Terras
raras – o que faremos com elas?
O
século XXI está sendo marcado por uma nova corrida global por recursos
estratégicos. Se no passado o petróleo foi considerado o principal ativo
econômico e geopolítico do planeta, hoje uma série de minerais conhecidos como
“terras raras” ocupa posição semelhante. Embora pouco conhecidos pelo grande
público, esses elementos são fundamentais para a fabricação de veículos
elétricos, turbinas eólicas, celulares, computadores, sistemas de defesa e
praticamente toda a infraestrutura tecnológica que sustenta a economia
contemporânea.
A
questão que deveria preocupar os brasileiros não é apenas o fato de possuirmos
algumas das maiores reservas desses minerais do mundo. A verdadeira pergunta é
outra: o que faremos com essa riqueza?
A
história econômica brasileira oferece motivos para preocupação. Desde o período
colonial, o país acumulou ciclos sucessivos de exploração de recursos naturais.
Foi assim com o açúcar, o ouro, o café, a borracha e, mais recentemente, com
diversas commodities minerais e agrícolas. Em muitos desses casos, o Brasil
exportou riqueza bruta enquanto importava produtos industrializados de maior
valor agregado. O resultado foi a manutenção de uma posição subordinada na
divisão internacional do trabalho, caracterizada pela dependência tecnológica e
pela vulnerabilidade econômica.
As
terras raras colocam novamente o país diante de uma encruzilhada histórica.
Podemos seguir o caminho mais fácil e exportar minério bruto para que outros
países realizem as etapas de processamento, pesquisa, desenvolvimento e
fabricação de produtos tecnológicos. Ou podemos utilizar essa oportunidade para
construir uma estratégia nacional de desenvolvimento capaz de gerar empregos
qualificados, estimular a inovação e fortalecer nossa soberania econômica.
A
diferença entre essas duas alternativas não está na quantidade de recursos
naturais disponíveis. Está na capacidade de planejamento.
Um dos
maiores equívocos do debate econômico contemporâneo é acreditar que o
desenvolvimento surge espontaneamente a partir das forças de mercado. Uma
análise da trajetória das principais economias industrializadas demonstra
justamente o contrário. Estados Unidos, Alemanha, Japão, Coreia do Sul e, mais
recentemente, China utilizaram políticas industriais, investimentos públicos,
proteção estratégica de setores considerados prioritários e forte coordenação
estatal para construir suas capacidades produtivas.
A
própria ascensão chinesa é um exemplo revelador. Atualmente, a China domina
grande parte da cadeia global de terras raras. Esse resultado não ocorreu por
acaso nem decorreu apenas da existência de reservas minerais. O governo chinês
implementou, ao longo de décadas, políticas voltadas ao desenvolvimento
tecnológico, à formação de mão de obra especializada e à internalização das
etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva. Em vez de se limitar à exportação
de recursos naturais, o país buscou controlar o processamento dos minerais e a
fabricação de produtos de alta tecnologia.
O
contraste com a experiência brasileira é evidente. Embora o país possua vastas
riquezas minerais, frequentemente falha em transformá-las em instrumentos de
desenvolvimento de longo prazo. Em muitos casos, os recursos naturais geram
crescimento econômico temporário, mas não promovem mudanças estruturais capazes
de elevar a produtividade da economia e reduzir a dependência tecnológica
externa.
O
desafio das terras raras exige justamente uma visão de longo prazo. Não basta
extrair minerais. É necessário investir em pesquisa científica, universidades,
centros tecnológicos e empresas capazes de transformar esses recursos em
produtos de alto valor agregado. A riqueza verdadeira não está apenas no
minério que sai do solo, mas no conhecimento que permite transformá-lo em
inovação.
Nesse
contexto, o papel do Estado torna-se fundamental. Mais do que coordenar
políticas públicas ou criar incentivos para o setor privado, é legítimo
discutir mecanismos mais robustos de controle nacional sobre recursos
estratégicos. Uma possibilidade seria a criação de uma empresa estatal
responsável pela exploração e gestão das terras raras, nos moldes do que
ocorreu com o petróleo a partir da criação da Petrobras.
