Como
superar a radicalidade sem lastro?
Há uma
modalidade específica de radicalidade política que vem ganhando presença no
debate público brasileiro, sobretudo em ambientes digitais, e que precisa ser
nomeada com mais precisão. Não me refiro aqui à radicalidade em si, nem à
crítica estrutural do capitalismo, muito menos à existência de correntes à
esquerda do lulismo. Nada disso constitui problema em si mesmo. O ponto está em
outra parte: trata-se de uma forma de enunciação política cuja força se
concentra muito mais no circuito do discurso do que na mediação com a vida
concreta das maiorias; uma radicalidade que cresce em nitidez programática e
agressividade diagnóstica sem apresentar, na mesma medida, base social,
território, organicidade e inserção popular equivalente. O nome que proponho
para essa configuração é provisório, mas me parece útil: comunismo de estúdio.
A
expressão pode soar dura, e talvez precise soar. Mas ela não foi escolhida para
produzir efeito fácil. Ela procura nomear uma forma específica de radicalidade
contemporânea cuja principal marca não está no conteúdo doutrinário
isoladamente considerado, mas no ambiente em que se produz, circula e se
valida. Chamo de estúdio não porque seus porta-vozes estejam literalmente em
estúdios, embora muitos estejam. Chamo de estúdio porque o que define essa
posição é o fato de ela operar num circuito relativamente fechado de
enunciação, onde a coerência teórica vale mais que a eficácia histórica, a
nitidez do juízo compensa a ausência de base e a denúncia substitui, cada vez
mais, a construção paciente. O resultado é uma radicalidade sem território e
uma luta de classes sem classe trabalhadora efetivamente organizada ao seu
redor.
Convém
fazer essa distinção logo de saída, porque ela é politicamente decisiva. O alvo
deste texto não é a esquerda radical como um todo. O problema não está em haver
crítica dura ao reformismo, horizonte revolucionário ou programa
anticapitalista. O problema está na radicalidade sem lastro, sem povo, sem
mediação, sem enraizamento. E justamente por isso o nome se torna necessário:
para distinguir, dentro do próprio campo radical, uma posição específica, cada
vez mais influente no ambiente digital, de outras experiências que seguem
fazendo política de outra maneira.
Essa
diferença não é abstrata. Há correntes radicais que continuam produzindo
organicidade real, ainda que em escala menor, com presença territorial,
inserção em conflitos concretos e trabalho continuado junto às classes
populares. A Unidade Popular pelo Socialismo é um exemplo importante dessa
outra trilha. Sua presença em ocupações urbanas, movimentos de moradia, comitês
populares, cursinhos, atividade sindical e trabalho periférico mostra que ainda
existe, no interior do campo radical, uma política que não confunde formulação
programática com performance discursiva. A candidatura de Léo Péricles em 2022,
independentemente do resultado eleitoral, expressa justamente esse tipo de
acúmulo: uma trajetória que não nasce da circulação do juízo, mas da inserção
paciente em territórios, organizações e conflitos reais.
É esse
contraste que interessa. Porque ele permite recolocar o debate em bases mais
honestas. Uma coisa é construir partido enraizado, ainda que pequeno, pagar o
preço político da baixa escala e sustentar coerência entre discurso e
organização. Outra, muito diferente, é converter a crítica ao lulismo em eixo
quase exclusivo de identidade pública, sem demonstrar, no país real, capacidade
superior de organizar povo, disputar território e acumular força histórica. No
primeiro caso, há radicalidade com base material. No segundo, o que aparece com
frequência é uma radicalidade de circuito: ela produz audiência, prestígio
interno, distinção, clareza de fronteira e capacidade de nomeação, mas não
necessariamente produz capilaridade, mediação e força social equivalente.
É
justamente aí que o comunismo de estúdio se torna uma categoria útil. Ele
nomeia a passagem pela qual a radicalidade deixa de ser, prioritariamente, um
modo de organizar forças sociais e passa a ser, crescentemente, um modo de
organizar prestígio discursivo. A crítica ao reformismo continua presente, e às
vezes com formulação sofisticada. O problema é que ela já não opera como parte
de uma estratégia mais ampla de construção. Ela se autonomiza. E, quando se
autonomiza, muda de função. Deixa de ser instrumento de elaboração política e
passa a funcionar como compensação para aquilo que não se consegue construir em
escala equivalente.
