Da
corrupção ao tráfico: Alerj tem oito deputados atingidos por escândalos em 10
meses
Marcada
nas últimas décadas por escândalos de corrupção e presença de nomes ligados ao
crime organizado, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) conseguiu
o que parecia impossível. Uma sequência inédita de escândalos deixou a já
combalida imagem no Legislativo fluminense ainda mais presente nas páginas
policiais.
Em um
intervalo de apenas dez meses, oito políticos eleitos para a Alerj em 2022
foram atingidos por operações — seja diretamente ou por meio de parentes.
As
acusações, feitas em sua maioria pela Polícia Federal (PF), vão de casos mais
tradicionais de desvio de recursos públicos à lavagem de dinheiro de máfias e
atuação em prol dos interesses de facções.
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Caixa de Pandora
A caixa
de Pandora envolvendo a Alerj começou a ser aberta pela PF há 10 meses, em
setembro de 2025. A Operação Zargun mirou o então deputado estadual TH Joias
(MDB-RJ), apontado como principal braço político do Comando Vermelho, maior
facção de trafico do estado.
Durante
as buscas, os agentes constataram fortes indícios de que a operação havia sido
vazada para TH Joias, que chegou a mobilizar um caminhão de mudança para
remover pertences de endereços que receberam visitas de policiais.
O
vazamento foi investigado e chegou ao impensável: a ação policial foi vazada
por ninguém menos que o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União
Brasil-RJ).
Conversas
obtidas pela PF revelaram que Bacellar chegou a orientar TH Joias sobre o plano
de obstrução na véspera da Zargun.
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Unha e Carne
O
envolvimento fez com que a PF deflagrasse em dezembro de 2025 a primeira fase
da Operação Unha e Carne. Bacellar foi preso pela obstrução da ação contra TH
Joias e teve dispositivos eletrônicos, com celulares, apreendidos.
A
prisão de Bacellar teve impacto imediato na política do Rio. Ele era
pré-candidato ao governo do Rio e peça central da articulação do grupo político
do então governador Cláudio Castro (PL-RJ) para 2026.
Com
Bacellar foi apreendido até mesmo um esboço de secretariado, que seria nomeado
quando ele assumisse o governo por meio da renúncia de Castro, no início de
2026.
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Operações em sequência
Mesmo
com Bacellar fora do jogo eleitoral, Castro teve que deixar o cargo em março de
2026. Renunciou 24 horas antes de ser condenado pelo Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) por comandar o esquema dos cargos secretos na Fundação Ceperj e
na Uerj.
Atordoado,
o bolsonarismo adotou como plano B o deputado estadual Douglas Ruas (PL-RJ). Os
planos para que Ruas assumisse o Palácio Guanabara foram frustrados pelo
Supremo Tribunal Federal (STF).
Desconhecido
do eleitorado fluminense, Ruas foi eleito presidente da Alerj em abril. Novo
nome de Flávio Bolsonaro para a disputa do governo do Rio, Ruas se viu em meio
a constantes ações policiais contra colegas.
Em
maio, o deputado Thiago Rangel (Avante-RJ) foi preso pela PF na 4ª fase da
Operação Unha e Carne. Ele é apontado como o líder de um esquema de desvios de
recursos públicos da Secretaria Estadual de Educação no Noroeste Fluminense,
seu reduto político.
Em
áudios e mensagens obtidos pela PF, Rangel mostra seu comando do esquema
criminoso e é flagrado até mesmo negociando nomeações com o traficante Junior
do Beco, apontado pelas forças de segurança como chefe do Terceiro Comando Puro
(TCP) em Campos dos Goytacazes, um dos principais redutos de Rangel.
A
investigação apontou ainda o papel de Rangel em um esquema de lavagem de
dinheiro que utilizava uma rede de postos de combustíveis de sua propriedade.
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Ligações com tráfico e jogo do bicho
Em
junho, mais um integrante da Alerj foi ligado ao TCP. Dessa vez foi o deputado
Val Ceasa (PRD-RJ) foi alvo de uma operação do Ministério Público do Rio de
Janeiro (MP-RJ).
Val
Ceasa foi acusado de atuar em prol dos interesses do traficante Peixão,
principal líder do TCP. Ceasa e seus aliados, entre eles um ex-vereador do Rio
de Janeiro, teriam tentado evitar a demolição de um “resort do crime”
construído por Peixão dentro do Complexo de Israel, principal bunker do TCP, na
Zona Norte da capital.
O
Complexo de Israel fica na região em que Val Ceasa concentra grande parte de
sua votação. Durante as buscas, o MP encontrou R$ 166 mil em dinheiro vivo na
casa do deputado, além de outros R$ 150 mil em outros endereços ligados a ele.
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Cerco em julho
Quatro
outros parlamentares foram atingidos por escândalos somente neste mês de julho.
No dia
2 de julho, a PF deflagrou a 5ª fase da Operação Unha e Carne, que investiga a
ligação de políticos e autoridades com o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho
Filho, o Adilsinho, um dos principais integrantes da nova cúpula do jogo do
bicho no Rio.
Entre
os presos está o pastor evangélico e empresário do ramo dos cigarros Márcio
Poncio, pai da deputada estadual Sarah Poncio (Solidariedade-RJ). A PF
investiga a ligação de Márcio Poncio com a máfia dos cigarros comandada por
Adilsinho, esquema que resultou em ao menos 27 assassinatos e tentativas de
assassinatos nos últimos anos, segundo investigadores.
Poncio
conseguiu uma decisão favorável na Justiça e hoje está em prisão domiciliar.
Deputado
estadual mais votado do Rio de Janeiro em 2022, Márcio Canella (União
Brasil-RJ) foi preso pela PF na 6ª fase da Operação Unha e Carne, em 7 de
julho.
Canella
não exercia mais o mandato de deputado. Ele renunciou ao cargo em 2025, após
ser eleito prefeito de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Ele também já havia
abandonado a prefeitura para disputar uma cadeira ao Senado nas eleições desse
ano, na chapa articulada por Flávio Bolsonaro.
Márcio
Canella era apenas alvo de buscas da PF, em uma investigação que apura a
participação dele em um esquema de lavagem de dinheiro por meio de postos de
combustíveis, que teria movimentado R$ 7,6 bilhões. Contudo, durante as buscas
os policias encontraram um fuzil no carro do político, fato que fez com que ele
fosse preso em flagrante por porte ilegal de armas de uso restrito. Ele foi
solto três dias depois.
A ação
também mirou outros alvos importantes, como Marcus Amim, ex-secretário de
Polícia Civil do Rio durante o governo Castro.
Dois
dias depois, em 9 de julho, o MP-RJ deflagrou uma operação contra um esquema de
corrupção que teria desviado mais de R$ 80 milhões do Instituto Rio Metrópoles,
autarquia do governo do Rio. Entre os presos está Mauricio Silva Knoploch dos
Santos, pai do deputado estadual Alexandre Knoploch (PL-RJ).
Maurício
Knoploch era diretor de Planejamento e Projetos do órgão. Ele foi apontado
pelos promotores como um dos principais articuladores do esquema de corrupção.
Também foi presa na ação Amanda Íthala Santos da Paschoa, cunhada do deputado
Alexandre Knoploch e gestora de contratos do Instituto Rio Metrópole.
O
último deputado atingido por denúncias foi Rafael Nobre (União Brasil-RJ). Ele
foi denunciado pelo MP-RJ nesta quinta-feira (16) por participar de um esquema
de fraudes em licitações de prefeituras da Baixada Fluminense. O parlamentar
também é alvo de uma operação deflagrada nesta manhã.
Fonte:
ICL Notícias

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