A
testosterona não significa o que a maioria das pessoas pensa
“Ei,
doutor, pode pedir meus exames? Quero verificar meus níveis de testosterona.”
Como
urologista, tenho recebido mensagens desse tipo com mais frequência nos últimos
meses do que em todo o restante da minha carreira. O assunto “testosterona”
saiu dos vestiários para os podcasts e, agora, ganhou as manchetes. Na
quarta-feira (15), o Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, anunciou o
início de uma triagem para detectar níveis baixos de testosterona entre
militares com 30 anos ou mais.
Homens
que antes não se preocupavam com a saúde estão, de repente, fazendo perguntas
reais sobre seus hormônios — e aqueles que nem sabiam da existência do exame
podem logo passar a fazê-lo como procedimento de rotina.
Esse
interesse é algo positivo. A questão mais complexa é o que fazer com um número
isolado.
Se você
tem curiosidade sobre seus níveis de testosterona, procure um urologista para
avaliá-los. E, caso haja um padrão claro que sugira "testosterona
baixa" — meses de baixa libido, fadiga, alterações de humor, perda de
massa muscular e fraqueza —, não deixe de marcar uma consulta.
Você e
seu médico devem considerar dois aspectos antes de discutir a terapia de
reposição. Primeiro, descartem fatores importantes relacionados ao estilo de
vida: sono, consumo de álcool, peso, estresse, apneia do sono e medicamentos
que você já utiliza. Além disso, se você pretende ter filhos algum dia,
converse sobre isso antes de tomar a primeira dose.
Afinal,
o número apresentado no exame laboratorial é um ponto de partida, não a linha
de chegada. Os homens que realmente se beneficiam ao conhecer seus níveis de
testosterona não são aqueles obcecados por números mais altos. Estão no caminho
certo os pacientes dispostos a entender o que aquele número realmente
significa.
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O que é, de fato, a testosterona
Estimulados
por sinais do cérebro, os testículos produzem testosterona — o principal
hormônio responsável pelo crescimento e desenvolvimento masculino. Os níveis
desse hormônio oscilam constantemente, atingindo o pico pela manhã e diminuindo
ao longo da tarde. A quantidade de testosterona liberada pelo organismo varia
de acordo com o sono, o peso, a prática de exercícios e até mesmo o estresse.
Além disso, os níveis desse importante hormônio sexual caem naturalmente cerca
de 1% ao ano a partir dos 30 ou 40 anos.
A
maioria dos laboratórios considera normal uma faixa entre 300 e 1.000
nanogramas por decilitro. Trata-se de um intervalo amplo, e o limite para
considerar o nível "baixo" depende das diretrizes seguidas pelo
médico e do laboratório que realizou o exame.
Vale
ressaltar que o diagnóstico de testosterona baixa nunca é definido com base em
uma única coleta de sangue. O médico avaliará seus níveis de testosterona —
juntamente com outros exames, como os de estradiol e da globulina ligadora de
hormônios sexuais (SHBG) — pelo menos duas vezes. Esse procedimento ajuda a
descartar outros fatores que podem elevar ou reduzir os resultados.
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Uma conversa que quase ninguém está tendo
Quando
um homem apresenta níveis realmente baixos, o tratamento geralmente envolve a
administração de testosterona via gel, adesivo ou injeção. Às vezes, o médico
prescreve implantes subcutâneos (pellets). Se os níveis do paciente estiverem
excessivamente altos — geralmente devido ao uso de suplementos ou doses
exageradas —, a solução é reduzir a dosagem e permitir que o organismo se
reajuste.
Para o
homem que realmente apresenta níveis baixos e sintomas associados, os
benefícios são reais: mais energia, disposição, melhora no humor e ganhos de
massa muscular e densidade óssea. O objetivo é atingir níveis normais, e não
elevados.
