sábado, 18 de julho de 2026

Os vencedores (e os perdedores) econômicos da maior Copa do Mundo de todos os tempos

Esta Copa do Mundo foi maior do que qualquer torneio anterior.

Com mais países participantes e mais partidas, há mais espectadores acompanhando os jogos, além de mais oportunidades de ganhar dinheiro.

Enquanto as estrelas do futebol mundial criam momentos históricos em campo, bilhões de dólares são gerados fora dele. Mas nem todos saíram ganhando.

<><> Fifa: vencedora

A quantia de dinheiro que a Fifa, entidade máxima do futebol mundial, arrecada com a Copa do Mundo é astronômica. Ela gerou um valor recorde de US$ 7,6 bilhões (R$ 38 bilhões) com o Catar 2022 e espera-se que supere esse valor com a Copa de 2026, especialmente com o torneio expandido para 48 seleções.

Marion Laboure, estrategista do Deutsche Bank Research, afirma que a Fifa é "sem dúvida" a principal vencedora, com receitas próximas a US$ 13 bilhões (R$ 66 bilhões) ao longo do ciclo de quatro anos.

A receita da Fifa provém da venda de direitos de transmissão, licenciamento e de serviços de hospitalidade, contratos de patrocínio e venda de ingressos.

"A Fifa também entrou no mercado secundário com seu mercado oficial de revenda [de ingressos], cobrando uma taxa de 15% tanto do comprador quanto do vendedor", diz Laboure.

E podemos esperar mais disso em torneios futuros, com a Fifa considerando expandir a Copa mais uma vez para 64 equipes, o que poderia incluir países como China e Índia — e os bilhões de espectadores adicionais que isso acarretaria.

<><> Torcedores: perdedores

Embora os torcedores possam ter realizado sonhos de uma vida inteira ao ir para a Copa, financeiramente falando, este torneio foi um desafio para eles.

As enormes somas desembolsadas apenas para pagar os ingressos e as críticas à estratégia de preços dinâmicos da Fifa, que aumenta os preços quando a demanda é alta, já foram amplamente noticiadas.

Até mesmo o presidente dos EUA, Donald Trump, admitiu que "não pagaria" quando questionado sobre o possível preço de US$ 1 mil (R$ 5,1 mil) do ingresso para a estreia de seu país no torneio contra o Paraguai.

Ingressos para a final no MetLife Stadium, em Nova Jersey, foram oficialmente oferecidos por US$ 32.970 (R$ 168 mil), enquanto alguns ingressos de revenda foram anunciados por mais de US$ 2 milhões (R$ 10,2 milhões).

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, defendeu os preços, argumentando que estavam em linha com os de outros eventos esportivos nos EUA.

Além dos ingressos, os fãs também enfrentaram dificuldades com voos, alimentação e hospedagem.

Um exemplo que ganhou as manchetes foi o aumento nos preços das passagens de trem da New Jersey Transit. Uma viagem de trem de 30 minutos até o MetLife Stadium subiu para US$ 150 (R$ 765) durante o torneio, em comparação com os habituais US$ 12,90 (R$ 65) para uma passagem de ida e volta.

A reação negativa levou à redução dos preços, mas eles ainda permaneceram altos.

<><> Emissoras e patrocinadores: vencedores

Embora as emissoras tenham tido que desembolsar grandes quantias para transmitir o torneio, os índices de audiência — e o desejo dos patrocinadores de exibir suas marcas — significam que elas também provavelmente lucrarão muito com a venda de espaços publicitários.

A Fifa introduziu pausas para hidratação nesta Copa do Mundo — uma medida que Infantino afirmou ser "puramente uma questão esportiva", sem gerar receita adicional para a entidade.

No entanto, os 90 segundos que os jogadores têm para se hidratar abriram uma nova oportunidade comercial para emissoras e patrocinadores que desejam exibir suas marcas, especialmente nos EUA, onde os torcedores de esportes americanos já estão acostumados com uma ideia invertida: lá os jogos praticamente acontecem entre os intervalos comerciais.

A Fox Sports, que teria pago US$ 485 milhões (R$ 2,4 bilhões) pelos direitos de transmissão nos EUA, apresentou os intervalos de hidratação como "patrocinados por" uma marca.

