quinta-feira, 16 de julho de 2026

Flávio Bolsonaro e a estratégia da distração

Segunda (13/07), pela milésima vez, praticamente toda a mídia, da direita à esquerda, repercutiu a pauta de interesse da campanha de Flávio Bolsonaro. O debate do dia girou em torno da decisão do ministro Alexandre de Moraes de proibir o senador de visitar o pai. A decisão pode ser juridicamente correta, mas, paradoxalmente, entregou à campanha de Flávio exatamente o tema de que ela precisava: a vitimização.

Vamos aos fatos.

Como todos os jornalistas sabem, Flávio Bolsonaro integra a equipe de advogados do ex-presidente. Nessa condição, tem direito de visitar seu cliente. Como bem sabe Flávio Bolsonaro, a ampla comunicação entre advogado e preso é uma prerrogativa profissional. Mas prerrogativas não são privilégios: são garantias legais que asseguram o direito de defesa e ajudam a sustentar o Estado Democrático de Direito.

O problema é que, segundo a decisão do ministro Alexandre de Moraes, Flávio utilizou essa prerrogativa para contornar uma ordem judicial que proíbe Jair Bolsonaro de utilizar plataformas digitais, inclusive por intermédio de terceiros. Não seria a primeira ocorrência. A decisão registra que esta é a segunda vez em que a determinação judicial teria sido descumprida. Entre outras providências, Moraes encaminhou o caso ao procurador-geral eleitoral para avaliar eventual representação por possível propaganda eleitoral antecipada.

Bingo.

Flávio Bolsonaro ganhou de bandeja um tema capaz de mobilizar sua militância. Em poucos minutos, as redes da extrema direita passaram a difundir a narrativa de que a Justiça estaria, mais uma vez, perseguindo a família Bolsonaro, desta vez impedindo um filho de visitar o pai, apresentado como vítima de perseguição política. É uma estratégia conhecida, repetida à exaustão desde o início dos processos judiciais envolvendo o ex-presidente e que continua produzindo efeitos sobre seu eleitorado.

Enquanto isso, temas potencialmente mais danosos para a imagem da família deixam de ocupar o centro do debate público.

Entre eles está a divulgação do áudio em que Flávio Bolsonaro chama Daniel Vorcaro de “irmão”, ao pedir dinheiro ao ex-controlador do Banco Master, hoje preso e investigado por todo tipo de crime.

Também entram nessa lista as investigações de crimes que envolvem pessoas próximas ao clã e que representam um risco político muito maior do que uma disputa sobre visitas ao ex-presidente.

Na tentativa de mudar o foco da campanha, Flávio também buscou aproximar-se de Donald Trump, chegando a propor, caso eleito, a participação do governo dos EUA em um eventual processo de transição presidencial no Brasil.

Ao mesmo tempo, o conflito público com Michelle Bolsonaro pode cumprir outra função política. A disputa familiar reúne todos os ingredientes de um enredo perfeito para as redes sociais: a madrasta e o enteado disputando espaço ao lado do pai adoentado, transformando um conflito privado em combustível para mobilização política.

Ao apresentar-se como vítima de Flávio, Michelle também ocupa um espaço narrativo que interessa ao bolsonarismo. Afinal, o eleitorado feminino continua sendo um dos segmentos em que Lula apresenta desempenho mais favorável em relação aos candidatos ligados ao ex-presidente.

No fim das contas, a discussão sobre a visita de Flávio Bolsonaro ao pai pode acabar dizendo menos sobre a decisão judicial e mais sobre a eficácia de uma estratégia política já conhecida: deslocar o debate dos temas potencialmente mais sensíveis para uma narrativa de perseguição capaz de manter mobilizada a base bolsonarista. Quando isso acontece, a pauta deixa de ser definida pelos fatos e passa a ser determinada pela capacidade de produzir indignação e engajamento.

Impedir a volta ao poder da chamada “Máfia da Vivendas da Barra” nunca foi uma tarefa simples. Ao longo dos anos, o bolsonarismo consolidou uma ampla rede de apoio político, econômico, religioso e ideológico, que reúne desde milícias cariocas e setores do mercado financeiro até lideranças religiosas, segmentos do agronegócio e a bancada da bala no Congresso. Nesse contexto, a política da distração, baseada na vitimização, nos conflitos fabricados e na ocupação permanente da agenda pública, cumpre uma função estratégica: despolitizar o debate eleitoral e afastar a sociedade dos temas realmente decisivos para o futuro do país. E, quando o que está em jogo é a soberania nacional e a própria democracia brasileira, esse desvio da discussão interessa apenas àqueles que têm mais a perder com o confronto entre os fatos e a realidade.

<><> Campanha de Flávio Bolsonaro precisa prestar contas sobre Dark Horse, diz Mourão

A pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfrenta um momento de forte instabilidade política e precisará dar explicações sobre o financiamento do filme Dark Horse para reduzir os danos à sua imagem eleitoral. A avaliação é do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), vice-presidente da República entre 2019 e 2022, em entrevista publicada pelo jornal O Globo nesta terça-feira (14).