A ideia
de uma eventual “Terrabras” – nome que já circula em alguns debates da esquerda
brasileira – poderia servir como instrumento para garantir que a exploração
desses minerais estivesse subordinada a um projeto nacional de desenvolvimento,
e não apenas à lógica imediata do mercado internacional. Evidentemente, uma
proposta dessa natureza exigiria amplo debate público, planejamento
institucional e mecanismos de transparência e eficiência.
Ainda
assim, diante da importância geopolítica e tecnológica das terras raras, não
parece irrazoável considerar que sua gestão deva permanecer sob forte controle
nacional. Sem instrumentos dessa natureza, o país corre o risco de permanecer
preso à lógica da exportação de matérias-primas enquanto outras nações
concentram as etapas mais lucrativas da produção.
Parcerias
entre empresas brasileiras e estrangeiras podem desempenhar papel importante
nesse processo. Entretanto, tais acordos devem estar vinculados à transferência
de tecnologia, à capacitação de trabalhadores e ao fortalecimento da indústria
nacional. O objetivo não deve ser apenas atrair investimentos, mas construir
competências produtivas permanentes.
Outro
aspecto frequentemente negligenciado diz respeito ao destino das receitas
obtidas com a exploração mineral. Diversos países demonstraram que recursos
naturais podem ser convertidos em desenvolvimento quando administrados por
instituições sólidas e orientados para objetivos de longo prazo.
A
experiência da Noruega, por exemplo, mostra como a riqueza proveniente dos
recursos naturais pode financiar investimentos em educação, infraestrutura e
inovação, beneficiando gerações futuras.
O
Brasil encontra-se diante de uma oportunidade rara. A transição energética
global, a expansão da inteligência artificial e a crescente digitalização da
economia tendem a ampliar ainda mais a demanda por minerais estratégicos nas
próximas décadas. Poucos países possuem condições tão favoráveis para
aproveitar esse cenário.
Mas a
história ensina que abundância de recursos naturais não garante prosperidade.
Em muitos casos, ela pode até reforçar padrões de dependência econômica quando
não existe uma estratégia nacional de desenvolvimento. A diferença entre
riqueza e desenvolvimento está na capacidade de transformar recursos em
conhecimento, tecnologia e capacidade produtiva.
Por
isso, o debate sobre terras raras não deve ficar restrito a especialistas,
economistas ou formuladores de políticas públicas. Trata-se de uma discussão
sobre o futuro do país. Estamos diante da possibilidade de construir uma
economia mais sofisticada e tecnologicamente avançada ou de repetir um padrão
histórico que nos acompanha há séculos.
A
escolha ainda está aberta. O minério existe. As reservas estão aqui. O que
falta decidir é se continuaremos exportando oportunidades ou se finalmente
aprenderemos a industrializá-las.
• Governo federal publica mapa de terras
raras em São Paulo, mas ignora quilombo
UM
RELATÓRIO DO SGB (Serviço Geológico do Brasil), empresa pública vinculada ao
Ministério de Minas e Energia do governo federal, identifica áreas com
potencial para terras raras no Vale do Ribeira, em São Paulo, mas omite a
existência de um território quilombola.
Embora
um dos locais mapeados se sobreponha à comunidade Mandira, em Cananéia, o
documento não menciona a comunidade nem inclui o quilombo em seus mapas.
Os
elementos de terras raras são alvo de uma corrida global por conta dos seus
usos na indústria bélica e em produtos de alta tecnologia, essenciais para a
transição energética. A Agência Internacional de Energia projeta um aumento da
demanda por terras raras de até 60% até 2040.
Publicado
no fim de maio, o informe técnico do SGB aponta “teores elevados de terras
raras” nos granitos Mandira e São Francisco. O estudo é preliminar e ainda não
comprova a viabilidade econômica da exploração nem autoriza atividades de
mineração.
