O
complexo universo da migração
Além da
análise de um objeto de estudo e de meu desejo de contribuir com a sociologia
em geral, incluindo a sociologia do trabalho, das migrações e os estudos de
gênero e raça, esta pesquisa tem também uma outra origem.
Ela
atravessa a minha própria trajetória de vida. Sou, inteiramente, fruto e
partícipe desse universo que procurei analisar. Nasci no Brasil, cursei até o
segundo ano do primário e emigrei ao Japão na década de 1990. Em alguns estudos
que pude ler sobre o assunto, encontrei reflexões sobre a limitada autonomia de
filhos de imigrantes, levados a atravessar fronteiras por decisões tomadas por
seus pais. Sabe-se que, nesse processo, muitas crianças enfrentam o sentimento
de deslocamento no novo contexto e, não raro, experiências de bullying e
discriminações raciais e xenofóbicas que deixam marcas duradouras. Meu caso não
foi diferente no que diz respeito ao peso da escolha migratória de meus pais.
Ainda assim, considero-me afortunada por essa decisão. Por uma série de
fatores, tive uma infância e adolescência que considero privilegiadas, sem
lembranças de discriminações graves e marcadas como um período feliz.
Emigramos
não apenas como núcleo familiar menor. Tios, tias, primos e primas também
partiram. Ao todo, éramos quase vinte pessoas da mesma família que migraram
naquela mesma época. Meu pai trabalhou todos esses anos em fábricas
automobilísticas, submetido a jornadas e condições de trabalho semelhantes às
apresentadas nesta pesquisa. Minha mãe também passou alguns anos na fábrica e,
posteriormente, tornou-se cuidadora de filhas e filhos de decasségui como forma
de complementar a renda. Ela vive com artrite reumatoide desde os dezoito anos
de idade. Durante o tempo em que trabalhou na fábrica, o esforço físico agravou
a doença, que evoluiu para um quadro de inflamação severa nas articulações,
acompanhado por crises intensas de dor ao longo de muitos anos. Hoje, já no
Brasil, a doença progrediu a ponto de comprometer significativamente os
movimentos das articulações, causando a ela limitações na locomoção e nas
atividades do dia a dia.
Ainda
assim, é curioso perceber que, mesmo diante dessa condição, e embora eu a
reconheça como alguém bastante crítica à exploração capitalista, nossas
trajetórias não são avaliadas ou calculadas a partir de uma dimensão única.
Malgrado as condições de trabalho, permanecem como aspectos valiosos a
experiência de viver em um país que remete às origens de seus pais, o contato
com a rica e diversa cultura japonesa, a receptividade de parte da população,
as amizades construídas, a sensação de segurança e o amplo acesso aos serviços
públicos e ao transporte. Tudo isso compõe, para ela e para muitos de nós, uma
bagagem positiva. Hoje, minha mãe, assim como muitos decasséguis retornados,
afirma que não voltaria ao país, mas ainda assim não se arrepende da migração,
pois a considera uma experiência de vida profundamente marcante.
No meu
caso, por ter emigrado ainda muito criança, tive a sorte de poder aprender o
idioma japonês com facilidade. Na época, diferentemente do nicho de brasileiros
que apresentei na investigação, por ter sido o início desse fluxo, residia em
um local com pouquíssimos brasileiros. Na escola primária em que estudei, de
crianças imigrantes só havia eu e um primo. Por sorte, a escola pública foi
muito receptiva e nos proporcionou um atendimento especial para que pudéssemos
aprender o idioma. Ademais, por sermos muito pequenos, essa aprendizagem foi
muito rápida, diferentemente do que ocorre com filhos de imigrantes que chegam
ao país na adolescência.
Já no
ensino fundamental e médio, acabei traçando um caminho diferente do das demais
filhas de decasséguis. Por incentivo de meus pais, ingressei em uma escola
privada, cujo ensino tinha um caráter muito mais libertário do que o das
tradicionais e conservadoras escolas japonesas, em um ambiente
internacionalizado que se assemelha ao das escolas estadunidenses. É
interessante notar que, embora meu pai fosse operário, seu rendimento permitia
a manutenção dos meus estudos, situação que seria bastante difícil para um
operário no Brasil. Como a escola se situava na cidade de Toyota, a maioria das
minhas colegas era filha de engenheiros da Toyota Motors que haviam passado
parte da infância nos Estados Unidos, especialmente na região de Kentucky, para
onde seus pais haviam sido transferidos. Por não conseguirem se adaptar aos
moldes conservadores da escola japonesa tradicional, elas ingressaram na mesma
instituição de ensino em que estudei por seis anos. Era uma escola frequentada
unicamente por estrangeiros, filhos de japoneses que já tinham vivido no
exterior ou filhos de pais estrangeiros nascidos no Japão. Das contradições da
vida: embora a escola fosse, na prática, muito libertária, o diretor era um
padre católico dos Estados Unidos.
