Notas
sobre os “avanços tecnológicos” no cuidar
Na
esteira do que foi desenvolvido na última coluna, na qual defendi a
diferenciação entre arranjo técnico e artefato técnico como uma premissa
decisiva para pensar o atual cenário de “transformação digital da saúde”, agora
trago um pouco do que compreendo como a segunda premissa, a saber: não há – e
nunca houve na história humana – práticas de cuidado e atenção à saúde que não
tenham sido técnicas.
Em
defesa desse entendimento, penso que temos que dar alguns passos atrás para
revisitar fundamentos. Para alguns isso pode soar abstrato demais e, portanto,
dispensável. Eu diria o contrário: se é precisamente nos momentos de crise que
se faz urgente nomearmos as causas da dor, quanto mais adequadas forem tais
nomeações, mais frutíferas serão as alternativas abertas. Ou, como dizia Gérard
Lebrun, é preciso confiar na “paciência do conceito”: em vez de buscar
diagnósticos imediatos – ao sabor dos acontecimentos e dos modismos –, aceitar
o trabalho demorado de reconstruir mediações históricas e categorias teóricas
que tornam a(s) crise(s) inteligível(is).
Quem
nunca ouviu dizer algo como “A IA é boa ou má a depender de como a utilizamos”?
Essa compreensão é limitada quando entendemos que tecnologias não são meros
instrumentos, coisas estanques que simplesmente manipulamos, mas arranjos
sociais que estão implicados em processos de trabalho historicamente
determinados. Acontece que há algo a mais a ser ponderado: além de instrumento
e arranjo, do ponto de vista da antropologia filosófica e da paleoantropologia,
a rigor a técnica é condição de possibilidade do “humano”.
Sabemos
que não são só os humanos que se medicam. Um exemplo clássico de zoofarmacognosia,
o estudo de como animais utilizam objetos naturais para prevenir ou tratar
doenças, pode ser visto entre os chimpanzés. Tais símios, além das famosas
ferramentas de galhos para pescar cupins e formigas, identificadas por Jane
Goodall, também consomem folhas muito amargas – com pouco ou nenhum valor
nutricional – quando apresentam infecções parasitárias. Para o pioneiro no
assunto, o primatólogo Michael Huffman, tais comportamentos
acontecem quando o animal apresenta sinais de doença, consome uma substância
fora da dieta habitual e sem valor nutricional, demonstra melhora clínica com o
consumo, e a dose ingerida se mostra compatível com a eficácia farmacológica da
substância.
Hoje,
por sinal, sabemos que há inúmeros casos de zoofarmacognosias: de orangotangos aplicando
plantas com propriedades anti-inflamatórias diretamente sobre feridas até aves
esfregando formigas sobre o corpo, em razão do ácido fórmico das formigas, que
age como substância antiparasitária contra piolhos e outros ectoparasitas.
Do
ponto de vista de alguém como György Lukács, embora esses bichos executem
operações sofisticadas, não há evidências de que exista entre eles projetos
idealizados que separam meios e fins na busca de conhecer as propriedades dos
objetos, bem como não encontramos sinais de partilha das novas experiências e
conhecimentos de modo transgeracional e acumulativo. Ainda que executem
comportamentos complexos, não é possível observar um “salto ontológico” entre
“bicho” e humano, diria o húngaro. A razão é que neste último, como diria ele
recuperando Marx, nós vemos justamente a adaptação e transformação ativa do
ambiente (e de si mesmo) através da práxis.
Olhando
para o campo da saúde coletiva, nos fundamentos da compreensão de um dos seus
clássicos, Ricardo Bruno Mendes-Gonçalves (RBMG), encontramos justamente a
ideia de práxis e adaptação ativa de Lukács e Marx. Segundo eles, é próprio do
humano a prática na qual se realiza o que estava previamente idealizado “na
cabeça”, uma prática teleológica. Com ela, o que é ideia ganha existência
material mediante o arranjo de meios adequados para tal. Ao fim, trocando em
miúdos, o que era um objetivo na cabeça se transforma em algo concreto na
prática – o poder da criação, diria o sambista.
É por
isso que, na antropologia filosófica desenvolvida por Lukács, os meios pelos
quais a práxis humana se realiza são justamente o núcleo ontológico da técnica.
Eles são as cadeias causais encontradas no “ambiente exterior” que passam a ser
conhecidas, organizadas e codificadas em instrumentos, ferramentas,
procedimentos e saberes operatórios que viabilizam a realização de um objetivo
determinado. A técnica é, portanto, o sedimentar dos ‘meios’ dos quais o humano
se vale em sua práxis. É nesse processo, por sinal, que a práxis cria então uma
“segunda natureza”, isto é, um mundo “puramente social” – não biológico –,
resultado histórico de uma rede de inúmeras criações teleologicamente
concebidas e objetivadas pelas práticas sociais.
