Governo
Tarcísio vende imóveis públicos em plataforma com pouca transparência
Marco
arquitetônico da Art Déco na América Latina, o antigo edifício do Banco de São
Paulo é um dos bens imóveis do acervo do Fundo de Investimento Imobiliário do
Estado de São Paulo, o FIISP, plataforma de venda de patrimônios imobiliários
estaduais. Inaugurada em 1938, a portentosa edificação situada no Centro da
capital paulista é tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico,
Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) e abriga num de seus andares a
Secretaria Estadual de Esportes.
Segundo
o regulamento do FIISP, o tombamento de um imóvel é um risco a ser contado pelo
cotista do fundo, uma vez que a preservação legal dificultaria a sua alienação.
Essa condição, aliada à transferência da sede estadual para um novo complexo
administrativo, também no Centro da cidade, motivou o governo Tarcísio de
Freitas a optar, nas últimas semanas, por retirar o edifício do Banco de São
Paulo do portfólio de vendas do Fundo e colocá-lo numa lista de possíveis
patrimônios a serem leiloados. Com vistas à valorização imobiliária da região
central, o edifício histórico deverá ser reformado e passar por um processo de
retrofit, ou seja, será “modernizado” para futuro uso privado.
Outros
patrimônios, talvez com menor apelo estético e valor histórico, seguem à
disposição do mercado imobiliário, ofertados pelo FIISP, como áreas de pesquisa
científica e de preservação ambiental, terrenos de tradicionais escolas
técnicas (Etecs) do interior de São Paulo, extensas fazendas, prédios
comerciais e residenciais.
A venda
desses terrenos faz parte da política do governo de dispensar áreas
“subutilizadas”, segundo o governador. “Não dá para ficar se apegando à área,
patrimônio. Isso é uma lógica meio patrimonialista”, disse o governador
Tarcísio de Freitas (Republicanos) em entrevista ao G1, em outubro de 2024, ao
defender a venda de parte de uma fazenda experimental histórica em Campinas
[SP].
Meses
antes, Tarcísio já havia publicado na internet anúncio de venda de diversos
imóveis públicos, entre os quais constavam o Instituto Butantan, o Palácio dos
Bandeirantes e o Hospital das Clínicas. Após denúncia do deputado estadual
Carlos Giannazi (PSOL) e repercussão na imprensa, o governo excluiu os anúncios
e, logo depois, desativou o domínio imoveis.sp.gov.br, criado em 2016 para
abrigar o fundo imobiliário de São Paulo.
Desde
então, o FIISP tem sido uma das modalidades para comercialização do patrimônio
imobiliário do estado, ao lado de leilões, venda direta e contratação de
prestação de serviços imobiliários.
No
entanto, seu endereço eletrônico não atende à transparência governamental: por
se tratar de fundo de investimento tendo o Governo do Estado de São Paulo como
cotista principal, seria de se esperar que informações orçamentárias, laudos de
avaliação de imóveis, remuneração de intervenientes, repasses e metas
estabelecidas estivessem claras e acessíveis à consulta pública.
Nada
disso consta disponibilizado, assim como o site não satisfaz consultas sobre a
situação dos imóveis a ele integrados ou alienados. Os dados sobre as
propriedades estão espalhados entre leis estaduais, secretarias e autarquias
governamentais, cartórios, corretoras de valores e registros pouco acessíveis.
Por que
isso importa?
• Edifícios públicos e terrenos do governo
de São Paulo estão sendo postos à disposição do mercado imobiliário sem
informações de orçamento, laudos, repasses e outros dados importantes;
• A venda dos terrenos faz parte de uma
política de Tarcísio de dispensar áreas “subutilizadas”, segundo o governador.
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Pouca transparência
Até
meados de março, obter dados e identificar as propriedades oferecidas no site
do FIISP eram tarefas trabalhosas: as informações eram limitadas, dispondo
apenas de poucas fotos, endereço – por vezes, incompleto – e metragem de
terreno e área construída.
O
desempenho do site era igualmente deficiente: além de links falhos e dados
defasados, imóveis do interior estavam equivocadamente dispostos como sendo da
capital, enquanto o regulamento sobre o funcionamento do FIISP se encontrava
acessível somente nas páginas do Fundos.Net (sistema de protocolo de documentos
da Bolsa de Valores) e da então administradora privada do fundo, a Singulare/QI
Tech.