Ainda
assim, lideranças quilombolas e especialistas ouvidos pela Repórter Brasil
afirmam que a divulgação do mapa pode aumentar a pressão sobre o território
tradicional.
Ao
indicar áreas promissoras para terras raras, o levantamento pode servir de
referência para novas solicitações de direitos minerários na região, sem
considerar a sobreposição com o quilombo ou os cuidados necessários para
protegê-lo. Isso representaria uma ameaça ao Quilombo Mandira e ao Vale do
Ribeira, região com a maior área contínua de Mata Atlântica do Brasil.
“É
gravíssimo [não indicar o quilombo no mapa]. Estamos falando de um órgão do
governo brasileiro, que se comprometeu a proteger esse povo e tem que respeitar
a Constituição Federal”, afirma André Luiz Pereira de Moraes, articulador
regional quilombola e parte de uma associação que apoia comunidades quilombolas
no Vale do Ribeira, a Eaacone.
O
estudo do SGB é um “convite” às mineradoras, avalia Rárisson Sampaio, advogado
e assessor do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos). “Quando o Estado
diz publicamente que uma área tem potencial mineral, isso funciona como um
grande convite para a instalação de empreendimentos”, afirma.
“Vai
ter uma corrida minerária nessas regiões. O impacto será brutal”, opina
Fernando Prioste, advogado do ISA (Instituto Socioambiental).
Criado
no início do século 19 em uma antiga fazenda de arroz, o Mandira abriga hoje 25
famílias dedicadas à agricultura familiar, ao manejo sustentável de ostras e ao
turismo comunitário. O quilombo foi reconhecido pela Fundação Cultural Palmares
em 2005, teve seu território delimitado pelo Incra em 2010 e aguarda a
titulação da área.
Procurado
pela Repórter Brasil, o SGB afirmou, em nota, que os trabalhos têm caráter
técnico-científico e buscam ampliar o conhecimento geológico do território
brasileiro. “A atuação se limita às pesquisas e o SGB não têm o papel de
definir o uso do solo ou autorizar empreendimentos”, diz o texto.
O órgão
afirmou ainda que tem a prerrogativa de atuar em todo o território nacional e
que “o acesso a áreas restritas só ocorre com autorização de órgãos
competentes”.
“No
caso específico da área mencionada, não foram realizadas atividades de campo na
comunidade quilombola do Mandira. A região visitada está inserida em uma área
onde são permitidos estudos científicos”.
A
Repórter Brasil constatou que a área visitada pelos técnicos do órgão federal
está dentro da área quilombola – a análise foi feita por meio do software de
geolocalização Qgis, a partir das coordenadas geográficas do “alvo Mandira” no
relatório técnico.
A
assessoria do SGB reconheceu que a coordenada informada no estudo “se refere ao
local onde a amostra foi coletada” e que
a pesquisa foi realizada “em um corte de estrada em via pública, na
Estrada Municipal Colônia de Santa Maria”.
“Reforçamos
que essa atividade de coleta consiste na raspagem superficial de uma pequena
quantidade de material exposto no barranco da estrada”, diz a nota. A resposta
pode ser lida na íntegra neste link.
“A
nossa comunidade não foi procurada. Ninguém consultou os moradores ou veio
através da associação buscar alguma autorização ou informação referente a essa
pesquisa”, afirma Sidnei Coutinho, coordenador geral da associação do Quilombo
do Mandira.
“A
mineração não é desenvolvimento sustentável. Precisamos manter esse território
preservado, porque estamos em uma parcela mínima da Mata Atlântica que ainda
existe”, complementa a liderança.
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Ignorar quilombolas é ‘jogo de empurra’, avaliam especialistas
O SGB é
responsável pelo mapeamento geológico e por estudos sobre o potencial mineral
brasileiro. Desde 2012, o órgão conduz o projeto “Avaliação do Potencial de
Terras Raras no Brasil”, e é nesse escopo que foi realizado o levantamento no
Vale do Ribeira.