É certo
que Lukács sabe que esta segunda natureza retroage sobre o indivíduo e o grupo,
conformando justamente o processo que ele denominou de “devir humano do
humano”. Podemos até dizer que, para o filósofo marxista, se não há humano sem
práxis, esta, por sua vez, não é possível sem seus meios. Consequentemente, não
seria demais afirmar que, para ele, o humano se faz humano também mediante a
técnica, ou melhor, que não há humano sem técnica.
Acontece
que, na dialética entre o indivíduo da práxis e o “ambiente natural”, tais
pensadores jogam todo o peso no primeiro. O indivíduo teleologicamente
orientado é sempre o polo ativo, enquanto o “ambiente” é passivo, e, com isso,
a técnica aparece como um suplemento de um humano já “pronto”. É esse
fundamento, também, que permite a alguns pensadores da Saúde Coletiva
considerarem a existência de uma “medicina tecnológica” e outra
“não-tecnológica”.
Penso,
contudo, ser o caso de reavaliarmos esse entendimento – não para renunciarmos
ao sujeito da práxis, mas para qualificarmos ainda mais nossa compreensão das
condições de possibilidade da atividade humana e da nossa (auto)transformação.
Mudando
de prateleira, para Bernard Stiegler a técnica também é constitutiva do humano.
Entretanto, afeito à paleoantropologia de André Leroi-Gourhan, para o filósofo
francês, quando pensamos na técnica não se trata somente de um meio que serve
como instrumento às finalidades previamente dadas pela consciência. Em vez
disso, para ele a relação deve ser invertida: o que chamamos “humano” só
aparece como tal na relação mediante a técnica, não há um humano já pronto ao
qual se acrescentaria depois a técnica como um “a mais”. O humano se faz
através de próteses técnicas – sempre tecnodiversas, como diria Yuk Hui, mas
isto ficará para outra oportunidade.
Em
primeiro lugar, Stiegler descreve o devir humano como resultado de um processo
de “exteriorização” da memória em artefatos técnicos, algo que ele denomina
de epifilogênese. O autor utiliza a paleotécnica para enfatizar
que, desde o Paleolítico, a memória humana deixou de ser apenas genética e
ontogenética, e passou a ocorrer por processos de exteriorização. Ou seja,
diferentemente dos ‘bichos’, os humanos constroem sua memória fora de sua base
biológica, no meio externo do organismo individual. A memória humana é,
sobretudo, inscrita naquilo que ele chama de “envelopes técnicos”: ferramentas,
armas, utensílios, artes, grafias, escritas etc. A técnica é sempre inscrição
da memória em artefatos, e o humano “aparece” justamente quando a “vida” passa
a se processar pela organização do inorgânico em próteses técnicas.
Recuperando
Leroi-Gourhan, Stiegler toma o sílex como caso paradigmático: a pedra lascada
desenvolvida por espécies anteriores ao Homo sapiens é
resultado de uma “cadeia de operações”, um artefato que incorpora na sua forma
uma memória desses gestos e serve como suporte para reativar esse saber nas
gerações subsequentes. Quando pegamos um sílex, vemos o que é possível fazer
com ele, o gesto que o produziu, aprendemos, reiteramos ou recriamos esse
gesto. A ferramenta é, portanto, prótese, registro exterior de uma experiência
e um “interlocutor” com o qual o corpo se afina de geração em geração.
Cada
técnica (talhar uma pedra, usar o propulsor, fiar, moer, suturar, cuidar)
implica uma sequência de operações com uma certa sintaxe: ordem de gestos,
ritmos, forças, posições do corpo etc. Essa sequência, uma vez experimentada,
tende a se fixar como “programa de ação”. O artefato funciona justamente como
guia material da sequência: a forma do propulsor “pede” certo modo de empunhar,
certo gesto de arremesso; o desenho de um raspador “pede” certa forma de
raspar, certa posição da mão; o mesmo vale para um curativo com base em fibras
vegetais torcidas e presas com resina, que requer certo modo de enfaixar,
comprimir, sustentar, proteger uma ferida.
Os
artefatos funcionam como um suporte externo da memória: mesmo sem teoria
construída, a própria existência repetida de um tipo de objeto no grupo mantém
vivo o programa gestual, aprende-se ao ver e usar, e se recria por imitação e
inovação.
