terça-feira, 14 de julho de 2026

Oxalato: a molécula que liga doença renal a problemas cardíacos

Pessoas com doença renal crônica (DRC) apresentam um risco significativamente maior de morte por doenças cardiovasculares. Elas também convivem com uma inflamação crônica, cujas causas ainda são parcialmente desconhecidas.

Uma pesquisa recente revelou a ligação entre esses problemas: o oxalato. Conhecida por seu papel na formação de cálculos renais, essa molécula é um subproduto do metabolismo que costuma ser eliminado pelos rins. Quando a função renal está comprometida, o oxalato se acumula no corpo e pode promover inflamação.

Um estudo do Hospital Universitário de Würzburg (UKW), na Alemanha, e do Centro de Pesquisa Experimental e Clínica (ECRC) investigou os mecanismos que conectam o dano renal induzido pelo oxalato à inflamação sistêmica e à lesão cardiovascular.

Em um experimento com camundongos, uma dieta rica em oxalato ativou o sistema imunológico em todo o corpo. Segundo o Dr. Hendrik Bartolomaeus, um dos autores, isso causou não apenas danos renais, mas também alterações patológicas no coração que reduziram a função cardíaca.

A molécula que conecta os danos

A equipe identificou a citocina interleucina-17A (IL-17A) como um fator central nesse processo. Produzida por certas células imunológicas, a IL-17A pode amplificar a inflamação. Os pesquisadores descobriram que o oxalato promoveu a produção dessa citocina e interrompeu o metabolismo energético das células imunes.

Níveis elevados de IL-17A também foram detectados em pacientes com hiperoxalúria primária, uma doença metabólica rara em que o fígado produz oxalato em excesso.

A pesquisa, publicada na revista “Cardiovascular Research”, também testou o que acontece quando a IL-17A é bloqueada. No modelo animal, a melhora foi significativa: os rins funcionaram melhor, a inflamação e a fibrose diminuíram e os danos ao coração foram reduzidos. Isso estabeleceu o que os cientistas chamaram de um eixo potencialmente terapêutico: oxalato–IL-17A–lesão cardiorrenal.

Os resultados mostram que o oxalato não apenas danifica os rins localmente, mas representa uma sobrecarga para o sistema imunológico e o metabolismo, contribuindo para doenças cardiovasculares.

A descoberta pode ajudar a identificar pacientes renais com risco cardiovascular elevado e apoiar o desenvolvimento de novas terapias anti-inflamatórias. Estudos anteriores já haviam demonstrado que os níveis de oxalato são frequentemente altos em pessoas com função renal comprometida.

Os pesquisadores agora planejam investigar se esses mecanismos se repetem em grupos maiores de pacientes com DRC. O objetivo é determinar se o eixo inflamatório é específico para o oxalato ou se mecanismos semelhantes podem contribuir para danos cardiovasculares em outras causas de doença renal.

¨      Exames de sangue preveem risco de infarto antes dos primeiros sintomas, aponta estudo

Um novo estudo mostra que três exames de sangue simples podem ajudar médicos a descobrir, com antecedência, quem tem mais chances de sofrer um infarto. A pesquisa, apresentada nas Sessões Científicas da American Heart Association (AHA) de 2025, revelou que a análise conjunta de três biomarcadores, sendo lipoproteína(a), colesterol remanescente e proteína C-reativa de alta sensibilidade, pode indicar um risco elevado de doenças cardíacas mesmo em pessoas sem sintomas.

Os pesquisadores analisaram dados de mais de 300 mil adultos que não tinham doenças do coração no início do estudo. Eles acompanharam esses voluntários por cerca de 15 anos e descobriram um padrão: quem tinha níveis altos dos três biomarcadores apresentava quase três vezes mais risco de ter um ataque cardíaco. Pessoas com dois resultados alterados tinham o dobro do risco, e aquelas com apenas um marcador alto tinham 45% mais chances de sofrer um infarto.

Os biomarcadores sanguíneos são moléculas biológicas, como proteínas e enzimas, que podem ser medidas no sangue e fornecem informações sobre o funcionamento de órgãos e sistemas do corpo. Eles são utilizados para monitorar a saúde e detectar precocemente doenças. No caso da pesquisa, os três biomarcadores avaliados refletem diferentes vias ligadas ao risco cardíaco, como genético, metabolismo do colesterol e inflamação.

A lipoproteína(a), ou Lp(a), é um tipo de colesterol em grande parte hereditário, que pode causar o acúmulo de placas nas artérias. O colesterol remanescente representa partículas de gordura nocivas no sangue que exames convencionais podem não detectar, mas que também contribuem para a obstrução arterial. Já a proteína C-reativa de alta sensibilidade mede a inflamação do corpo e, quando está elevada, indica que o organismo pode estar sob estresse, o que aumenta o risco de danos às artérias.

"Quando olhamos apenas um desses exames, o aumento no risco é pequeno. Mas, quando os três aparecem altos, o perigo é muito maior", explicou o professor Richard Kazibwe, da Universidade Wake Forest, nos Estados Unidos. Segundo ele, esses marcadores funcionam como peças de um quebra-cabeça, que juntos mostram o quadro completo da saúde do coração.

Kazibwe afirma que esse tipo de avaliação pode ser útil para pessoas com histórico familiar de doenças cardíacas, diabetes, pressão alta, obesidade ou colesterol alterado. "Mesmo quem tem colesterol e pressão sob controle pode ter inflamações ocultas ou predisposição genética. Esses exames ajudam a descobrir isso antes que um problema grave aconteça", disse.

Nem todos os biomarcadores podem ser revertidos, mas é possível reduzir o risco total com tratamento e hábitos saudáveis. A lipoproteína(a), por exemplo, tem origem genética e dificilmente é controlada com dieta ou exercícios. Já o colesterol remanescente e a proteína C-reativa podem ser reduzidos com medicamentos.

Apesar dos avanços, o estudo ainda é considerado em fase inicial e precisa ser confirmado por novas pesquisas antes de virar parte da rotina médica. No entanto, os resultados reforçam a importância do acompanhamento regular e da prevenção. "Esses testes ajudam os médicos a identificar cedo quem precisa de mais atenção e podem salvar vidas."

 

Fonte: Correio Braziliense

 

 

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