A
supremacia branca argentina no futebol
São
inúmeros os casos de racismo cometidos por argentinos dentro de um histórico de
episódios recentes. Seja no ambiente futebolístico — como estamos acompanhando
durante a Copa do Mundo, com manifestações racistas por parte de torcedores do
país —, seja no contexto social como um todo. Tal comportamento, racialmente
odioso, se dá em função do mito da homogeneidade racial construído e difundido
historicamente após o epistemicídio estrutural praticado contra os negros e
indígenas no país. A ideia de uma formação cultural branca e puramente europeia
é vista como superioridade civilizatória pela maioria esmagadora de uma
população que, mesmo não estando em seu território, não se avexa em subjugar
racialmente o que não é o espelho. Ou o que eles consideram o seu espelho.
Eu já
escrevi, em outra oportunidade, que nunca vi nenhum jogador argentino se
posicionar contra o racismo. Pelo contrário, sempre vi muitos deles praticando
tal ato. O que me leva a crer que todos sejam, de fato, culturalmente racistas.
Aliás, foram poucos os jogadores considerados geniais na história do futebol
que se posicionaram a respeito do tema. Nem mesmo os pretos, como Pelé, tiveram
coragem de enfrentar o tema e emprestar a sua relevância no esporte para
combater o racismo. Pelé, inclusive, repreendeu o goleiro Aranha quando este
reagiu pública e juridicamente contra uma torcedora do Grêmio que o havia
chamado de “macaco”, dizendo que o jogador “se precipitou” ao fazer a denúncia
e que, se ele, Pelé, fosse paralisar todos os jogos em que foi chamado de
“macaco” e “crioulo” durante sua carreira, os jogos nunca terminariam.
A
omissão de Pelé talvez tivesse por objetivo manter a sua realeza no futebol e
não perder a majestade, ao longo dos tempos, conquistada. Um projeto pessoal
que pode ruir a qualquer momento diante das entusiasmadas manifestações em
louvação às atuações de Lionel Messi na Copa dos EUA, México e Canadá, onde
ele, além de artilheiro da competição, se tornou o maior artilheiro da história
das Copas. Não tenham dúvidas de que, se a Argentina for campeã e Messi o
destaque da equipe, a coroa de rei do futebol poderá mudar de cabeça. Já havia
um movimento no sentido de colocar o argentino no mesmo patamar que Pelé. Algo
que pode ser considerado estruturalmente racista, se considerarmos a cor da
pele de reis e rainhas considerados dignos de veneração na sociedade em que
vivemos. No futebol, um esporte de origem nobre e elitista, não seria
diferente.
Pelé
quebrou o protocolo ao se inserir na nobreza de um esporte criado por brancos e
para brancos, e no qual os negros só tiveram autorização para praticar
profissionalmente a partir dos anos 1910, tendo que se aculturar para parecer
menos preto. Quem não conhece a história do “pó de arroz” utilizado por alguns
atletas negros para disfarçar o tom da pele e serem aceitos nos clubes? O caso
mais emblemático envolvendo o uso do cosmético ocorreu com o zagueiro Carlos
Alberto, do Fluminense, que, durante uma partida no estádio das Laranjeiras, em
1914, viu o seu “disfarce” ser revelado pelo suor que escorria em seu rosto.
Com o passar do tempo, o clube adotou o apelido de “pó de arroz” numa tentativa
de ressignificar o viés racista do uso do produto por jogadores negros.
Na
Argentina, os negros nunca tiveram destaque no futebol. Nem usando pó de arroz
eles estiveram presentes na seleção do país. Para não ser tão injusto com
nossos “hermanos”, três jogadores considerados negros chegaram a ser convocados
pela seleção: o atacante Alejandro de los Santos, que foi campeão sul-americano
em 1925; o zagueiro José Ramos Delgado, que jogou com Pelé no Santos e disputou
a Copa de 1966; e o goleiro Héctor Baley, apelidado de “Chocolate”, que foi
reserva de Fillol na Copa de 1978, disputada na própria Argentina. De lá para
cá, nenhum outro jogador negro vestiu a camisa da seleção argentina. Uma
resistência “heróica” a todo discurso de inclusão racial, diversidade e combate
ao racismo que vem sendo propagado nas últimas décadas.
Quando
a vice-governadora da província argentina de Mendoza, Hebe Casado, chama a
seleção francesa de “time africano sem educação” e foi declarada persona non
grata pela Embaixada da França na Argentina por essa fala claramente racista,
ela revela que, além de estrutural, o racismo no país também é institucional.