O
emaranhado desses envelopes técnicos acaba conformando um meio, diria Stiegler,
no sentido de um milieu, um “ambiente” em que nascemos e nos
desenvolvemos, e que ele denominou de “sistema técnico”. Se Marx dizia que os
humanos fazem a história, mas “não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e
sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo
passado”, devemos considerar que o sistema técnico é seguramente um dos legados
mais duros (“calcificados”) com os quais os humanos se defrontam.
No fim
do ano passado, descobertas sugerem que um
grupo de neandertais ateou fogo de forma deliberada e repetida em uma lareira
há cerca de 400 mil anos. Se as descobertas se confirmarem, será uma virada na
paleoantropologia, pois alteraremos a primeira ocorrência do uso do fogo em mais
de 350 mil anos, reforçando as evidências de que os neandertais eram mais
humanos do que ainda supomos. Seja como for, estudos de paleopatologia, como o
de Benjamina — uma criança Homo heidelbergensis com grave deficiência congênita
há cerca de 500 mil anos —, sugerem que grupos humanos muito antigos conviveram
por longos períodos com indivíduos com alterações anatômicas significativas,
oferecendo-lhes práticas de cuidado e atenção à saúde.
Não é
preciso esticar muito a corda para considerar razoável que artefatos “médicos”
utilizados pela espécie “irmã” tenham sido, para o Homo sapiens, um ambiente
técnico valioso. Mesmo porque, voltando às descobertas de Huffman, antes
mencionadas, outra coisa que chama atenção, e que foi confirmada em descobertas
mais recentes, é que a zoofarmacognosia
se dobra sobre a etnofarmacologia. Ou seja, uma fração significativa
das plantas usadas por primatas no processo saúde-doença também aparece em
repertórios de medicinas tradicionais entre os humanos, sendo utilizadas em
processos semelhantes – a medicina também advém de interações interespecíficas.
Tudo
isso, para dizer que, se jogarmos todo o peso no humano dotado de teleologia, a
técnica sempre entrará apenas como instrumento e o sujeito aparecerá como
anterior a ela e seu soberano absoluto. Se insistirmos na ideia de um sujeito
pré-técnico, esqueceremos que a técnica é ela mesma solo material do surgimento
das prévias ideações. O que Stiegler faz é contrabalancear esse enquadramento.
Antes de qualquer sistema conceitual elaborado, há o manejo de meios técnicos
que dão forma à temporalidade da atenção e à espacialidade da ação, isto é, em
sentido forte trata-se de um a priori sociotécnico a todo e
qualquer indivíduo humano, uma condição sem a qual a experiência humana não
teria a forma que tem.
Por
isso, quando o filósofo francês diz que não há humano sem técnica, significa
dizer que nunca houve atividade humana que não tenha emergido de experiências
passadas retidas, inscritas e armazenadas em artefatos – em um sistema técnico.
A técnica não vem depois do humano, como simples resultado da teleologia. Ela
constitui a própria condição da experiência, da temporalidade e da individuação
psíquico-coletiva em que o humano pôde devir. De modo contraintuitivo, podemos
dizer que o humano precede o Homo sapiens mediante o “meio
técnico” criado por outras espécies que o antecederam.
Não
existe, portanto, uma “medicina” não técnica. As práticas de cuidado e atenção
são sempre técnicas, na medida em que elas próprias só podem emergir de um
processo epifilogenético. Em Stiegler, o cuidado que um sujeito é capaz de
dedicar ao outro ou a si mesmo nunca é um “instinto natural” ou uma mera
disposição interior da consciência, mas uma prática que foi configurada por um
ambiente técnico repleto de envelopes de experiências passadas. Quer dizer: os
esquemas de percepção, de memória e de antecipação que compõem a atenção à
saúde se constituem a partir de um tecido de retenções secundárias
(ontogenéticas) selecionadas sobre a base de retenções terciárias
(epifilogenéticas), que organizam, desde a origem de nossa espécie — e o antes do
nascimento de cada um de nós — , as condições de possibilidade do “cuidar”.
Nesse
prisma, a chamada “saúde digital” pode ganhar outra densidade: não se trata de
perguntar se usamos bem ou mal certas tecnologias, mas de compreender como
determinados meios técnicos configuram as próprias condições das práticas de
cuidado e atenção à saúde. Em outras palavras, a disputa não é apenas pelo uso,
mas pela composição dos meios que nos compõem. Se a técnica é esse a
priori material da experiência, então toda política de saúde é,
inevitavelmente, uma política do milieu técnico – voltamos a isto na próxima
coluna.
Fonte:
Por Leandro Modolo, em Outra Saúde

Nenhum comentário:
Postar um comentário