Essa
dinâmica não se mede apenas pela intensidade da fala, mas pelo tipo de circuito
em que ela se reproduz. O comunismo de estúdio é forte em plataformas,
podcasts, programas, cortes, circuitos de opinião, controvérsias fechadas e
ecossistemas de validação mútua. Ali, a contundência do diagnóstico produz
reconhecimento imediato. A crítica mais dura gera nitidez identitária. O juízo
mais severo oferece distinção. A performance de radicalidade funciona como
prova pública de superioridade política e teórica. Tudo isso tem efeito, mas
não deve ser confundido com enraizamento. A circulação do discurso pode gerar
visibilidade, e a visibilidade pode produzir prestígio; nenhuma dessas coisas,
por si só, produz povo organizado.
É
importante insistir nisso porque o problema não está na circulação pública das
ideias. Uma esquerda sem linguagem, sem formulação e sem capacidade de disputa
simbólica também não vai a lugar algum. O ponto é outro. O comunismo de estúdio
aparece quando a linguagem deixa de ser mediação com a realidade e passa a
funcionar como substituto dela. Quando o diagnóstico passa a suprir a ausência
de base. Quando a crítica ao lulismo ocupa o lugar daquilo que deveria ser o
verdadeiro teste de qualquer alternativa: demonstrar, na sociedade real,
capacidade de fazer melhor, de organizar mais, de enraizar mais e de sustentar
conflito histórico em escala superior.
Por
isso o problema, para mim, nunca foi a crítica dura ao reformismo. O problema
começa quando essa crítica se autonomiza do trabalho político e passa a
funcionar como álibi para sua ausência. A denúncia vira o lugar em que se
encobre a dificuldade de construir alternativa material equivalente. Nesse
ponto, a radicalidade já não se mede pela relação com território, classe,
mediação e conflito real. Ela passa a se medir pela pureza do enunciado, pela
nitidez do corte, pela superioridade do diagnóstico e pelo grau de hostilidade
ao campo progressista realmente existente. A política, então, empobrece. E o
que aparece como intransigência revolucionária muitas vezes não passa de
compensação discursiva para fragilidade organizativa.
Esse é
o ponto em que o comunismo de estúdio precisa ser levado a sério, porque ele já
não é mera caricatura lateral. Trata-se de uma forma de presença política que
ganhou circulação, linguagem e público. Sua força não vem de enraizamento
social equivalente, mas da capacidade de operar num ambiente em que a crítica
circula mais rápido do que a construção, e em que o juízo tem recompensa mais
imediata do que a mediação. Isso ajuda a explicar por que essa modalidade de
radicalidade cresce justamente num tempo em que tantas formas de ação coletiva
foram enfraquecidas, dispersas ou capturadas pela lógica das plataformas. O
prestígio do diagnóstico sobe quando a base material da política desce.
Também
por isso seria um erro responder a esse fenômeno com um apelo genérico à
moderação ou com a condenação moral da radicalidade. Nada disso resolve. O
problema não é haver radicalidade demais. O problema é haver radicalidade sem
lastro, sem povo, sem território e sem consequência histórica equivalente à
violência de seu juízo. A exigência, portanto, não é por menos radicalidade,
mas por mais exigência histórica. Radicalidade que não se prova no conflito
real tende a se fechar sobre si mesma. Fala alto, mas organiza pouco. Nomeia
tudo, mas desloca pouco. Denuncia com vigor, mas não demonstra, na mesma
intensidade, capacidade de reorganizar a vida coletiva.
No
fundo, o que está em jogo é um critério de verdade política. Um discurso não se
valida apenas pela força com que denuncia os limites da experiência realmente
existente. Ele se valida também pela capacidade de produzir efeitos materiais,
acumular sujeitos, organizar conflitos e abrir caminho para formas superiores
de ação coletiva. Foi nesse terreno, com todas as suas contradições, que o
lulismo construiu sua força histórica. Será nesse mesmo terreno, e não apenas
no plano da crítica, que qualquer alternativa séria precisará provar que
existe.
É por
isso que sigo insistindo no ponto central deste arco. O problema não está em
criticar o lulismo. Está em usar essa crítica para explicar demais e construir
de menos. No caso específico que procurei nomear aqui, isso ganha uma forma
própria: a radicalidade deixa de ser meio de organização e passa a ser método
de distinção. Quando isso acontece, o discurso pode até soar mais duro, mais
puro e mais coerente. Mas a história, que é menos impressionável do que os
circuitos de validação discursiva, continua cobrando o que sempre cobrou: base,
mediação, território, conflito, povo.
Fonte: Por
Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras

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