Até mesmo a esquerda e o campo progressista no país sempre negligenciaram,
historicamente, o debate racial. O mito eurocêntrico é uma espécie de mosca
azul que pica toda a sociedade, fazendo com que até aqueles que lutam contra o
fascismo tornem invisível a história dos negros no país. É semelhante ao que a
esquerda trotskista defende no Brasil, sob a égide da luta de classes e do
combate ao identitarismo. O contexto racial do preto companheiro de luta não é
tratado na interseccionalidade das pautas progressistas, e quem o faz é
rotulado de “identitário” e desviante de um objetivo maior. E qual é o objetivo
maior de quem sofre racismo estrutural e institucionalmente?
Os
cânticos racistas que a torcida argentina entoou na Copa do Mundo de 2022,
quando conquistou o mundial vencendo a França de Mbappé e companhia, vêm
ganhando mais força na atual competição a cada vitória da seleção. Os franceses
voltaram a ser alvos das ofensas racistas contidas na letra da “canção”, que
diz:
Escutem, corram com a
bola,
Eles jogam na França, mas são todos de Angola.
Que lindo que vão correr,
se relacionam com transexuais como o p… do Mbappé.
A mãe deles é nigeriana, o pai deles, camaronês,
mas no passaporte: nacionalidade francesa.
Além de
racismo, a transfobia também está presente de forma lúdica no “hino”, que
também costuma ser cantado pelos jogadores da seleção. Como na conquista da
Copa América de 2024, quando Enzo Fernández fez uma transmissão ao vivo durante
a comemoração do título, com os jogadores cantando com muito entusiasmo a ode à
sua superioridade racial. Mesmo com a punição do atacante Prestianni, do
Benfica, que foi proibido pela Fifa de disputar o Mundial em função de ofensas
racistas proferidas contra o brasileiro Vinícius Júnior durante um jogo contra
o Real Madrid pela Champions League, os argentinos seguem dando de ombros para
a civilização e continuam disseminando o seu racismo mundo afora.
Quando
vêm ao Brasil, ofendem racialmente os brasileiros e retornam ao país como
heróis, após terem sido presos pelo crime cometido. A advogada e influenciadora
digital Agostina Páez tornou-se mais um exemplo da institucionalidade do
racismo no país, ao ser recebida com honras pela senadora e ex-ministra
Patricia Bullrich, aliada de Javier Milei, após ter sido presa em flagrante
imitando sons de macaco na direção de um garçom que lhe servia em um bar de
Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro. A cara de pau da advogada é tamanha que
ela criticou o rigor das leis brasileiras e disse que os brasileiros tratam mal
os argentinos. Ou seja, no Brasil não nos deixam ser quem realmente somos.
Ainda bem. Porque já bastam os racistas compatriotas que temos por aqui. São
tantos casos de racismo que cheguei à conclusão de que argentino não racista é
igual a cabeça de bacalhau. Sabemos que existe, mas nunca vimos.
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Messi é maior que Maradona?
Lionel Messi ao entrar em campo nesta
quarta-feira (15/07) para enfrentar a Inglaterra aos 39 anos, o
camisa 10 segue sendo o principal nome da seleção argentina, briga novamente
pela artilharia do torneio e amplia uma coleção de recordes construída ao longo
de mais de duas décadas de carreira. Para muitos analistas, a Copa disputada
nos Estados Unidos, México e Canadá representa mais um capítulo de uma
trajetória que já o colocou no centro da maior discussão do futebol: afinal,
Messi é o maior jogador de todos os tempos? A pergunta acompanha o argentino
desde muito antes do título conquistado no Catar, em 2022. Na
Argentina, porém, ela ganhou contornos particulares. Durante anos, a comparação
foi com Diego Maradona — o capitão da
conquista de 1986 e personagem cuja influência transcende o esporte. "Maradona
era o rei da Argentina. E um rei não é eleito, ele simplesmente representa o
país", resume o jornalista espanhol Guillem Balagué, um dos principais
biógrafos de Messi, em entrevista à BBC Brasil.
A
percepção sobre Messi começou a mudar com a conquista da Copa América de 2021 e
praticamente desapareceu após o Mundial do Catar, quando Messi liderou a
Argentina ao tricampeonato mundial. Para Balagué, entretanto, o título não
encerrou completamente a discussão. "Hoje Messi já superou Maradona como
jogador de futebol. Mas haverá argentinos que continuarão dizendo que Maradona
os representa melhor." Fora do país, há quem vá além e sustente que Messi
já ocupa um lugar acima até mesmo daquele reservado por décadas ao
brasileiro Pelé, o "Rei do Futebol".
