quinta-feira, 16 de julho de 2026

Irã quer transformar conflito militar com EUA em guerra econômica, diz especialista

O Estreito de Ormuz é hoje a principal fonte de influência estratégica e de dissuasão do Irã em seu conflito com os Estados Unidos e por isso Teerã tenta transformar o conflito militar em uma guerra econômica. A avaliação é de Mehran Kamrava, cientista político e professor da Universidade de Georgetown no Catar, em entrevista à BBC.

Kamrava afirma que o chamado "Eixo da Resistência" do Irã — que inclui grupos como o Hamas, em Gaza, o Hezbollah, no Líbano, e os houthis, no Iêmen — está desarticulado, ou pelo menos militarmente enfraquecido, em consequência da guerra. Por isso, o Estreito de Ormuz ganhou importância estratégica para os iranianos.

"Para o Irã, o Estreito de Ormuz é uma importante fonte de influência estratégica e sua principal fonte de dissuasão", disse Kamrava ao programa Today, da Rádio 4 da BBC, nesta terça-feira (14/07).

Segundo o professor, o Irã "tem plena consciência" de que não pode enfrentar os EUA em condições de igualdade em uma guerra.

"Por isso, o Irã procura transformar um conflito militar em um conflito econômico. É justamente por essa razão que deseja manter sua influência sobre o Estreito de Ormuz."

Como resposta, Kamrava acredita que os EUA estão "determinados a retirar do Irã o controle do estreito", mas ele acha que ninguém sabe exatamente como isso pode ser feito — "nem mesmo os estrategistas do Pentágono".

"Já vimos o presidente dos EUA tentar diversas abordagens, e parece que os americanos agora estão adotando uma estratégia diferente. Eles estão atacando locais altamente estratégicos ao longo da costa sul do Irã, no Golfo Pérsico", afirma o professor da Universidade de Georgetown

"Se isso poderá eventualmente levar a uma invasão terrestre da Ilha de Kharg ou de alguma outra ilha iraniana é algo que precisaremos acompanhar de perto."

O professor avalia que tanto o Irã quanto os EUA querem que o conflito chegue ao fim, mas ambos insistem que isso precisa acontecer nos seus próprios termos.

"Países como Omã, Catar e Paquistão estão fazendo o que podem para incentivar uma mediação. Seja por meio do memorando de entendimento já assinado ou de alguma versão dele, os dois países reconhecem a necessidade de chegar a algum tipo de solução negociada", diz Kamrava.

"O que exatamente isso significará, no entanto, ainda está indefinido."

O conflito entre Irã e EUA está tendo repercussões negativas na região, segundo o professor. Ele afirma que países como Catar e Emirados Árabes Unidos passaram as últimas décadas construindo uma imagem de segurança, estabilidade e prosperidade.

"E tudo isso está sendo abalado pelo que parece ser uma escalada involuntária do conflito. A frente envolvendo a Arábia Saudita e os houthis voltou a se intensificar. Se os houthis decidirem fechar o Estreito de Bab el-Mandeb [outra via marítima crucial para a economia global], poderemos estar diante de uma nova escalada significativa. Estamos vivendo um momento extremamente delicado."

<><>Bloqueio americano em Ormuz

O presidente americano, Donald Trump, afirmou na segunda-feira que os EUA irão controlar o Estreito de Ormuz e bloquear o acesso aos portos iranianos, alegando que o Irã violou um acordo firmado com o país.

Segundo Trump, o estreito permanecerá aberto, mas o controle americano impedirá que "navios iranianos ou seus clientes entrem ou saiam".

Em comunicado divulgado no X, o Comando Central dos EUA (Centcom) informou que o bloqueio entrará em vigor nesta terça-feira (14/7) às 17h (horário de Brasília).

Os EUA lançaram ataques contra o Irã pela terceira noite consecutiva na segunda-feira, em meio à escalada das hostilidades entre os dois países.

Os Emirados Árabes Unidos acusaram o Irã de um ataque "audacioso" a dois navios-tanque no Estreito de Ormuz, que deixaram um tripulante morto e oito feridos — quatro deles gravemente.

Trump também anunciou uma taxa de 20% sobre toda a carga transportada pelo estreito, mas não explicou como isso funcionaria. O dinheiro arrecadado, segundo Trump, seria para bancar a operação americana na via navegável essencial ao comércio de petróleo mundial.

"O Estreito de Ormuz está aberto, e permanecerá aberto, com ou sem o Irã. Estamos restabelecendo o bloqueio ao Irã — assim chamado porque impede apenas que navios ou clientes do Irã entrem ou saiam", escreveu o presidente americano, em publicação na sua rede social Truth Social.

