Flávio
Bolsonaro e a estratégia da distração
Segunda
(13/07), pela milésima vez, praticamente toda a mídia, da direita à esquerda,
repercutiu a pauta de interesse da campanha de Flávio Bolsonaro. O debate do
dia girou em torno da decisão do ministro Alexandre de Moraes de proibir o
senador de visitar o pai. A decisão pode ser juridicamente correta, mas,
paradoxalmente, entregou à campanha de Flávio exatamente o tema de que ela
precisava: a vitimização.
Vamos
aos fatos.
Como
todos os jornalistas sabem, Flávio Bolsonaro integra a equipe de advogados do
ex-presidente. Nessa condição, tem direito de visitar seu cliente. Como bem
sabe Flávio Bolsonaro, a ampla comunicação entre advogado e preso é uma
prerrogativa profissional. Mas prerrogativas não são privilégios: são garantias
legais que asseguram o direito de defesa e ajudam a sustentar o Estado
Democrático de Direito.
O
problema é que, segundo a decisão do ministro Alexandre de Moraes, Flávio
utilizou essa prerrogativa para contornar uma ordem judicial que proíbe Jair
Bolsonaro de utilizar plataformas digitais, inclusive por intermédio de
terceiros. Não seria a primeira ocorrência. A decisão registra que esta é a
segunda vez em que a determinação judicial teria sido descumprida. Entre outras
providências, Moraes encaminhou o caso ao procurador-geral eleitoral para
avaliar eventual representação por possível propaganda eleitoral antecipada.
Bingo.
Flávio
Bolsonaro ganhou de bandeja um tema capaz de mobilizar sua militância. Em
poucos minutos, as redes da extrema direita passaram a difundir a narrativa de
que a Justiça estaria, mais uma vez, perseguindo a família Bolsonaro, desta vez
impedindo um filho de visitar o pai, apresentado como vítima de perseguição
política. É uma estratégia conhecida, repetida à exaustão desde o início dos
processos judiciais envolvendo o ex-presidente e que continua produzindo
efeitos sobre seu eleitorado.
Enquanto
isso, temas potencialmente mais danosos para a imagem da família deixam de
ocupar o centro do debate público.
Entre
eles está a divulgação do áudio em que Flávio Bolsonaro chama Daniel Vorcaro de
“irmão”, ao pedir dinheiro ao ex-controlador do Banco Master, hoje preso e
investigado por todo tipo de crime.
Também
entram nessa lista as investigações de crimes que envolvem pessoas próximas ao
clã e que representam um risco político muito maior do que uma disputa sobre
visitas ao ex-presidente.
Na
tentativa de mudar o foco da campanha, Flávio também buscou aproximar-se de
Donald Trump, chegando a propor, caso eleito, a participação do governo dos EUA
em um eventual processo de transição presidencial no Brasil.
Ao
mesmo tempo, o conflito público com Michelle Bolsonaro pode cumprir outra
função política. A disputa familiar reúne todos os ingredientes de um enredo
perfeito para as redes sociais: a madrasta e o enteado disputando espaço ao
lado do pai adoentado, transformando um conflito privado em combustível para
mobilização política.
Ao
apresentar-se como vítima de Flávio, Michelle também ocupa um espaço narrativo
que interessa ao bolsonarismo. Afinal, o eleitorado feminino continua sendo um
dos segmentos em que Lula apresenta desempenho mais favorável em relação aos
candidatos ligados ao ex-presidente.
No fim
das contas, a discussão sobre a visita de Flávio Bolsonaro ao pai pode acabar
dizendo menos sobre a decisão judicial e mais sobre a eficácia de uma
estratégia política já conhecida: deslocar o debate dos temas potencialmente
mais sensíveis para uma narrativa de perseguição capaz de manter mobilizada a
base bolsonarista. Quando isso acontece, a pauta deixa de ser definida pelos
fatos e passa a ser determinada pela capacidade de produzir indignação e
engajamento.
Impedir
a volta ao poder da chamada “Máfia da Vivendas da Barra” nunca foi uma tarefa
simples. Ao longo dos anos, o bolsonarismo consolidou uma ampla rede de apoio
político, econômico, religioso e ideológico, que reúne desde milícias cariocas
e setores do mercado financeiro até lideranças religiosas, segmentos do
agronegócio e a bancada da bala no Congresso. Nesse contexto, a política da
distração, baseada na vitimização, nos conflitos fabricados e na ocupação
permanente da agenda pública, cumpre uma função estratégica: despolitizar o
debate eleitoral e afastar a sociedade dos temas realmente decisivos para o
futuro do país. E, quando o que está em jogo é a soberania nacional e a própria
democracia brasileira, esse desvio da discussão interessa apenas àqueles que
têm mais a perder com o confronto entre os fatos e a realidade.
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Campanha de Flávio Bolsonaro precisa prestar contas sobre Dark Horse, diz
Mourão
A
pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfrenta um momento de
forte instabilidade política e precisará dar explicações sobre o financiamento
do filme Dark Horse para reduzir os danos à sua imagem eleitoral. A avaliação é
do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), vice-presidente da República
entre 2019 e 2022, em entrevista publicada pelo jornal O Globo nesta
terça-feira (14).