Questionada
sobre as deficiências da plataforma digital, a assessoria da Secretaria de
Gestão e Governo Digital (SGGD), a qual o FIISP é vinculado, solicitou quatro
dias para a resposta. Nesse período, o layout do site foi alterado e também
foram corrigidos diversos pontos falhos apontados, inclusive os do site da
administradora fiduciária. Em nota, a SGGD informou que “atendendo às
regulações da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), todas as informações
acerca de fundos de investimento ficam públicas por meio deste endereço:
https://fnet.bmfbovespa.com.br/fnet/publico/abrirGerenciadorDocumentosCVM.”
“Acho
que fazem de tudo para não serem entendidos”, declarou à reportagem uma gestora
de carteiras, que preferiu não se identificar. “Os documentos listados na
internet são, em sua maioria, por questões obrigatórias por lei ou adequação de
regulamento por mudança de normas. Cumpre o calendário de obrigações, mas não
se obtém nada além disso”, diz ela, referindo-se aos informes disponíveis no
Fundos.Net.
Mesmo
após as alterações, o site do FIISP continua apresentando falhas, como imagens
de imóveis trocadas ou de edificações não condizentes com o item à venda. Um
imóvel anunciado como galpão, por exemplo, com terreno de 2 milhões m² e com
autorização legal da Lei nº 15.088/2013, dispõe fotos da Faculdade de
Tecnologia de Pindamonhangaba em vez do imóvel relacionado ao Departamento de
Águas e Energia Elétrica (DAEE), conforme descrito na lei.
Em
relação às transações comerciais, os dados sobre transferência e alienação dos
imóveis seguem o mesmo roteiro difuso. “Como órgão regulador do mercado, a
Comissão de Valores Mobiliários deveria fiscalizar, o que a gente sabe que não
ocorre com frequência”, aponta a gestora.
Em
2024, segundo o Intercept Brasil, parte de uma fazenda experimental em
Pindamonhangaba usada para pesquisa científica foi vendida ao agronegócio por
valor abaixo do mercado – em um negócio cercado de acusações de descumprimento
de leis e regras de transparência. Iniciado em 2017, o processo de venda só foi
concluído em julho de 2024, após uma batalha judicial e, diante de pouca
publicidade e de indícios de ilegalidade e favorecimento, mobilizou políticos e
entidades de pesquisa em busca de informações sobre a operação.
Em
seguida, a Pública mostrou que, outro imóvel do fundo, o Presídio do Hipódromo,
usado como cárcere da ditadura militar, também teve sua alienação contestada
por parlamentares e ativistas, gerando discussões sobre o valor da venda e o
valor histórico da edificação.
“As
vendas de terras nesse sistema têm sido pouco transparentes, correspondendo à
própria estrutura do instrumento, que visa diminuir o controle social e
aumentar a liquidez”, observa a jurista Débora Ungaretti, doutora em
Planejamento Urbano e Regional e pesquisadora do Laboratório Espaço Público e
Direito à Cidade, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de
São Paulo (LabCidade FAU-USP). “Não só existem poucas informações sobre os
imóveis, mas também sobre o valor do ímóvel segundo avaliações técnicas e o
valor de venda, sobre as propostas e negociações realizadas”.
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Patrimônio científico vendido ao agronegócio
Área de
proteção ambiental, a parcela da Unidade Regional de Pesquisa e Desenvolvimento
de Pindamonhangaba, com 350 hectares –
cerca de 300 campos de futebol –, foi vendida por R$ 17,1 milhões para a SFA
Agro, empresa que tem entre seus sócios Paulo Skaf, empresário e político,
atual presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp),
que se tornou colega do governador Tarcísio no Republicanos em 2022. Mas, ainda
segundo a reportagem do Intercept, de acordo com dados da Associação dos Pesquisadores
Científicos do Estado de São Paulo, a APqC, a área vendida poderia valer entre
R$ 35 milhões e R$ 45,5 milhões.
A
título de comparação, a Unidade de Pesquisa em Agricultura Ecológica, em São
Roque, com pouco mais de 43 hectares, teve em 2025 seu valor médio estimado
pela Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) em R$ 107,4
milhões. “São Roque foi avaliada como área urbana, mas Pindamonhangaba, mesmo
como área rural, foi subavaliada”, explica o pesquisador Joaquim Adelino Filho,
que foi presidente da APqC em 2017.
A
associação ajuizou uma ação civil pública e questionou o fato de não serem
públicos o documento de vistoria e o laudo que avaliou o preço do terreno, além
de pontuar que o governo descumpriu a Constituição Estadual e a lei 9.475/96 ao
não realizar audiência pública com a comunidade científica. Apesar das
alegações, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), ao levar em conta uma
audiência pública sem quórum ocorrida em 2017, validou a venda. O caso foi
encerrado em março de 2022 – cinco meses antes da fundação da SFA Agro.
