quinta-feira, 16 de julho de 2026

Dino veta “terceirização” de emendas e critica “oligarquia parlamentar”

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), vetou a terceirização de emendas parlamentares, afirmou que somente deputados e senadores podem indicar a destinação desses recursos e alertou para o risco de formação de uma “oligarquia parlamentar”. A manifestação ocorreu após o bloqueio de bens do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (Republicanos), investigados por suposta interferência irregular na distribuição de verbas do Orçamento.

Em despacho assinado nesta terça-feira (14), no processo que acompanha a transparência e a rastreabilidade das emendas, Dino considerou ilegítima a atuação de ex-parlamentares, dirigentes partidários e outros agentes privados na definição do destino de recursos públicos. O ministro classificou como incompatível com a Constituição a manutenção de estruturas informais de comando sobre o Orçamento da União.

“A definição da destinação dos recursos públicos é incompatível com a atuação de centros informais de deliberação orçamentária”, afirmou Dino. Para o ministro, a prerrogativa de apresentar emendas decorre diretamente do mandato conferido pelo eleitor e não pode ser transferida, negociada ou exercida por pessoas sem mandato parlamentar.

<><> Dino critica “oligarquia parlamentar”

Ao analisar as irregularidades identificadas nas investigações, Dino afirmou que a política orçamentária não pode ficar submetida às decisões de um grupo restrito, especialmente quando integrantes do Congresso repassam a pessoas externas o controle sobre verbas públicas.

“Uma oligarquia parlamentar já seria um grave equívoco constitucional; ainda é pior quando um pequeno grupo se acha legitimado até mesmo para transferir a terceiros — que não são parlamentares — o controle sobre a alocação de recursos do Orçamento Geral da União”, escreveu.

O ministro também rechaçou a existência do que chamou de um “mercado de terceirização ou privatização” das emendas. Segundo ele, esse tipo de prática é “totalmente incompatível” com a Constituição por violar os princípios da legalidade, da moralidade e da finalidade administrativa.

Dino ressaltou que acordos políticos e partidários podem orientar decisões de deputados e senadores, mas não podem resultar na transferência informal de prerrogativas constitucionais. “Seria normal que um parlamentar atendesse a uma sugestão eventual de um aliado político, mas é totalmente anômalo que ex-parlamentares mantenham cotas orçamentárias informais e, diretamente, transmitam ordens para funcionários da Casa Parlamentar”, declarou.

<><> Eleições ampliam gravidade das suspeitas

O ministro fez ainda um alerta sobre a possibilidade de recursos de emendas serem vinculados a interesses eleitorais. Para Dino, eventuais conexões entre a “esdrúxula terceirização de emendas e projetos eleitorais” representariam violações ainda mais graves e um “choque frontal” contra os valores estabelecidos pela Constituição.

A advertência ocorre em meio às apurações sobre a suposta atuação de Valdemar Costa Neto e Eduardo Cunha na indicação de emendas. Os bens de ambos foram bloqueados por determinação do ministro diante das suspeitas de peculato-desvio e associação criminosa relacionadas à destinação de recursos públicos.

Sem detalhar as investigações em andamento, Dino afirmou que “as condutas díspares já identificadas ou em identificação estão sendo tratadas em autos específicos”.

<><> Apenas deputados e senadores podem indicar emendas

No despacho, Dino enfatizou que, pelas regras atualmente em vigor, apenas deputados federais e senadores possuem legitimidade para apresentar indicações aos funcionários responsáveis pela execução do Orçamento no Congresso.

O ministro ironizou a possibilidade de criação de outras modalidades de emendas e afirmou que o Parlamento poderia, por meio de uma mudança constitucional, instituir “emendas de partidos políticos, de ONGs, de Igrejas, Sindicatos, abaixo-assinados, votação pela internet, emendas de Estados, Municípios”.

Enquanto isso não ocorrer, porém, a indicação de emendas continua sendo uma atribuição exclusiva dos congressistas. Para Dino, as chamadas “terceirizações” ou “cessões” de recursos são “obviamente ilegais”.

O ministro também condenou a transformação informal das emendas de comissão em instrumentos controlados por lideranças partidárias. Segundo ele, essa prática não existe no ordenamento jurídico e é expressamente proibida.

