Educação
à prepotência. A cultura da arrogância
Em
artigo recente no jornal italiano La Repubblica, o psicoterapeuta e professor
universitário Giuseppe Lavenia diz que “Donald Trump deveria ser observado
também para além da política. Não apenas pelo que diz, mas pela maneira como
diz. Porque a linguagem de uma figura tão exposta jamais permanece confinada ao
noticiário: ela penetra no imaginário coletivo, torna-se tom, postura, modelo.
Transforma-se em uma maneira possível de viver o conflito, de responder às
críticas, de tratar quem pensa de forma diferente.”
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Lavenia
tem razão. O estilo do presidente norte-americano já é facilmente reconhecível,
e serve de ponto de partida a um número infinito de caricaturas e piadas na
mídia mundial. Trump se expressa por meio de ataques, simplificações, apelidos
ofensivos, frases categóricas e, muitas vezes, brutais. Fica evidente que ele
não procura realmente um interlocutor; procura um alvo. Quem discorda não é
tratado como alguém com quem se possa dialogar, mas como alguém que precisa ser
enfraquecido, ridicularizado, atingido. A palavra não serve para esclarecer,
mas para prevalecer. Não constrói o debate; encerra-o. Não aproxima; separa.
Parece
evidente que quem se expressa desse modo agressivo e mal educado em geral não
desperta muito interesse, simpatia ou admiração – a não ser em pessoas de mente
mais tacanha e/ou psiquicamente exaltada. Mas quando esse tipo de comportamento
é manifestado por um líder de ressonância mundial, há sim motivo para
preocupação e cuidado. Pelo simples fato de que um líder político arrogante e
sem consciência de limites pode contribuir para estimular atitudes igualmente
prepotentes entre parte da população, embora isso não ocorra de forma
automática nem uniforme. O efeito depende de diversos fatores, como a força das
instituições, o papel da imprensa, da educação, da cultura política e das
convicções prévias dos cidadãos.
A
psicologia social oferece algumas explicações para esse fenômeno. Primeiro,
existe o mecanismo da modelagem comportamental. As pessoas aprendem não apenas
por instrução, mas também por observação e imitação. Quando um líder alcança
sucesso político exibindo arrogância, desprezo pelos adversários, insultos ou
demonstrações de superioridade, parte de seus apoiadores pode interpretar esse
comportamento como legítimo ou até desejável.
Além
disso, líderes exercem um importante papel na definição das normas sociais. O
que antes era considerado inadequado pode passar a ser visto como aceitável
quando é praticado repetidamente pela principal autoridade do país sem
consequências políticas relevantes. Psicólogos chamam isso de mudança nas
normas descritivas e permissivas: as pessoas ajustam seu comportamento ao que
percebem ser socialmente tolerado.
Também
existe em psicologia política um fenômeno conhecido como licenciamento moral.
Alguns seguidores passam a acreditar que, por estarem defendendo uma causa
considerada justa ou necessária, têm autorização para agir com agressividade,
intolerância ou desprezo em relação aos que pensam diferente.
Isso
não significa que todos os apoiadores de um líder adotem tais comportamentos.
Muitos mantêm espírito crítico independente e não reproduzem seus traços
pessoais. Tampouco a arrogância coletiva depende apenas da liderança política.
Fatores econômicos, culturais, históricos e tecnológicos – como as redes
sociais, que frequentemente recompensam discursos agressivos e polarizadores –
também desempenham um papel importante.
A
história oferece exemplos variados. Líderes de diferentes orientações
ideológicas, em diferentes épocas, estimularam culturas políticas marcadas pela
intolerância, pelo culto à personalidade e pela desqualificação sistemática dos
adversários. Exemplos relativamente recentes? Napoleão Bonaparte, Adolf Hitler,
Benito Mussolini, Josef Stalin, Nicolau Ceausescu. Contemporâneos? Donald
Trump, Recep Tayyip Erdogan, Vladimir Putin. Entre nós? Jair Bolsonaro.
