Fim
do nacionalismo? Direitas latino-americanas doam bases militares, recursos
naturais e segurança aos EUA
Depois
dos resultados
eleitorais no
Peru, Colômbia, Chile, Costa Rica, Equador, Honduras e Bolívia, podemos afirmar
que as burguesias nacionais são uma quimera. Se acrescentarmos Argentina,
Paraguai, El Salvador e Panamá, o panorama é desolador. Os países citados têm
em comum governos reacionários, fruto da união das direitas mundiais sob o
guarda-chuva da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), onde
destaca-se a Rede Atlas, think tank que unifica a produção
ideológica em sua guerra cultural contra a democracia e as alternativas
populares.
Entre
elefantes, leões e tigres anda o jogo. Os burros parecem seguir a estrela. Os
novos governos articulam os diferentes setores das classes dominantes com um só
objetivo, recuperar o poder formal e tornarem-se neocolônias dos Estados
Unidos. Seus triunfos não seriam possíveis sem seu intervencionismo explícito,
além de contar com a administração Trump.
Lá
pelos anos 60, as ciências sociais do continente costumavam diferenciar entre
as plutocracias ligadas ao imperialismo e uma burguesia nacional partícipe do
desenvolvimento interno, promotora da industrialização e, como se fosse pouco,
com laivos anti-imperialistas. Economias de enclave ou com controle nacional da
produção.
Assim
classificaram Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, em Dependência
e desenvolvimento na América Latina, a distância que separava as
oligarquias das burguesias nacionalistas. Hoje, sem distinção, todos juntos,
pedem a intervenção estrangeira para manter seus privilégios de classe.
Depois
da Segunda Guerra Mundial, junto aos projetos modernizadores das burguesias
urbanas latino-americanas, começou uma nova etapa de nacionalizações. Financiar
a industrialização requeria recursos.
Juan
Domingo Perón na Argentina, Víctor Paz Estenssoro na Bolívia, José María
Velazco Ibarra no Equador, Carlos Ándres Pérez na Venezuela e Eduardo Frei no
Chile, com sua “chilenização do cobre”, encontraram na renegociação da
dependência os dólares para seus projetos. Seu ideário incluía uma proposta de
integração regional. O Mercado Comum Centro-americano, assinado em 1960, foi
uma primeira tentativa; seguiu-se em 1969, o Pacto Andino. Colômbia, Peru,
Equador, Chile e Bolívia foram seus promotores.
O
ideário das burguesias nacionalistas se resume a integração, democracia
representativa e desenvolvimento. Para mostrar seu compromisso, ainda na
oposição, em 1971, a direita chilena votou favoravelmente à proposta de
nacionalização da grande mineração do cobre, defendida por Salvador Allende.
Foi aprovada por unanimidade. Um caso extraordinário e uma arma de dois gumes.
As
burguesias desenvolvimentistas, assim definidas, buscaram o apoio dos setores
médios urbanos. Melhorar suas condições de vida e garantir o ascenso social
pela via da educação e da meritocracia. Promover a moradia social, aumentar a
cobertura de saúde e um aumento salarial para as classes trabalhadoras,
figuravam entre suas ofertas eleitorais. Pensavam em um Estado interventor,
keynesiano, que pactuasse uma aliança com as classes populares.
Em
resumo, anticomunistas, mas modernizadores. Anti-imperialistas, mas aliados dos
Estados Unidos. Democratas, mas nem tanto. Em alguns casos incorporaram uma
tímida reforma agrária em seus discursos. Buscavam enfrentar a influência da
revolução cubana e liderar o processo de mudança sociopolítica.
Os
Estados Unidos não discutiram a veemência anti-imperialista de seus sócios.
Estavam conscientes das reformas e apoiaram seus dirigentes, na maioria
democrata-cristãos. A Aliança para o Progresso e uma “revolução em liberdade”
marcaram a conjuntura. John Kennedy lançou uma
frase que sintetizou o período: “Aqueles que tornam impossível a revolução
pacífica, tornarão inevitável a revolução violenta”.
