O
Estado do século XXI
Poucas
vezes na história a humanidade assistiu a uma transformação tão profunda quanto
a que vivemos atualmente. Não se trata apenas da substituição de máquinas por
computadores, nem da troca de fábricas por plataformas digitais. O que está em
curso é uma mudança na própria natureza do poder. Se a Revolução industrial
reorganizou a economia em torno da máquina, a transformação digital reorganiza
a sociedade em torno dos dados, dos algoritmos e da inteligência artificial.
O
século XX foi moldado pela indústria. Este início do século XXI está sendo
moldado pela capacidade de produzir, integrar e transformar dados em
conhecimento estratégico. O ativo decisivo das nações deixa de ser apenas o
capital físico e passa a incluir o patrimônio informacional. A riqueza já não
depende exclusivamente do controle de fábricas, energia, infraestrutura e força
de trabalho, mas também da capacidade de organizar redes digitais, desenvolver
inteligência artificial, comandar fluxos de informação e antecipar
comportamentos.
É essa
capacidade de antecipação que define o novo capitalismo. Antes, a fábrica
disciplinava corpos, agora, os algoritmos influenciam escolhas, desejos e
expectativas. Se o relógio regulava o tempo do trabalhador industrial, as
plataformas digitais regulam nossa atenção. Se a publicidade vendia
mercadorias, a inteligência artificial comercializa previsões sobre nossos
comportamentos. O capitalismo contemporâneo não deseja apenas vender produtos:
deseja prever, induzir e capturar condutas.
As
grandes plataformas tecnológicas sabem onde estamos, o que consumimos, quais
são nossos hábitos, vínculos sociais, preferências culturais, inclinações
políticas e até aquilo que provavelmente faremos amanhã. Elas não administram
apenas informações, pois administram probabilidades. E quem controla
probabilidades passa a influenciar decisões econômicas, culturais e políticas.
Ou seja, quem controla os dados controla parte crescente da própria capacidade
social de decidir.
Essa
transformação representa uma ruptura histórica comparável ao surgimento do
Estado moderno ou à Revolução industrial. No século XIX, construir ferrovias
significava integrar o território e consolidar a soberania nacional. No século
XX, estruturar sistemas estatísticos nacionais permitiu conhecer a população e
o território, organizar políticas públicas com base na realidade observada e
planejar os passos do desenvolvimento. Neste primeiro terço do século XXI, a
soberania passa também pelo domínio das infraestruturas digitais, da
inteligência artificial e dos sistemas públicos de informação.
Um país
que não controla seus próprios dados dificilmente controlará o seu próprio
destino. A dependência informacional tende a se tornar a forma mais sofisticada
de dependência nacional. No passado, a subordinação se expressava pelo controle
externo da terra, dos portos, das minas, das ferrovias, da indústria e do
financiamento. Agora, ela se amplia pelo controle externo das nuvens digitais,
dos algoritmos, dos modelos de inteligência artificial, dos sistemas de
pagamento, das plataformas de comunicação, dos mapas, das identidades digitais
e dos fluxos de dados.
Mas
essa mudança não transforma apenas a economia. Ela exige uma profunda
reinvenção do Estado construído durante a era industrial e organizado segundo a
lógica da fábrica. A estrutura estatal moderna tornou-se fragmentada, dividida
em ministérios, secretarias e órgãos especializados, cada qual responsável por
um setor específico da realidade. A saúde, educação, transporte, segurança,
habitação, meio ambiente, trabalho e economia passaram a ser tratados
separadamente, como se a vida social pudesse ser repartida em gavetas
administrativas.
Esse
modelo cumpriu papel decisivo na construção das sociedades modernas. Foi graças
aos censos, às pesquisas estatísticas, aos registros administrativos e às
instituições de planejamento que os governos passaram a conhecer sua população,
mapear o território e formular políticas públicas baseadas em evidências. O
Estado industrial aprendeu a contar, classificar, medir e planejar. Essa foi
uma revolução civilizatória.
