Flávio
balança, mas a extrema direita não cai
É
tentador olhar para as pesquisas mais recentes e concluir que os rumos da
eleição presidencial já estão traçados. Mas outubro ainda está longe. E, mesmo
que as intenções de votos atuais se confirmem nas urnas, há disputas
importantes para a democracia acontecendo em outros lugares.
Há
poucos meses, o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, parecia
reunir as condições para liderar a extrema direita na corrida presidencial. Era
o herdeiro político mais evidente do bolsonarismo, contava com a força
eleitoral do sobrenome e aparecia como o nome capaz de manter unido um campo
político que perdeu Jair Bolsonaro para a prisão, mas não perdeu seu poder de
engajamento.
Hoje, o
cenário é bem diferente. A candidatura de Flávio atravessa seu momento mais
difícil. Desde maio, ela foi atingida por uma sucessão de crises que se
alimentam mutuamente. A nossa série Vaza Flávio revelou documentos, áudios e
mensagens que colocaram o senador no centro de um escândalo de grandes
proporções – que ele, até agora, não conseguiu explicar de forma convincente.
Ao
mesmo tempo, Michelle Bolsonaro rompeu o silêncio e passou a fazer críticas
públicas ao enteado, aprofundando divisões que antes eram tratadas apenas nos
bastidores. Rumores de que novos vazamentos podem vir à tona aterrorizam a
campanha do Zero Um. E, como se tudo isso não bastasse, a relação de Flávio
Bolsonaro e seus aliados com o tarifaço de Donald Trump contra o Brasil também
pesa contra o senador.
Nenhum
desses fatores, isoladamente, explica o que está havendo com a campanha
eleitoral bolsonarista. Mas, juntos, ajudam a entender por que aquele que
parecia ser o nome natural da extrema direita enfrenta, hoje, dificuldades que
poucos imaginavam no início do ano.
Isso
não significa, porém, que a eleição esteja decidida. Pesquisas são fotografias
de um momento. Ainda faltam meses de campanha, debates, propaganda eleitoral,
alianças e acontecimentos capazes de alterar o humor dos eleitores. A política
brasileira já produziu reviravoltas grandes demais para que o resultado seja
tratado como definitivo.
Ao
mesmo tempo, há outro risco: acreditar que uma eventual derrota de Flávio
Bolsonaro será, por si só, o fracasso do projeto político da extrema direita.
Não será.
A
extrema direita avança
O
bolsonarismo nunca dependeu exclusivamente de Jair Bolsonaro ou de sua família.
Ao longo dos últimos anos, esse movimento consolidou uma base eleitoral
resiliente, formou novos quadros, ampliou sua presença em governos estaduais,
no Congresso, nas redes sociais e na sociedade civil.
Embora
Flávio tenha caído nas pesquisas eleitorais, um outro candidato conservador
passou a crescer. Como escrevi na edição passada desta newsletter, Renan
Santos, do Partido Missão, ganhou força como referência para parte da direita
radical.
O campo
continua em movimento, procurando novos porta-vozes para um eleitorado que, em
grande medida, permanece mobilizado. Talvez o maior erro seja, portanto,
imaginar que toda essa disputa se resume ao Palácio do Planalto.
No ano
passado, meu colega Leandro Becker coordenou a série de reportagens Senado no
Alvo, mostrando como a extrema direita trata a renovação do Senado como uma
prioridade estratégica. O objetivo é ampliar a capacidade de influenciar a
indicação de ministros para os tribunais superiores, julgar autoridades,
analisar pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal e
moldar, por muitos anos, o funcionamento das principais instituições da
República.
A
Câmara dos Deputados também continuará sendo um espaço decisivo para bloquear
ou aprovar reformas, pautar costumes, restringir direitos e impor derrotas a
qualquer governo eleito nas urnas. Ao mesmo tempo, a disputa pelos governos
estaduais poderá ampliar ainda mais a influência da direita sobre as polícias,
os orçamentos e as máquinas administrativas.
Em
outras palavras: perder a Presidência não significa, necessariamente, que a
extrema direita fracassará com seu projeto de poder. Dependendo da composição
do Congresso, poderemos assistir a novos ataques ao STF, ao avanço de propostas
contra direitos reprodutivos das mulheres e a uma pressão institucional
permanente sobre qualquer governo eleito.
É duro,
mas é real: uma vitória de Lula pode coexistir com uma derrota política para a
esquerda.
É
justamente por isso que resisto às leituras apressadas desta eleição. Há
motivos para quem se opõe ao bolsonarismo enxergar algum alívio diante das
dificuldades enfrentadas por Flávio Bolsonaro. Seria estranho fingir que não há
diferenças entre um cenário em que sua candidatura lidera as pesquisas e outro
em que ela enfrenta uma crise profunda.