Segundo especialistas, um espaço publicitário de 30 segundos na Fox durante a Copa do Mundo custa em média entre US$ 200 mil e US$ 300 mil (R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão). Durante as partidas dos EUA nas fases finais, o valor chegou a US$ 750 mil (R$ 3,8 milhões).

Isso significa que os anúncios de pausas para hidratação podem render US$ 250 milhões (R$ 1,2 milhão) somente nos EUA, o que leva à especulação de que eles vieram para ficar.

"As pausas para hidratação são puro espaço publicitário. Eu ficaria extremamente surpresa se elas desaparecessem. O formato expandido permanecerá porque a escala agora é o modelo de negócios da Fifa", diz Laboure, do Deutsche Bank Research.

Os patrocinadores oficiais da Copa do Mundo pagam somas exorbitantes para associar suas marcas à competição, mas sem dúvida acabam se beneficiando financeiramente, com marcas como Adidas e Coca-Cola estampadas por toda parte.

A marca alemã de artigos esportivos está travando uma batalha com sua principal rival, a Nike, tendo investido cerca de US$ 67 milhões (R$ 342 milhões) em seu anúncio estrelado por Lamine Yamal, Jude Bellingham e Lionel Messi.

<><> David Beckham: vencedor

O principal anúncio da Adidas apresenta uma versão de inteligência artificial de David Beckham — que talvez não tenha tido agenda de comparecer pessoalmente às filmagens.

O primeiro bilionário do esporte britânico já apareceu em tantos anúncios — da Home Depot ao Bank of America — que é fácil esquecer qual marca ele está representando.

Apesar de ter pendurado as chuteiras há mais de uma década, Beckham continua sendo o rosto do futebol nos EUA, com o clube do qual é coproprietário, o Inter Miami, estimado em US$ 1,45 bilhão (R$ 7,3 bilhões) como a franquia mais valiosa da Major League Soccer.

Ele pode não ter conseguido ganhar a Copa do Mundo em campo quando era jogador, mas sem dúvida venceu o jogo comercial fora dele.

<><> Cidades anfitriãs: perdedoras

As 16 cidades anfitriãs nos EUA, Canadá e México têm recebido um grande número de torcedores e turistas, impulsionando o setor de hotelaria, os negócios locais e o turismo em geral.

Mas, embora os escoceses tenham esgotado até a última gota de álcool de Boston e conquistado o coração da cidade e de seus habitantes, especialistas afirmam que os benefícios econômicos a longo prazo são mínimos.

A Fifa estimou que cerca de US$ 41 bilhões (R$ 209 bilhões) seriam adicionados à economia global, dos quais US$ 17 bilhões (R$ 86 bilhões) impulsionariam somente a economia dos EUA, com a criação de 185 mil empregos, principalmente nos setores de hotelaria.

Mas Alexander Budzier, pesquisador em gestão na Universidade de Oxford e diretor executivo da empresa de gerenciamento de projetos Oxford Global Projects, afirma que os benefícios econômicos a longo prazo de sediar um evento esportivo tão grande simplesmente não se materializam.

Segundo ele, as cidades-sede costumam registrar uma grande queda no número de visitantes, já que muitos procuram evitar o caos do torneio.

E embora possa haver um aumento nas contratações, ele argumenta que normalmente se trata apenas de empregos com salários mais baixos no setor de hotelaria. "Isso gera empregos, mas não gera riqueza", afirma.

Dados oficiais mostram que as contratações em pubs, bares e restaurantes dos EUA aumentaram consideravelmente antes do torneio em maio, mas o crescimento foi de curta duração.

O único benefício econômico "que vale a pena", argumenta Budzier, são os projetos de regeneração que podem ser realizados, como a revitalização e a construção de moradias na região de Stratford, em Londres, após os Jogos Olímpicos de 2012.

Mas, devido ao fato de grande parte desta Copa do Mundo utilizar estádios, hotéis, centros de treinamento e infraestrutura de transporte já existentes, "não haverá benefícios econômicos provenientes do desenvolvimento".