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Mais do que futebol
Se os
números fossem suficientes para definir quem foi o maior jogador da história,
talvez o debate já tivesse terminado. Messi é o jogador com mais Bolas de Ouro
da história, conquistou praticamente todos os títulos possíveis por Barcelona,
Paris Saint-Germain, Inter Miami e seleção argentina, levantou a Copa América e
a Copa do Mundo e acumula recordes de gols e assistências tanto por clubes
quanto pela Argentina. Mesmo assim, durante anos, uma parcela dos argentinos
continuou colocando Maradona acima dele.
Para
Guillem Balagué, jornalista espanhol que acompanha a carreira de Messi há mais
de duas décadas e escreveu duas biografias do camisa 10, a explicação está no
fato de que Maradona se transformou em um símbolo da identidade argentina. "A
Argentina abraçou durante décadas a ideia de ser um país especial, diferente
dos demais. O futebol virou uma das formas de confirmar essa grandeza",
disse Balagué à BBC Brasil. Maradona representava, nesse contexto, muito mais
do que um craque.
"Ele
veio de uma origem muito humilde, enfrentava qualquer autoridade, podia dizer
ao papa ou ao presidente o que pensava. Era irreverente, genial, tinha essa
mistura de ousadia e carisma que muitos argentinos enxergam como parte de sua
própria identidade."
Messi
seguiu um caminho diferente.
Discreto
fora de campo, avesso a declarações políticas e pouco interessado em construir
uma persona pública, passou boa parte da carreira dizendo que queria apenas
jogar futebol. Essa diferença também aparece na avaliação do ex-jogador
australiano Craig Foster.
Em
entrevista ao jornal britânico The Guardian, Foster afirmou preferir Maradona
justamente porque o argentino "abria a boca" para falar sobre
questões que iam além do esporte, enquanto Messi representa um perfil mais
próximo do atleta moderno, focado quase exclusivamente na carreira esportiva. "Não
gosto tanto de Messi quanto de Maradona porque ele nunca abre a boca. É como
David Beckham ou Cristiano Ronaldo: atletas modernos que não dizem nada sobre
nada. É como se o mundo fora do futebol não existisse", afirmou Foster ao
Guardian. Para Balagué, porém, a personalidade reservada de Messi deixou de ser
um obstáculo à medida que ele acumulou conquistas com a seleção.
Com a
Copa América de 2021 e, principalmente, após o título mundial no Catar muitos
argentinos enxergaram novas características em seu capitão. Durante aquele
Mundial, Messi protagonizou momentos incomuns para quem havia construído a
imagem de um líder silencioso — discutiu com adversários, provocou rivais e
assumiu um protagonismo emocional que muitos associavam apenas a Maradona. "Ele
mostrou novas camadas da personalidade dele. Passou a ser visto como o general
da equipe, algo que também acontecia com Maradona", afirma Balagué.
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Um jogo diferente
Há
outro fator que ajuda a explicar por que dificilmente haverá consenso sobre
quem foi o maior jogador da história: o futebol mudou profundamente nas últimas
cinco décadas.
Quando
Pelé conquistou sua primeira Copa do Mundo, em 1958, os jogadores ainda
viajavam em voos comerciais comuns, enfrentavam gramados irregulares,
arbitragem sem auxílio de vídeo e uma preparação física que hoje parece
rudimentar.
Na
época de Maradona, nos anos 1980, o futebol já era um espetáculo global, mas
ainda distante da indústria bilionária que se consolidaria nas décadas
seguintes. Messi, por sua vez, construiu praticamente toda a carreira em um
cenário completamente diferente.
Clubes
se transformaram em empresas multinacionais, receitas de direitos de
transmissão e patrocínio cresceram exponencialmente, departamentos médicos e de
análise de desempenho passaram a acompanhar cada detalhe da preparação dos
atletas, enquanto nutricionistas, fisiologistas, psicólogos e especialistas
em recuperação física prolongaram carreiras que antes costumavam terminar muito
mais cedo. A tecnologia também alterou a forma como o jogo é disputado e
analisado. Hoje, praticamente todas as partidas são gravadas por dezenas de
câmeras, permitindo análises detalhadas de desempenho e reduzindo o espaço para
lances que passariam despercebidos em outras épocas.
O VAR
modificou decisões de arbitragem, enquanto estatísticas avançadas passaram a
medir desde pressão sem bola até expectativa de gols.
