quinta-feira, 16 de julho de 2026

Como superar a radicalidade sem lastro?

Há uma modalidade específica de radicalidade política que vem ganhando presença no debate público brasileiro, sobretudo em ambientes digitais, e que precisa ser nomeada com mais precisão. Não me refiro aqui à radicalidade em si, nem à crítica estrutural do capitalismo, muito menos à existência de correntes à esquerda do lulismo. Nada disso constitui problema em si mesmo. O ponto está em outra parte: trata-se de uma forma de enunciação política cuja força se concentra muito mais no circuito do discurso do que na mediação com a vida concreta das maiorias; uma radicalidade que cresce em nitidez programática e agressividade diagnóstica sem apresentar, na mesma medida, base social, território, organicidade e inserção popular equivalente. O nome que proponho para essa configuração é provisório, mas me parece útil: comunismo de estúdio.

A expressão pode soar dura, e talvez precise soar. Mas ela não foi escolhida para produzir efeito fácil. Ela procura nomear uma forma específica de radicalidade contemporânea cuja principal marca não está no conteúdo doutrinário isoladamente considerado, mas no ambiente em que se produz, circula e se valida. Chamo de estúdio não porque seus porta-vozes estejam literalmente em estúdios, embora muitos estejam. Chamo de estúdio porque o que define essa posição é o fato de ela operar num circuito relativamente fechado de enunciação, onde a coerência teórica vale mais que a eficácia histórica, a nitidez do juízo compensa a ausência de base e a denúncia substitui, cada vez mais, a construção paciente. O resultado é uma radicalidade sem território e uma luta de classes sem classe trabalhadora efetivamente organizada ao seu redor.

Convém fazer essa distinção logo de saída, porque ela é politicamente decisiva. O alvo deste texto não é a esquerda radical como um todo. O problema não está em haver crítica dura ao reformismo, horizonte revolucionário ou programa anticapitalista. O problema está na radicalidade sem lastro, sem povo, sem mediação, sem enraizamento. E justamente por isso o nome se torna necessário: para distinguir, dentro do próprio campo radical, uma posição específica, cada vez mais influente no ambiente digital, de outras experiências que seguem fazendo política de outra maneira.

Essa diferença não é abstrata. Há correntes radicais que continuam produzindo organicidade real, ainda que em escala menor, com presença territorial, inserção em conflitos concretos e trabalho continuado junto às classes populares. A Unidade Popular pelo Socialismo é um exemplo importante dessa outra trilha. Sua presença em ocupações urbanas, movimentos de moradia, comitês populares, cursinhos, atividade sindical e trabalho periférico mostra que ainda existe, no interior do campo radical, uma política que não confunde formulação programática com performance discursiva. A candidatura de Léo Péricles em 2022, independentemente do resultado eleitoral, expressa justamente esse tipo de acúmulo: uma trajetória que não nasce da circulação do juízo, mas da inserção paciente em territórios, organizações e conflitos reais.

É esse contraste que interessa. Porque ele permite recolocar o debate em bases mais honestas. Uma coisa é construir partido enraizado, ainda que pequeno, pagar o preço político da baixa escala e sustentar coerência entre discurso e organização. Outra, muito diferente, é converter a crítica ao lulismo em eixo quase exclusivo de identidade pública, sem demonstrar, no país real, capacidade superior de organizar povo, disputar território e acumular força histórica. No primeiro caso, há radicalidade com base material. No segundo, o que aparece com frequência é uma radicalidade de circuito: ela produz audiência, prestígio interno, distinção, clareza de fronteira e capacidade de nomeação, mas não necessariamente produz capilaridade, mediação e força social equivalente.

É justamente aí que o comunismo de estúdio se torna uma categoria útil. Ele nomeia a passagem pela qual a radicalidade deixa de ser, prioritariamente, um modo de organizar forças sociais e passa a ser, crescentemente, um modo de organizar prestígio discursivo. A crítica ao reformismo continua presente, e às vezes com formulação sofisticada. O problema é que ela já não opera como parte de uma estratégia mais ampla de construção. Ela se autonomiza. E, quando se autonomiza, muda de função. Deixa de ser instrumento de elaboração política e passa a funcionar como compensação para aquilo que não se consegue construir em escala equivalente.

