Flávio
Dino expõe disputa entre Eduardo Cunha e Nikolas Ferreira por uso eleitoreiro
de emendas
Na
decisão em que ordenou o bloqueio de de R$ 6,1 milhões do ex-deputado federal
Eduardo Cunha (Republicanos-MG) por suspeita de desvio de emendas
parlamentares, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), expôs
uma disputa direta com Nikolas Ferreira e revelou como o esquema, criado por
Arthur Lira (PP-AL) em conluio com o ex-governo Jair Bolsonaro (PL), que ganhou
a alcunha de “Orçamento Secreto”, é usado de forma eleitoreira nos chamados
currais eleitorais dos parlamentares.
Em
conversa no dia 12 de setembro de 2025 com a assessora Mariângela Fialek, a
Tuca, já conhecida em negociatas de Lira, Cunha fala da disputa com o deputado
bolsonarista por uma emenda destinada ao município de Manhuaçu, localizado na
Zona da Mata Mineira, a 290 quilômetros de Belo Horizonte.
“Oi. Se
puder. Tou com um problema lá em uma das emendas de Manhuaçu que o pessoal lá é
inimigo e estão dizendo que é do Nikolas. Como pôs no Gilberto Abramo, preciso
de um ofício dele dizendo que essa emenda é de autoria dele, a pedido do
Deputado estadual João Magalhães, senão vamos ter de trocar e não mandar para
lá”, diz Cunha.
Abramo
é deputado federal pelo Republicanos, partido de Cunha, que revela na conversa
a busca por dividendos eleitorais com a destinação da emenda.
“A
primeira parte da mensagem já causa estranheza, haja vista que, como é de
conhecimento público, EDUARDO CUNHA não exerce mais atividade parlamentar desde
2016, dessa maneira, mostra-se aparentemente incongruente a referência dele a
ter problemas com emendas. Em seguida, CUNHA comenta que o ‘o pessoal lá é
inimigo e estão dizendo que é do Nikolas’. Desse modo, a mensagem enviada
sugere que a emenda a qual EDUARDO CUNHA se referia estava sendo atribuída
supostamente ao DEPUTADO FEDERAL NIKOLAS FERREIRA, do PL de Minas Gerais”, diz
Dino na decisão, ao analisar a troca de mensagens de forma detalhada.
Segundo
Dino, “ao observar essa mensagem, infere-se estar diante de um cenário escuso”,
indicando a motivação que levou dezenas de deputados do Centrão e da base
bolsonarista ao uso eleitoreiro das emendas.
“A
conversa continua, e em seguida CUNHA pergunta: “Tem publicação em nome do
deputado?”. Em resposta, TUCA diz: “Impositiva tem. E terá da de comissão assim
q aprovada pelo ministério votaremos na comissão. Sair nome do líder”. Ou seja,
é possível que EDUARDO CUNHA estivesse preocupado a atribuição da titularidade
da emenda, diante da pergunta formulada por ele”, revela o ministro do STF.
Em
seguida, Dino expõe mais uma parte da conversa que desnuda a forma como as
emendas parlamentares são usados de forma eleitoreira, especialmente em
pequenas cidades do interior onde os deputados aparecem como donos do recurso
que, na verdade, é da União.
“A
conversa entre os dois na data de 12/09/2025 continua. Desse modo, mais uma vez
EDUARDO CUNHA pergunta: “O Gilberto pode fazer um ofício?”, de maneira que
aparenta que o ex-deputado está preocupado com o ofício a ser feito pelo
DEPUTADO GILBERTO ABRAMO. Ato contínuo CUNHA ainda diz: “Se fizer já me
resolve. Cidade pequena é uma guerra”, aparentemente se referindo à possível
disputa pela titularidade do envio de recursos de emendas parlamentares”,
explicita.
Eduardo
Cunha ainda chega a ameaçar retirar o recurso da cidade mineira “se for dar
trabalho” atribuir a ele e ao aliado Gilberto Abramo.
“Por
último, EDUARDO CUNHA diz: “Ta bom me fala então. Tem Cleitinho aí, que também
se arvora lá. Ele pôs 200”. Aparentemente, CUNHA estava fazendo referência ao
SENADOR CLEITINHO AZEVEDO, que constava como autor de uma emenda no valor de
R$200.000,00 para o estado de Minas Gerais, no documento compartilhado. Em
resposta, TUCA afirma: “Entendi”. A fala de CUNHA permite inferir uma aparente
preocupação do parlamentar com relação a autores de emendas para o estado de
Minas Gerais”, diz Dino na decisão.
