sexta-feira, 17 de julho de 2026

Fim do nacionalismo? Direitas latino-americanas doam bases militares, recursos naturais e segurança aos EUA

Depois dos resultados eleitorais no Peru, Colômbia, Chile, Costa Rica, Equador, Honduras e Bolívia, podemos afirmar que as burguesias nacionais são uma quimera. Se acrescentarmos Argentina, Paraguai, El Salvador e Panamá, o panorama é desolador. Os países citados têm em comum governos reacionários, fruto da união das direitas mundiais sob o guarda-chuva da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), onde destaca-se a Rede Atlas, think tank que unifica a produção ideológica em sua guerra cultural contra a democracia e as alternativas populares.

Entre elefantes, leões e tigres anda o jogo. Os burros parecem seguir a estrela. Os novos governos articulam os diferentes setores das classes dominantes com um só objetivo, recuperar o poder formal e tornarem-se neocolônias dos Estados Unidos. Seus triunfos não seriam possíveis sem seu intervencionismo explícito, além de contar com a administração Trump.

Lá pelos anos 60, as ciências sociais do continente costumavam diferenciar entre as plutocracias ligadas ao imperialismo e uma burguesia nacional partícipe do desenvolvimento interno, promotora da industrialização e, como se fosse pouco, com laivos anti-imperialistas. Economias de enclave ou com controle nacional da produção.

Assim classificaram Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, em Dependência e desenvolvimento na América Latina, a distância que separava as oligarquias das burguesias nacionalistas. Hoje, sem distinção, todos juntos, pedem a intervenção estrangeira para manter seus privilégios de classe.

Depois da Segunda Guerra Mundial, junto aos projetos modernizadores das burguesias urbanas latino-americanas, começou uma nova etapa de nacionalizações. Financiar a industrialização requeria recursos.

Juan Domingo Perón na Argentina, Víctor Paz Estenssoro na Bolívia, José María Velazco Ibarra no Equador, Carlos Ándres Pérez na Venezuela e Eduardo Frei no Chile, com sua “chilenização do cobre”, encontraram na renegociação da dependência os dólares para seus projetos. Seu ideário incluía uma proposta de integração regional. O Mercado Comum Centro-americano, assinado em 1960, foi uma primeira tentativa; seguiu-se em 1969, o Pacto Andino. Colômbia, Peru, Equador, Chile e Bolívia foram seus promotores.

O ideário das burguesias nacionalistas se resume a integração, democracia representativa e desenvolvimento. Para mostrar seu compromisso, ainda na oposição, em 1971, a direita chilena votou favoravelmente à proposta de nacionalização da grande mineração do cobre, defendida por Salvador Allende. Foi aprovada por unanimidade. Um caso extraordinário e uma arma de dois gumes.

As burguesias desenvolvimentistas, assim definidas, buscaram o apoio dos setores médios urbanos. Melhorar suas condições de vida e garantir o ascenso social pela via da educação e da meritocracia. Promover a moradia social, aumentar a cobertura de saúde e um aumento salarial para as classes trabalhadoras, figuravam entre suas ofertas eleitorais. Pensavam em um Estado interventor, keynesiano, que pactuasse uma aliança com as classes populares.

Em resumo, anticomunistas, mas modernizadores. Anti-imperialistas, mas aliados dos Estados Unidos. Democratas, mas nem tanto. Em alguns casos incorporaram uma tímida reforma agrária em seus discursos. Buscavam enfrentar a influência da revolução cubana e liderar o processo de mudança sociopolítica.

Os Estados Unidos não discutiram a veemência anti-imperialista de seus sócios. Estavam conscientes das reformas e apoiaram seus dirigentes, na maioria democrata-cristãos. A Aliança para o Progresso e uma “revolução em liberdade” marcaram a conjuntura. John Kennedy lançou uma frase que sintetizou o período: “Aqueles que tornam impossível a revolução pacífica, tornarão inevitável a revolução violenta”.

