As
prioridades do Congresso quando o assunto é infância
Enquanto
este artigo é escrito, a Câmara dos Deputados instala uma comissão especial
para discutir a PEC 32/2015, que reduz a maioridade penal. Poucas semanas
antes, o Congresso aprovou o PDL 3/2025, que susta diretrizes nacionais para o
atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. No mesmo
período, o Senado analisa o PL 1.924/2025, que cria a Política Nacional
Integrada para a Primeira Infância, mas recebeu na Câmara um “jabuti” que
altera a definição legal de primeira infância para incluir a gestação em seu
conceito.
São
propostas diferentes, com objetos e tramitações próprias. Mas, observadas em
conjunto, suscitam uma pergunta incômoda: o que o Congresso tem escolhido como
prioridade quando crianças e adolescentes entram em pauta?
Nos
últimos meses, medidas relacionadas à ampliação da punição, à revisão de
garantias já consolidadas ou à introdução de disputas morais em políticas
públicas voltadas à infância encontraram espaço relevante na agenda
legislativa. Enquanto isso, iniciativas capazes de melhorar concretamente a
vida de crianças, adolescentes e suas famílias raramente recebem a mesma
urgência.
A
proposta que põe fim à escala 6×1 é um exemplo disso. Parada no Senado há mais
de quarenta dias, ela não trata diretamente da infância, mas incide sobre algo
essencial para milhões de crianças brasileiras: tempo de convivência familiar,
presença dos responsáveis, descanso, cuidado cotidiano e possibilidade de
acompanhamento da vida escolar.
Sem
negar a importância do debate sobre segurança pública ou a legitimidade de
divergências sobre políticas, o problema surge quando a infância passa a ser
usada como justificativa para agendas que pouco dialogam com os desafios
concretos enfrentados por crianças e adolescentes no Brasil.
Foi o
que aconteceu com o PDL 3/2025, aprovado pelo Congresso para sustar a Resolução
258/2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente
(Conanda). A norma estabelecia diretrizes nacionais para o atendimento de
crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Sob o argumento de
proteger crianças, o Congresso enfraqueceu uma diretriz criada justamente para
garantir acesso a direitos por parte de vítimas de violência.
Também
ocorre na tramitação do PL 1.924/2025. O projeto tem objetivo importante de
fortalecer políticas para a primeira infância. O problema está no “jabuti”
incluído no texto, que altera a definição legal de primeira infância para
abranger o período “desde a gestação até os seis anos de idade”.
A
mudança pode parecer apenas simbólica, mas não é. A legislação brasileira já
protege a gestação e define a primeira infância como o período de 0 a 6 anos de
vida. Retirar a expressão “desde a gestação” não significa reduzir qualquer
proteção, mas evitar que uma política pública construída a partir de evidências
e consensos seja usada para introduzir, por vias indiretas, disputas de cunho
moral.
A PEC
32/2015 recoloca essa lógica no campo penal. A proposta restringe a mudança à
esfera criminal, sem alterar direitos civis e eleitorais. Ainda assim, seu
efeito político é evidente: quando adolescentes entram no debate público, a
prioridade legislativa tende a discutir como puni-los como adultos, e não como
protegê-los antes que a violência aconteça.
Essa
discussão ocorre justamente quando novos dados do Sinan (Sistema de Informação
de Agravos de Notificação), do Ministério da Saúde, mostram um agravamento da
violência contra crianças e adolescentes. Entre 2020 e 2025, os registros
aumentaram 125%, com destaque para os casos de violência sexual, presentes em
34% das notificações. A adolescência concentrou 43% dos registros. Em um
cenário como esse, a pergunta sobre prioridades ganha ainda mais relevância.
Os três
episódios revelam menos sobre infância do que sobre prioridades. Em um momento
de agravamento da violência contra crianças e adolescentes, o Congresso tem
dedicado mais energia a disputas punitivas e simbólicas do que ao
fortalecimento das políticas capazes de enfrentar esse cenário.
As
prioridades de uma sociedade dizem muito sobre o projeto de futuro que ela
pretende construir. As prioridades de seu Congresso também. Em um país onde os
registros de violência contra crianças e adolescentes cresceram 125% em cinco
anos, talvez a questão mais urgente não seja criar novas formas de punição nem
alimentar controvérsias jurídicas. Talvez seja perguntar por que propostas
apresentadas sob o discurso da proteção, mas que, na prática, restringem
direitos da infância, avançam com tanta rapidez, enquanto aquelas capazes de
melhorar as condições concretas de vida de crianças e adolescentes continuam à
espera de prioridade.
Fonte:
Por Laura Molinari e Paula Alegria, no Le Monde

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