Aumentar
esses níveis tem um preço. A terapia com testosterona interrompe a produção
natural do hormônio pelo organismo e, consequentemente, a produção de
espermatozoides. A fertilidade pode cair em questão de semanas e nem sempre é
recuperada. Além disso, a maioria dos homens que atendo é jovem o suficiente
para desejar ter filhos. Essa conversa precisa ocorrer antes da primeira dose,
e não depois.
Elevar
os níveis excessivamente traz riscos próprios: sangue mais espesso e maior
risco de coágulos, pressão arterial elevada, agravamento da apneia do sono e,
com o tempo, atrofia dos testículos, já que o corpo deixa de produzir o
hormônio por conta própria.
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Um nível baixo geralmente tem uma história por trás.
Os
bombeiros são um bom exemplo. Um estudo com 341 bombeiros profissionais na
Flórida mostrou que cerca de 11% apresentavam níveis baixos de testosterona e
outros 26% estavam em uma faixa limítrofe.
Essas
descobertas podem parecer uma prova de que a profissão prejudica os hormônios.
Mas, analisando mais de perto, vê-se que os homens com níveis baixos de
testosterona eram mais velhos, estavam acima do peso, apresentavam pior saúde
metabólica e pressão arterial mais elevada. O nível baixo de testosterona
acompanhava esses problemas, e não os causava.
Vejo a
mesma situação no meu consultório semanalmente. Homens chegam convencidos de
que seus hormônios estão desregulados, mas os exames de sangue mostram que está
tudo bem. O verdadeiro problema, na verdade, é um paciente que dorme apenas
cinco horas por noite e bebe diariamente para lidar com um trabalho de que não
gosta. No ano passado, escrevi sobre o que chamei de "armadilha da
testosterona": a maioria dos homens que acredita estar com níveis baixos,
na verdade, não está.
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As forças armadas estudaram a testosterona
Mesmo
quando você aumenta seus níveis de testosterona, pode não obter o resultado que
esperava. As forças armadas dos EUA passaram anos testando exatamente essa
ideia. O que os pesquisadores descobriram foi que aumentar esse número nem
sempre equivale a uma melhora no desempenho.
Em dois
estudos financiados pelo Exército dos EUA, intitulados "Otimização do
Desempenho para Soldados" (*Optimizing Performance for Soldiers*),
pesquisadores administraram testosterona a homens jovens e saudáveis durante um longo período
de exercícios e restrição calórica.
Todos esses homens apresentavam níveis normais de
testosterona.
Em um
estudo de 2019, os homens que receberam testosterona preservaram mais massa
muscular. No entanto, sua força e resistência diminuíram tanto quanto as dos
homens que não receberam nada. Um estudo de acompanhamento realizado em 2022
constatou o mesmo: a testosterona evitou a perda de massa magra, mas não
preservou o desempenho físico.
Isso
não significa que a testosterona nunca ajude. Em homens mais velhos que
apresentam níveis realmente baixos, pesquisas demonstraram que a terapia de
reposição de testosterona pode melhorar a força e a função física,
especialmente quando combinada com treinamento.
A mesma
lógica se aplicaria a um militar com deficiência hormonal real — a terapia de
reposição poderia ajudar. Mas não foi isso que os estudos militares avaliaram.
Nesses estudos, os soldados não apresentavam deficiência. Eles eram jovens e
estavam em boa forma física; elevar níveis que já eram normais resultou em
ganho de massa muscular, mas não em melhora do desempenho.
A
testosterona ajuda o homem que realmente apresenta níveis baixos. A terapia
hormonal não transforma um nível normal em um nível melhor.
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Seu nível de testosterona diz mais sobre você do que imagina
Há um
motivo real para se preocupar com os níveis de testosterona, além da libido e
dos ganhos de desempenho.
O Dr.
Mohit Khera — professor e titular da Cátedra F. Brantley Scott de Urologia no
Baylor College of Medicine, em Houston, e coautor do importante estudo TRAVERSE
sobre testosterona e segurança cardíaca — afirmou que a testosterona é um dos
melhores indicadores da saúde geral do homem, e não apenas de sua vida sexual.