Hoje, nada sobreviveu. Os partidos da direita latino-americana, em suas versões extrema, neoconservadora, democrata-cristã, liberal, renunciaram a qualquer proposta nacional. Transformaram o território, sua população e suas riquezas em mercadorias baratas para as transnacionais.

Seus dirigentes abraçam o trumpismo. Saúdam a invasão da Venezuela, o sequestro de seu presidente e companheira, solicitam o intervencionismo no México e se congratulam pelo bloqueio a Cuba. Oferecem seu território para o estabelecimento de bases militares. Subordinam as políticas de luta contra os cartéis da droga à DEA.

Também facilitam a entrada dos serviços de espionagem, contrainteligência e informação dos Estados Unidos com o pretexto de apoiar a luta contra o tráfico ilegal de pessoas e a produção de fentanil. Vendem o país às transnacionais. Renunciam a cobrar impostos das grandes fortunas. Facilitam uma superexploração de suas classes populares promovendo a dispensa livre, e garantindo salários de miséria para tornar rentáveis as empresas que produzem sem pagar taxas ou as filiais de transnacionais estadunidenses.

Mostram-se condescendentes com o sionismo, permitindo que seus capitais se apoderem, como sucede na Argentina e no Chile, de vastos territórios na Patagônia. Agora podemos perguntar-nos: Onde estão as burguesias nacionalistas? Não procure, desapareceram há décadas, se é que alguma vez existiram.

¨      ‘Modelo Bukele’ deve ganhar espaço na América do Sul com avanço da extrema direita, dizem especialistas

A extrema direita avança sobre a América Latina com sete dos 20 países da região governados por membros desse espectro político. Essa vertente defende abertamente o discurso da “mano dura” (“mão pesada”) contra a criminalidade tem seu principal expoente o presidente de El Salvador, Nayib Bukele e sua política de segurança pública.

Sociólogos e cientistas políticos vislumbram a possibilidade desse flerte dar frutos e o pacote de medidas baseado na militarização, encarceramento em massa e redução de direitos civis virar artigo de exportação.

Professora do Insper e pesquisadora associada ao Núcleo de estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), Mariana Chies Santos considera que um dos países que importou essa fórmula foi a Argentina, a partir do governo de Javier Milei, que lançou no país o chamado Plano Bandeira de enfrentamento à criminalidade, experimentado na cidade de Rosário, a cerca de 300 quilômetros de Buenos Aires.

Segundo Chies Santos, a Argentina “adotou o encarceramento em massa e reforçou o patrulhamento ostensivo, mas manteve garantias constitucionais”. O recrudescimento na segurança contou com uma aliança entre os entes federativos e autoridades municipais, que é problemático pelo fato de que muitas instituições que fazem parte desse sistema estão infiltradas pelo narcotráfico.

Segundo matéria do jornal Versión, entre os anos de 2023 e 2026, Rosário teve uma queda de 70% no total de homicídios, saindo de 150 para 70 mortes, respectivamente.

Na Colômbia, que passará a ser governada pelo extremista de direita Abelardo de la Espriella a partir de agosto, Chies Santos considera que “ainda não é possível avaliar porque as eleições acabaram de acontecer, mas se adotar a medida, será o maior país da região a adotar esse modelo”, observa.

Já no Brasil, a socióloga pontua que muitos dos presidenciáveis já declararam publicamente entusiasmo ao modelo de Bukele. Em entrevista à Folha de São Paulo, Romeu Zema (Novo) declarou que essa política é “plenamente viável” no Brasil.

No âmbito estadual, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), defendeu a “prisão perpétua” e propôs “olhar para o modelo Bukele”, conforme declaração publicada em matéria do Poder 360.

Contudo, “é o Equador o maior exemplo até o momento”, frisa a pesquisadora. Ela explica que o país governado por Daniel Noboa importou o pacote completo, “envolvendo as mega prisões, a militarização, a concessão de imunização a civis e agentes do Estado”.