Todo
esse percurso acabou por me levar a uma boa adaptação, imersa na cultura
japonesa. Durante os dez anos em que ali vivi, só me comunicava em japonês, e
quase todas as minhas amizades e relações eram com pessoas japonesas. Costumava
ir aos mesmos lugares que qualquer adolescente japonesa frequentaria, embora
meu fenótipo sempre denunciasse minha condição não japonesa. Talvez por isso eu
não guarde muitas recordações de discriminação. Ainda assim, lembro de um
episódio com nitidez. Em certa ocasião, eu e uma amiga com fenótipo não japonês
fomos doar sangue, e o responsável pelo hemocentro começou a apresentar uma
série de justificativas que não faziam sentido, nos impedindo de realizar a
doação. Era evidente que nos discriminava por não sermos japonesas. Apesar
disso, de modo geral considero positivo o saldo de minha experiência no Japão,
embora essa avaliação possa ser minha memória seletiva, assim como talvez tenha
ocorrido com as pessoas que entrevistei.
Sempre
residi no conjunto habitacional Homidanchi. Meus pais e toda a minha família
moravam lá, e praticamente todos eram e continuam sendo operários. As condições
materiais de minha família eram muito distintas das da classe média japonesa
que frequentava o mesmo colégio em que eu estudei. Por razões que escapam a
determinações simples, apesar da diferença de classe, lá construí fortes
amizades que perduram até hoje. Ainda assim, esse amálgama entre ter sido uma
imigrante brasileira e, ao mesmo tempo, ter me inserido de maneira
relativamente “bem-sucedida” no Japão constitui uma contradição interna que
permanece conflituosa e não totalmente resolvida em meu mundo interior até
hoje.
No ano
2016, retornei ao Japão para a pesquisa de campo que sustenta este livro.
Embora estivesse vinculada a uma universidade em Tóquio e lá residisse no
período de sanduíche, fiz inúmeras visitas, quase mensais, a Toyota e ao
Homidanchi. Algumas paisagens locais mudaram, a cidade cresceu, mas seu núcleo
duro continuou o mesmo: um polo industrial com muitos imigrantes trabalhando em
fábricas. Quase toda a minha família, cerca de vinte pessoas, ainda residia no
Japão. Quase todos continuavam a trabalhar no mesmo setor da indústria e, na
época da pesquisa, moravam no Homidanchi. Entre meu retorno ao Brasil e a
pesquisa deste livro, passaram-se quinze anos.
Por
outro lado, na ocasião de meu período de sanduíche, reencontrei todas as minhas
amigas da infância e adolescência. Quase todas haviam deixado a província de
Aichi, todas cursaram o ensino universitário e algumas, inclusive, estudaram no
exterior. Apesar de possuírem diploma universitário, muitas abandonaram as suas
carreiras e hoje se dedicam integralmente ao trabalho doméstico, como donas de
casa. Algumas já têm filhos e dedicam-se em tempo integral ao trabalho
reprodutivo. Como mencionado ao longo deste livro, esse tipo de trajetória é
bastante comum na classe média japonesa. O salário familiar, via remuneração do
cônjuge, sustenta a casa, enquanto as mulheres permanecem no espaço doméstico e
no trabalho reprodutivo, mesmo aquelas que chegaram a consolidar suas
carreiras.
Outras
amigas que não se casaram vivem em grandes centros, como Tóquio. Entre elas, as
que optaram por seguir a carreira profissional conseguiram, ainda que de forma
bastante tímida, ascensão no mundo corporativo. Contudo, devido à opressão de
gênero típica do país, essas mulheres com alto nível profissional enfrentam
menores chances de encontrar parceiros para se relacionar.