A falta
de clareza sobre os detalhes da venda motivou o questionamento por parte de
parlamentares. Em resposta ao requerimento do deputado estadual Carlos
Giannazi, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA) declarou que “foi
adotada uma política pelo Governo do Estado de São Paulo para alienação de
imóveis que estão sendo subutilizados, para otimização dos recursos públicos,
em prol da cidade”.
A
Secretaria de Comunicação (Secom) do governo pontuou que o valor de R$ 17,1
milhões pago pela SFA Agro “foi quase 5 milhões maior que o estimado em laudo
oficial de avaliação pelo fundo gestor”, por isso, conforme a pasta, não houve
subvalorização do imóvel.
Por sua
vez, a administradora Singulare afirmou que o imóvel do fundo foi alienado de
acordo com as normas jurídicas e regulatórias vigentes, enquanto a assessoria
de Paulo Skaf confirmou que a compra da fazenda foi efetivada em 2024 a partir
de “oferta por meio público, de acordo com as regras definidas pelo FIISP”.
Conforme
o regulamento do fundo, a publicidade das transações deve ser feita na página
do administrador na internet, em local de destaque, além de ser mantida
disponível para os cotistas.
“Toda
essa transação se deu sem nenhuma publicidade, sem que fossem tornados públicos
laudos de avaliação do imóvel e eventuais outras propostas recebidas pelo
fundo. Além disso, a comunidade científica teria que ser ouvida, como manda a
Constituição do Estado, mas nada disso foi feito”, afirma Helena Dutra Lutgens,
presidente da APqC.
No
final de janeiro de 2026, a pedido da deputada estadual Beth Sahão (PT), o
Ministério Público de São Paulo instaurou um procedimento preparatório de
inquérito civil para apurar a alienação da gleba da fazenda. O procedimento
continua em andamento, mas ainda sem resolução.
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Prédio de antigo presídio teve duas cotações diferentes de valor
Em
2025, o prédio do antigo Presídio do Hipódromo teve sua alienação questionada.
A venda gerou ações judiciais, protestos e abaixo-assinado a favor do
tombamento da edificação. Além disso, duas cotações diferentes de preço foram
feitas pela mesma consultoria imobiliária.
Reconhecido
como marco histórico e cultural, o Presídio do Hipódromo foi listado entre os
locais que serviram ao regime militar para repressão – o ex-deputado José
Genoino, a ex-ministra Eleonora Menicucci e a cantora Rita Lee estiveram entre
seus presos políticos. O espaço também serviu de locação para diversas
produções audiovisuais, como filmes, novelas e videoclipes, entre elas, os
premiados longas O Beijo da Mulher-Aranha e Carandiru: o Filme, ambos de Hector
Babenco.
Em
agosto de 2025, este repórter noticiou na Pública que a Singulare,
administradora do fundo, tornou-se proprietária do imóvel que abrigou o
presídio. O valor da transação foi de R$ 11,1 milhões, conforme indicação da
escritura. O laudo de avaliação do terreno foi elaborado pela companhia
independente Binswanger Brazil utilizando o método comparativo de dados.
Entretanto,
segundo avaliação posterior da mesma Binswanger, feita a pedido da Pública, o
valor do metro quadrado na região é de R$ 5,8 mil a R$ 6,4 mil. Ou seja, o
imóvel de 4,5 mil m² teria valor de mercado entre R$ 25,2 milhões e R$ 27,8 mi.
Após a
publicação da reportagem, a vereadora Amanda Paschoal (PSOL) promoveu uma ação
popular judicial e articulou, ao lado de ex-presos políticos, um manifesto e um
abaixo-assinado a favor do tombamento do prédio histórico.
Em
matéria publicada em outubro pela Folha de S. Paulo sobre o manifesto e a venda
do presídio, o Governo do Estado de São Paulo disse que o imóvel não tem pedido
de tombamento no Condephaat e que foi transferido em 2019 para o Conselho do
Patrimônio Imobiliário, que autorizou por vias legais sua inclusão no FIISP.
Informou ainda que a alienação foi feita por R$ 23 milhões, valor “superior a
mais do que o dobro da avaliação técnica”.
Em
resposta a esta reportagem, a SGGD esclareceu que “o valor de R$ 11,1 milhões,
apontado pelo repórter, foi registrado de acordo com o laudo técnico oficial de
avaliação, pelo qual o imóvel foi integralizado ao FIISP – não se refere,
portanto, ao valor de venda, de R$ 23 milhões”.