<><> Hotéis: perdedores

A procura esperada por quartos de hotel não se materializou, com as entidades do setor relatando um número de reservas inferior nas cidades anfitriãs este ano em comparação com o ano passado.

A Associação Hoteleira da British Columbia, no Canadá, afirma que, embora os números finais de reservas ainda não tenham sido confirmados, junho e julho estavam "bem abaixo do ritmo dos anos anteriores", apesar de Vancouver sediar sete dos jogos no Canadá.

O texto afirma que os torneios "não criam 40 dias consecutivos de hotéis lotados", mas sim levam a uma alta demanda em torno de datas específicas.

Para os hoteleiros americanos, a expectativa criada antes do torneio também não se concretizou.

A Associação Americana de Hotéis e Alojamentos (AHLA) acusou a Fifa de reservar um número excessivo de quartos para uso próprio, criando uma demanda artificial. A Fifa afirmou que não reconhece a acusação.

Laboure, do Deutsche Bank Research, afirma que o mesmo aconteceu na França em 1998, quando a demanda não atendeu às expectativas.

"Em abril, 80% dos operadores hoteleiros dos EUA disseram que as reservas estavam abaixo das previsões iniciais — dois terços dos hoteleiros de Nova York relataram reservas mais fracas do que o esperado, e em Seattle quase 80% fizeram o mesmo, com muitos chamando o torneio de 'não-evento'", disse ela.

<><> Empresas de apostas: vencedoras

A Copa do Mundo de 2026 está a caminho de se tornar o maior evento de apostas de todos os tempos, com uma estimativa de US$ 50 bilhões (R$ 254 bilhões) em apostas — cerca de US$ 500 milhões (R$ 2,5 bilhões) apostados por partida, de acordo com a empresa de serviços financeiros Macquarie, que possui interesses na indústria de jogos de azar.

O texto afirma que isso se deve principalmente à expansão do número de equipes, o que significa que foram disputadas mais de 100 partidas, em comparação com as 64 de 2022.

A Flutter Entertainment, proprietária das empresas de apostas Paddy Power, Betfair e Sky Bet, previu que o valor total das apostas seria o dobro do torneio anterior, devido ao crescimento do mercado nos EUA e também no Brasil.

Chad Beynon, analista da Macquarie, afirmou que as apostas ao vivo substituíram as apostas tradicionais antes da partida.

"Agora, tudo se resume a reagir ao que você vê em campo, ajustando sua perspectiva. Antes, era mais ou menos sentar, assistir e esperar — você tinha que fazer sua aposta antes da partida", diz ele.

As apostas esportivas nos EUA ainda são uma indústria relativamente nova. Até 2018, apostar em esportes era legal apenas em Nevada, Estado onde fica Las Vegas, mas uma decisão da Suprema Corte abriu caminho para que muitos outros Estados a legalizassem.

No entanto, ainda existem alguns Estados onde continua sendo ilegal, incluindo a Califórnia e o Texas.

Nessas regiões, houve grande crescimento dos mercados de previsão — uma indústria bilionária em rápida ascensão, popular entre os jovens — que não são classificados como jogos de azar, o que significa que podem ser usados para fazer apostas esportivas independentemente do Estado em que a pessoa esteja.

•        Entenda por que a Fifa avalia expandir ainda mais o torneio

Planos para uma Copa do Mundo masculina com 64 seleções deverão ser avaliados em detalhes após o torneio de 2026. O presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Gianni Infantino, diz que o evento precisa ser "para o mundo todo".

A proposta de um torneio expandido foi apresentada no ano passado, e Infantino afirma que o sucesso do torneio expandido com 48 equipes significa que a Fifa deve analisar como uma Copa do Mundo com 64 equipes poderia funcionar.

"Essa é definitivamente uma questão que será examinada e discutida nos comitês competentes após esta Copa do Mundo", disse Infantino à emissora suíça Blue Sport, quando questionado se o torneio poderia ser ampliado para 64 equipes.

"Ao organizar uma Copa do Mundo, é importante organizá-la para o mundo todo – não apenas para a Europa e a América do Sul, mas efetivamente para o mundo inteiro. Todas as nações deveriam ter a oportunidade de sonhar em participar da Copa do Mundo."

