quinta-feira, 16 de julho de 2026

A supremacia branca argentina no futebol

São inúmeros os casos de racismo cometidos por argentinos dentro de um histórico de episódios recentes. Seja no ambiente futebolístico — como estamos acompanhando durante a Copa do Mundo, com manifestações racistas por parte de torcedores do país —, seja no contexto social como um todo. Tal comportamento, racialmente odioso, se dá em função do mito da homogeneidade racial construído e difundido historicamente após o epistemicídio estrutural praticado contra os negros e indígenas no país. A ideia de uma formação cultural branca e puramente europeia é vista como superioridade civilizatória pela maioria esmagadora de uma população que, mesmo não estando em seu território, não se avexa em subjugar racialmente o que não é o espelho. Ou o que eles consideram o seu espelho.

Eu já escrevi, em outra oportunidade, que nunca vi nenhum jogador argentino se posicionar contra o racismo. Pelo contrário, sempre vi muitos deles praticando tal ato. O que me leva a crer que todos sejam, de fato, culturalmente racistas. Aliás, foram poucos os jogadores considerados geniais na história do futebol que se posicionaram a respeito do tema. Nem mesmo os pretos, como Pelé, tiveram coragem de enfrentar o tema e emprestar a sua relevância no esporte para combater o racismo. Pelé, inclusive, repreendeu o goleiro Aranha quando este reagiu pública e juridicamente contra uma torcedora do Grêmio que o havia chamado de “macaco”, dizendo que o jogador “se precipitou” ao fazer a denúncia e que, se ele, Pelé, fosse paralisar todos os jogos em que foi chamado de “macaco” e “crioulo” durante sua carreira, os jogos nunca terminariam.

A omissão de Pelé talvez tivesse por objetivo manter a sua realeza no futebol e não perder a majestade, ao longo dos tempos, conquistada. Um projeto pessoal que pode ruir a qualquer momento diante das entusiasmadas manifestações em louvação às atuações de Lionel Messi na Copa dos EUA, México e Canadá, onde ele, além de artilheiro da competição, se tornou o maior artilheiro da história das Copas. Não tenham dúvidas de que, se a Argentina for campeã e Messi o destaque da equipe, a coroa de rei do futebol poderá mudar de cabeça. Já havia um movimento no sentido de colocar o argentino no mesmo patamar que Pelé. Algo que pode ser considerado estruturalmente racista, se considerarmos a cor da pele de reis e rainhas considerados dignos de veneração na sociedade em que vivemos. No futebol, um esporte de origem nobre e elitista, não seria diferente.

Pelé quebrou o protocolo ao se inserir na nobreza de um esporte criado por brancos e para brancos, e no qual os negros só tiveram autorização para praticar profissionalmente a partir dos anos 1910, tendo que se aculturar para parecer menos preto. Quem não conhece a história do “pó de arroz” utilizado por alguns atletas negros para disfarçar o tom da pele e serem aceitos nos clubes? O caso mais emblemático envolvendo o uso do cosmético ocorreu com o zagueiro Carlos Alberto, do Fluminense, que, durante uma partida no estádio das Laranjeiras, em 1914, viu o seu “disfarce” ser revelado pelo suor que escorria em seu rosto. Com o passar do tempo, o clube adotou o apelido de “pó de arroz” numa tentativa de ressignificar o viés racista do uso do produto por jogadores negros.

Na Argentina, os negros nunca tiveram destaque no futebol. Nem usando pó de arroz eles estiveram presentes na seleção do país. Para não ser tão injusto com nossos “hermanos”, três jogadores considerados negros chegaram a ser convocados pela seleção: o atacante Alejandro de los Santos, que foi campeão sul-americano em 1925; o zagueiro José Ramos Delgado, que jogou com Pelé no Santos e disputou a Copa de 1966; e o goleiro Héctor Baley, apelidado de “Chocolate”, que foi reserva de Fillol na Copa de 1978, disputada na própria Argentina. De lá para cá, nenhum outro jogador negro vestiu a camisa da seleção argentina. Uma resistência “heróica” a todo discurso de inclusão racial, diversidade e combate ao racismo que vem sendo propagado nas últimas décadas.