Homens com níveis baixos de testosterona, observa ele, apresentam taxas mais
elevadas de doenças cardíacas e fraturas ósseas.
Portanto,
se sua testosterona estiver baixa, o aspecto mais útil desse resultado é o que
o número revela sobre seu coração, peso, sono e metabolismo. Às vezes, a
resposta clinicamente adequada é aumentar os níveis de testosterona. Com a
mesma frequência, porém, a resposta correta é investigar por que seus níveis de
testosterona caíram.
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Mas será que todo homem acima dos 30 anos deveria passar por essa triagem?
Para
muitos homens, uma simples coleta de sangue representa o primeiro contato real
com a própria saúde. A curiosidade em torno do exame pode ser uma forma de
deixar muitos pacientes mais à vontade com a ideia de investigar outros
problemas. Nenhum desses exames faz parte, atualmente, da prática clínica
padrão, mas o assunto merece ser discutido.
As
diretrizes da Associação Americana de Urologia recomendam examinar homens que
apresentam sintomas, em vez de realizar uma triagem geral em todos.
Pessoalmente, espero que as diretrizes acabem nos dando mais liberdade para
realizar esses exames — acredito que há valor em identificar a deficiência de
testosterona mais cedo em um número maior de homens. No entanto, a atualização
da prática padrão só deve ocorrer se houver evidências que a justifiquem;
estamos perto disso, mas ainda não chegamos lá. Enquanto os dados não mudam, a
diretriz é a que vale, e tento segui-la da melhor maneira possível.
De
qualquer forma, verificar o nível hormonal nunca foi a parte difícil. Nem todo
nível baixo requer tratamento, e nem todo homem que aumenta seus níveis de
testosterona obtém o resultado que esperava.
Há um
interesse crescente em verificar os níveis de testosterona de forma
generalizada assim que os homens atingem certa idade. À primeira vista, isso
parece uma atitude proativa: mais triagem, mais detecção precoce, mais homens
engajados com a própria saúde.
Mas
realizar uma triagem em toda a população não é o mesmo que examinar um homem
que apresenta sintomas. O critério é mais rigoroso, e por um bom motivo. Quando
se examina todo mundo, encontram-se muitos níveis limítrofes ou na faixa
inferior da normalidade em homens que se sentem perfeitamente bem; cada um
desses resultados gera uma conversa — e, às vezes, uma prescrição — que pode
não ser necessária.
Por
outro lado, considere outra perspectiva. Sabe-se que os homens têm dificuldade
em procurar o médico; se um exame de testosterona for o que finalmente leva um
homem de 35 anos ao consultório, não vou fingir que isso não tem valor. O
segredo é garantir que esse resultado abra caminho para uma avaliação de saúde
real, em vez de se tornar apenas um atalho para uma prescrição.
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Por que os médicos realizam exames de rastreamento para algumas condições e não
para outras
Os
médicos realizam exames de rastreamento para diversas condições antes mesmo do
surgimento de sintomas, levando em conta a idade e os fatores de risco. As
colonoscopias começam a ser feitas por volta dos 45 anos. Os níveis de
colesterol e glicose no sangue são monitorados periodicamente à medida que o
paciente envelhece — ou mais cedo, caso haja histórico familiar. A discussão
sobre exames para detecção de câncer de próstata ocorre por volta dos 50 anos.
O que
esses exames de rastreamento têm em comum é que atendem a critérios
específicos: a doença é comum e grave, e detectá-la precocemente altera o curso
da condição. Além disso, o exame consegue distinguir com confiabilidade quem
tem o problema de quem não tem.
O
rastreamento da testosterona ainda não preenche esses requisitos. Não foi
comprovado que um nível baixo em um homem que se sente perfeitamente bem
indique uma condição cuja detecção precoce traga benefícios — e é essa a
distinção entre rastreamento e diagnóstico, e não a importância da saúde
masculina em si.
Fonte:
CNN Brasil

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