Na
entrevista, Mourão afirmou que a candidatura do senador fluminense atravessa
uma fase “muito turbulenta” e avaliou que a transparência sobre os recursos
recebidos do banqueiro Daniel Vorcaro para a produção do filme é indispensável
antes do início formal da campanha eleitoral.
Segundo
o parlamentar, a divulgação de uma carta do ex-presidente Jair Bolsonaro em
defesa da união do campo bolsonarista em torno da candidatura do filho foi
motivada pelo novo cenário político após sua prisão. Mourão comparou a situação
ao processo eleitoral de 2018, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
indicou Fernando Haddad para disputar a Presidência após ser impedido de
concorrer.
“Chegou
uma hora que ele (Bolsonaro) teve que tomar uma atitude e colocou essa carta no
intuito de dizer: ‘Vamos entender que o candidato que nós temos é esse (Flávio)
e vamos tentar trabalhar junto dele’.”
Apesar
do apoio público de Jair Bolsonaro, Mourão atribuiu a resistência interna
enfrentada por Flávio a uma sequência de episódios que desgastaram sua imagem.
Entre eles, citou o pedido de recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro, o conflito
com Michelle Bolsonaro e declarações do comentarista Paulo Figueiredo sobre o
eleitorado feminino.
“Nesse
meio tempo aconteceram algumas coisas com o Flávio. O pedido de recursos para o
(Daniel) Vorcaro, a briga com Michelle (Bolsonaro), aquela outra idiotice que o
cidadão (Paulo Figueiredo) que mora lá nos Estados Unidos disse que mulher não
sabe votar. Isso é uma estupidez.”
Para o
senador, o episódio envolvendo o financiamento do documentário deve ser
esclarecido de forma pública para evitar que continue sendo explorado
politicamente durante a campanha.
“O
Flávio, em determinado momento, vai ter que fazer isso e dizer: ‘Olha, o
Vorcaro entregou tanto para gente, nós gastamos tanto’, e aí resolve essa
questão.”
Mourão
acrescentou que a prestação de contas funcionaria como uma forma de neutralizar
críticas.
“Ele
tem que ter uma vacina para isso, que é a prestação de contas.”
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Campanha precisa ganhar estabilidade
Embora
considere Flávio Bolsonaro um candidato competitivo por herdar parte do
eleitorado do pai, Mourão avaliou que a campanha ainda precisa ganhar
consistência política e apresentar uma estrutura mais sólida.
“Talvez
é o que tenha voto. Às vezes, não ganha o melhor, ganha o que tem voto.”
Segundo
ele, a candidatura poderá se fortalecer quando apresentar um vice definido e
uma equipe responsável por áreas estratégicas, especialmente a econômica.
“A
campanha do Flávio está muito turbulenta. Quando efetivamente dar um giro como
candidato e com um vice, dizendo ‘esse aqui vai ser meu responsável pela área
econômica’ (…), aí a gente pode ver ideias que sejam mais contundentes.”
Questionado
sobre o perfil ideal para ocupar a vice-presidência, Mourão afirmou que o posto
tem pouca influência institucional, mas relatou que, dentro da campanha,
discute-se a busca por uma mulher nordestina e que não seja evangélica.
Republicanos
mantém posição indefinida
O
senador também afirmou que o Republicanos ainda não decidiu oficialmente se
apoiará a candidatura de Flávio Bolsonaro.
“O
partido hoje tem uma tendência de permanecer numa certa neutralidade por
enquanto.”
Ao
comentar a possibilidade de o partido indicar o vice da chapa, Mourão citou a
ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques como um nome
disponível e afirmou que ela já auxilia na elaboração de propostas econômicas
para um eventual governo de Flávio.
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Ataques internos e críticas ao bolsonarismo
Durante
a entrevista, Mourão voltou a criticar parte do núcleo bolsonarista pelos
ataques dirigidos a aliados do ex-presidente, como a senadora Damares Alves
(Republicanos-DF) e Michelle Bolsonaro.
“Infelizmente
tem grupos dessa turma bolsonarista, que para mim não passa num (exame)
psicotécnico do Detran.”
Segundo
o senador, o movimento apresenta comportamento “autofágico”, substituindo o
debate político por ataques pessoais.”Em vez de ser uma crítica a um
posicionamento, parte para a ofensa e imediatamente a pessoa é taxada de
traidora. O famoso assassinato de reputação.”
Na
avaliação de Mourão, os conflitos internos também prejudicam diretamente a
candidatura de Flávio. “Lógico. Toda e qualquer briga no atual momento dentro
do próprio entorno prejudica.”
Tarifaço
e relações com os Estados Unidos
Ao
comentar as críticas dirigidas a Flávio Bolsonaro por sua atuação nos Estados
Unidos durante a crise comercial envolvendo o tarifaço norte-americano, Mourão
afirmou que o senador buscou obter ganhos políticos com a iniciativa, mas
sustentou que caberia ao governo federal liderar as negociações diplomáticas.
Fonte:
Por Florestan Fernnades Jr, em Brasil 247

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