Nesse
meu retorno ao Japão, uma das facetas que mais chamou minha atenção foi a
diferença entre a situação de minha família e a realidade de meu grupo de
amigas. Minha família, imigrante, que esperava fluxo e mobilidade, permanecia
nos mesmos postos de trabalho, na mesma moradia e com condições materiais de
vida bastante semelhantes às de sempre. Cabe ressaltar que essa situação não
resultou em relatos de insatisfação ou infelicidade pela trajetória migratória.
Como já observei no caso de minha mãe, a valoração da vida e os sentidos
positivos ou negativos que atribuímos a ela excedem nossas condições materiais
imediatas.
Por
outro lado, o grupo de minhas amigas, ao longo desses quinze anos, seguiu um
caminho radicalmente distinto do de minha família. A noção da mobilidade (que,
afinal, trazia também certa liberdade) esteve sempre muito presente para elas.
Elas saíram de suas cidades de origem, cursaram universidade em diferentes
regiões, tiveram profissões em diversas províncias japonesas, algumas atuaram
no exterior, fizeram viagens internacionais e vivem o mesmo Japão de forma
diversa.
Apesar
da felicidade em reencontrar tantas pessoas queridas que são partes de mim,
essas duas situações me trouxeram desconforto. O que separa minha família de
minhas amigas, afinal, são diferenças de classe e etnia. Diferenças que definem
o rumo e a trajetória de vida de maneira desigual, e que, tenho consciência,
não se restringem ao universo que observei, mas moldam a vida de todas as
pessoas num mundo em que a exploração e a opressão ainda imperam.
Por
fim, reproduzo a conversa que tive com um dos entrevistados. No primeiro
capítulo do livro, descrevi um episódio de 1999, quando ocorreu um conflito
entre a extrema direita nacionalista e os imigrantes no Homidanchi. Na ocasião,
eu estava presente e morava perto do local. Recordo com nitidez de quando o
grupo nacionalista percorreu de ônibus o conjunto habitacional com frases
anti-imigrantes e discursos de ódio propagados por um megafone. Sobre o
episódio, comenta o nosso interlocutor:
“É. Se
você for contar essas histórias desses caras do Homi[danchi], dessa época aí,
não acaba mais não. Hoje tem racismo, mas não é tanto como antigamente. No Homi
tinha pessoal que era muito unido. Começou a se unir e tipo assim, japonês
falava alguma coisa, todo mundo ia lá e descia o couro nesse japonês. Tinha um,
aqui tem um pessoal japonês que eles ficam fazendo palestra contra estrangeiro
no Japão. Foram no Homi. Então. Eles foram com ônibus lá. Numa época, tacaram
fogo nesse ônibus aí. Essas pessoas todas eu conheço. O que tacou fogo no
ônibus ele morreu esses dias, ele pulou do prédio.”
Essa
fala ilustra bem o registro do episódio emblemático que ficou na memória da
população decasségui. Conhecer o destino de uma pessoa envolvida nesse evento,
após mais de vinte anos, revela um pouco do universo complexo que é a migração.
¨
MPF alerta cidadãos sobre perigos do tráfico de pessoas e
mostra como denunciar
O
tráfico de pessoas pode estar mais perto do que se imagina, por trás de uma
oferta de emprego na internet, de uma promessa de viagem dos sonhos ou de uma
vida melhor. O número de brasileiros vítimas desse crime cresceu 33% no ano
passado, segundo o Relatório Nacional sobre Tráfico de pessoas. A internet e
ferramentas de inteligência artificial são cada vez mais utilizadas para
aliciar as vítimas por meio de promessas que se transformam em graves violações
de direitos humanos ao chegar no destino.
Para
alertar sobre os sinais desse crime e mostrar como denunciar às autoridades, o
Ministério Público Federal (MPF) vai publicar, durante todo o mês de julho, uma
série de conteúdos informativos no site, redes sociais, rádio e televisão.
A ideia é que a população, além de se proteger, ajude a prevenir e combater a
prática.
A
iniciativa é da Unidade Nacional de Enfrentamento do Tráfico Internacional de
Pessoas e do Contrabando de Migrantes (UNTC) - ligada à Secretaria de
Cooperação Internacional - e da Comunicação Social do MPF. Denúncias sobre a
prática do crime podem ser feitas on-line, via MPF Serviços, ou pelos telefones 100 e 180. No exterior
também é possível procurar o consulado brasileiro.
Uma
modalidade cada vez mais frequente do crime tem sido o aliciamento de jovens
pela internet para trabalhar em países do Sudeste Asiático. No último ano, o
Camboja foi o principal destino de brasileiros traficados no mundo.