“A definição da destinação dos recursos públicos é incompatível com a atuação de centros informais de deliberação orçamentária, sejam eles integrados por parlamentares que atuem à margem dos procedimentos estabelecidos pela Constituição e pela legislação de regência — a exemplo da inconcebível transformação de ‘emendas de comissão’ em ‘emendas de líder partidário’, prática inexistente na ordem jurídica e expressamente vedada —, sejam por ex-parlamentares, dirigentes partidários ou quaisquer outros agentes privados destituídos de legitimidade para interferir na alocação de recursos públicos, hipótese que se revela ainda mais excêntrica”, afirmou.

<><> Emendas não são patrimônio privado

Dino destacou que deputados e senadores não são proprietários das emendas parlamentares. Por se tratar de dinheiro público, os recursos não podem ser tratados como bens particulares que possam ser cedidos, emprestados ou comercializados.

Para ilustrar o argumento, o ministro comparou as emendas a outras estruturas disponibilizadas aos integrantes do Congresso, como gabinetes e apartamentos funcionais.

“Um membro do Congresso Nacional resolve não utilizar o seu gabinete de trabalho ou o apartamento funcional a ele destinado. Ele pode cedê-los a terceiros que não são parlamentares? Ou alugá-los a um particular? Evidente que não, pois há a indisponibilidade do patrimônio público e a afetação a finalidades normativamente estabelecidas”, salientou.

Na avaliação de Dino, as prerrogativas parlamentares “não podem ser delegadas, cedidas ou informalmente transferidas” porque estão vinculadas ao interesse público e à representação política conferida pelo voto. O controle de recursos fora dos procedimentos oficiais, portanto, representa uma afronta à Constituição e à obrigação de transparência na aplicação do Orçamento federal.

•        Dino manda PF ampliar investigação sobre orçamento secreto

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Federal amplie a investigação sobre emendas parlamentares após auditorias apontarem possíveis casos de superfaturamento, direcionamento de contratos e falta de transparência na aplicação dos recursos públicos, informa a CNN Brasil.

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A medida foi adotada depois que o STF recebeu relatórios da Controladoria-Geral da União (CGU) e do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (Denasus). Os documentos identificaram fragilidades na execução de emendas Pix e de transferências destinadas ao setor da saúde, conforme informou a CNN Brasil.

A auditoria da CGU examinou a utilização das chamadas emendas Pix entre 2020 e 2024. A análise considerou uma amostra de 15 municípios distribuídos pelas cinco regiões brasileiras. Entre os 14 entes que efetivamente executaram os recursos, nove apresentaram algum tipo de irregularidade na contratação de bens ou serviços.

De acordo com a Controladoria, as ocorrências mais graves incluem “indícios de direcionamento da contratação, sobrepreço e superfaturamento”. Os técnicos também encontraram problemas relacionados à divulgação dos gastos e à possibilidade de acompanhar o caminho percorrido pelo dinheiro público.

Dos 15 municípios avaliados, 12 apresentaram nível considerado inadequado de transparência ativa e de rastreabilidade. A fiscalização apontou ainda falhas no acompanhamento das despesas e na verificação da execução dos projetos financiados pelas emendas.

<><> Auditoria analisa R$ 53,3 milhões destinados à saúde

Outro relatório enviado ao Supremo analisou R$ 53,3 milhões em emendas destinadas a 48 municípios de 23 unidades da Federação. Os recursos deveriam financiar ações de atenção primária, serviços de média e alta complexidade, compra de equipamentos e reformas de unidades básicas de saúde.

O levantamento foi elaborado pelo Denasus. Embora uma parcela expressiva do dinheiro tenha sido utilizada, os auditores identificaram deficiências nos processos de planejamento, administração, monitoramento e prestação de contas.

Entre os problemas encontrados estão dificuldades para rastrear a execução financeira, controles administrativos considerados insuficientes, ausência de acompanhamento sistemático e documentação incompleta das despesas realizadas.

O relatório também descreve situações que levaram à proposta de devolução de recursos. Os casos envolvem possível dano aos cofres públicos ou aplicação do dinheiro em finalidade diferente daquela prevista nas normas das transferências.

<><> Dino critica controle informal de verbas públicas

Ao determinar a ampliação das investigações, Dino voltou a questionar práticas adotadas na indicação e na execução das verbas parlamentares. O ministro criticou especialmente a possível influência de ex-congressistas sobre recursos do Orçamento.

