Trump
quer unir polícias de 60 países para perseguir a esquerda além das fronteiras
dos EUA
O
secretário de Estado, Marco Rubio, está instando cerca de 60 países, entre eles
o México, a participar de uma cúpula em Washington no próximo dia 16 de julho
sobre a ameaça do que chama de “terrorismo transnacional de extrema esquerda”.
A
iniciativa vem preocupando, de forma reservada, alguns funcionários do governo
dos Estados Unidos e analistas independentes, que temem que ela possa fazer
parte de uma estratégia política para angariar apoio e justificar a repressão
contra opositores políticos progressistas no país.
A
reunião, que dará continuidade a outras duas realizadas anteriormente sobre o
tema, faz parte dos esforços do presidente Donald Trump para ampliar o rol dos
“inimigos” dos Estados Unidos para além de imigrantes e narcotraficantes,
incluindo o que denomina — sem definir com precisão — de “esquerda radical”,
categoria que abrangeria comunistas, socialistas, anarquistas e, por vezes, até
democratas de centro, além de algo chamado “antifa”, que não existe como
organização formal, em referência a grupos que se definem como “antifascistas”.
Em
declarações recentes, o presidente e sua equipe passaram a se referir aos
“socialistas democráticos” — entre os quais estão o prefeito de Nova York,
Zohran Mamdani, e diversos parlamentares — como “comunistas”, repetindo que
muitos deles são e/ou recebem apoio de imigrantes e outros estrangeiros.
O
governo Trump apresentou acusações criminais contra manifestantes que
protestavam contra as medidas antimigração em diferentes partes do país,
enquadrando-os por “terrorismo doméstico”.
Recentemente,
também convenceu um tribunal no Texas a impor penas de prisão extremamente
severas — incluindo uma condenação de 100 anos — a manifestantes que entraram
em confronto com as autoridades em oposição às políticas migratórias e que,
segundo o governo, se identificavam ou mantinham vínculos com o que chama de
“antifa”.
A
secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, confirmou no último 10
de julho que a reunião internacional está programada para a semana do dia 12.
Segundo ela, a “reunião ministerial sobre a recorrência do terrorismo político”
reunirá ministros e altos funcionários de diversos países para aprimorar o
compartilhamento de inteligência e a cooperação entre as forças de segurança
pública no combate à violência de motivação política.
“Nosso
sistema de operações contraterrorismo precisa ser atualizado para enfrentar a
realidade dessas ameaças, proteger os cidadãos americanos e resguardar a
segurança e os interesses nacionais dos Estados Unidos”, declarou um
funcionário do Departamento de Estado à Reuters.
“O
secretário convidará mais de 60 países de diferentes regiões, incluindo o
hemisfério ocidental, a Europa e a Ásia”, informou um funcionário do
Departamento de Estado ao La Jornada. No entanto, o Departamento de Estado não
respondeu ao pedido de divulgação da lista de convidados. O La Jornada apurou
extraoficialmente que o México está entre os governos convidados a enviar seu
chanceler ou outro alto representante.
Diversos
governos manifestaram preocupação quanto à participação no encontro. “A
iniciativa gerou críticas de alguns funcionários atuais e aposentados,
diplomatas europeus e especialistas em terrorismo, muitos dos quais argumentam
que o governo [dos Estados Unidos] está exagerando a dimensão da ameaça da
extrema esquerda”, informou o site conservador de notícias The Daily Wire.
“Nós
não temos antifa”, afirmou um diplomata europeu ao Washington Post. “Não
consigo encontrar nenhuma razão pela qual teríamos interesse em participar de
um evento desse tipo”, declarou outro diplomata ao jornal. Um terceiro
acrescentou: “Nossas autoridades de segurança pública não têm concentrado
atenção no terrorismo de extrema esquerda porque ele não é considerado uma
ameaça prioritária em nosso país”.
Pelo
menos parte dessa iniciativa está vinculada à campanha interna contra
opositores do governo Trump nos Estados Unidos. Em setembro do ano passado, a
Casa Branca emitiu uma ordem executiva direcionada a grupos dissidentes ou
ativistas de esquerda classificados como parte da “antifa”, que foi designada
como “uma organização terrorista doméstica” (vale reiterar que essa entidade
não existe formalmente, embora haja redes descentralizadas e nem sempre
coordenadas de grupos que se consideram “antifascistas”).
Especialistas
afirmam que “antifa” — abreviação de “antifascista” — refere-se àqueles que
definem sua atuação política como resistência a um regime fascista e que, na
prática, até mesmo veteranos da Segunda Guerra Mundial poderiam ser
considerados “antifa”. Há camisetas, por exemplo, com a frase: “Meu avô lutou
contra o fascismo na Segunda Guerra Mundial”.
Dentro
do próprio governo dos Estados Unidos também há oposição a essa classificação.
“O desconforto com a direção tomada pelo governo é tamanho que, em reuniões de
funcionários da segurança nacional de diversas agências, alguns analistas de
inteligência se recusaram a tratar da antifa por não considerá-la uma ameaça
séria para o contraterrorismo”, informou o Washington Post.
“Alguns
funcionários disseram ao Post estar preocupados de que isso faça parte de um
esforço do governo Trump para utilizar poderosas ferramentas de
contraterrorismo a fim de reprimir ativistas americanos que considera
extremistas de esquerda.”
Nas
últimas semanas, Trump tem procurado ressuscitar o vocabulário da Guerra Fria,
afirmando que as vitórias eleitorais de alguns políticos social-democratas —
que se identificam como socialistas democráticos — representam, na verdade, o
retorno do comunismo.
“Temos
de deter essa terrível ameaça do câncer que está se espalhando por nosso país,
chamada comunismo”, advertiu Trump em um discurso para conservadores no fim de
junho. “Acho que essa é a maior ameaça que existe contra nossa nação, talvez
desde a sua fundação. Isso inclui a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra
Mundial e o 11 de Setembro….”
Essa
mensagem, em diferentes versões, tem sido repetida quase diariamente. No
sábado, Trump divulgou uma mensagem acusando os democratas de serem socialistas
e reiterando: “A América jamais será um país comunista!”.
Neste
domingo, o presidente compartilhou novamente, em suas redes sociais, uma
mensagem de um ultraconservador propondo que “o socialismo democrático seja
criminalizado e que seus líderes sejam deportados”. Esses líderes incluem o
prefeito da principal cidade do país, diversos parlamentares federais e o
ex-candidato à Presidência e senador Bernie Sanders, entre outros.
“É
engraçado que os republicanos consigam enxergar extremismo em todos os outros,
mas fracassem em reconhecê-lo em si mesmos”, escreveu a colunista Sara Pequeño,
do USA Today. “Enquanto os DSA [Socialistas Democráticos da América] defendem
políticas absolutamente radicais como o Medicare para todos e um sistema
universal de cuidados infantis, o movimento Faça a América Grande Novamente
[liderado por Trump] invadiu o Capitólio dos Estados Unidos, destruiu a rede de
proteção social, passou a aterrorizar imigrantes e a comunidade transgênero e
promoveu ‘uma guerra com o Irã que arruinou a economia’.”
Fonte:
Diálogos do Sul Global

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