Hoje,
nada sobreviveu. Os partidos da direita latino-americana, em suas versões
extrema, neoconservadora, democrata-cristã, liberal, renunciaram a qualquer
proposta nacional. Transformaram o território, sua população e suas riquezas em
mercadorias baratas para as transnacionais.
Seus
dirigentes abraçam o trumpismo. Saúdam a invasão da Venezuela, o sequestro de
seu presidente e companheira, solicitam o intervencionismo no México e se
congratulam pelo bloqueio a Cuba. Oferecem seu território para o
estabelecimento de bases militares. Subordinam as políticas de luta contra os
cartéis da droga à DEA.
Também
facilitam a entrada dos serviços de espionagem, contrainteligência e informação
dos Estados Unidos com o pretexto de apoiar a luta contra o tráfico ilegal de
pessoas e a produção de fentanil. Vendem o país às transnacionais. Renunciam a
cobrar impostos das grandes fortunas. Facilitam uma superexploração de suas
classes populares promovendo a dispensa livre, e garantindo salários de miséria
para tornar rentáveis as empresas que produzem sem pagar taxas ou as filiais de
transnacionais estadunidenses.
Mostram-se
condescendentes com o sionismo, permitindo que seus capitais se apoderem, como
sucede na Argentina e no Chile, de vastos territórios na Patagônia. Agora
podemos perguntar-nos: Onde estão as burguesias nacionalistas? Não procure,
desapareceram há décadas, se é que alguma vez existiram.
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‘Modelo Bukele’ deve ganhar espaço na América do Sul com
avanço da extrema direita, dizem especialistas
A
extrema direita avança sobre a América Latina com sete dos 20 países da região
governados por membros desse espectro político. Essa vertente defende
abertamente o discurso da “mano dura” (“mão pesada”) contra a criminalidade tem
seu principal expoente o presidente de El Salvador, Nayib Bukele e sua política
de segurança pública.
Sociólogos
e cientistas políticos vislumbram a possibilidade desse flerte dar frutos e o
pacote de medidas baseado na militarização, encarceramento em massa e redução
de direitos civis virar artigo de exportação.
Professora
do Insper e pesquisadora associada ao Núcleo de estudos da Violência da
Universidade de São Paulo (USP), Mariana Chies Santos considera que um dos
países que importou essa fórmula foi a Argentina, a partir do governo de Javier
Milei, que lançou no país o chamado Plano Bandeira de enfrentamento à
criminalidade, experimentado na cidade de Rosário, a cerca de 300 quilômetros
de Buenos Aires.
Segundo
Chies Santos, a Argentina “adotou o encarceramento em massa e reforçou o
patrulhamento ostensivo, mas manteve garantias constitucionais”. O
recrudescimento na segurança contou com uma aliança entre os entes federativos
e autoridades municipais, que é problemático pelo fato de que muitas
instituições que fazem parte desse sistema estão infiltradas pelo narcotráfico.
Segundo
matéria do jornal Versión, entre os anos de 2023 e 2026, Rosário
teve uma queda de 70% no total de homicídios, saindo de 150 para 70 mortes,
respectivamente.
Na
Colômbia, que passará a ser governada pelo extremista de direita Abelardo de la
Espriella a partir de agosto, Chies Santos considera que “ainda não é possível
avaliar porque as eleições acabaram de acontecer, mas se adotar a medida, será
o maior país da região a adotar esse modelo”, observa.
Já no
Brasil, a socióloga pontua que muitos dos presidenciáveis já declararam
publicamente entusiasmo ao modelo de Bukele. Em entrevista à Folha de
São Paulo, Romeu Zema (Novo) declarou que essa política é “plenamente
viável” no Brasil.
No
âmbito estadual, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos),
defendeu a “prisão perpétua” e propôs “olhar para o modelo Bukele”, conforme
declaração publicada em matéria do Poder 360.
Contudo,
“é o Equador o maior exemplo até o momento”, frisa a pesquisadora. Ela explica
que o país governado por Daniel Noboa importou o pacote completo, “envolvendo
as mega prisões, a militarização, a concessão de imunização a civis e agentes
do Estado”.