Dino afirmou ser “totalmente anômalo que ex-parlamentares mantenham cotas orçamentárias informais e, diretamente, transmitam ordens para funcionários da Casa Parlamentar”.

O ministro também reiterou que as emendas parlamentares “não são parcelas do patrimônio privado de cada membro do Congresso”. Para ele, a destinação das verbas deve respeitar critérios constitucionais, mecanismos de transparência e instrumentos que permitam identificar os responsáveis pelas indicações.

<><> Operação apura atuação de pessoas sem mandato

A decisão está relacionada à Operação Transparência, que investiga um suposto esquema de desvio de emendas parlamentares. As apurações buscam esclarecer se pessoas sem mandato utilizaram a estrutura administrativa da Câmara dos Deputados para direcionar recursos em nome de parlamentares.

Na semana anterior, Dino havia determinado o bloqueio de bens de investigados no caso, apesar de parecer contrário da Procuradoria-Geral da República (PGR). A medida atingiu, entre outros alvos, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, atualmente filiado ao Republicanos de Minas Gerais.

Parte do patrimônio dos investigados foi congelada para assegurar eventual ressarcimento aos cofres públicos, caso as apurações confirmem irregularidades na destinação ou no uso das verbas.

Dino sustentou que a atuação do Supremo no caso não representa interferência nas escolhas políticas do Congresso Nacional ou do Poder Executivo. Segundo o ministro, cabe ao STF fiscalizar a constitucionalidade e a legalidade da execução das emendas.

A investigação integra o acompanhamento realizado pelo Supremo sobre o plano de trabalho firmado entre os Poderes para ampliar a transparência, a rastreabilidade e o controle das verbas parlamentares. O acordo foi elaborado após decisões da Corte que determinaram mudanças no modelo de indicação e execução desses recursos.

•        Valdemar defende atuação de dirigentes partidários sobre emendas e diz que prática é comum

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, defendeu nesta terça-feira (14) a participação de dirigentes partidários na definição do destino de emendas parlamentares. Segundo o G1, em entrevista ao programa Estúdio i, da GloboNews, Valdemar sustentou que cabe à direção das legendas estabelecer prioridades para a distribuição dos recursos, argumentando que apenas os dirigentes possuem uma visão ampla das necessidades partidárias em âmbito nacional.

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As declarações ocorrem em meio às investigações da Polícia Federal (PF) sobre um suposto esquema de destinação irregular de emendas parlamentares envolvendo o presidente do PL.

<><> “A função do presidente é cuidar do partido”

Questionado sobre a participação de presidentes de partidos na definição de emendas parlamentares, Valdemar afirmou que essa prática seria comum entre as legendas. “Mas é lógico. A função do presidente é cuidar do partido”, declarou.

Segundo ele, deputados federais tendem a concentrar esforços no atendimento às demandas de suas bases eleitorais, enquanto a direção partidária teria uma visão mais abrangente das prioridades nacionais da legenda.

No entanto, a legislação estabelece que a indicação de emendas parlamentares é uma prerrogativa exclusiva de deputados federais e senadores. Como Valdemar não exerce mandato parlamentar, a Polícia Federal considera irregular sua eventual participação na destinação desses recursos públicos.

<><> Investigação da PF e decisão do STF

As declarações foram dadas poucos dias após o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a suspensão de emendas parlamentares que, segundo as investigações, teriam sido indicadas de forma irregular por Valdemar Costa Neto.

O presidente do PL é investigado pelos supostos crimes de desvio de dinheiro e associação criminosa. De acordo com a Polícia Federal, há indícios de que um esquema clandestino tenha desviado R$ 119 milhões em emendas parlamentares.

Segundo a investigação, deputados federais apareciam formalmente como “solicitantes” das emendas, enquanto as indicações efetivamente eram organizadas por Valdemar. As planilhas com os pedidos eram posteriormente encaminhadas aos ministérios responsáveis pela execução dos programas federais, conferindo aparência de legalidade ao procedimento.

<><> Defesa da articulação política

Na entrevista, Valdemar também afirmou que a negociação envolvendo emendas faz parte da dinâmica política e serve para atender prefeitos e vereadores que buscam recursos federais, mas que não possuem interlocutores diretos no Congresso Nacional.

 

Fonte: Brasil 247

 

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