Segundo
a coordenadora da UNTC, Stella Scampini, ao chegarem no destino final, os
jovens são obrigados a trabalhar em centros de golpes digitais (scam centres),
com jornadas exaustivas de trabalho. Além disso, têm o passaporte apreendido
pelos criminosos, adquirem dívidas de passagem, hospedagem e alimentação e são
impedidos de deixar o local. “Temos identificado esse mesmo modelo de operação
em países da América do Sul e da África. Por isso as pessoas precisam estar
atentas a promessas muito atrativas na internet”, alerta a procuradora.
De
acordo com ela, é preciso tomar alguns cuidados, desconfiar da oferta de
altos salários, promessas de passagem e hospedagem além de facilidades para
obter visto. O ideal é exigir detalhes sobre o contrato e o local de emprego,
pesquisar informações sobre a empresa ou o agenciador, entrar em contato com
outras pessoas que já foram para o destino, não assinar documentos sem tradução
e não entregar passaporte ou documentos pessoais. Antes de partir, compartilhar
contatos e o itinerário com os familiares também é importante.
Este
ano, o MPF conseguiu que a Justiça aumentasse para 23 anos de prisão a pena aplicada
a um homem condenado por aliciar, recrutar e levar 12 brasileiros para Myanmar,
país do sudeste asiático, para serem explorados em esquemas de aplicação de
golpes virtuais. Além disso, a UNTC apresentou à Justiça Federal denúncia contra três brasileiros e um
chinês por
aliciar e levar para o Camboja pelo menos 17 pessoas, que foram traficadas para
aplicar golpes financeiros na internet contra outros brasileiros.
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Outros tipos de exploração
- Segundo Stella,
há ainda muitos casos de mulheres e pessoas trans levadas a outros países para
exploração sexual, além de estrangeiros trazidos ao Brasil para serem
explorados em plantações ou fábricas clandestinas. Outro caso que tem chegado à
UNTC são notícias do suposto aliciamento de pessoas para serem exploradas em
países que estão em guerra.
Segundo
os relatos, as ofertas são feitas pela internet, com promessa de altos salários
em dólar para trabalhos na cozinha, em apoio às atividades de guerra, para
pilotar drone, entre outros. No entanto, ao chegarem no destino as vítimas
seriam direcionadas à linha de frente de combate, de acordo com denúncias
levadas ao MPF. “São casos que estão sendo investigados no Brasil sob a ótica
do tráfico internacional de pessoas. Outros países, como o Peru, têm feito
alertas à população sobre esse tipo de prática”, explica a coordenadora da
UNTC.
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Tráfico de pessoas é crime
- Previsto no
art. 149-A do Código Penal, o tráfico de pessoas abrange oito tipos de prática:
gerenciar, aliciar, recrutar, transportar, transferir, comprar, alojar ou
acolher pessoa. Para configurar crime, a conduta deve ser praticada mediante
grave ameaça, violência, coação, fraude ou abuso. A finalidade também pode
variar entre : submeter a pessoa a qualquer tipo de servidão, trabalho similar
ao escravo, exploração sexual, remoção de órgãos ou adoção ilegal.
A pena
prevista em lei vai de quatro a oito anos de prisão, que pode ser aumentada de
um terço até a metade caso a vítima seja levada a outro país.Cabe ao MPF
investigar os casos e apresentar ação à Justiça pedindo a punição dos
envolvidos.
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Coração Azul
- A ação de
comunicação do MPF faz parte da Campanha Coração Azul. Criada pelo Escritório
das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) em 2009, a campanha é realizada
anualmente em diversos países, incluindo o Brasil. O objetivo é conscientizar a
sociedade sobre esse problema mundial, fortalecer a prevenção e o combate a
esse crime, para garantir apoio às vítimas e evitar a impunidade.
Este
mês, o MPF também participa da campanha do Projeto Liberdade no Ar, em parceria com
outras 16 instituições, que está sendo veiculada nos aeroportos brasileiros e
em locais de grande circulação. As peças buscam alertar para as
tentativas de aliciamento de crianças e adolescentes nas redes sociais.
Esse grupo corresponde a um terço das vítimas de tráfico de pessoas no
mundo, segundo o UNODC.
Fonte: Por
Mariana Shinohara Roncato, no Blog da Boitempo/PGR

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