Há dois anos, o Equador militarizou o país. Enquanto o governo de Daniel Noboa projeta uma imagem de controle e ordem no sistema prisional, a investigação “Encerrados para Morir” (“Presos para Morrer”) produzida pela Unidade de Investigação Tierra de Nadie (“Terra de Ninguém”), em aliança com a plataforma CONNECTAS, revela que a sua intervenção foi acompanhada por um aumento drástico de mortes por fome e doenças de presos sob a custódia estatal.

Sob o pretexto de combater um “conflito armado interno” declarado em janeiro de 2024, a militarização das prisões resultou em um recorde de letalidade: 1.220 mortes em 2025, uma média de uma vida perdida a cada sete horas. A apuração, liderada pela jornalista investigativa Karol Noroña, evidencia que “a violência direta das facções foi substituída por uma política deliberada de fome e negligência médica”.

<><> ‘Bota nos pulmões’

Diferente das grandes chacinas com armas de guerra de anos anteriores, a nova face da morte no sistema carcerário é biológica, infere o levantamento. Os casos de tuberculose quadruplicaram em apenas dois anos, e em unidades como a prisão de Machala, o risco de contrair a doença chegou a ser 370 vezes superior à média nacional, diz o estudo.

A médica Clara Freile analisou uma base de dados forense de 394 internos mortos na Penitenciária do Litoral para o estudo. A análise identificou que, embora apenas 21% tivessem diagnóstico confirmado de tuberculose, a vasta maioria dos outros 79% apresentava quadros de pneumonia, insuficiência respiratória e desnutrição aguda, sintomas idênticos aos da doença.

No entanto, essa propagação não é apenas fruto da precariedade, mas de uma gestão cruel da dor. Noroña relata audiências judiciais onde detentos denunciaram que soldados, além de bloquearem sistematicamente a entrada de medicamentos, utilizavam a debilidade física dos doentes como alvo. “Se você tem tuberculose e te torturam colocando uma bota nos seus pulmões, obviamente haverá efeitos”, afirma a jornalista.

A letalidade é tamanha que, de uma amostra de quinze presos acompanhados pela investigação, dois morreram de tuberculose antes mesmo da conclusão do relatório. Atualmente, a estimativa indica que três pessoas morrem diariamente no sistema prisional equatoriano, uma das taxas mais altas da região.

O grande argumento da política de Bukele, que inspirou o Equador e outros países, é a redução na taxa de homicídios e sua utilização na retórica de que o encarceramento em massa seria o responsável por essa mudança. Segundo Mariana Chies Santos, no entanto, essa política “não está seguindo os protocolos básicos assinados pelos países, como o Protocolo de Bogotá”.

O Protocolo de Bogotá tem como objetivo garantir a confiabilidade e transparência nos dados sobre homicídio em toda a América Latina e Caribe. “Há muitas mortes de supostos criminosos em ações policiais. É preciso pensar nessa redução de homicídios com base nestes outros dados”, complementa.

Chies Santos pondera que essas iniciativas simplistas e de resultado imediato “dão votos ao contrário de soluções de longo prazo, a exemplo da educação”.

<><> ‘Encontrei meu filho no necrotério’

Griselda (nome fictício) perdeu um filho de 36 anos, abatido pela tuberculose enquanto cumpria pena em um presídio na província de Guayas – um dos chamados, Centro Regional de Privação de Liberdade, ou CPL, segundo a sigla usada no país. Ela conta que ele foi condenado a dois anos de prisão, mas morreu após cumprir nove meses de pena.

Diferente do Brasil, que permite visitas aos domingos, no Equador Griselda era obrigada a pagar entre dez e quinze pesos por uma cabine telefônica para falar com o filho, ou contava com a ajuda de outros presos. A cada contato, ela viu a saúde do filho se deteriorar “por causa da comida”.

“Não há comida suficiente, eles dão apenas um pouco. Além disso, os maus-tratos que ele recebia da polícia, dos militares, dos guardas… não há tratamento bom lá”, comenta.

