'Olho
por olho, dente por dente?' O que diz a Lei de Reciprocidade que Lula quer usar
contra novo tarifaço dos EUA
O
governo brasileiro disse nesta quinta-feira (16/07) que pretende usar a Lei da
Reciprocidade Econômica contra um novo
tarifaço que foi anunciado pelo governo dos Estados Unidos contra o Brasil.
O
Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em
inglês) anunciou o fim da investigação sobre práticas comerciais brasileiras
consideradas injustas pelo governo americano e a aplicação de tarifas de 25%
sobre uma série de produtos brasileiros exportados aos EUA.
A
decisão é chancelada pelo presidente americano, Donald Trump, e entrará em
vigor em 22 de julho. A tarifa foi justificada alegando práticas como
favorecimento ao Pix, acesso ao mercado de etanol e problemas relacionados à
corrupção e desmatamento.
Em
nota, o governo brasileiro repudiou a decisão anunciada e disse que iniciará os
trâmites para acionar a Lei de Reciprocidade aprovada pelo Congresso Nacional
junto à Organização Mundial do Comércio (OMC).
A Lei
de Reciprocidade Econômica é um instrumento novo aprovado pelo Congresso em
abril de 2025 e sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em julho
do mesmo ano — na mesma semana em que Donald Trump havia anunciado
tarifas de 50% sobre
produtos brasileiros.
O
decreto estabelece em que casos e de que forma o governo
brasileiro pode retaliar medidas como as impostas por Trump.
O texto detalha os
"critérios para suspensão de concessões comerciais, de investimentos e de
obrigações relativas a direitos de propriedade intelectual em resposta a
medidas unilaterais adotadas por país ou bloco econômico que impactem
negativamente a competitividade internacional brasileira".
A
elaboração do decreto que regulamenta a lei foi um dos primeiros passos tomados
pelo governo brasileiro após o anúncio das tarifas de Trump.
Fim do
Promoção Agregador de pesquisas
A Lei
da Reciprocidade Econômica foi aprovada por ampla maioria no Congresso
Nacional, num movimento inusitado das bancadas governistas e de oposição que,
nos últimos anos, têm votado cada vez mais raramente na mesma direção.
Na
terça-feira (14/07), antes do anúncio oficial das novas tarifas americanas, o
ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo brasileiro poderia
adotar a reciprocidade caso os Estados Unidos confirmassem um novo tarifaço
contra o Brasil.
"A
gente chegou a suspender a tramitação do processo de reciprocidade, seguindo a
lei do Congresso Nacional, quando houve uma espécie de volta atrás no tarifaço.
Com isso agora, acho que é provável que a gente, uma vez consultado o
presidente Lula, retome o processo de reciprocidade. Tudo isso dentro de um
cenário de avaliação cautelosa", afirmou a jornalistas.
O
anúncio já era esperado por diplomatas ouvidos em caráter reservado pela BBC
News Brasil e pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços
(MDIC), Márcio Elias Rosa.
Em
entrevista concedida há duas semanas à BBC News Brasil, o ministro afirmou que
o governo brasileiro ainda tentava negociar um acordo de última hora com
Washington, mas já admitia a possibilidade de um desfecho desfavorável para o
país.
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O que diz a lei?
Segundo
o projeto aprovado no Congresso e sancionado pelo presidente, a Lei de
Reciprocidade Econômica pode ser utilizada em três circunstâncias.
A
primeira ocorre quando um país ou bloco econômico ameaçar ou impuser, de forma
unilateral, barreiras comerciais, financeiras ou de investimentos com o
objetivo de interferir em decisões "soberanas" do Brasil.
A
segunda possibilidade de utilização da lei é se um país ou bloco econômico
violar termos de um acordo comercial com o Brasil, prejudicando o país e as
empresas brasileiras.
A
terceira possibilidade é a imposição de medidas comerciais baseadas em
exigências ambientais que sejam mais restritivas que as previstas pela lei
brasileira.
Um
exemplo prático seria impedir a compra de commodities agrícolas
brasileiras produzidas no Cerrado ou na Amazônia de acordo com as normas
ambientais brasileiras sob o argumento de normas ambientais do país ou bloco
comprador teriam sido violadas pelos produtores brasileiros.
Se essa
exigência for unilateral e não baseada em acordos multilaterais, e tiver um
impacto negativo na exportação de produtos brasileiros, o Brasil poderia
considerá-la uma medida passível de retaliação sob esta lei.
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Quais as armas do governo?
O
decreto também elenca os mecanismos que o governo tem para reagir às tarifas.
A
principal ferramenta é a imposição de tarifas a bens ou serviços importados do
país que iniciou a guerra tarifária.
Pelo
decreto, o Brasil pode aplicar tarifas adicionais ou sobretaxas a produtos
específicos. A ideia é torná-los mais caros e, consequentemente, menos
competitivos no mercado brasileiro.
Outro
mecanismo é a possibilidade de o Brasil deixar de cumprir termos de acordos
comerciais firmados com o país ou bloco "agressor".
Isso
teria impacto em cotas de importação ou de exportação previamente acordadas
entre as partes.
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Olho por olho, dente por dente?
Apesar
de ter sido batizada como "Lei de Reciprocidade Econômica", o decreto
que regulamentou o texto manteve a ideia de que a sua aplicação não deverá
atender lógica do "olho por olho, dente por dente" de forma
irrestrita.
A lei,
por exemplo, estipula que a imposição de medidas de retaliação deverá
"minimizar o impacto sobre a atividade econômica e evitar ônus e custos
administrativos".