Quando a vice-governadora da província argentina de Mendoza, Hebe Casado, chama a seleção francesa de “time africano sem educação” e foi declarada persona non grata pela Embaixada da França na Argentina por essa fala claramente racista, ela revela que, além de estrutural, o racismo no país também é institucional. Até mesmo a esquerda e o campo progressista no país sempre negligenciaram, historicamente, o debate racial. O mito eurocêntrico é uma espécie de mosca azul que pica toda a sociedade, fazendo com que até aqueles que lutam contra o fascismo tornem invisível a história dos negros no país. É semelhante ao que a esquerda trotskista defende no Brasil, sob a égide da luta de classes e do combate ao identitarismo. O contexto racial do preto companheiro de luta não é tratado na interseccionalidade das pautas progressistas, e quem o faz é rotulado de “identitário” e desviante de um objetivo maior. E qual é o objetivo maior de quem sofre racismo estrutural e institucionalmente?

Os cânticos racistas que a torcida argentina entoou na Copa do Mundo de 2022, quando conquistou o mundial vencendo a França de Mbappé e companhia, vêm ganhando mais força na atual competição a cada vitória da seleção. Os franceses voltaram a ser alvos das ofensas racistas contidas na letra da “canção”, que diz:

Escutem, corram com a bola,
Eles jogam na França, mas são todos de Angola.
Que lindo que vão correr,
se relacionam com transexuais como o p… do Mbappé.
A mãe deles é nigeriana, o pai deles, camaronês,
mas no passaporte: nacionalidade francesa.

Além de racismo, a transfobia também está presente de forma lúdica no “hino”, que também costuma ser cantado pelos jogadores da seleção. Como na conquista da Copa América de 2024, quando Enzo Fernández fez uma transmissão ao vivo durante a comemoração do título, com os jogadores cantando com muito entusiasmo a ode à sua superioridade racial. Mesmo com a punição do atacante Prestianni, do Benfica, que foi proibido pela Fifa de disputar o Mundial em função de ofensas racistas proferidas contra o brasileiro Vinícius Júnior durante um jogo contra o Real Madrid pela Champions League, os argentinos seguem dando de ombros para a civilização e continuam disseminando o seu racismo mundo afora.

Quando vêm ao Brasil, ofendem racialmente os brasileiros e retornam ao país como heróis, após terem sido presos pelo crime cometido. A advogada e influenciadora digital Agostina Páez tornou-se mais um exemplo da institucionalidade do racismo no país, ao ser recebida com honras pela senadora e ex-ministra Patricia Bullrich, aliada de Javier Milei, após ter sido presa em flagrante imitando sons de macaco na direção de um garçom que lhe servia em um bar de Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro. A cara de pau da advogada é tamanha que ela criticou o rigor das leis brasileiras e disse que os brasileiros tratam mal os argentinos. Ou seja, no Brasil não nos deixam ser quem realmente somos. Ainda bem. Porque já bastam os racistas compatriotas que temos por aqui. São tantos casos de racismo que cheguei à conclusão de que argentino não racista é igual a cabeça de bacalhau. Sabemos que existe, mas nunca vimos.

¨      Messi é maior que Maradona?

Lionel Messi ao entrar em campo nesta quarta-feira (15/07) para enfrentar a Inglaterra aos 39 anos, o camisa 10 segue sendo o principal nome da seleção argentina, briga novamente pela artilharia do torneio e amplia uma coleção de recordes construída ao longo de mais de duas décadas de carreira. Para muitos analistas, a Copa disputada nos Estados Unidos, México e Canadá representa mais um capítulo de uma trajetória que já o colocou no centro da maior discussão do futebol: afinal, Messi é o maior jogador de todos os tempos? A pergunta acompanha o argentino desde muito antes do título conquistado no Catar, em 2022. Na Argentina, porém, ela ganhou contornos particulares. Durante anos, a comparação foi com Diego Maradona — o capitão da conquista de 1986 e personagem cuja influência transcende o esporte. "Maradona era o rei da Argentina. E um rei não é eleito, ele simplesmente representa o país", resume o jornalista espanhol Guillem Balagué, um dos principais biógrafos de Messi, em entrevista à BBC Brasil.

A percepção sobre Messi começou a mudar com a conquista da Copa América de 2021 e praticamente desapareceu após o Mundial do Catar, quando Messi liderou a Argentina ao tricampeonato mundial. Para Balagué, entretanto, o título não encerrou completamente a discussão. "Hoje Messi já superou Maradona como jogador de futebol. Mas haverá argentinos que continuarão dizendo que Maradona os representa melhor." Fora do país, há quem vá além e sustente que Messi já ocupa um lugar acima até mesmo daquele reservado por décadas ao brasileiro Pelé, o "Rei do Futebol".