Os
achados no chamado Granito Mandira levaram à publicação do informe técnico,
mesmo se tratando de estudos preliminares. “Isso acontece quando tem uma
descoberta relevante”, explica o geólogo Felipe Tavares, ex-chefe da Divisão de
Geologia Econômica do SGB e hoje licenciado do órgão.
“Esse é
um primeiro produto, as questões relacionadas ao território costumam ser
abordadas nos produtos finais”, continua o geólogo, em referência a mapas e
relatórios mais completos sobre o potencial geológico.
A nota
do SGB vai na mesma direção. O órgão disse que, “além de considerar nas
pesquisas as áreas com restrições legais, ambientais e territoriais, os
impedimentos são representados nos produtos técnicos finais”.
Para
Prioste, do ISA, os quilombolas deveriam ter sido consultados desde a fase
preliminar do levantamento geológico. Mais do que isso: deveriam participar
ativamente desse processo.
Isso
porque a coleta e, sobretudo, a divulgação oficial sobre o potencial mineral em
territórios quilombolas são atos administrativos que afetam as comunidades da
região, avalia. Por isso, o processo deveria seguir a Convenção 169 da OIT
(Organização Internacional do Trabalho). Ratificada pelo Brasil em 2004, a
norma prevê consulta prévia, livre e informada a povos e comunidades
tradicionais afetados por empreendimentos econômicos.
“A
consulta e a participação política deveriam ocorrer no debate estratégico,
antes da divulgação dessas informações. Mas estamos muito distantes dessa
realidade”, afirma Prioste.
Na
prática, a consulta costuma ser considerada apenas em fases mais avançadas dos
projetos, como no licenciamento ambiental, quando a decisão de viabilizar os
empreendimentos já foi tomada.
Bruno
Milanez, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, alerta que ignorar
territórios tradicionais nas primeiras etapas do planejamento mineral cria um
efeito em cadeia.
“Quando
você invisibiliza a existência dessas comunidades nas primeiras iniciativas,
abre a possibilidade de que elas continuem sendo ignoradas nas etapas
seguintes”, afirma Milanez, que coordena o PoEMAS (Grupo de Pesquisa e Extensão
Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade).
Essa
situação é ainda mais preocupante em meio à corrida por minerais críticos,
explica Milanez, pois projetos de terras raras podem ser classificados como
estratégicos e, assim, serem submetidos a processos acelerados de
licenciamento.
De
acordo com o jornal Folha de São Paulo, o governo federal deve publicar uma
resolução que prevê um licenciamento acelerado para minerais críticos, a
chamada licença ambiental especial. Dessa forma, projetos para exploração de
terras raras e lítio, por exemplo, teriam suas licenças em um prazo de até 12
meses
“Aí não
dá tempo de fazer uma consulta propriamente adequada. Esse jogo de empurrar a
consulta até o licenciamento ambiental se torna mais perigoso para as
comunidades”, afirma Milanez.
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Pelo menos 27 quilombos são afetados por terras raras
O
Brasil concentra a segunda maior reserva dessas substâncias e tem buscado
aumentar a pesquisa e produção desses minérios por meio de incentivos
econômicos e políticos.
Isso se
reflete na explosão dos pedidos para exploração do mineral: 90% dos 2,7 mil
requerimentos registrados na Agência Nacional de Mineração até junho de 2026
foram protocolados nos últimos cinco anos.
Contudo,
há florestas protegidas e comunidades tradicionais na rota desses projetos.
Pelo menos 27 quilombos podem ser impactados por pedidos de mineração de terras
raras no Brasil, considerando sobreposições ou uma distância de 10 quilômetros
entre o requerimento e o território. Os dados são do Observatório da Transição
Energética, projeto de jornalismo de dados da Repórter Brasil, em parceria com
Inesc e PoEMAS.
“Os
quilombolas estão totalmente alijados dessa discussão”, afirma Prioste, do ISA.
“Quando falamos sobre terras raras e os interesses geopolíticos, qual é o lugar
dos quilombolas? É o lugar de serem explorados.”
Fonte:
Por Gustavo Ramirez-Aleixo, em A Terra é Redonda/Repórter Brasil

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