"É possível perceber que a qualidade das equipes é extremamente alta e está aumentando cada vez mais em todo o mundo. Se não dermos aos países menores a chance de participar da Copa do Mundo, eles não terão incentivo para continuar melhorando."

Infantino afirmou que a primeira Copa do Mundo com 48 equipes foi "um enorme sucesso", citando a classificação de nove das dez seleções africanas para as fases eliminatórias.

"Na última Copa do Mundo, havia apenas cinco seleções da África", disse ele. "Isso só demonstra a importância de incluir todas as equipes e dar a elas a oportunidade de participar."

Em 2017, o conselho da Fifa aprovou a expansão da Copa do Mundo de 32 para 48 seleções.

Em abril de 2025, uma proposta oficial para aumentar o número de equipes na Copa do Mundo de 2030 para 64 foi apresentada pela Conmebol, entidade que comanda o futebol sul-americano, mas nenhuma decisão foi tomada.

A edição de 2030 será sediada principalmente por Espanha, Portugal e Marrocos, com os três jogos de abertura a serem disputados na Argentina, Uruguai e Paraguai, para celebrar o centenário da competição. O Uruguai sediou a primeira Copa do Mundo, em 1930.

O presidente da União das Associações Europeias de Futebol (Uefa), Aleksander Ceferin, está entre os que rejeitaram a proposta de 64 equipes, afirmando que é uma "má ideia" tanto para o torneio em si, quanto para o processo de qualificação.

O presidente da Confederação Asiática de Futebol (AFC), Sheikh Salman bin Ibrahim Al Khalifa, concordou, afirmando que uma expansão adicional traria "caos".

Victor Montagliani, presidente da Concacaf, entidade que rege o futebol na América do Norte, Central e Caribe, afirmou que a sugestão "não parece correta" e acredita que a expansão prejudicaria "o ecossistema do futebol em geral".

No entanto, Andrew Giuliani, diretor executivo da força-tarefa da Casa Branca para a Copa do Mundo, disse que os Estados Unidos poderiam considerar candidatar-se para sediar a Copa do Mundo de 2038 e seriam capazes de "lidar com ela" se o número de participantes fosse expandido para 64 equipes.

A posição oficial da Fifa sempre foi a de que discutirá ideias de expansão com as partes interessadas e que tem a obrigação de considerar quaisquer propostas dos membros do conselho.

O conselho da Fifa tomará a decisão final, mas não há indícios de que isso deva acontecer em breve.

>>> Análise: Expansão representaria desafio para anfitriões. Por Dale Johnson, especialista em futebol da BBC Sport

Quando Infantino foi eleito pela primeira vez em 2016, parte de seu programa eleitoral era aumentar o número de equipes na Copa do Mundo de 32 para 40.

Em menos de um ano, esse número subiu para 48 e foi aprovado pelo conselho da Fifa, entrando em vigor a partir da edição de 2026.

Desde então, nunca cessaram as especulações de que a Fifa gostaria de ir mais longe e mais rápido.

A possibilidade de aumentar o número de equipes foi discutida em 2022, mas concluiu-se que o Catar não teria condições de sediar um torneio desse porte sozinho.

E esse é o problema: quanto maior a Copa do Mundo, mais desafiador se torna sediá-la.

Este ano, o torneio foi realizado em três países, abrangendo uma vasta área. Em 2030, as partidas serão disputadas em seis países: Marrocos, Portugal, Espanha, além da Argentina, Paraguai e Uruguai, que sediarão as comemorações do centenário.

Não se sabe ao certo como a Arábia Saudita conseguiria lidar com um torneio de 64 equipes, com 128 jogos, em 2034.

Apesar disso, a proposta é um grande trunfo eleitoral para Infantino por duas razões.

Em primeiro lugar, isso dá a mais países a oportunidade de jogar uma Copa do Mundo. De fato, um Mundial com 64 seleções faria com que quase um terço dos 211 países filiados à Fifa se classificassem.

Uma Copa do Mundo maior também significa mais receita para ser distribuída às associações membros.

 

Fonte: BBC Sport

 

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