"Os EUA serão, daqui em diante, conhecidos como 'o guardião do Estreito de Ormuz'; no entanto, nessa condição — e por uma questão de Justiça—, serão reembolsados (à taxa de 20% sobre toda a carga transportada) por todos e quaisquer custos necessários para garantir a segurança e a proteção desta região do mundo, que é extremamente instável", disse Trump.

¨      Recuo de Trump sobre pedágio em Ormuz indica dificuldade para encerrar guerra com Irã

Na manhã de segunda-feira (13/07), em uma publicação nas redes sociais que anunciava a retomada de um bloqueio naval americano contra navios iranianos, o presidente Donald Trump afirmou que todas as embarcações que atravessassem o Estreito de Ormuz — incluindo as de aliados dos Estados Unidos — deveriam pagar um pedágio de 20% para reembolsar o país pelos "custos necessários para garantir segurança e proteção" em uma das regiões mais instáveis do mundo.

No dia seguinte, porém, ele abandonou completamente a proposta e afirmou que buscaria "acordos comerciais e de investimento" com os aliados americanos no Golfo, sugerindo que os EUA poderiam oferecer passagem segura pelo estreito em troca dessas negociações.

A mudança repentina de posição foi mais um capítulo de um conflito que já dura mais de quatro meses e que, apesar de um "memorando de entendimento" firmado há cerca de um mês para estabelecer um cessar-fogo temporário e criar uma base para negociações, não dá sinais de estar próximo do fim.

Trump pode estar relutante em escalar a guerra diante da impopularidade do conflito, da possibilidade de aumento nos preços de energia e dos riscos de que forças americanas e aliados voltem a ser alvo de ataques iranianos.

Mas o presidente também pode considerar pouco atraente a possibilidade de encerrar o conflito sem um acordo que ele possa apresentar como superior ao firmado pela administração de Barack Obama em 2015.

Acho que o desfecho mais provável é um não desfecho", afirmou Rosemary Kelanic, diretora do programa para Oriente Médio da organização Defense Priorities.

"Isso se transformou em uma guerra de desgaste, e guerras de desgaste tendem a durar um período muito, muito longo."

O memorando de entendimento (MOU, na sigla em inglês) entre Estados Unidos e Irã — e as expectativas de que ele pudesse acabar com a guerra — fracassou às 10h16 no horário do leste dos EUA (12h16 em Brasília) nesta terça-feira (14/07), quando Trump anunciou na rede Truth Social a retomada do bloqueio americano contra navios iranianos, em meio a uma série de novos ataques militares dos EUA contra alvos no Irã.

Os iranianos responderam intensificando ataques contra aliados dos Estados Unidos e contra navios comerciais na região, fazendo o tráfego pelo Estreito de Ormuz voltar a praticamente parar.

Após quase um mês de negociações entre os dois países, marcadas por episódios de hostilidade que colocaram à prova a definição de um "cessar-fogo", Trump e o governo americano parecem enfrentar os mesmos desafios que marcaram grande parte da guerra com o Irã.

Do ponto de vista militar, os Estados Unidos vinham alcançando seus objetivos, considerando o número de navios, aviões e alvos iranianos destruídos e a redução da capacidade de defesa do país. Politicamente, porém, o conflito estava longe de ser resolvido.

Mesmo enfraquecido militarmente, o Irã ainda poderia impedir o acesso ao Estreito de Ormuz. E, a menos que os Estados Unidos estejam dispostos a ampliar drasticamente suas operações militares na região, há pouco que poderiam fazer para impedir essa estratégia.

A proposta de Trump de uma taxa de 20% — possivelmente uma tentativa de tornar mais aceitável para o público americano o compromisso militar dos Estados Unidos na região — não era exatamente uma ideia nova. O presidente já havia sugerido esse tipo de acordo em outras ocasiões durante a guerra.

Mas, há menos de um mês, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, condenou um plano iraniano de cobrar "taxas" sobre navios que passassem pelo Estreito de Ormuz.

"Nenhum país pode cobrar pedágios ou taxas em uma via marítima internacional", afirmou Rubio.

"Isso faz parte do direito internacional vigente. É assim que funcionam as águas internacionais em todo o mundo, e é assim que esperamos que seja aqui."

A mudança de posição de Trump sobre Ormuz é mais uma evidência de que o presidente parece não ter um caminho claro para avançar. O memorando de entendimento, que tanto americanos quanto iranianos apresentaram como uma vitória para seus próprios lados, foi deliberadamente vago e deixou muitos pontos para serem definidos em negociações posteriores.