<><> Mais do que futebol

Se os números fossem suficientes para definir quem foi o maior jogador da história, talvez o debate já tivesse terminado. Messi é o jogador com mais Bolas de Ouro da história, conquistou praticamente todos os títulos possíveis por Barcelona, Paris Saint-Germain, Inter Miami e seleção argentina, levantou a Copa América e a Copa do Mundo e acumula recordes de gols e assistências tanto por clubes quanto pela Argentina. Mesmo assim, durante anos, uma parcela dos argentinos continuou colocando Maradona acima dele.

Para Guillem Balagué, jornalista espanhol que acompanha a carreira de Messi há mais de duas décadas e escreveu duas biografias do camisa 10, a explicação está no fato de que Maradona se transformou em um símbolo da identidade argentina. "A Argentina abraçou durante décadas a ideia de ser um país especial, diferente dos demais. O futebol virou uma das formas de confirmar essa grandeza", disse Balagué à BBC Brasil. Maradona representava, nesse contexto, muito mais do que um craque.

"Ele veio de uma origem muito humilde, enfrentava qualquer autoridade, podia dizer ao papa ou ao presidente o que pensava. Era irreverente, genial, tinha essa mistura de ousadia e carisma que muitos argentinos enxergam como parte de sua própria identidade."

Messi seguiu um caminho diferente.

Discreto fora de campo, avesso a declarações políticas e pouco interessado em construir uma persona pública, passou boa parte da carreira dizendo que queria apenas jogar futebol. Essa diferença também aparece na avaliação do ex-jogador australiano Craig Foster.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Foster afirmou preferir Maradona justamente porque o argentino "abria a boca" para falar sobre questões que iam além do esporte, enquanto Messi representa um perfil mais próximo do atleta moderno, focado quase exclusivamente na carreira esportiva. "Não gosto tanto de Messi quanto de Maradona porque ele nunca abre a boca. É como David Beckham ou Cristiano Ronaldo: atletas modernos que não dizem nada sobre nada. É como se o mundo fora do futebol não existisse", afirmou Foster ao Guardian. Para Balagué, porém, a personalidade reservada de Messi deixou de ser um obstáculo à medida que ele acumulou conquistas com a seleção.

Com a Copa América de 2021 e, principalmente, após o título mundial no Catar muitos argentinos enxergaram novas características em seu capitão. Durante aquele Mundial, Messi protagonizou momentos incomuns para quem havia construído a imagem de um líder silencioso — discutiu com adversários, provocou rivais e assumiu um protagonismo emocional que muitos associavam apenas a Maradona. "Ele mostrou novas camadas da personalidade dele. Passou a ser visto como o general da equipe, algo que também acontecia com Maradona", afirma Balagué.

<><> Um jogo diferente

Há outro fator que ajuda a explicar por que dificilmente haverá consenso sobre quem foi o maior jogador da história: o futebol mudou profundamente nas últimas cinco décadas.

Quando Pelé conquistou sua primeira Copa do Mundo, em 1958, os jogadores ainda viajavam em voos comerciais comuns, enfrentavam gramados irregulares, arbitragem sem auxílio de vídeo e uma preparação física que hoje parece rudimentar.

Na época de Maradona, nos anos 1980, o futebol já era um espetáculo global, mas ainda distante da indústria bilionária que se consolidaria nas décadas seguintes. Messi, por sua vez, construiu praticamente toda a carreira em um cenário completamente diferente.

Clubes se transformaram em empresas multinacionais, receitas de direitos de transmissão e patrocínio cresceram exponencialmente, departamentos médicos e de análise de desempenho passaram a acompanhar cada detalhe da preparação dos atletas, enquanto nutricionistas, fisiologistas, psicólogos e especialistas em recuperação física prolongaram carreiras que antes costumavam terminar muito mais cedo. A tecnologia também alterou a forma como o jogo é disputado e analisado. Hoje, praticamente todas as partidas são gravadas por dezenas de câmeras, permitindo análises detalhadas de desempenho e reduzindo o espaço para lances que passariam despercebidos em outras épocas.

O VAR modificou decisões de arbitragem, enquanto estatísticas avançadas passaram a medir desde pressão sem bola até expectativa de gols.