Um
pedido de alvará de demolição do imóvel solicitado pela arquiteta Bruna
Santini, diretora de Incorporação da Cury Construtora, foi deferido em maio,
mas tanto o pedido quanto a escritura do terreno omitem o nome da construtora.
Em contrapartida, os vereadores Amanda Paschoal e Nabil Bonduki (PT) enviaram
requerimentos de tombamento do antigo presídio a órgãos de preservação
patrimonial. No momento, um dos requerimentos está sob apreciação do Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
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Fundo para alienação de imóveis subutilizados
O FIISP
foi projetado para facilitar a negociação dos imóveis, gerar receitas para o
estado e reduzir despesas administrativas, pois o antigo modelo, com a oferta
para comercialização por meio de editais e leilões, era considerado
ineficiente. Seu objetivo principal é a aquisição, mediante transferência de
bens decorrente da integralização de cotas, e posterior alienação de imóveis
pertencentes ao estado, com a finalidade de locar, arrendar ou permutar os
ativos imobiliários, bem como firmar parcerias para desenvolvimentos de
empreendimentos imobiliários.
A Lei
Estadual 16.338, de dezembro de 2016, autorizou o Estado de São Paulo a alienar
imóveis para integralização em fundos imobiliários. No ano seguinte, o então
governador tucano e atual vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) formalizou a
criação do Fundo de Investimento Imobiliário do Estado de São Paulo, o primeiro
fundo imobiliário público do país, tendo o estado como cotista principal – a
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) é hoje o segundo
cotista.
Em
2019, o FIISP iniciou atividades com uma carteira de 267 unidades – com valor
estimado de R$ 1 bilhão – de um estoque de mais de 5 mil imóveis. À época, o
governador João Doria (PSDB) anunciou a intenção de se desfazer de 22 mil
imóveis “sem utilidade”.
As
flexibilizações para alienações imobiliárias prosseguiram em 2021, com a lei
14.133, que dispensou licitação nos casos de dação em pagamento; doação ou
venda para outro órgão da Administração Pública; permuta por outros imóveis;
investidura; concessão de direito de uso destinado a programas de habitação ou
de regularização fundiária; legitimação de posse e legitimação fundiária.
Antes
da criação do FIISP, em maio de 2004 a lei 11.688 – que instituiu o programa de
Parcerias Público-Privadas (PPPs) – apresentou uma primeira lista de imóveis
públicos que podiam ser leiloados para gerar recursos para a Companhia Paulista
de Parcerias, a CPP. A função da CPP é garantir o pagamento aos parceiros
privados caso a forma primária de remunerá-los não atinja a expectativa de
lucro pactuada em contratos de PPPs.
Não por
acaso, a CPP foi a idealizadora do projeto do FIISP, ao passo que seu
ex-diretor presidente e ex-diretor financeiro, Tomás Bruginski de Paula, atual
gerente de relações institucionais da FAPESP, foi membro do Comitê de
Investimentos do fundo até novembro de 2025. Outro membro, Paulo Sérgio Bastos
Vidal – escolhido a dedo por Tarcísio para integrar o Conselho do Patrimônio
Imobiliário –, é subsecretário da Subsecretaria de Patrimônio do Estado. Entre
outras funções, o Comitê deve aprovar aquisições e alienações de propriedades,
e fiscalizar atos praticados pelo administrador e operador imobiliário.
Mas,
segundo a jurista e pesquisadora Débora Ungaretti, “justamente porque o FIISP
não entregou a liquidez desejada, não foi constituído como garantia de PPPs
mais recentes”.
Para
ela, a criação do FIISP faz parte de um processo de privatização de terras
públicas, transformando-as em ativos imobiliários-financeiros submetidos a uma
lógica rentista financeirizada, segundo a qual o melhor uso é o uso mais
lucrativo.
“Nesse
processo, o fundo constitui uma estrutura jurídica que busca viabilizar a maior
liquidez dessa terra: estrutura essa que submete a terra a uma gestão
profissional de mercado, enfraquece o papel do poder legislativo, reduz a
participação e controle social nas decisões sobre a sua destinação – impacta
com isso na diminuição da garantia de direitos de eventuais ocupantes e da
garantia de destinação conforme o interesse público e social”, afirma.
De
acordo com sua pesquisa, é possível dizer que há muito lucro no mercado
profissional que atua na consultoria e gestão desses fundos, assim como os
agentes de mercado interessados na compra de terras públicas também ganham com
a diminuição da transparência e controle social sobre a venda de terras, bem
como com a possibilidade de negociação direta com a gestora do fundo.
“O
mercado está interessado nos ‘filés’ – aqueles cuja destinação deveria atender
ao interesse público e social”, resume a pesquisadora.