Essa
determinação é resultado da preocupação do governo e do Congresso de que
tarifas contra determinados produtos importados possam acabar prejudicando
cadeias produtivas já instaladas no Brasil que dependam desses insumos para a
produção de bens ou serviços no país.
O
decreto também prevê as etapas para a adoção de medidas de retaliação.
A
primeira será a formação de comitês para avaliar o caso e a realização de
consultas públicas com representantes das partes interessadas.
Na
prática, o governo já deu início a essa fase ao montar uma comissão com
empresários de diferentes setores para discutir a resposta do governo.
No
decreto assinado pelo presidente Lula, o grupo que avalia o caso é chamado de
"Comitê Interministerial de Negociação e Contramedidas Econômicas e
Comerciais".
Ele é
presidido pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (o
também vice-presidente Geraldo Alckmin), e conta com a participação dos
ministérios da Casa Civil, da Fazenda e das Relações Exteriores.
As
contramedidas brasileiras também são avaliadas pela Câmara de Comércio Exterior
(Camex), onde haverá a participação de representantes da administração pública
e de setores privados da economia.
A
segunda etapa envolve estipular prazos para análise das demandas enviadas pelos
setores consultados.
O
terceiro passo é a sugestão e a implementação das medidas, com eventuais
consultas diplomáticas e negociações.
O
decreto também estipula que o Poder Executivo fica autorizado a adotar
retaliação de forma provisória enquanto o governo realiza as etapas anteriores.
O texto
também prevê que o governo deverá montar uma comissão de monitoramento das
retaliações e que poderá revogá-las ou alterá-las com base nas negociações
diplomáticas em curso.
¨ Trump transforma
autonomia do Brasil em delito comercial, diz jornal britânico sobre tarifas
O
jornal britânico The Guardian publicou na terça-feira (14/07) um editorial no
qual afirma que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usa acusações comerciais e tarifas
contra o Brasil para atacar a autonomia do país.
O
governo dos EUA deve anunciar até esta quarta-feira (15/07) se vai aplicar
novas tarifas contra o Brasil como parte de uma grande investigação sobre
práticas comerciais brasileiras consideradas injustas pela Casa Branca —
incluindo ataques ao Pix.
"A
ameaça de tarifas de Donald Trump enquadra os esforços do Brasil para
proteger sua democracia como uma prática comercial desleal — e confere ao
bolsonarismo um palco em Washington", afirma o editorial do jornal.
O
jornal afirma que "Trump rejeita a defesa" que o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz da
soberania brasileira.
"Lula
quer que o Brasil tenha capacidade de fiscalizar a desinformação
antidemocrática [dentro do país]. Trump acredita que os EUA deveriam ter
jurisdição sobre o espaço informacional do país", diz o editorial.
O texto
destaca que, em junho passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) "reagiu às
mentiras online que ajudaram a alimentar a tentativa fracassada de golpe de
extrema-direita liderada por Jair Bolsonaro em 2023".
O
Guardian diz que o STF decidiu que as plataformas de redes sociais poderiam ser
responsabilizadas por postagens de alguns usuários, obrigando empresas como a
X, de Elon Musk, e a Meta, de Mark Zuckerberg, a remover discursos de ódio e
conteúdos antidemocráticos.
"Um
mês depois, Donald Trump propôs uma tarifa de 25% sobre as
importações brasileiras, queixando-se de que os juízes haviam obrigado empresas
de tecnologia dos EUA a retirar do ar material 'político'", afirma o
jornal britânico.
O
editorial também faz referências aos ataques dos EUA ao Pix.
"Outra
questão de soberania diz respeito a quem controla a infraestrutura financeira
do Brasil e se é possível existir, na América Latina, uma infraestrutura
pública de pagamentos bem-sucedida que não esteja sob controle americano",
escreve o jornal.
"Assim
como a Índia, o Brasil construiu uma infraestrutura pública digital [o Pix]
projetada para reduzir a dependência de redes de pagamento controladas por
estrangeiros e proteger seu sistema doméstico de pagamentos contra pressões ou
sanções externas. Na prática, o sistema contorna as redes de cartão nos moldes
da Visa e da Mastercard, ameaçando os lucros dessas empresas."
O
editorial do Guardian também faz referência às eleições brasileiras, em que
Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparecem na frente nas pesquisas.
"[Flávio]
Bolsonaro é menos carismático que seu pai, mas está baseado no mesmo
antiesquerdismo simplista, nas mesmas políticas punitivas de 'lei e ordem' e
nas mesmas guerras culturais de extrema-direita", afirma o jornal.
O
Guardian disse que o pedido de Flávio Bolsonaro a Trump para que evite tarifas
contra o Brasil até as eleições de outubro foi "extremamente
audacioso".
Já Lula
é descrito como um dos políticos "mais bem-sucedidos deste século".
"De
operário a líder sindical e fundador de partido, Lula fez da redistribuição a
linguagem da democracia brasileira. A pobreza extrema caiu de 30 milhões em
2002 para menos de 7 milhões atualmente. Ele governou de 2003 a 2011. A
política brasileira é polarizada: Lula só retornou em 2023 depois que juízes
anularam condenações por corrupção."
"A
verdadeira infração [do Brasil] não é o protecionismo, mas a autonomia",
escreve o Guardian.
"Trump
rebatizou essa soberania brasileira como discriminação comercial injusta. É tão
previsível quanto preocupante que o bolsonarismo esteja disposto a embarcar
nessa narrativa."
Fonte:
BBC News Brasil/g1

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