Mas
alívio não é o mesmo que tranquilidade. O verdadeiro teste para a democracia
brasileira não será apenas descobrir quem ocupará a cadeira de presidente em
janeiro de 2027. Será medir até onde um projeto político autoritário continuará
expandindo sua influência sobre as instituições que produzem as regras do jogo
muito depois do fim da campanha.
Estamos
de olho
É por
isso que, nos próximos meses, continuaremos acompanhando não apenas a corrida
presidencial, mas também aqueles que disputam o controle do Congresso, dos
estados e dos espaços de poder onde muitas das decisões mais importantes são
tomadas longe dos holofotes. São muitas cartas marcadas que podem – e vão –
fazer muita diferença.
E, como
sempre, contamos também com quem acompanha nosso trabalho. Muitas das melhores
investigações começam com um documento, uma denúncia ou uma informação enviada
por um leitor. Em uma eleição como esta, continuar revelando o que os poderosos
prefeririam manter escondido talvez seja mais importante do que nunca.
Portanto,
se você conhece uma história que merece ser investigada, tem acesso a
documentos de interesse público ou acredita que há algo importante acontecendo
longe dos holofotes, envie uma mensagem pela nossa página de fontes.
Até a
próxima! E, até lá, cuide-se — e conte com a gente para continuar iluminando o
que alguns preferem manter no escuro.
• Eduardo diz que Flávio Bolsonaro usará
Milei para constranger Moraes
Dos
EUA, onde coordena informalmente a campanha do irmão, Eduardo Bolsonaro (PL-SP)
afirmou que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) usará o presidente da Argentina, Javier
Milei, para constranger Alexandre de Moraes e revelou que está trabalhando pela
retomada de sanção do governo Donald Trump ao ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF), a quem se referiu como “trambiqueiro”.
“O
Moraes vai ter mais uma saia justa para resolver, que é a visita do presidente
Javier Milei ao Brasil. Ele vem para a convenção partidária do PL, que vai
oficializar a candidatura do Flávio Bolsonaro e também – se já não pediu,
pedirá – para visitar Jair Messias Bolsonaro”, afirmou.
Em
seguida, Eduardo diz que Moraes “vai ter uma oportunidade de engolir o seu ego,
voltar atrás das próprias regras que ele fica criando a todo momento, que não
são regras legais, e então, permitir a visita do Milei ao Bolsonaro para tentar
dar ares de democracia no Brasil”.
“Essa
seria a opção A. Ou a opção B. Ele vai negar a visita do Javier Milei”,
afirmou, usando como exemplo a visita de Lula a Cristina Kirchner em prisão
domiciliar na Argentina, segundo ele “pisoteando no judiciário argentino”.
“Trambiqueiro”
Eduardo
ainda elevou o tom nos ataques contra Moraes, revelando que o ministro deve
voltar a ser alvo dos comandados extremistas, que atuam em uma espécie de
releitura do gabinete do ódio nas redes sociais.
O “02”
de Jair Bolsonaro (PL) ameaça frontalmente o ministro e revela que está
trabalhando para reativar a sanção pela Lei Magnitsky junto ao governo Trump.
“Moraes
está cruzando a linha sucessivas vezes, parece até que ele deseja o retorno da
Magnitsky”, afirmou.
Eduardo,
então, passa a ironizar e atacar o ministro brasileiro, afirmando sem provas
que ele seria bilionário e teria “dinheiro espalhado pelo mundo”.
“Moraes
é um cara careca, parece até um desenho animado feito para ser um vilão de um
filme, mas se coloca no lugar do sujeito lá. Você chega em casa, a tua mulher
está com contratos ali que o Moraes eu acho que ele já deve ser bilionário, tá?
Para você bem entender. Dinheiro dele é espalhado pelo mundo, né, sofisticado
do jeito que é, esses trambiqueiros”, narrou.
“Aí
você chega em casa e a tua mulher fala: ‘meu amor, eu estou vendo aí na notícia
na imprensa que, poxa, tem a tal de Magninsky, podem cancelar o nosso cartão de
crédito. E é coisa dos Estados Unidos, vai dar ruim no mundo inteiro, que
negócio é esse?’ Você já imaginou você chegar em casa e ter um problema desse?
Tu é bilionário e a tua mulher não pode passar o cartão de crédito?”, ironizou.
O
deputado cassado afirma na sequência que “há uma real possibilidade de retorno
da Magnitsky” e que está trabalhando para chamar a atenção de Trump para isso.
“Só que
para isso ocorrer, como foi ela suspensa através de uma decisão do presidente,
ela só retorna com uma decisão do presidente. E é uma dificuldade muito grande
você disputar a atenção do Trump”, afirmou.
