Os
riscos de postar fotos de crianças nas redes
Em
2020, a servidora pública Débora Cunha criou uma página em uma rede social para
a filha Ana Catarina, que tinha nascido havia poucos meses. Portadora de uma
doença rara chamada Acidúria Glutárica, o objetivo era compartilhar informações
com outras mães e dividir a rotina de cuidados com a menina.
"Para
chegar no diagnóstico foi um processo complicado. Fizemos diversos exames e os
médicos investigavam o que poderia ser. Buscando na internet encontrei o perfil
de uma mãe que falava sobre a doença do filho que tinha sintomas semelhantes.
Levamos a história aos médicos, fizemos o teste genético e chegamos ao
diagnóstico da Ana Catarina", conta.
"Eu
fiquei grata por ter conhecido uma história que ajudou ao nosso diagnóstico
precoce. E pensei em compartilhar nossa experiência para poder ajudar outras
famílias", afirma Cunha à DW.
O que
ela não imaginava era que golpistas se aproveitariam da situação. Poucos meses
após a criação da página, a família descobriu que duas pessoas estavam usando
fotos da menina em campanhas virtuais para arrecadar dinheiro.
"A
rede social é um caminho para dar visibilidade a essas crianças que muitas
vezes são esquecidas pelo poder público. É frustrante você ver pessoas
aproveitando do seu sofrimento para lucrar com isso", desabafa a servidora
pública.
Situações
como a enfrentada por Cunha não são raras de acontecer e levantam a questão:
quais os cuidados que os pais devem ter ao publicar fotos dos filhos nas redes
sociais?
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Adultização e debate nacional
O
debate em torno do compartilhamento de imagens de crianças se nacionalizou com
a viralização de um vídeo intitulado "Adultização", do youtuber
Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca.
Publicado
no início de agosto, o vídeo tematiza a exposição de crianças na internet e
denuncia canais que se utilizam de imagens sexualizadas de menores de idade
para ganhar dinheiro. A documentação resultou na prisão do influenciador
digital Hytalo Santos e também de seu marido. Santos reunia adolescentes numa
casa na Grande João Pessoa para uma espécie de reality show amador na internet.
O vídeo
de Felca também levou à criação de grupos de trabalho no Congresso para debater
a segurança de crianças em meios digitais, a partir desta semana.
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Imagens manipuladas e riscos
Um
estudo da organização não governamental Human Rights Watch, divulgado em junho
de 2024, apontou que ao menos 170 imagens de crianças e adolescentes
brasileiros de dez estados estavam sendo usadas, sem conhecimento ou
autorização dos responsáveis, para o treinamento de ferramentas de inteligência
artificial (IA).
Segundo
o relatório, as fotos foram coletadas na internet e inseridas em um conjunto de
dados que empresas de IA utilizam para treinar algoritmos.
Mas não
é só isso. Fotos inocentes e despretensiosas, como o bebê comendo ou da criança
brincando na piscina, por exemplo, podem parar nas mãos de quadrilhas que
manipulam as imagens e as vendem em plataformas e grupos que compartilham
conteúdo com abuso sexual infantil.
"Ao
publicar fotos, estamos sempre expostos a estes riscos e, quando pensamos em
crianças, o risco aumenta, pois com o advento das deepfakes, basta algumas
fotos para que seja possível montar um vídeo falso, por exemplo. Os danos podem
ser sérios e profundos. Uma vez que as fotos estão online, é impossível
garantir seu controle, pois elas podem ser copiadas, baixadas ou compartilhadas
por qualquer pessoa", explica Fábio Diniz, presidente do Instituto
Nacional de Combate ao Cibercrime (INCC).
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Sharenting: compartilhar fotos dos filhos na internet
Essa
prática de compartilhar e divulgar fotos e vídeos dos filhos na internet tem
nome: sharenting. O termo vem do inglês e é a junção de share (compartilhar) e
parenting (parentalidade).
Apesar
de parecer uma forma inocente de registros familiares, as postagens também
podem expor detalhes sobre o dia a dia da criança, hábitos da família, locais
frequentados e outras informações pessoais.
"Os
pais podem, sem saber, fornecer informações que facilitem o rastreamento da
localização da criança, aumentando o risco de sequestro ou assédio. Fotos com
uniformes de escolas, clubes ou com localização podem ser bastante
perigosas", acrescenta Diniz.
Para
proteger a privacidade dos menores, os especialistas recomendam que os pais ou
responsáveis evitem postar fotos na internet e compartilhar a imagem das
crianças em aplicativos de mensagens.
"Mesmo
com o perfil privado, ainda existem riscos. Amigos ou seguidores podem
compartilhar as imagens, fazendo com que elas circulem fora do controle dos
pais. O perfil pode ser hackeado e acarretar na exposição das fotos e
informações pessoais das crianças", explica Guilherme Guimarães, advogado
especialista em direito digital e proteção de dados.
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Educação digital para famílias
No
combate ao sharenting, o Comitê Gestor da Internet no Brasil criou o guia
Internet Segura para Seus Filhos. O material aborda temas como os riscos da
internet; como ensinar os filhos a se protegerem no ambiente virtual; e o
capítulo "Não seja você o vilão", direcionado aos pais, levanta a
questão da exposição dos filhos.
Os
especialistas afirmam ainda que os pais não são os únicos culpados pela
exposição das crianças na internet. Para eles, há falta de instrução das
famílias e da sociedade sobre o ambiente digital.
"Não
há educação digital no Brasil. As famílias e a sociedade não sabem dos riscos.
Cabe ao Estado esse cuidado através da criação de regulamentações específicas
para o ambiente virtual. Também é necessário que haja um programa de educação
digital", analisa Fernanda Las Casas, advogada e presidente da Comissão de
Pesquisas do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM).
A
resolução 245/24 do Conselho Nacional dos Direitos das Crianças e dos
Adolescentes (Conanda), aprovada em abril de 2024, aborda os direitos das
crianças e adolescentes no ambiente digital. Ela trata principalmente dos
cuidados que as plataformas e empresas devem ter com os dados dos menores.
"A
privacidade de crianças e adolescentes deve ser respeitada e protegida, por
padrão, em todos os ambientes e serviços digitais, inclusive quanto ao
tratamento e armazenamento de seus dados pessoais", diz trecho do
documento.
Já o
Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) garante a preservação da identidade e
da imagem da criança para que ela não seja exposta a situações constrangedoras.
Porém, não há lei específica para essa proteção no ambiente online.
Fonte:
DW Brasil

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