Oxalato:
a molécula que liga doença renal a problemas cardíacos
Pessoas
com doença renal crônica (DRC) apresentam um risco significativamente maior de
morte por doenças cardiovasculares. Elas também convivem com uma inflamação
crônica, cujas causas ainda são parcialmente desconhecidas.
Uma
pesquisa recente revelou a ligação entre esses problemas: o oxalato. Conhecida
por seu papel na formação de cálculos renais, essa molécula é um
subproduto do metabolismo que costuma ser eliminado pelos rins. Quando a função renal está
comprometida, o oxalato se acumula no corpo e pode promover inflamação.
Um
estudo do Hospital Universitário de Würzburg (UKW), na Alemanha, e do Centro de
Pesquisa Experimental e Clínica (ECRC) investigou os mecanismos que conectam o
dano renal induzido pelo oxalato à inflamação sistêmica e à lesão
cardiovascular.
Em um
experimento com camundongos, uma dieta rica em oxalato ativou o sistema imunológico em todo o
corpo. Segundo o Dr. Hendrik Bartolomaeus, um dos autores, isso causou não
apenas danos renais, mas também alterações patológicas no coração que reduziram
a função cardíaca.
A
molécula que conecta os danos
A
equipe identificou a citocina interleucina-17A (IL-17A) como um fator central
nesse processo. Produzida por certas células imunológicas, a IL-17A pode
amplificar a inflamação. Os pesquisadores descobriram que o oxalato promoveu a
produção dessa citocina e interrompeu o metabolismo energético das células
imunes.
Níveis
elevados de IL-17A também foram detectados em pacientes com hiperoxalúria
primária, uma doença metabólica rara em que o fígado produz oxalato em excesso.
A
pesquisa, publicada na revista “Cardiovascular Research”, também testou o que
acontece quando a IL-17A é bloqueada. No modelo animal, a melhora foi
significativa: os rins funcionaram melhor, a inflamação e a fibrose diminuíram
e os danos ao coração foram reduzidos. Isso estabeleceu o que os cientistas
chamaram de um eixo potencialmente terapêutico: oxalato–IL-17A–lesão
cardiorrenal.
Os
resultados mostram que o oxalato não apenas danifica os rins localmente, mas
representa uma sobrecarga para o sistema imunológico e o metabolismo,
contribuindo para doenças cardiovasculares.
A
descoberta pode ajudar a identificar pacientes renais com risco cardiovascular
elevado e apoiar o desenvolvimento de novas terapias anti-inflamatórias.
Estudos anteriores já haviam demonstrado que os níveis de oxalato são
frequentemente altos em pessoas com função renal comprometida.
Os
pesquisadores agora planejam investigar se esses mecanismos se repetem em
grupos maiores de pacientes com DRC. O objetivo é determinar se o eixo
inflamatório é específico para o oxalato ou se mecanismos semelhantes podem
contribuir para danos cardiovasculares em outras causas de doença renal.
¨
Exames de sangue preveem risco de infarto antes dos
primeiros sintomas, aponta estudo
Um novo
estudo mostra que três exames de sangue simples podem ajudar médicos a
descobrir, com antecedência, quem tem mais chances de sofrer um infarto. A
pesquisa, apresentada nas Sessões Científicas da American Heart Association
(AHA) de 2025, revelou que a análise conjunta de três biomarcadores, sendo
lipoproteína(a), colesterol remanescente e proteína C-reativa de alta
sensibilidade, pode indicar um risco elevado de doenças cardíacas mesmo em
pessoas sem sintomas.
Os
pesquisadores analisaram dados de mais de 300 mil adultos que não tinham
doenças do coração no início do estudo. Eles acompanharam esses voluntários por
cerca de 15 anos e descobriram um padrão: quem tinha níveis altos dos três
biomarcadores apresentava quase três vezes mais risco de ter um ataque
cardíaco. Pessoas com dois resultados alterados tinham o dobro do risco, e
aquelas com apenas um marcador alto tinham 45% mais chances de sofrer um
infarto.
Os
biomarcadores sanguíneos são moléculas biológicas, como proteínas e enzimas,
que podem ser medidas no sangue e fornecem informações sobre o funcionamento de
órgãos e sistemas do corpo. Eles são utilizados para monitorar a saúde e
detectar precocemente doenças. No caso da pesquisa, os três biomarcadores
avaliados refletem diferentes vias ligadas ao risco cardíaco, como genético,
metabolismo do colesterol e inflamação.
A
lipoproteína(a), ou Lp(a), é um tipo de colesterol em grande parte hereditário,
que pode causar o acúmulo de placas nas artérias. O colesterol remanescente
representa partículas de gordura nocivas no sangue que exames convencionais
podem não detectar, mas que também contribuem para a obstrução arterial. Já a
proteína C-reativa de alta sensibilidade mede a inflamação do corpo e, quando
está elevada, indica que o organismo pode estar sob estresse, o que aumenta o
risco de danos às artérias.
"Quando
olhamos apenas um desses exames, o aumento no risco é pequeno. Mas, quando os
três aparecem altos, o perigo é muito maior", explicou o professor Richard
Kazibwe, da Universidade Wake Forest, nos Estados Unidos. Segundo ele, esses
marcadores funcionam como peças de um quebra-cabeça, que juntos mostram o
quadro completo da saúde do coração.
Kazibwe
afirma que esse tipo de avaliação pode ser útil para pessoas com histórico
familiar de doenças cardíacas, diabetes, pressão alta, obesidade ou colesterol
alterado. "Mesmo quem tem colesterol e pressão sob controle pode ter
inflamações ocultas ou predisposição genética. Esses exames ajudam a descobrir
isso antes que um problema grave aconteça", disse.
Nem
todos os biomarcadores podem ser revertidos, mas é possível reduzir o risco
total com tratamento e hábitos saudáveis. A lipoproteína(a), por exemplo, tem
origem genética e dificilmente é controlada com dieta ou exercícios. Já o
colesterol remanescente e a proteína C-reativa podem ser reduzidos com
medicamentos.
Apesar
dos avanços, o estudo ainda é considerado em fase inicial e precisa ser
confirmado por novas pesquisas antes de virar parte da rotina médica. No
entanto, os resultados reforçam a importância do acompanhamento regular e da
prevenção. "Esses testes ajudam os médicos a identificar cedo quem precisa
de mais atenção e podem salvar vidas."
Fonte:
Correio Braziliense

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