Partidos
acionam Justiça por “escancarada propaganda eleitoral” de Flávio Bolsonaro com
carta do pai
A
Federação Brasil da Esperança (FE Brasil), formada por PT, PV e PCdoB, entrou
com ação junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o senador e
pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) por ter feito “escancarada
propaganda eleitoral antecipada irregular” no YouTube ao ler a carta escrita
pelo pai, Jair Bolsonaro (PL), no último sábado (11).
Presidente
da corte, Kássio Nunes Marques foi sorteado mais uma vez para relatar a ação,
protocolada nesta segunda-feira (13), que questiona a divulgação explícita do
número da candidatura à Presidência, o que é vedado pela justiça eleitoral, ao
ler comentários de apoiadores e “apresenta propostas e promessas de campanha
condicionadas à sua eventual eleição, enaltece virtudes pessoais para se
sobrepor aos concorrentes”.
Em
nota, a federação partidária diz que “a transmissão ultrapassou os limites
permitidos durante a pré-campanha e reuniu elementos típicos de propaganda
eleitoral: pedido de apoio, apresentação de propostas para um eventual governo,
divulgação do número de urna e ataques direcionados ao presidente Luiz Inácio
Lula da Silva”.
“O
processo, de número 0601250-05.2026.6.00.0000, foi distribuído ao ministro
Nunes Marques. Além da aplicação de multas, a federação pede uma decisão
liminar para que o vídeo seja retirado do ar antes do julgamento definitivo”,
diz o texto.
A ação
destaca que a transmissão não se restringiu à leitura da carta. Ao longo da
live, Flávio falou sobre a disputa presidencial, apresentou promessas para um
eventual governo e reagiu positivamente a mensagens de apoiadores que pediam
sua eleição.
Em um
desses momentos, o senador leu a mensagem “Flávio Bolsonaro presidente eleito
em primeiro turno” e respondeu: “Deus te ouça, Moisés. Sabe que estamos
trabalhando muito firme aqui para isso”.
Outro
ponto central da representação é a divulgação do número eleitoral de Flávio
Bolsonaro. Durante a live, o pré-candidato agradeceu a uma apoiadora depois de
ler uma mensagem com o número de voto do pré-candidato.
Segundo
a FE Brasil, o episódio não pode ser tratado apenas como manifestação
espontânea de uma espectadora, uma vez que o senador escolheu reproduzir o
conteúdo durante uma transmissão promovida em seu próprio canal e agradeceu
publicamente pelo apoio.
Para os
advogados da federação, o conjunto formado pela indicação do cargo pretendido,
pelas promessas, pelo pedido de apoio popular e pela divulgação do número de
urna demonstra a antecipação irregular da campanha.
A peça
afirma que o conteúdo “transcende — e muito — os limites da liberdade de
expressão no contexto de pré-campanha eleitoral” e desrespeita as regras
destinadas a garantir igualdade de condições entre os possíveis concorrentes.
Ataques
a Lula
A
representação também acusa Flávio Bolsonaro de praticar propaganda eleitoral
antecipada negativa contra o presidente Lula, pré-candidato à reeleição.
Durante
a live, o senador chamou quem está no governo de “verdadeiro inimigo do Brasil”
e fez críticas à atual gestão. Em outro momento, afirmou que seria necessário
“matar a cabeça da serpente que está aqui no Brasil” para que o país voltasse a
pensar em prosperidade, liberdade e segurança.
Para a
federação, o contexto das declarações deixa claro que os ataques foram
dirigidos a Lula e funcionam como um pedido antecipado para que os eleitores
não votem no presidente.
A
representação sustenta que a propaganda negativa está caracterizada pela
tentativa de desestimular votos em Lula antes do período permitido. Segundo a
peça, a transmissão teve o “único propósito de incentivar os eleitores a
escolherem e votarem” em Flávio Bolsonaro, o que “fere gravemente o equilíbrio
da campanha eleitoral”.
Pedidos
No
pedido urgente, a FE Brasil requer que Flávio Bolsonaro retire a transmissão do
YouTube no prazo de 24 horas. Caso ele não cumpra uma eventual decisão, a
federação solicita que a própria plataforma seja obrigada a indisponibilizar o
conteúdo.
A ação
pede ainda que o senador seja impedido de publicar materiais iguais ou
substancialmente semelhantes durante a pré-campanha.
No
julgamento de mérito, a federação solicita a aplicação da multa máxima de R$ 25
mil pela propaganda antecipada positiva em favor de Flávio e de outros R$ 25
mil pela propaganda negativa contra Lula. As penalidades podem, portanto, somar
R$ 50 mil.
De
acordo com os dados reunidos no processo, a live já acumulava mais de 257 mil
visualizações, 75 mil curtidas e 11 mil comentários quando a representação foi
apresentada. Para a FE Brasil, a dimensão alcançada pela transmissão amplia os
prejuízos à igualdade da disputa e exige uma resposta rápida da Justiça
Eleitoral.
Fonte:
Por Paulo Motoryn, em The Intercept/Fórum

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