Segundo Griselda, no auge da angústia, ela mobilizou advogados públicos e conseguiu um habeas corpus que garantiu que o caso do filho fosse avaliado em uma audiência do Departamento de Saúde, vinculado ao Serviço Nacional de Atendimento Integral a Adultos Privados de Liberdade e Adolescentes Infratores (SNAI).

O filho não compareceu à audiência. “Eu procurei meu filho sozinha. O encontrei no necrotério. Meu filho estava lá, identificado como indigente. Quantos dias meu filho estava morto?”, questiona a mãe ainda em tom de desespero. Os demais prisioneiros que conheciam o filho de Griselda não sabiam onde encontrá-lo.

O luto da mãe se mistura à preocupação com outro filho de 39 anos, que também está encarcerado. “Ele está magro, também está desnutrido. Eu tenho que mandar remédios uma vez por mês, comida, tenho que mandar visitas, mas para que servem as visitas?”, questiona em tom de resignação.

Mãe de uma filha de 11 anos, Griselda conta que precisa se virar em muitas para dar conta da luta pela vida do filho. “Ele recebeu uma pena de 19 anos, mas estou trabalhando com o meu advogado em um recurso para reduzir a pena, porque meu filho é inocente”, assegura.

O Estado reconheceu a negligência cometida no caso do filho de Griselda. Ela conta que ganhou na Justiça uma indenização pela morte do filho. “Eu sei que esse dinheiro não vai trazer meu filho de volta, mas como o advogado me disse, é uma ajuda”, explica.

A investigação teve acesso a uma amostra de 400 fotografias que documentam o abandono estatal, retratando corpos em condições de extrema degradação física. Noroña detalha que as imagens são “basicamente de cadáveres de pessoas presas morrendo sob o sol, sobre papelões, e vídeos delas pedindo auxílio”. Os registros transformam as denúncias de negligência em provas gráficas do sistema defendido pelo governo como exemplar.

O Pavilhão 7 da Penitenciária do Litoral, rebatizado pelos detentos como “Camposanto”, ilustra bem essa degradação. Felipe, um ex-custodiado que atuava como “contador” da unidade, descreveu para o estudo um cenário onde a morte biológica se tornou parte da rotina: em apenas quinze dias, a população de sua ala caiu de 210 para 150 pessoas devido à letalidade das doenças.

Sem o recolhimento imediato dos corpos, os sobreviventes eram forçados a conviver e realizar suas refeições ao lado de cadáveres que permaneciam por horas nos corredores. “Tínhamos que tomar café, almoçar e jantar com os mortos”, consta no relato.

<><> O modelo Bukele e o Caso de La Bonita

O símbolo máximo dessa política é a Prisão El Encuentro, inaugurada em novembro de 2025 com assessoramento direto do governo de Nayib Bukele e arquitetura inspirada nas mega prisões salvadorenhas. Vendida como um padrão de “dignidade” e controle estatal, a unidade já registra pelo menos três mortes sob suspeita de ocultação, segundo a jornalista Karol Noroña.

Em meio a esse debate surgiu o Caso de “La Bonita”: uma mulher trans de 23 anos detida por tráfico de drogas, que ilustra a falência do modelo. Enviada para uma prisão de segurança máxima destinada a chefes perigosos, mesmo sendo detida por um delito menor, ela morreu sem assistência adequada ou protocolos de gênero. O Estado registrou a causa como “pancreatite” para, segundo a investigação, ocultar a presença de tuberculose na unidade modelo.

A socióloga Mariana Chies Santos chama atenção para uma contradição no Equador. Mesmo adotando o modelo Bukele, o Equador encerrou 2025 com 9.216 homicídios, um incremento de 30,5% se comparado a 2024, diz o Observatório Equatoriano do Crime Organizado.

A razão, observa a pesquisadora, é a diferença entre as dinâmicas dos crimes. “Ele [Bukele] diz estar enfrentando gangues de rua, só que o Equador precisa enfrentar a economia transnacional do crime”, explica. Segundo a acadêmica, para combater o crime transnacional não basta presídios, “é preciso parcerias institucionais com os demais países”.

 

Fonte: La Jornada/Opera Mundi

 

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