Há dois
anos, o Equador militarizou o país. Enquanto o governo de Daniel Noboa projeta
uma imagem de controle e ordem no sistema prisional, a investigação “Encerrados
para Morir” (“Presos para Morrer”) produzida pela Unidade de Investigação
Tierra de Nadie (“Terra de Ninguém”), em aliança com a plataforma CONNECTAS,
revela que a sua intervenção foi acompanhada por um aumento drástico de mortes
por fome e doenças de presos sob a custódia estatal.
Sob o
pretexto de combater um “conflito armado interno” declarado em janeiro de 2024,
a militarização das prisões resultou em um recorde de letalidade: 1.220 mortes
em 2025, uma média de uma vida perdida a cada sete horas. A apuração, liderada
pela jornalista investigativa Karol Noroña, evidencia que “a violência direta
das facções foi substituída por uma política deliberada de fome e negligência
médica”.
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‘Bota nos pulmões’
Diferente
das grandes chacinas com armas de guerra de anos anteriores, a nova face da
morte no sistema carcerário é biológica, infere o levantamento. Os casos de
tuberculose quadruplicaram em apenas dois anos, e em unidades como a prisão de
Machala, o risco de contrair a doença chegou a ser 370 vezes superior à média
nacional, diz o estudo.
A
médica Clara Freile analisou uma base de dados forense de 394 internos mortos
na Penitenciária do Litoral para o estudo. A análise identificou que, embora
apenas 21% tivessem diagnóstico confirmado de tuberculose, a vasta maioria dos
outros 79% apresentava quadros de pneumonia, insuficiência respiratória e
desnutrição aguda, sintomas idênticos aos da doença.
No
entanto, essa propagação não é apenas fruto da precariedade, mas de uma gestão
cruel da dor. Noroña relata audiências judiciais onde detentos denunciaram que
soldados, além de bloquearem sistematicamente a entrada de medicamentos,
utilizavam a debilidade física dos doentes como alvo. “Se você tem tuberculose
e te torturam colocando uma bota nos seus pulmões, obviamente haverá efeitos”,
afirma a jornalista.
A
letalidade é tamanha que, de uma amostra de quinze presos acompanhados pela
investigação, dois morreram de tuberculose antes mesmo da conclusão do
relatório. Atualmente, a estimativa indica que três pessoas morrem diariamente
no sistema prisional equatoriano, uma das taxas mais altas da região.
O
grande argumento da política de Bukele, que inspirou o Equador e outros países,
é a redução na taxa de homicídios e sua utilização na retórica de que o
encarceramento em massa seria o responsável por essa mudança. Segundo Mariana
Chies Santos, no entanto, essa política “não está seguindo os protocolos
básicos assinados pelos países, como o Protocolo de Bogotá”.
O
Protocolo de Bogotá tem como objetivo garantir a confiabilidade e transparência
nos dados sobre homicídio em toda a América Latina e Caribe. “Há muitas mortes
de supostos criminosos em ações policiais. É preciso pensar nessa redução de
homicídios com base nestes outros dados”, complementa.
Chies
Santos pondera que essas iniciativas simplistas e de resultado imediato “dão
votos ao contrário de soluções de longo prazo, a exemplo da educação”.
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‘Encontrei meu filho no necrotério’
Griselda
(nome fictício) perdeu um filho de 36 anos, abatido pela tuberculose enquanto
cumpria pena em um presídio na província de Guayas – um dos chamados, Centro
Regional de Privação de Liberdade, ou CPL, segundo a sigla usada no país. Ela
conta que ele foi condenado a dois anos de prisão, mas morreu após cumprir nove
meses de pena.
Diferente
do Brasil, que permite visitas aos domingos, no Equador Griselda era obrigada a
pagar entre dez e quinze pesos por uma cabine telefônica para falar com o
filho, ou contava com a ajuda de outros presos. A cada contato, ela viu a saúde
do filho se deteriorar “por causa da comida”.
“Não há
comida suficiente, eles dão apenas um pouco. Além disso, os maus-tratos que ele
recebia da polícia, dos militares, dos guardas… não há tratamento bom lá”,
comenta.