Pelé e Maradona atuaram em uma época em que boa parte de suas partidas sequer era televisionada internacionalmente. Messi, em contraste, teve praticamente toda a carreira registrada em alta definição, analisada em tempo real por especialistas, redes sociais e milhões de torcedores. Essa exposição permanente ajuda a explicar por que comparações entre gerações costumam esbarrar em um problema sem solução: não existe um ambiente comum.

O próprio ex-atacante Ronaldo defendeu recentemente que qualquer tentativa de definir quem foi o maior depende, antes de tudo, dos critérios utilizados. Em entrevista à Romário TV, o ex-atacante brasileiro afirmou que Messi é "genial demais" e integra seu grupo dos cinco maiores jogadores da história, mas disse não saber se o argentino supera Maradona. "A gente tem que procurar um critério para discutir isso. Como faz para escolher sem critério?", afirmou.

A pergunta resume um dos principais dilemas dessa discussão.

É possível comparar jogadores separados por mais de meio século, submetidos a regras diferentes, calendários diferentes, formas distintas de treinamento e até expectativas sociais completamente opostas? Talvez por isso o debate sobreviva a cada geração, e permaneça aberto mesmo diante de carreiras consideradas extraordinárias.

<><> O que pesa a favor de Messi

Se não há consenso sobre quem foi o maior jogador da história, há alguns argumentos que aparecem com frequência entre aqueles que colocam Messi no topo.

O primeiro é a longevidade. Enquanto Pelé e Maradona tiveram picos de desempenho relativamente concentrados, Messi permaneceu entre a elite do futebol mundial por cerca de duas décadas, conquistando títulos nacionais, continentais e internacionais em diferentes fases da carreira. Essa consistência é frequentemente apontada como um de seus maiores diferenciais. Mas ela também ajuda a ilustrar como o futebol mudou.

O argentino construiu praticamente toda a carreira em uma indústria que investe bilhões de dólares em medicina esportiva, fisiologia, nutrição, análise de desempenho e recuperação física. Esses avanços ajudaram a prolongar carreiras e permitiram que atletas de alto rendimento competissem em nível de elite até idades que, décadas atrás, seriam consideradas improváveis. Ao mesmo tempo, especialistas ressaltam que a evolução da estrutura não diminui o mérito individual. Se mais jogadores passaram a atuar por mais tempo, poucos conseguiram manter um nível de excelência comparável ao de Messi durante tantos anos.

Outro argumento citado por admiradores do argentino é a consistência em diferentes contextos.

Para Thierry Henry, ex-companheiro de Messi no Barcelona, parte dessa regularidade pode ser explicada por uma competitividade incomum. Em entrevista reproduzida pelo jornal espanhol Marca, Henry lembrou dos treinamentos no clube catalão e contou que bastava Messi se sentir injustiçado para transformar completamente sua postura. "Não desperte a fera", resumiu o francês, recordando episódios em que o argentino marcava vários gols em sequência depois de considerar que uma falta não havia sido marcada.

Nem todos, porém, evitam estabelecer uma hierarquia. Em entrevista à Rádio Villa Trinidad, da Argentina, em 2021, o ex-jogador brasileiro Tostão afirmou que Messi já havia superado Maradona, mas ainda ficava atrás de Pelé. "Tenho essa opinião há muitos anos. Messi, depois de Pelé, é o melhor jogador da história. Está acima do Maradona porque é mais completo e teve uma carreira mais longa", disse. Para Tostão, a principal diferença entre Pelé e Messi está no aspecto físico. "A única diferença entre Pelé e Messi é que Pelé era fisicamente mais forte e mais agressivo. Mais atleta. Messi é igual a Pelé em talento."

Pelé, Maradona e Messi jogaram em épocas diferentes, sob regras diferentes, em calendários diferentes e em um esporte que se transformou profundamente ao longo das últimas décadas.

Pelé ajudou a popularizar mundialmente um futebol que ainda dava seus primeiros passos como espetáculo global. Maradona se tornou um ícone esportivo, político e cultural em uma Argentina marcada por crises e transformações. Messi consolidou sua carreira em uma era dominada pela globalização, pela ciência do esporte e pela exposição permanente das redes sociais. É justamente essa combinação de contextos distintos que torna improvável uma resposta definitiva para a pergunta sobre quem foi o maior.

 

Fonte: Por Ricardo Nêggo Tom, em Brasil 247/BBC Sport

 

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