terça-feira, 14 de julho de 2026

O empenho da CBF em destruir o futebol brasileiro

Na próxima Copa do Mundo, a ser realizada em Portugal, Espanha e Marrocos, em 2030, o Brasil completará 28 anos sem vencer o torneio, maior jejum ao longo da história do futebol brasileiro. A eliminação para a Noruega fez com que o Brasil amargasse a 11ª colocação, a pior em 92 anos.

Como sempre acontece na competição de futebol mais importante do planeta, o povo se mobilizou, se vestiu de verde e amarelo, ornamentou ruas com os símbolos da seleção canarinho, lotou bares, restaurantes e praças, recebeu os amigos em casa para o churrasco e a cerveja.

Mas a decepção acabou sendo proporcional à mobilização pela conquista do hexa.

A esperança vã pela conquista da sexta Copa pelo Brasil foi cevada pela imprensa esportiva, que, movida a interesse comercial, vendeu a ilusão de que o Brasil era um dos favoritos ao título, algo que nunca foi.

Quem acompanha minimamente o nosso futebol pôde observar, da Copa do Catar, em 2022, para cá o caos administrativo e esportivo provocado pela Confederação Brasileira de Futebol, entidade que se firmou como exemplo de corrupção, incompetência e falta de respeito pela paixão brasileira por futebol.

O chamado ciclo para a atual Copa foi marcado pelo entra e sai de treinadores e de mudanças em série na presidência da entidade, ao sabor de denúncias, manobras e obtenção de liminares na justiça. Mesmo a classificação do Brasil nas eliminatórias da Copa só aconteceu porque no modelo atual de disputa é praticamente impossível uma seleção com tradição no futebol ficar de fora.

Aí surgiu a ideia de contratar o experiente e vitorioso técnico italiano Carlo Ancelotti. Para os cartolas da CBF, a jogada era perfeita. Um profissional consagrado internacionalmente no comando da seleção teria o condão de não só ofuscar a bagunça irresponsável levada a cabo por eles, mas também de operar o milagre de dotar o time, em cerca de um ano, de condições de disputar o título.

De fato, Ancelotti é um colecionador de títulos importantes pelos times que dirigiu na Espanha, França, Inglaterra e Itália. Contudo, quem tenta enxergar o futebol para além da superfície, sabe que seu estilo reativo, ou seja, de jogar na defesa explorando contra-ataques se choca com a essência do futebol brasileiro.

Quem se espantou com a inacreditável posse de bola de 70% da Noruega contra o Brasil naturalmente não viu ou não se lembra de algumas finais de Champions League, nas quais o Real Madrid treinado por Ancelotti, mesmo recheado de craques, defendeu o tempo todo, mas acabou vencendo em lances fortuitos no fim das partidas.

Considero uma dessas finais, contra o Liverpool, um dos resultados mais injustos da história. O Liverpool massacrou, mas o goleiro belga Courtois, que joga pelo Real, fez defesas tidas como impossíveis, principalmente em conclusões de Mohamed Salah, astro do time inglês.

Os dirigentes da CBF, se entendessem apenas um pouquinho de futebol, e não estivessem apenas à procura de um escudo, veriam que Ancelotti não era o nome indicado, pois a tradição da nossa seleção e o peso da camisa pentacampeã impõem o controle da bola, o jogo ofensivo.

Se era para contratar um treinador estrangeiro, que fosse o espanhol Guardiola, apontado por muitos como o melhor técnico de todos os tempos, e que não abre mão de um estilo de jogo muito próximo do futebol brasileiro.

Mas os deslizes do italiano foram além do plano tático. Além de ter se submetido à palhaçada do megaevento de anúncio dos convocados no Museu do Amanhã, no Rio, ele se curvou à pressão da mídia e incluiu o nome de Neymar, um ex-jogador em atividade, na lista.

Escolheu ainda uma grande maioria de jogadores com passado de derrotas em Copas e perseguiu inexplicavelmente alguns jogadores. Foi o caso de Luiz Henrique, um craque que foi muito bem em todos os jogos antes da Copa, mas de repente foi esquecido por Ancelotti.

Renovar com Ancelotti até 2030, em vez de demiti-lo, é uma decisão com o padrão CBF. Lembra a célebre frase do Barão de Itararé: “De onde menos se espera é que não vem nada mesmo.”

PS: Li que um avião fretado pela CBF, para trazer jogadores e comissão técnica da seleção de volta ao Brasil, tinha apenas dois jogadores. Isso dá bem uma ideia do nível de comprometimento dessa turma com a nossa gente.

•        A Copa é uma metáfora de um mundo assolado por um império decadente e violento. Por Marcelo Zero

A Copa do Mundo nos EUA de Trump já vinha se mostrando uma aberração esportiva e geopolítica.

No início do ano, a Europa já se mostrava contrária à realização da Copa nesse país, em razão das ameaças de anexação da Groenlândia, das dissensões em relação à Otan, dos tarifaços politicamente motivados, do racismo do ICE, da xenofobia geral do governo Trump etc.

Agora, entretanto, o caldo entornou.

A reversão da punição de um jogador estadunidense, conseguida por Trump com um simples telefonema para Infantino, demonstrou o grau de submissão canina da Fifa ao governo Trump e a incomensurável corrupção de ambos.

A Copa, na realidade, se tornou uma metáfora de um mundo assolado pela violência e pela corrupção de um império decadente.

As relações internacionais se tornaram uma espécie de “mata-mata”, no qual os EUA têm de ganhar sempre por quaisquer meios, lícitos ou ilícitos.

Se tiver de ganhar roubando, comprando o juiz, fazendo insultos racistas, impondo logísticas punitivas (como fizeram com o Irã) ou quebrando a perna dos outros, que seja. “VAR” só se for com deep fake feito com IA. E cartões amarelos e vermelhos só valem para os outros.

Só há espaço para um vencedor; os outros, os mais débeis, têm de ficar pelo caminho, frequentemente tendo de aguentar humilhações racistas, como aconteceu, impunemente, no jogo entre Argentina e Egito.

E há uma ironia amarga em toda essa história. O espetáculo, o talento, vêm de imigrantes do Sul Global, mas os louros são apropriados pelo Ocidente.

Os louros e também o dinheiro, que fica com a Fifa e com as grandes companhias patrocinadoras, isso sem falar na jogatina desavergonhada das “bets”.

O Império e a Fifa se complementam. Têm natureza autoritária e corrupta semelhante.

Essa Copa cara, racista, xenófoba e corrupta transmite ao mundo a ideia de que esporte não deve estar associado à paz, ao respeito às regras, à diversidade e à inclusão, mas sim ao contrário: à violência real e simbólica, à exclusão, a um mundo hobbesiano no qual o grande valor é a força e a “vitória” a qualquer custo, como a distopia que Trump quer impor ao planeta, com o aplauso dos nossos traidores.

Não se poderia esperar outra coisa de uma Copa Trump-Infantino.

Uma Copa tão grotesca e farsesca quanto o prêmio da paz concedido por Infantino a Trump.

 

Fonte: Por Bepe Damasco, em Brasil 247

 

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