Entretanto,
havia um limite nessa forma de organização. As informações permaneciam
dispersas entre diferentes instituições, dificultando uma compreensão integrada
da realidade. O Estado produzia bons diagnósticos, mas quase sempre sobre fatos
já consumados. Suas políticas públicas atuavam principalmente sobre as
consequências dos problemas, corrigindo aquilo que já havia acontecido. Era um
Estado planejador, porém essencialmente reativo.
A
revolução digital rompe essa limitação histórica. Cada vez mais, torna-se
possível integrar estatísticas oficiais, registros administrativos, informações
geoespaciais, imagens de satélite, sensores ambientais e sistemas de
inteligência artificial em uma mesma infraestrutura pública de conhecimento. As
big techs já avançaram nessa direção, mas pelo caminho da privatização dos
dados e do esvaziamento da soberania digital das nações. Poucos países possuem
hoje um projeto efetivo de soberania informacional.
A
integração de múltiplas fontes de informação é estratégica porque permite
enxergar conexões antes invisíveis entre economia, território, clima,
mobilidade, saúde, educação, mundo do trabalho, dinâmica demográfica, segurança
alimentar, transição energética e organização urbana. Dessa forma, o Estado
pode deixar de conhecer apenas partes isoladas da realidade para compreender
seus sistemas complexos de forma integrada. O desafio não é apenas ter mais
dados, mas transformar dados em inteligência pública.
Com
isso, transforma-se também a natureza das políticas públicas. Elas deixam de
atuar apenas sobre os efeitos para antecipar tendências, identificar
vulnerabilidades, simular cenários e prevenir crises. O planejamento deixa de
ser exercício periódico para se tornar capacidade permanente de antecipação.
Trata-se de políticas públicas de novo tipo, orientadas pela predição e pela
ação sobre as causas antes que as consequências se consolidem plenamente como
realidade.
Esse
salto institucional é decisivo. O Estado do século XX esperava a fome aparecer
nas estatísticas para então agir. O Estado do século XXI deve antecipar onde a
insegurança alimentar pode crescer. O Estado tradicional esperava a evasão
escolar se materializar. O Estado inteligente deve identificar previamente os
territórios, famílias e condições que elevam esse risco. O Estado reativo
contava vítimas depois da tragédia climática. O Estado preditivo precisa mapear
riscos, prevenir desastres e proteger vidas antes que a catástrofe se imponha.
Essa
talvez seja a maior inovação institucional desde a construção do Estado de
bem-estar social no século XX. Não se trata de substituir governantes por
algoritmos, nem de delegar decisões à inteligência artificial. Ao contrário:
quanto maior o poder da tecnologia, maior deve ser o controle democrático sobre
ela. O problema não está na inteligência artificial em si, mas em quem a
controla, com quais interesses, com quais critérios, com qual transparência e a
serviço de qual projeto de sociedade.
A
inteligência artificial precisa permanecer subordinada ao interesse público. Os
dados produzidos pela sociedade devem constituir patrimônio coletivo, e não
matéria-prima exclusiva das plataformas digitais globais. É exatamente nesse
ponto que se encontra uma das grandes disputas geopolíticas do nosso tempo. A
questão não é apenas tecnológica. É política, econômica, democrática e
civilizatória.
Pela
primeira vez na história, poucas e grandes empresas privadas caminham para
possuir mais conhecimento sobre uma nação do que o próprio Estado nacional.
Conhecem hábitos de consumo, padrões de mobilidade, redes sociais, preferências
culturais, tendências econômicas e dinâmicas territoriais em escala jamais
imaginada. Se essa capacidade permanecer concentrada nas grandes corporações
tecnológicas, os governos tenderão a perder autonomia justamente naquilo que
define sua razão de existir, como o conhecer da sociedade para governá-la,
transformando-a.
Não
haverá soberania nacional quando o conhecimento mais profundo sobre o país
estiver armazenado em servidores privados localizados fora de seu território.
Não haverá democracia robusta quando a esfera pública for mediada por
algoritmos opacos, desenhados por interesses comerciais estrangeiros. Não
haverá planejamento nacional quando os dados estratégicos da população, da
economia e do território estiverem submetidos à lógica de plataformas globais
que respondem a acionistas, e não à cidadania.