Um dos
“filés” do portfólio, a ex-sede administrativa do Procon-SP, área de 20 mil m²
situada no bairro paulistano da Barra Funda, foi avaliada em R$ 67 milhões,
recebeu R$ 2,2 milhões de custos incorporados e foi vendida por R$ 75 milhões,
em abril de 2024. A compradora, Cury Construtora e Incorporadora, já foi
acusada de vender habitação de interesse social a investidores e omitir
restrições de uso, em empreendimentos no mesmo bairro. Curiosamente, o
subsecretário da Subsecretaria de Patrimônio do Estado (SPE), Paulo Sérgio
Vidal, demonstrou proximidade com a construtora ao participar do lançamento do
Instituto Cury, em fevereiro de 2025.
No ano
passado, a SPE possibilitou a arrecadação de R$ 1,33 bilhão ao erário público
estadual por meio de vendas realizadas, sendo R$ 700 milhões provenientes de
bens imóveis e R$ 470 milhões de cotas do Fundo de Investimento Imobiliário do
Estado de São Paulo. Em comparação com gestões anteriores, a SPE superou em
mais de cinco vezes o volume de vendas realizado entre 2019 e 2022 e em mais de
70 vezes o registrado no período de 2015 a 2018.
Para
2026, a SPE planeja alcançar um volume de vendas dez vezes superior ao
registrado na gestão 2019-2022, o que corresponde à alienação de R$ 2,4 bilhões
em patrimônio público.
Helena
Goldman, advogada da APqC, explica que em uma alienação de bem público, muitas
vezes durante o processo as prefeituras municipais ou a sociedade conseguem
manifestar repúdio à venda do bem. Porém, “quando o imóvel é integralizado ao
fundo, questões sociais e interesse público não são mais relevantes; ganha
aquele que ofertar o melhor preço”.
Embora
o governo reitere que os imóveis que serão privatizados são aqueles
“inservíveis” para o estado, ou seja, que perderam seu valor, na prática, “é
priorizada a integralização de imóveis onde há interesse em empreender”, diz
Ungaretti.
Além da
aquisição e alienação de propriedades, o FIISP desenvolve parcerias em
empreendimentos como o Venice Del Rey Empreendimento Imobiliário SPE, no qual é
um dos sócios e cuja atividade principal é o loteamento de imóveis próprios.
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Administradora e sócios envolvidos em processos
Ganhadora
do pregão quando da criação do FIISP, a corretora Socopa firmou um contrato com
o governo para administrar o fundo por cinco anos, mas este acordo foi
prorrogado, em 2024, por tempo indeterminado.
Em
2020, a corretora, localizada na Avenida Faria Lima, passou a se chamar
Singulare após sua separação do Banco Paulista, alvo de uma operação da Polícia
Federal referente a esquemas de lavagem de dinheiro. No final de 2023, a
Singulare foi comprada pela fintech QI Tech.
Fundada
em 1967 por Álvaro Augusto de Vidigal, presidente da Bovespa (atual B3) entre
1991 e 1996, a corretora tem longa tradição de operações agressivas no mercado
financeiro. Em 1997, foi condenada a pagar R$ 90 mil à Comissão de Valores
Mobiliários por operações lesivas a um fundo de pensão e, em 2018, à multa de
R$ 300 mil por descumprimento de seu dever de diligência em operação financeira
que se revelou fraudulenta.
Sócio
no grupo e filho de Vidigal, Álvaro Augusto de Freitas Vidigal, o Guti, é dono
da GV Atacama, gestora do FIISP até meados do ano passado, quando foi
substituída pela VCM Veritas – que já atuava como operadora auxiliar no fundo.
Processos
e multas são compartilhados pelo grupo e seu diretor, Daniel Doll Lemos, hoje
sócio na QI Tech. Em 2014, ele, a Socopa e o Banco Paulista celebraram Termo de
Ajustamento de Conduta com a CVM, no valor de R$ 150 mil, por falta de
transparência na gestão de fundos de investimento. Em 2024, a corretora e o
diretor foram condenados a multas de R$ 85 mil e R$ 42,5 mil, respectivamente,
por suposta realização de operação fraudulenta para viabilizar a construção do
Hard Rock Hotel.
Consultada
pela reportagem, a Singulare/QI Tech informou que cumpre todas as obrigações
regulatórias.
Em ata
de assembleia, o FIISP anunciou que, a partir de junho, a Vórtx Distribuidora
de Títulos e Valores Mobiliários assumiria a administração do fundo.
Fonte:
Por Sérgio Barbo, da Agência Pública

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