.
Outro
estudo citado, encomendado pelo Ministério da Fazenda, aponta que o Brasil é o
segundo país mais desigual entre 24 nações analisadas, atrás apenas do México.
Em 2023, os 0,1% mais ricos concentravam 12,3% da renda nacional.
O
pesquisador também destacou que a tributação sobre renda e patrimônio permanece
baixa no Brasil. Enquanto o conjunto formado pelo Imposto de Renda e pelos
tributos patrimoniais (IPTU, IPVA, ITR, ITBI e ITCMD) representa 4,5% do PIB,
nos países de alta renda da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE) essa participação chega, em média, a 10,5% do PIB.
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Cooperação internacional reduz espaço para evasão
Ao
abordar um dos principais argumentos utilizados contra a criação do IGF — a
possibilidade de fuga de capitais —, Pedro Humberto Carvalho afirmou que esse
cenário mudou profundamente nos últimos anos.
Segundo
ele, uma das principais estratégias utilizadas por grandes fortunas é a mudança
do domicílio fiscal para países com tributação favorecida. Citou como exemplo
empresários brasileiros que chegaram a declarar publicamente não manter
residência fiscal no Brasil como forma de reduzir sua carga tributária.
Outra
estratégia recorrente dos bilionários, explicou, é manter seu patrimônio em
constante valorização sem realizar os ganhos de capital. Enquanto isso,
financiam seus gastos pessoais por meio de empréstimos a juros baixos, evitando
a incidência de impostos sobre a renda. Também lembrou que, em alguns países,
ainda há discussões judiciais sobre a incidência de imposto sobre ganhos de
capital em heranças e a alegação de dupla tributação.
Carvalho
destacou que esse cenário vem mudando rapidamente. Segundo ele, o Brasil
integra desde 2009 o Fórum Global da OCDE e passou a participar de mecanismos
internacionais de troca automática de informações fiscais, compartilhamento de
dados sobre ativos financeiros e criptoativos e identificação dos beneficiários
finais de empresas, fundos e outras estruturas patrimoniais.
Esses
instrumentos dificultam a ocultação de patrimônio em paraísos fiscais e reduzem
significativamente as possibilidades de evasão tributária. "Com o
aperfeiçoamento digital da administração tributária e da cooperação
internacional, o mundo caminha para reduzir cada vez mais a evasão fiscal, o
que beneficia muito a implementação do Imposto sobre Grandes Fortunas",
afirmou.
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Tributação dos bilionários ganha força no cenário internacional
A
palestra abordou ainda a proposta apresentada durante a presidência brasileira
do G20, em 2024, baseada em estudos coordenados pelo economista Gabriel Zucman.
A iniciativa prevê uma tributação mínima global equivalente a 2% do patrimônio
líquido dos bilionários, descontado o imposto de renda efetivamente pago.
Os
estudos indicam que cerca de três mil bilionários concentram aproximadamente
13% do PIB mundial e que uma tributação mínima internacional poderia arrecadar
entre US$ 200 bilhões e US$ 250 bilhões por ano, recursos que poderiam
financiar políticas públicas e apoiar países de menor renda.
Outro
aspecto destacado durante o debate foi o crescente apoio da sociedade à
tributação dos grandes patrimônios. Pedro Humberto Carvalho lembrou que
pesquisas de opinião indicam que a população brasileira é amplamente favorável
a medidas que ampliem a contribuição dos mais ricos para o financiamento das
políticas públicas.
Uma
pesquisa global da Ipsos mostrou que 69% dos brasileiros defendem a taxação dos
super-ricos. Já levantamento da Oxfam Brasil apontou que 85% da população apoia
o aumento de impostos para pessoas muito ricas, indicando amplo respaldo social
à discussão sobre justiça fiscal.
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Perguntas do público ampliaram o debate
Na
parte final do encontro, Pedro Humberto Carvalho respondeu às perguntas
encaminhadas pelo público e aprofundou temas relacionados à tributação da
renda, do patrimônio e do capital financeiro. Para o pesquisador, além dos
aspectos técnicos, a regulamentação do Imposto sobre Grandes Fortunas depende
de pressão popular e de maior compreensão da sociedade sobre o funcionamento do
sistema tributário brasileiro.
Segundo
ele, ainda existem diversos mecanismos legais que reduzem a tributação dos
contribuintes de maior renda e patrimônio. Entre eles, citou benefícios
relacionados à repatriação de recursos, regras de compensação de prejuízos,
isenções concedidas a determinados fundos de investimento e outras brechas
existentes na tributação da renda do capital. "Muitas propostas beneficiam
os super-ricos e a maior parte da população sequer sabe disso", observou.
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Argumentos contrários frágeis
O
pesquisador também rebateu argumentos frequentemente utilizados contra a
criação do IGF. Na sua avaliação, não há evidências de que um imposto com
alíquotas reduzidas provoque fuga em massa de milionários ou tenha caráter
confiscatório. "Estamos falando de alíquotas inferiores a 1%. São
argumentos muito frágeis", afirmou, acrescentando que as justificativas
apresentadas por setores contrários ao imposto também não encontram respaldo
consistente nas experiências internacionais.
Carvalho
defendeu que um sistema tributário realmente progressivo deve combinar um
Imposto de Renda mais justo com maior tributação sobre patrimônio e riqueza,
por meio de instrumentos como o Imposto sobre Grandes Fortunas, IPTU e outros
tributos patrimoniais. Também ressaltou a necessidade de ampliar a tributação
do capital financeiro, lembrando que, hoje, quem efetivamente paga Imposto de
Renda no Brasil são principalmente os trabalhadores assalariados.
Na
avaliação do pesquisador, a recente reforma do Imposto de Renda representou um
avanço limitado e novas mudanças ainda serão necessárias para tornar o sistema
tributário brasileiro mais progressivo.
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Manobras e triangulações
Outro
tema abordado foi a tributação dos lucros obtidos no exterior. O pesquisador
citou discussões em andamento no Supremo Tribunal Federal envolvendo a Vale e
afirmou que grandes grupos econômicos utilizam paraísos fiscais e acordos
internacionais para reduzir a tributação sobre operações realizadas fora do
país.
Para
Carvalho, a expansão da educação fiscal também deve integrar essa agenda.
Segundo ele, o letramento tributário deveria começar ainda na escola,
permitindo que a população compreenda como os impostos influenciam a redução
das desigualdades, o financiamento das políticas públicas e a distribuição da
riqueza.
Ao
encerrar sua participação, Pedro Humberto Carvalho agradeceu a oportunidade de
debater o tema e afirmou que o encontro contribuiu para desmistificar
argumentos contrários ao Imposto sobre Grandes Fortunas. "Vejo como muito
positivo um IGF. Hoje, os argumentos contrários são muito mais políticos do que
arrecadatórios", concluiu.
Encerrando
o evento, o presidente do Instituto Justiça Fiscal, Paulo Gil, lembrou que o
IJF apresentou, em 2021, um conjunto de projetos de lei voltados ao
fortalecimento da tributação sobre patrimônio e renda, incluindo uma proposta
de regulamentação do Imposto sobre Grandes Fortunas, que não avançou no
Congresso Nacional. Segundo ele, as dificuldades enfrentadas refletem o atual
cenário político, mas reforçam a importância de manter o debate público e a
mobilização social em defesa de um sistema tributário mais justo.
Fonte:
Instituto Justiça Fiscal

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