O
empenho da CBF em destruir o futebol brasileiro
Na
próxima Copa do Mundo, a ser realizada em Portugal, Espanha e Marrocos, em
2030, o Brasil completará 28 anos sem vencer o torneio, maior jejum ao longo da
história do futebol brasileiro. A eliminação para a Noruega fez com que o
Brasil amargasse a 11ª colocação, a pior em 92 anos.
Como
sempre acontece na competição de futebol mais importante do planeta, o povo se
mobilizou, se vestiu de verde e amarelo, ornamentou ruas com os símbolos da
seleção canarinho, lotou bares, restaurantes e praças, recebeu os amigos em
casa para o churrasco e a cerveja.
Mas a
decepção acabou sendo proporcional à mobilização pela conquista do hexa.
A
esperança vã pela conquista da sexta Copa pelo Brasil foi cevada pela imprensa
esportiva, que, movida a interesse comercial, vendeu a ilusão de que o Brasil
era um dos favoritos ao título, algo que nunca foi.
Quem
acompanha minimamente o nosso futebol pôde observar, da Copa do Catar, em 2022,
para cá o caos administrativo e esportivo provocado pela Confederação
Brasileira de Futebol, entidade que se firmou como exemplo de corrupção,
incompetência e falta de respeito pela paixão brasileira por futebol.
O
chamado ciclo para a atual Copa foi marcado pelo entra e sai de treinadores e
de mudanças em série na presidência da entidade, ao sabor de denúncias,
manobras e obtenção de liminares na justiça. Mesmo a classificação do Brasil
nas eliminatórias da Copa só aconteceu porque no modelo atual de disputa é
praticamente impossível uma seleção com tradição no futebol ficar de fora.
Aí
surgiu a ideia de contratar o experiente e vitorioso técnico italiano Carlo
Ancelotti. Para os cartolas da CBF, a jogada era perfeita. Um profissional
consagrado internacionalmente no comando da seleção teria o condão de não só
ofuscar a bagunça irresponsável levada a cabo por eles, mas também de operar o
milagre de dotar o time, em cerca de um ano, de condições de disputar o título.
De
fato, Ancelotti é um colecionador de títulos importantes pelos times que
dirigiu na Espanha, França, Inglaterra e Itália. Contudo, quem tenta enxergar o
futebol para além da superfície, sabe que seu estilo reativo, ou seja, de jogar
na defesa explorando contra-ataques se choca com a essência do futebol
brasileiro.
Quem se
espantou com a inacreditável posse de bola de 70% da Noruega contra o Brasil
naturalmente não viu ou não se lembra de algumas finais de Champions League,
nas quais o Real Madrid treinado por Ancelotti, mesmo recheado de craques,
defendeu o tempo todo, mas acabou vencendo em lances fortuitos no fim das
partidas.
Considero
uma dessas finais, contra o Liverpool, um dos resultados mais injustos da
história. O Liverpool massacrou, mas o goleiro belga Courtois, que joga pelo
Real, fez defesas tidas como impossíveis, principalmente em conclusões de
Mohamed Salah, astro do time inglês.
Os
dirigentes da CBF, se entendessem apenas um pouquinho de futebol, e não
estivessem apenas à procura de um escudo, veriam que Ancelotti não era o nome
indicado, pois a tradição da nossa seleção e o peso da camisa pentacampeã
impõem o controle da bola, o jogo ofensivo.
Se era
para contratar um treinador estrangeiro, que fosse o espanhol Guardiola,
apontado por muitos como o melhor técnico de todos os tempos, e que não abre
mão de um estilo de jogo muito próximo do futebol brasileiro.
Mas os
deslizes do italiano foram além do plano tático. Além de ter se submetido à
palhaçada do megaevento de anúncio dos convocados no Museu do Amanhã, no Rio,
ele se curvou à pressão da mídia e incluiu o nome de Neymar, um ex-jogador em
atividade, na lista.
Escolheu
ainda uma grande maioria de jogadores com passado de derrotas em Copas e
perseguiu inexplicavelmente alguns jogadores. Foi o caso de Luiz Henrique, um
craque que foi muito bem em todos os jogos antes da Copa, mas de repente foi
esquecido por Ancelotti.
Renovar
com Ancelotti até 2030, em vez de demiti-lo, é uma decisão com o padrão CBF.
Lembra a célebre frase do Barão de Itararé: “De onde menos se espera é que não
vem nada mesmo.”
PS: Li
que um avião fretado pela CBF, para trazer jogadores e comissão técnica da
seleção de volta ao Brasil, tinha apenas dois jogadores. Isso dá bem uma ideia
do nível de comprometimento dessa turma com a nossa gente.
• A Copa é uma metáfora de um mundo
assolado por um império decadente e violento. Por Marcelo Zero
A Copa
do Mundo nos EUA de Trump já vinha se mostrando uma aberração esportiva e
geopolítica.
No
início do ano, a Europa já se mostrava contrária à realização da Copa nesse
país, em razão das ameaças de anexação da Groenlândia, das dissensões em
relação à Otan, dos tarifaços politicamente motivados, do racismo do ICE, da
xenofobia geral do governo Trump etc.
Agora,
entretanto, o caldo entornou.
A
reversão da punição de um jogador estadunidense, conseguida por Trump com um
simples telefonema para Infantino, demonstrou o grau de submissão canina da
Fifa ao governo Trump e a incomensurável corrupção de ambos.
A Copa,
na realidade, se tornou uma metáfora de um mundo assolado pela violência e pela
corrupção de um império decadente.
As
relações internacionais se tornaram uma espécie de “mata-mata”, no qual os EUA
têm de ganhar sempre por quaisquer meios, lícitos ou ilícitos.
Se
tiver de ganhar roubando, comprando o juiz, fazendo insultos racistas, impondo
logísticas punitivas (como fizeram com o Irã) ou quebrando a perna dos outros,
que seja. “VAR” só se for com deep fake feito com IA. E cartões amarelos e
vermelhos só valem para os outros.
Só há
espaço para um vencedor; os outros, os mais débeis, têm de ficar pelo caminho,
frequentemente tendo de aguentar humilhações racistas, como aconteceu,
impunemente, no jogo entre Argentina e Egito.
E há
uma ironia amarga em toda essa história. O espetáculo, o talento, vêm de
imigrantes do Sul Global, mas os louros são apropriados pelo Ocidente.
Os
louros e também o dinheiro, que fica com a Fifa e com as grandes companhias
patrocinadoras, isso sem falar na jogatina desavergonhada das “bets”.
O
Império e a Fifa se complementam. Têm natureza autoritária e corrupta
semelhante.
Essa
Copa cara, racista, xenófoba e corrupta transmite ao mundo a ideia de que
esporte não deve estar associado à paz, ao respeito às regras, à diversidade e
à inclusão, mas sim ao contrário: à violência real e simbólica, à exclusão, a
um mundo hobbesiano no qual o grande valor é a força e a “vitória” a qualquer
custo, como a distopia que Trump quer impor ao planeta, com o aplauso dos
nossos traidores.
Não se
poderia esperar outra coisa de uma Copa Trump-Infantino.
Uma
Copa tão grotesca e farsesca quanto o prêmio da paz concedido por Infantino a
Trump.
Fonte: Por
Bepe Damasco, em Brasil 247

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