O documento previa algum papel para o Irã na supervisão do tráfego marítimo em Ormuz. O texto afirmava: "A República Islâmica do Irã fará todos os esforços para garantir a passagem segura de navios comerciais sem cobrança de taxas".

Esse é o papel que o Irã tem buscado afirmar. O memorando também incluía bilhões de dólares em "investimentos" prometidos ao país e o fim das sanções internacionais.

Os americanos podem ter acreditado que esses incentivos, combinados com alertas sobre as consequências do descumprimento do acordo, seriam suficientes para impedir que o Irã usasse suas vantagens geográficas para tentar exercer um controle mais forte sobre Ormuz. Essa avaliação, pelo menos por enquanto, parece ter sido equivocada.

"O memorando de entendimento está completamente morto", afirmou Kelanic. "Tudo o que ele previa agora foi desfeito."

Agora, Trump e os iranianos se encontram em uma situação difícil e familiar. O Irã volta a enfrentar ataques militares americanos em seu território, evidenciando sua incapacidade de defender sua soberania nacional. Com a retomada do bloqueio, suas receitas com petróleo — uma tábua de salvação para o regime iraniano — voltam a ser cortadas.

Enquanto isso, Trump se vê novamente diante de uma escolha entre a escalada — que acarreta custos econômicos e políticos internos — e aceitar algum tipo de resolução que mantenha no poder um regime iraniano hostil.

"Estamos de volta ao ponto inicial, quando a pergunta era: quem tem mais paciência?", afirmou Elliot Abrams, pesquisador sênior de Estudos do Oriente Médio no no Council on Foreign Relations.

"Os iranianos, que não conseguirão exportar petróleo, ou os EUA e outros países que consomem o petróleo do Golfo Pérsico?"

Após meses de preocupação de que a guerra com o Irã provocasse uma nova onda de inflação capaz de prejudicar sua popularidade, Trump recebeu uma notícia positiva na terça-feira: os preços ao consumidor estavam em queda.

Uma retomada completa das hostilidades, ou mesmo uma escalada do conflito, inevitavelmente pressionaria novamente os preços do petróleo, ameaçando essa tendência positiva e colocando os republicanos em uma posição delicada antes das eleições legislativas de meio de mandato em novembro.

Na segunda-feira, após a publicação de Trump na Truth Social, o preço do barril de petróleo saltou quase 10% — a maior alta em um único dia em seis anos.

Na primeira vez, o bloqueio imposto por Trump ajudou a pressionar o Irã a voltar à mesa de negociações e abriu caminho para o memorando de entendimento e para uma estrutura de um acordo de paz mais duradouro.

Agora, segundo Kelanic, a capacidade de pressão do presidente americano sobre o Irã pode estar reduzida.

"Ele já tentou as coisas que consegue fazer com facilidade e que têm credibilidade", afirmou ela. "Ele pode atacar alvos militares e ligados ao regime. Já fez isso antes, e isso não levou o Irã à rendição."

O mais recente alvo mencionado por Trump é o monte Kolang Gaz La, também conhecido como montanha da Picareta, uma instalação de pesquisa nuclear fortemente protegida ao sul de Teerã.

No entanto, há informações divergentes sobre a importância do local e sobre a capacidade de ataques aéreos americanos causarem danos significativos aos túneis construídos profundamente sob rochas de granito.

Se os novos movimentos de Trump acabarem levando novamente a um cessar-fogo e a negociações presenciais, os principais pontos de conflito continuarão sem solução: o controle do Estreito de Ormuz, o futuro do programa nuclear iraniano e a influência do Irã no Oriente Médio

"Acho que há espaço para uma negociação sobre um acordo envolvendo o Estreito de Ormuz", afirmou Abrams. "Mas não para um retorno ao memorando de entendimento."

Com a guerra se aproximando do quinto mês, Trump voltou a lembrar na segunda-feira que outros conflitos americanos — incluindo a Guerra do Vietnã — duraram anos.

O conflito, porém, prejudicou e acabou contribuindo para o fim da presidência de Lyndon B. Johnson, além de afetar a imagem dos Estados Unidos no mundo por pelo menos uma década. É justamente esse destino que Trump tenta evitar.

Seus apoiadores também não querem repetir as chamadas "guerras eternas" no Oriente Médio que Trump criticou durante suas campanhas presidenciais anteriores.

Mas, com o memorando de entendimento em ruínas, o cessar-fogo encerrado e a possibilidade de novos confrontos no horizonte, o fim da guerra com o Irã parece tão distante quanto nas semanas que se seguiram ao início do conflito.

 

Fonte: BBC News

 

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