Por
isso, a grande disputa estratégica deste início do século XXI não seguira sendo
apenas por petróleo, minerais críticos, energia ou rotas comerciais. Será, cada
vez mais, pelo domínio das infraestruturas do conhecimento. A independência
nacional passa a incluir, necessariamente, a independência digital. A
soberania, antes associada ao território, à moeda, às Forças Armadas, à
indústria e à energia, passa a depender também da capacidade de produzir,
proteger e governar dados.
O
Brasil possui condições extraordinárias para liderar esse processo. Dispõe de
uma das mais respeitadas instituições estatísticas e geocientíficas do mundo,
com capacidade científica reconhecida, universidades públicas relevantes,
centros de pesquisa, experiência histórica em políticas sociais de grande
escala e um patrimônio territorial, ambiental e social cuja complexidade exige
crescente e massiva inteligência de Estado.
Mas
potencial não é destino. O Brasil pode transformar essa base em projeto
nacional ou assistir passivamente à colonização digital de sua economia, de sua
sociedade e de seu Estado. Pode construir uma inteligência pública soberana ou
terceirizar seu futuro às plataformas privadas. Pode usar dados para aprofundar
a democracia, reduzir desigualdades e planejar o desenvolvimento, ou permitir
que os dados de seu povo sejam convertidos em renda privada, vigilância
comercial e dependência tecnológica.
O
desafio consiste em dar um novo passo histórico. Assim como o país construiu
empresas estratégicas, universidades, institutos de pesquisa, bancos públicos,
infraestrutura produtiva e um moderno sistema estatístico durante a
industrialização, precisa agora construir uma infraestrutura pública superior,
com a integrada de dados, inteligência artificial soberana, computação de alto
desempenho e governança democrática da informação.
Não
basta digitalizar serviços públicos. Digitalizar a burocracia antiga é
insuficiente. É preciso reinventar uma nova arquitetura do Estado. A Revolução
industrial produziu o Estado planejador, a transformação digital requer o
Estado inteligente. Um Estado capaz de integrar suas bases de conhecimento,
articular estatísticas, geociências e registros administrativos, proteger seu
patrimônio informacional e produzir políticas públicas preditivas, capazes de
antecipar problemas antes que eles se transformem em crises.
Esse
Estado inteligente não pode ser confundido com tecnocracia autoritária. Ao
contrário, deve ser mais democrático, mais transparente, mais controlado
socialmente e mais comprometido com direitos. O uso público de dados precisa
estar submetido a regras claras, proteção da privacidade, segurança
institucional, participação social e finalidade pública. A inteligência de
Estado deve servir à emancipação coletiva, não à vigilância dos cidadãos.
Essa
não é apenas uma agenda tecnológica. É um novo projeto nacional de
desenvolvimento. No século passado, governar poderia significar planejar. Neste
começo de século, governar significa também antecipar. Porque soberania
continua sendo conhecer. Mas, na era dos algoritmos, conhecer já não basta. É
preciso integrar para antecipar, antecipar para decidir e decidir para
construir um futuro em que a inteligência pública permaneça a serviço da
democracia, do desenvolvimento e da nação.
A
questão decisiva é saber se o Brasil aceitará ser apenas fornecedor de dados
brutos, consumidor de plataformas estrangeiras e território passivo da economia
digital global, ou se será capaz de construir sua própria inteligência pública
soberana. A escolha é histórica. Assim como houve países que lideraram a
Revolução industrial e países que foram subordinados por ela, haverá países que
comandarão a revolução digital e países que serão comandados por seus
algoritmos.
Essa é
a revolução silenciosa que definirá quais nações serão protagonistas e quais
permanecerão dependentes na nova economia do conhecimento. O Brasil ainda tem a
oportunidade de escolher de que lado da história deseja estar. Mas essa escolha
exige coragem. Exige Estado. Exige projeto nacional. Exige compreender que, no
século XXI, a soberania não será defendida apenas nas fronteiras físicas, mas
também nas fronteiras invisíveis dos dados, dos algoritmos e da inteligência
artificial.
Fonte:
Por Marcio Pochmann, em A Terra é Redonda

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