Três
dias depois, em 19 de setembro de 2025, diante do imbróglio da disputa com
Nikolas e Cleitinho, Eduardo Cunha envia o nome de outros dois destinatários,
na cidade de Governador Valadares, para envio da emenda que seria destinada a
Manhuaçu.
“Logo
após encaminhar a mensagem acima, CUNHA diz: “Bom dia. Trocar Manhuaçu por
essas para acabar com a confusão”. Infere-se da mensagem enviada que EDUARDO
CUNHA desistira de enviar os recursos para o Município de Manhuaçu e resolve
trocar pelos destinatários enumerados acima. Em resposta, TUCA diz: “Deixa
ver.” “Já tirei’”.
<><
A decisão de Dino que bloqueou fortuna de Eduardo Cunha
O
ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o bloqueio de R$
6,1 milhões do ex-deputado federal Eduardo Cunha (Republicanos-MG) por suspeita
de desvio de emendas parlamentares.
A
decisão, assinada em 6 de julho e tornada pública neste domingo (12), atende a
uma representação da Polícia Federal no âmbito da Operação Transparência.
Segundo a PF, Cunha teria continuado a influenciar a destinação de verbas
públicas mesmo sem exercer mandato, utilizando uma servidora da Câmara como
intermediária.
O
ministro Flávio Dino determinou a medida cautelar com base na suspeita de que
Eduardo Cunha operou um esquema de desvio de emendas parlamentares mesmo após o
fim de seu mandato, prerrogativa que a Constituição reserva exclusivamente a
deputados e senadores em exercício. A decisão, datada de 6 de julho, só veio a
público neste domingo (12).
Na
decisão, Dino é direto sobre o que está em jogo: “Os espaços
constitucionalmente permitidos às emendas parlamentares não degradam o Erário à
condição de patrimônio privado, passível de aquisição, transação ou quotização
entre as agremiações partidárias e seus dirigentes.” O bloqueio foi determinado
como medida de preservação do patrimônio público enquanto as investigações
avançam.
<><>
O esquema de desvio de emendas
A
Polícia Federal concluiu, com base na Operação Transparência, que Cunha “dispõe
dos serviços de Mariângela Fialek e da liberalidade política para destinar
recursos conforme seus interesses, em sintomas inequívocos do cometimento dos
crimes de peculato.” A investigação identificou ao menos 21 emendas
parlamentares que somam R$ 6,15 milhões, já empenhadas e pagas, e que teriam
sido “forjadamente documentadas para escamotear o verdadeiro solicitante da
indicação”, segundo trecho reproduzido na decisão de Dino.
Mariângela
Fialek, conhecida como Tuca, é servidora da Câmara e foi alvo de operação da PF
no fim do ano passado, quando seu celular foi apreendido. A análise dos dados
do aparelho revelou negociações para o envio de emendas e levou a PF a concluir
pela existência de um “arranjo decisório paralelo para a destinação de verbas
públicas”, no qual Cunha, “desprovido de mandato, aparece como vetor relevante
de definição e remanejamento de emendas.” A PF foi ainda mais contundente ao
afirmar que Cunha “opera como agente privado com poderes políticos equivalentes
ou até superiores aos de parlamentares em exercício, interferindo no
direcionamento de recursos federais sem qualquer autorização institucional.”
<><>
Desdobramentos e próximos passos
Além do
bloqueio patrimonial, Dino determinou que o presidente da Câmara, Hugo Motta
(Republicanos-PB), apresente em dez dias todos os documentos de tramitação
interna das emendas identificadas pela PF, “de modo individualizado e
organizado por emenda.” No mesmo prazo, a Câmara, a AGU e a CGU devem informar
as providências adotadas em suas respectivas esferas de competência. A AGU
também foi ordenada a comunicar formalmente todos os municípios beneficiários
sobre a suspensão das emendas.
A
defesa de Mariângela Fialek divulgou nota, segundo a CNN Brasil, afirmando que
a atuação dela era “estritamente técnica, apartidária e impessoal” e que não se
atribui à servidora “a prática de nenhuma irregularidade funcional ou
criminal.” A defesa de Cunha não se manifestou até o fechamento desta
reportagem.
O caso
se insere em um quadro mais amplo de investigação sobre o uso irregular de
emendas parlamentares. O bloqueio dos bens de Cunha ocorre no âmbito da mesma
investigação que, no mesmo dia 6 de julho, resultou no bloqueio de R$ 119
milhões de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, também por suspeita de
indicação irregular de emendas.
• “Mestre”: como Sóstenes Cavalcante trata
Eduardo Cunha
líder
do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), chamou Eduardo Cunha de “mestre” ao
receber a deputada federal Dani Cunha no partido de Jair Bolsonaro. A
declaração, feita durante o ato de filiação em março, resume uma aliança
iniciada antes do bolsonarismo e hoje abrigada pela principal legenda do
movimento.