Pelé e
Maradona atuaram em uma época em que boa parte de suas partidas sequer era
televisionada internacionalmente. Messi, em contraste, teve praticamente toda a
carreira registrada em alta definição, analisada em tempo real por
especialistas, redes sociais e milhões de torcedores. Essa exposição permanente
ajuda a explicar por que comparações entre gerações costumam esbarrar em um
problema sem solução: não existe um ambiente comum.
O
próprio ex-atacante Ronaldo defendeu recentemente que qualquer tentativa de
definir quem foi o maior depende, antes de tudo, dos critérios utilizados. Em
entrevista à Romário TV, o ex-atacante brasileiro afirmou que Messi é
"genial demais" e integra seu grupo dos cinco maiores jogadores da
história, mas disse não saber se o argentino supera Maradona. "A gente tem
que procurar um critério para discutir isso. Como faz para escolher sem
critério?", afirmou.
A
pergunta resume um dos principais dilemas dessa discussão.
É
possível comparar jogadores separados por mais de meio século, submetidos a
regras diferentes, calendários diferentes, formas distintas de treinamento e
até expectativas sociais completamente opostas? Talvez por isso o debate
sobreviva a cada geração, e permaneça aberto mesmo diante de carreiras
consideradas extraordinárias.
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O que pesa a favor de Messi
Se não
há consenso sobre quem foi o maior jogador da história, há alguns argumentos
que aparecem com frequência entre aqueles que colocam Messi no topo.
O
primeiro é a longevidade. Enquanto Pelé e Maradona tiveram picos de desempenho
relativamente concentrados, Messi permaneceu entre a elite do futebol mundial
por cerca de duas décadas, conquistando títulos nacionais, continentais e
internacionais em diferentes fases da carreira. Essa consistência é
frequentemente apontada como um de seus maiores diferenciais. Mas ela também
ajuda a ilustrar como o futebol mudou.
O
argentino construiu praticamente toda a carreira em uma indústria que investe
bilhões de dólares em medicina esportiva, fisiologia, nutrição, análise de
desempenho e recuperação física. Esses avanços ajudaram a prolongar carreiras e
permitiram que atletas de alto rendimento competissem em nível de elite até
idades que, décadas atrás, seriam consideradas improváveis. Ao mesmo tempo,
especialistas ressaltam que a evolução da estrutura não diminui o mérito
individual. Se mais jogadores passaram a atuar por mais tempo, poucos
conseguiram manter um nível de excelência comparável ao de Messi durante tantos
anos.
Outro
argumento citado por admiradores do argentino é a consistência em diferentes
contextos.
Para
Thierry Henry, ex-companheiro de Messi no Barcelona, parte dessa regularidade
pode ser explicada por uma competitividade incomum. Em entrevista reproduzida
pelo jornal espanhol Marca, Henry lembrou dos treinamentos no clube catalão e
contou que bastava Messi se sentir injustiçado para transformar completamente
sua postura. "Não desperte a fera", resumiu o francês, recordando
episódios em que o argentino marcava vários gols em sequência depois de
considerar que uma falta não havia sido marcada.
Nem
todos, porém, evitam estabelecer uma hierarquia. Em entrevista à Rádio Villa
Trinidad, da Argentina, em 2021, o ex-jogador brasileiro Tostão afirmou que
Messi já havia superado Maradona, mas ainda ficava atrás de Pelé. "Tenho
essa opinião há muitos anos. Messi, depois de Pelé, é o melhor jogador da
história. Está acima do Maradona porque é mais completo e teve uma carreira
mais longa", disse. Para Tostão, a principal diferença entre Pelé e Messi
está no aspecto físico. "A única diferença entre Pelé e Messi é que Pelé
era fisicamente mais forte e mais agressivo. Mais atleta. Messi é igual a Pelé
em talento."
Pelé,
Maradona e Messi jogaram em épocas diferentes, sob regras diferentes, em
calendários diferentes e em um esporte que se transformou profundamente ao
longo das últimas décadas.
Pelé
ajudou a popularizar mundialmente um futebol que ainda dava seus primeiros
passos como espetáculo global. Maradona se tornou um ícone esportivo, político
e cultural em uma Argentina marcada por crises e transformações. Messi
consolidou sua carreira em uma era dominada pela globalização, pela ciência do
esporte e pela exposição permanente das redes sociais. É justamente essa
combinação de contextos distintos que torna improvável uma resposta definitiva
para a pergunta sobre quem foi o maior.
Fonte:
Por Ricardo Nêggo Tom, em Brasil 247/BBC Sport

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