Do
ponto de vista da psicologia, especialmente em diálogo com as ideias de Carl
Gustav Jung, pode-se acrescentar uma reflexão: quando um líder encarna impulsos
coletivos de grandiosidade, ressentimento ou desejo de poder, ele pode
funcionar como um catalisador daquilo que Jung chamou de “sombra coletiva”.
Nessa perspectiva, o líder não cria esses impulsos do nada; ele lhes dá voz,
legitimidade e direção.
Em
suma, é plausível afirmar que um líder arrogante e sem consciência dos próprios
limites pode favorecer a disseminação da prepotência em parte da sociedade,
principalmente quando sua conduta é percebida como um modelo de sucesso e
encontra poucas barreiras institucionais ou culturais.
A
arrogância dos líderes costuma ser analisada em conjunto com conceitos como
hubris (desmedida, descomedimento), narcisismo, personalismo, culto à
personalidade e ilusão de invulnerabilidade. Claro, nem todo líder carismático
ou confiante é arrogante; a característica preocupante surge quando ele passa a
acreditar que está acima das leis, das instituições, das críticas ou da própria
realidade.
Essa é
uma questão recorrente desde a Antiguidade. Os gregos chamavam de hubris a
desmedida (quase um sinônimo de arrogância) de quem perde a consciência dos
próprios limites. Na tragédia grega, a hubris quase sempre antecede a queda,
justamente porque o excesso de poder vinha acompanhado da ilusão de
invencibilidade. Essa ideia continua sendo uma referência importante para
compreender os riscos da concentração de poder em qualquer sistema político,
independentemente da orientação ideológica do governante.
Para o
psicólogo Giuseppe Lavenia, o risco não é que um jovem escute Trump ou qualquer
outro líder político do gênero e se torne arrogante ou agressivo. Essa seria
uma leitura simplista. O risco é mais sutil: que ele aprenda um código de
comportamento. Que passe a acreditar que, para ser respeitado, é preciso
dominar os outros; que admitir um erro significa perder; que quem o contradiz
não deve ser ouvido, mas demolido. É nesse momento que a comunicação deixa de
ser apenas comunicação e passa a ser educação.
Como
diz Lavenia, toda sociedade educa seus filhos não apenas com palavras, mas
também por meio daquilo que recompensa. Se recompensamos quem humilha,
ensinamos que humilhar funciona. Se tornamos viral quem despreza os outros,
ensinamos que o desprezo gera poder. Se confundimos autoridade com opressão,
depois não podemos nos surpreender quando os jovens levam essa mesma gramática
para os grupos de mensagens, para as salas de aula, para o esporte e para os
relacionamentos afetivos.
A
questão não é exigir que a política se torne gentil, educada ou domesticada. A
política também é conflito, confronto, divergência e dureza. Mas existe uma
enorme diferença entre ser firme e desumanizar. Entre dizer algo incômodo e
transformar o outro numa caricatura. Entre defender uma posição e precisar,
todos os dias, de um inimigo para atacar.
É
justamente isso que deveríamos observar com mais atenção, explica Giuseppe
Lavenia. Não Trump como exceção, mas Trump como sintoma. O sintoma de uma
cultura que confunde força com dureza, sinceridade com brutalidade, coragem com
incapacidade de parar.
A
verdadeira força adulta é outra. É saber permanecer no conflito sem
transformá-lo em guerra. É dizer verdades incômodas sem destruir a dignidade do
outro. É pedir desculpas sem sentir que isso significa ser aniquilado. É
defender uma posição sem precisar, permanentemente, de um alvo para atacar.
Hoje,
os jovens não precisam de adultos que lhes ensinem a prevalecer sobre os
demais. Disso eles já veem exemplos em excesso. Precisam de adultos capazes de
mostrar que é possível ser firme sem ser violento, claro sem ser arrogante,
forte sem precisar esmagar alguém.
Porque
a maneira como falamos jamais é apenas uma questão de estilo. Ela já expressa
uma determinada ideia de mundo.
Fonte:
Por Luis Pellegrini, em Brasil 247

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