Ao
apresentar a nova filiada, Sóstenes prometeu apoio político à parlamentar e
ressaltou a ligação familiar com o ex-presidente da Câmara. O presidente
nacional do PL, Valdemar Costa Neto, também participou da cerimônia.
“Ela é
uma parlamentar talentosa, brilhante, filha de um mestre, Eduardo Cunha”,
afirmou Sóstenes.
A
declaração foi reproduzida na página oficial do líder do PL. Na gravação, Dani
Cunha agradece a recepção fazendo um coração com as mãos e vestindo uma camisa
do partido.
<><>
Sóstenes Cavalcante cresceu sob o comando de Eduardo Cunha
A
palavra usada por Sóstenes tem lastro político. Ele chegou à Câmara em 2015
como apoiador da candidatura de Eduardo Cunha à presidência da Casa. Depois da
vitória do então peemedebista, passou a integrar seu grupo de sustentação,
descrito à época como a “tropa de choque” de Cunha.
Naquele
mesmo ano, Eduardo Cunha desarquivou o Estatuto da Família e determinou a
instalação da comissão especial responsável por analisar o projeto. Sóstenes
foi eleito presidente do colegiado, segundo registro da Câmara dos Deputados.
A
proposta restringia o conceito de família à união entre um homem e uma mulher.
A articulação aproximou o comando da Câmara da bancada evangélica em torno de
uma agenda religiosa e conservadora que, anos depois, seria incorporada ao
centro do discurso bolsonarista.
Em
2016, Sóstenes votou pela cassação do mandato de Cunha, aprovada por 450 votos
a dez. A queda do então presidente da Câmara, porém, não encerrou a influência
de sua rede. Em 2024, perfil publicado pela Folha de S.Paulo descreveu Sóstenes
como um dos principais herdeiros políticos de Eduardo Cunha.
• Dani Cunha defendeu Jair Bolsonaro em
2018
A
aproximação da família Cunha com o bolsonarismo tornou-se pública na eleição de
2018. Dani Cunha, que naquele ano disputava uma vaga na Câmara, defendeu o voto
em Jair Bolsonaro ainda no primeiro turno. A mensagem foi impulsionada pelo
perfil oficial de Eduardo Cunha nas redes sociais.
Dani
associou a candidatura de Bolsonaro à rejeição ao PT e ao impeachment de Dilma
Rousseff, conduzido pelo pai quando presidia a Câmara. Jair Bolsonaro e o filho
Eduardo Bolsonaro haviam participado das articulações pelo afastamento da então
presidente.
Em
2022, Eduardo Cunha assumiu diretamente o apoio ao então presidente. Durante
entrevista ao programa Pânico, da Jovem Pan, declarou que votaria pela
reeleição de Bolsonaro.
“O
Bolsonaro representa hoje aquilo que estou enfrentando, que é o PT. Eu sou
antipetista”, disse Cunha.
No
mesmo ciclo eleitoral, Dani Cunha foi eleita deputada federal pelo Rio de
Janeiro pelo União Brasil. A vitória devolveu à família um gabinete na Câmara
seis anos depois da cassação de Eduardo Cunha.
<><>
Ramagem e votações aproximaram Dani Cunha do PL
Na
eleição municipal de 2024, pai e filha apareceram na convenção de Alexandre
Ramagem, candidato do PL à Prefeitura do Rio e nome escolhido por Jair
Bolsonaro. A Fórum mostrou a participação de Dani e Eduardo Cunha no ato,
embora o material divulgado por Ramagem não destacasse o apoio dos dois.
Ainda
filiada ao União Brasil, Dani também acompanhou ofensivas do bolsonarismo no
Congresso. Em 2025, votou pela urgência do projeto de anistia aos envolvidos
nos atos de 8 de janeiro, medida defendida pelo PL e que poderia beneficiar
Jair Bolsonaro.
Em maio
daquele ano, a deputada apoiou a resolução que suspendeu a ação penal contra
Ramagem no Supremo Tribunal Federal. O texto apresentado pelo PL foi aprovado
por 315 votos e poderia produzir efeitos sobre a ação que também alcançava
Bolsonaro, como mostrou a cobertura da Fórum.
<><>
Dani entra no PL e Eduardo Cunha apoia Flávio Bolsonaro
A
filiação de Dani Cunha ao PL, em março de 2026, transformou o alinhamento
político em vínculo partidário. O perfil oficial da Câmara já registra a
parlamentar como integrante da bancada do PL do Rio de Janeiro.