Na entrevista, Mourão afirmou que a candidatura do senador fluminense atravessa uma fase “muito turbulenta” e avaliou que a transparência sobre os recursos recebidos do banqueiro Daniel Vorcaro para a produção do filme é indispensável antes do início formal da campanha eleitoral.

Segundo o parlamentar, a divulgação de uma carta do ex-presidente Jair Bolsonaro em defesa da união do campo bolsonarista em torno da candidatura do filho foi motivada pelo novo cenário político após sua prisão. Mourão comparou a situação ao processo eleitoral de 2018, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou Fernando Haddad para disputar a Presidência após ser impedido de concorrer.

“Chegou uma hora que ele (Bolsonaro) teve que tomar uma atitude e colocou essa carta no intuito de dizer: ‘Vamos entender que o candidato que nós temos é esse (Flávio) e vamos tentar trabalhar junto dele’.”

Apesar do apoio público de Jair Bolsonaro, Mourão atribuiu a resistência interna enfrentada por Flávio a uma sequência de episódios que desgastaram sua imagem. Entre eles, citou o pedido de recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro, o conflito com Michelle Bolsonaro e declarações do comentarista Paulo Figueiredo sobre o eleitorado feminino.

“Nesse meio tempo aconteceram algumas coisas com o Flávio. O pedido de recursos para o (Daniel) Vorcaro, a briga com Michelle (Bolsonaro), aquela outra idiotice que o cidadão (Paulo Figueiredo) que mora lá nos Estados Unidos disse que mulher não sabe votar. Isso é uma estupidez.”

Para o senador, o episódio envolvendo o financiamento do documentário deve ser esclarecido de forma pública para evitar que continue sendo explorado politicamente durante a campanha.

“O Flávio, em determinado momento, vai ter que fazer isso e dizer: ‘Olha, o Vorcaro entregou tanto para gente, nós gastamos tanto’, e aí resolve essa questão.”

Mourão acrescentou que a prestação de contas funcionaria como uma forma de neutralizar críticas.

“Ele tem que ter uma vacina para isso, que é a prestação de contas.”

<><> Campanha precisa ganhar estabilidade

Embora considere Flávio Bolsonaro um candidato competitivo por herdar parte do eleitorado do pai, Mourão avaliou que a campanha ainda precisa ganhar consistência política e apresentar uma estrutura mais sólida.

“Talvez é o que tenha voto. Às vezes, não ganha o melhor, ganha o que tem voto.”

Segundo ele, a candidatura poderá se fortalecer quando apresentar um vice definido e uma equipe responsável por áreas estratégicas, especialmente a econômica.

“A campanha do Flávio está muito turbulenta. Quando efetivamente dar um giro como candidato e com um vice, dizendo ‘esse aqui vai ser meu responsável pela área econômica’ (…), aí a gente pode ver ideias que sejam mais contundentes.”

Questionado sobre o perfil ideal para ocupar a vice-presidência, Mourão afirmou que o posto tem pouca influência institucional, mas relatou que, dentro da campanha, discute-se a busca por uma mulher nordestina e que não seja evangélica.

Republicanos mantém posição indefinida

O senador também afirmou que o Republicanos ainda não decidiu oficialmente se apoiará a candidatura de Flávio Bolsonaro.

“O partido hoje tem uma tendência de permanecer numa certa neutralidade por enquanto.”

Ao comentar a possibilidade de o partido indicar o vice da chapa, Mourão citou a ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques como um nome disponível e afirmou que ela já auxilia na elaboração de propostas econômicas para um eventual governo de Flávio.

<><> Ataques internos e críticas ao bolsonarismo

Durante a entrevista, Mourão voltou a criticar parte do núcleo bolsonarista pelos ataques dirigidos a aliados do ex-presidente, como a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e Michelle Bolsonaro.

“Infelizmente tem grupos dessa turma bolsonarista, que para mim não passa num (exame) psicotécnico do Detran.”

Segundo o senador, o movimento apresenta comportamento “autofágico”, substituindo o debate político por ataques pessoais.”Em vez de ser uma crítica a um posicionamento, parte para a ofensa e imediatamente a pessoa é taxada de traidora. O famoso assassinato de reputação.”

Na avaliação de Mourão, os conflitos internos também prejudicam diretamente a candidatura de Flávio. “Lógico. Toda e qualquer briga no atual momento dentro do próprio entorno prejudica.”

Tarifaço e relações com os Estados Unidos

Ao comentar as críticas dirigidas a Flávio Bolsonaro por sua atuação nos Estados Unidos durante a crise comercial envolvendo o tarifaço norte-americano, Mourão afirmou que o senador buscou obter ganhos políticos com a iniciativa, mas sustentou que caberia ao governo federal liderar as negociações diplomáticas.

 

Fonte: Por Florestan Fernnades Jr, em Brasil 247

 

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