Segundo
Griselda, no auge da angústia, ela mobilizou advogados públicos e conseguiu um
habeas corpus que garantiu que o caso do filho fosse avaliado em uma audiência
do Departamento de Saúde, vinculado ao Serviço Nacional de Atendimento Integral
a Adultos Privados de Liberdade e Adolescentes Infratores (SNAI).
O filho
não compareceu à audiência. “Eu procurei meu filho sozinha. O encontrei no
necrotério. Meu filho estava lá, identificado como indigente. Quantos dias meu
filho estava morto?”, questiona a mãe ainda em tom de desespero. Os demais
prisioneiros que conheciam o filho de Griselda não sabiam onde encontrá-lo.
O luto
da mãe se mistura à preocupação com outro filho de 39 anos, que também está
encarcerado. “Ele está magro, também está desnutrido. Eu tenho que mandar
remédios uma vez por mês, comida, tenho que mandar visitas, mas para que servem
as visitas?”, questiona em tom de resignação.
Mãe de
uma filha de 11 anos, Griselda conta que precisa se virar em muitas para dar
conta da luta pela vida do filho. “Ele recebeu uma pena de 19 anos, mas estou
trabalhando com o meu advogado em um recurso para reduzir a pena, porque meu
filho é inocente”, assegura.
O
Estado reconheceu a negligência cometida no caso do filho de Griselda. Ela
conta que ganhou na Justiça uma indenização pela morte do filho. “Eu sei que
esse dinheiro não vai trazer meu filho de volta, mas como o advogado me disse,
é uma ajuda”, explica.
A
investigação teve acesso a uma amostra de 400 fotografias que documentam o
abandono estatal, retratando corpos em condições de extrema degradação física.
Noroña detalha que as imagens são “basicamente de cadáveres de pessoas presas
morrendo sob o sol, sobre papelões, e vídeos delas pedindo auxílio”. Os
registros transformam as denúncias de negligência em provas gráficas do sistema
defendido pelo governo como exemplar.
O
Pavilhão 7 da Penitenciária do Litoral, rebatizado pelos detentos como
“Camposanto”, ilustra bem essa degradação. Felipe, um ex-custodiado que atuava
como “contador” da unidade, descreveu para o estudo um cenário onde a morte
biológica se tornou parte da rotina: em apenas quinze dias, a população de sua
ala caiu de 210 para 150 pessoas devido à letalidade das doenças.
Sem o
recolhimento imediato dos corpos, os sobreviventes eram forçados a conviver e
realizar suas refeições ao lado de cadáveres que permaneciam por horas nos
corredores. “Tínhamos que tomar café, almoçar e jantar com os mortos”, consta
no relato.
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O modelo Bukele e o Caso de La Bonita
O
símbolo máximo dessa política é a Prisão El Encuentro, inaugurada em novembro
de 2025 com assessoramento direto do governo de Nayib Bukele e arquitetura
inspirada nas mega prisões salvadorenhas. Vendida como um padrão de “dignidade”
e controle estatal, a unidade já registra pelo menos três mortes sob suspeita
de ocultação, segundo a jornalista Karol Noroña.
Em meio
a esse debate surgiu o Caso de “La Bonita”: uma mulher trans de 23 anos detida
por tráfico de drogas, que ilustra a falência do modelo. Enviada para uma
prisão de segurança máxima destinada a chefes perigosos, mesmo sendo detida por
um delito menor, ela morreu sem assistência adequada ou protocolos de gênero. O
Estado registrou a causa como “pancreatite” para, segundo a investigação,
ocultar a presença de tuberculose na unidade modelo.
A
socióloga Mariana Chies Santos chama atenção para uma contradição no Equador.
Mesmo adotando o modelo Bukele, o Equador encerrou 2025 com 9.216 homicídios,
um incremento de 30,5% se comparado a 2024, diz o Observatório Equatoriano do
Crime Organizado.
A
razão, observa a pesquisadora, é a diferença entre as dinâmicas dos crimes.
“Ele [Bukele] diz estar enfrentando gangues de rua, só que o Equador precisa
enfrentar a economia transnacional do crime”, explica. Segundo a acadêmica,
para combater o crime transnacional não basta presídios, “é preciso parcerias
institucionais com os demais países”.
Fonte:
La Jornada/Opera Mundi

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