Eduardo
Cunha também ampliou a ponte com a família Bolsonaro. Em junho, encontrou-se
com Flávio Bolsonaro em Belo Horizonte e apresentou o senador como “líder do
campo conservador”. Depois, declarou apoio à candidatura presidencial do filho
mais velho de Jair Bolsonaro.
A Fórum
mostrou que Flávio Bolsonaro não destacou o encontro em sua agenda nas redes
sociais, embora Eduardo Cunha tenha divulgado publicamente a reunião.
Da
defesa de Bolsonaro em 2018 à entrada de Dani no PL em 2026, a aproximação
percorreu campanhas eleitorais, votações no Congresso e alianças no Rio de
Janeiro. O “mestre” citado por Sóstenes liga a antiga tropa de choque de
Eduardo Cunha à atual estrutura partidária do bolsonarismo.
• “Não aguento mais esses mineiros”: fala
de Eduardo Cunha sobre estado é citada por Dino em investigação de emendas
ministro
Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, utilizou mensagens interceptadas pela
Polícia Federal para embasar, em 6 de julho, o bloqueio de até R$ 6,15 milhões
em bens do ex-deputado Eduardo Cunha e a suspensão de 29 emendas parlamentares.
Nos
diálogos, Cunha, cassado em 2016 e pré-candidato a deputado federal por Minas
Gerais, reclama de “mineiros enrolados” enquanto remaneja destinos de emendas
para municípios do estado, operando por meio de uma servidora da Câmara sem
qualquer mandato.
A
decisão de Dino foi embasada em conversas extraídas do celular de Mariângela
Fialek, conhecida como Tuca, servidora da Câmara apontada pela Polícia Federal
como operadora do esquema.
Em um
dos trechos reproduzidos na investigação, Cunha pede a ela que substitua o
município beneficiado por uma emenda: “Boa tarde, desculpa, mas eu não aguento
mais esses mineiros enrolados. Troca a de Governador Valadares por essa, pois
lá também criaram caso pedindo ofício etc. É mais fácil trocar.”
O
padrão se repete em outras passagens. Em setembro de 2025, diante de um
conflito local sobre a autoria de uma emenda destinada a Manhuaçu, Cunha
ordenou a substituição do município, indicando o Fundo Municipal de Saúde de
Governador Valadares e a Associação Hospital Belizário Miranda como novos
destinatários. Sobre a disputa local, resumiu: “Cidade pequena é uma guerra.”
Os diálogos mostram um ex-parlamentar sem mandato tratando recursos públicos
como moeda de barganha, trocando destinos conforme a conveniência política do
momento.
<><>
A Operação Transparência e o ‘orçamento secreto’
A
investigação é um desdobramento da Operação Transparência, que apura desvios na
distribuição de emendas do chamado “orçamento secreto”. A PF aponta que Cunha,
sem mandato desde a cassação em 2016, indicava irregularmente emendas
destinadas a municípios mineiros valendo-se de Tuca para operacionalizar o
direcionamento dos recursos.
O
elemento mais revelador, segundo a PF na representação que embasou a decisão de
Dino, é justamente a ausência de qualquer vínculo histórico entre Cunha e o
estado: “Mais simbólico ainda no sentido do descontrole político e
desvinculação ao interesse público dessas destinações é o fato de que o
ex-deputado nunca manteve vinculação política com o Estado de Minas.”
Nascido
no Rio de Janeiro, Cunha exerceu quatro mandatos como deputado pelo estado
fluminense e transferiu o domicílio eleitoral para Belo Horizonte apenas
recentemente, de olho nas eleições de outubro.
A
motivação, segundo o mesmo documento, é a de cooptar apoio político local para
a eleição que se aproxima, afirma a investigação da PF.
<><>
Repercussão e defesa de Cunha
A
decisão assinada por Dino em 6 de julho não se restringiu a Cunha. Na mesma
data, o ministro determinou o bloqueio de R$ 119 milhões do presidente nacional
do PL, Valdemar Costa Neto, sob suspeita de uso de servidores da Câmara para
direcionar emendas sem exercer mandato, no mesmo esquema investigado pela
Operação Transparência.
A
defesa de Eduardo Cunha nega irregularidades e afirma que contestará a decisão
no STF. Segundo os advogados, as emendas citadas na investigação foram
“oficialmente apresentadas e indicadas por parlamentares, bancadas ou órgãos
legitimados”. A defesa também rejeita, em nota, “a tentativa de equiparar
automaticamente a legítima interlocução política ao exercício clandestino de
mandato parlamentar.” As alegações partem da própria defesa de Cunha e serão
submetidas ao crivo do tribunal.
Fonte:
Fórum

Nenhum comentário:
Postar um comentário