Essa dinâmica não se mede apenas pela intensidade da fala, mas pelo tipo de circuito em que ela se reproduz. O comunismo de estúdio é forte em plataformas, podcasts, programas, cortes, circuitos de opinião, controvérsias fechadas e ecossistemas de validação mútua. Ali, a contundência do diagnóstico produz reconhecimento imediato. A crítica mais dura gera nitidez identitária. O juízo mais severo oferece distinção. A performance de radicalidade funciona como prova pública de superioridade política e teórica. Tudo isso tem efeito, mas não deve ser confundido com enraizamento. A circulação do discurso pode gerar visibilidade, e a visibilidade pode produzir prestígio; nenhuma dessas coisas, por si só, produz povo organizado.

É importante insistir nisso porque o problema não está na circulação pública das ideias. Uma esquerda sem linguagem, sem formulação e sem capacidade de disputa simbólica também não vai a lugar algum. O ponto é outro. O comunismo de estúdio aparece quando a linguagem deixa de ser mediação com a realidade e passa a funcionar como substituto dela. Quando o diagnóstico passa a suprir a ausência de base. Quando a crítica ao lulismo ocupa o lugar daquilo que deveria ser o verdadeiro teste de qualquer alternativa: demonstrar, na sociedade real, capacidade de fazer melhor, de organizar mais, de enraizar mais e de sustentar conflito histórico em escala superior.

Por isso o problema, para mim, nunca foi a crítica dura ao reformismo. O problema começa quando essa crítica se autonomiza do trabalho político e passa a funcionar como álibi para sua ausência. A denúncia vira o lugar em que se encobre a dificuldade de construir alternativa material equivalente. Nesse ponto, a radicalidade já não se mede pela relação com território, classe, mediação e conflito real. Ela passa a se medir pela pureza do enunciado, pela nitidez do corte, pela superioridade do diagnóstico e pelo grau de hostilidade ao campo progressista realmente existente. A política, então, empobrece. E o que aparece como intransigência revolucionária muitas vezes não passa de compensação discursiva para fragilidade organizativa.

Esse é o ponto em que o comunismo de estúdio precisa ser levado a sério, porque ele já não é mera caricatura lateral. Trata-se de uma forma de presença política que ganhou circulação, linguagem e público. Sua força não vem de enraizamento social equivalente, mas da capacidade de operar num ambiente em que a crítica circula mais rápido do que a construção, e em que o juízo tem recompensa mais imediata do que a mediação. Isso ajuda a explicar por que essa modalidade de radicalidade cresce justamente num tempo em que tantas formas de ação coletiva foram enfraquecidas, dispersas ou capturadas pela lógica das plataformas. O prestígio do diagnóstico sobe quando a base material da política desce.

Também por isso seria um erro responder a esse fenômeno com um apelo genérico à moderação ou com a condenação moral da radicalidade. Nada disso resolve. O problema não é haver radicalidade demais. O problema é haver radicalidade sem lastro, sem povo, sem território e sem consequência histórica equivalente à violência de seu juízo. A exigência, portanto, não é por menos radicalidade, mas por mais exigência histórica. Radicalidade que não se prova no conflito real tende a se fechar sobre si mesma. Fala alto, mas organiza pouco. Nomeia tudo, mas desloca pouco. Denuncia com vigor, mas não demonstra, na mesma intensidade, capacidade de reorganizar a vida coletiva.

No fundo, o que está em jogo é um critério de verdade política. Um discurso não se valida apenas pela força com que denuncia os limites da experiência realmente existente. Ele se valida também pela capacidade de produzir efeitos materiais, acumular sujeitos, organizar conflitos e abrir caminho para formas superiores de ação coletiva. Foi nesse terreno, com todas as suas contradições, que o lulismo construiu sua força histórica. Será nesse mesmo terreno, e não apenas no plano da crítica, que qualquer alternativa séria precisará provar que existe.

É por isso que sigo insistindo no ponto central deste arco. O problema não está em criticar o lulismo. Está em usar essa crítica para explicar demais e construir de menos. No caso específico que procurei nomear aqui, isso ganha uma forma própria: a radicalidade deixa de ser meio de organização e passa a ser método de distinção. Quando isso acontece, o discurso pode até soar mais duro, mais puro e mais coerente. Mas a história, que é menos impressionável do que os circuitos de validação discursiva, continua cobrando o que sempre cobrou: base, mediação, território, conflito, povo.

 

Fonte: Por Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras

 

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